Reencontro



Acho que finalmente estou amadurecendo. Ultimamente tenho pensado assim. Será que não me assustar com um sujeito estranho surgindo no sofá da minha sala, em plena madrugada, é um sintoma desse amadurecimento? É meio esquisito, mas eu acho que sim.

_______Uma pessoa madura vê a vida e as coisas da vida simplesmente como elas são, e não por trás de lentes coloridas escolhidas que mascaram a realidade. Ser maduro é isso, ver a Verdade com um pouco mais de clareza.

_______E aquela noite foi uma dessas noites de sono irrequieto, em que não se sabe se o sono foge a todo instante, se esse acordar constante é real ou dentro do sonho... Sei bem é que num dado momento, depois de um copo d'água iluminado pela luz da geladeira, chegando à sala, no meu canto favorito do sofá, em meio à penumbra, encontrei um velho conhecido. Bem, não tão velho, mas importa é que eu sabia que ele não poderia estar ali de verdade. Afinal era princípio de madrugada, e não haveria como aquele homem de camisa branca estar ali, sentado no sofá.

_______Mas o que realmente me fez ter certeza, e não demorou, de que eu não estava vivendo aquela situação toda no mundo ordinário, mas em algum outro "espaço", foi reconhecer o homem diante de mim. Nós já havíamos nos encontrado antes, embora ele estivesse um pouco diferente agora. Achei-o um pouco mais magro, e com certeza mais jovem. Fixei o olhar: aparência robusta, sentado com as costas bem eretas, pernas cruzadas e um jeito calmo. Usava uma camisa branquíssima, desta vez de mangas longas, que lhe caía bem. Cabelos negros muito lisos, fios semi longos cuidadosamente penteados para trás emoldurando uma face de contornos bem marcados, porém sóbrios, sobre um pescoço sólido. Algo de ameríndio em suas feições, com vestígios caucasianos e talvez um quê de asiático. A fronte larga conferia um ar de sabedoria, traços sólidos desenhando um sorriso sereno que transmitia confiança. – Um homem grande com uma atitude amiga.

_______Sim, era o ancião do parque. Eu tive certeza que era ele mesmo logo de cara, embora agora não fosse mais um ancião, e sim um homem que aparentava idade em torno de 30 anos... E o que ele teria para me dizer agora?


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Livro Pessoal da Sabedoria - Diálogo 1

Nunca desfrutei a benção do sono pesado. Dormir pesadamente, largado, despreocupada e descaradamente, o sono dos justos, é uma benção. Minha última noite de completo descolamento do mundo dos acordados deve ter sido lá no tempo dos meus 10 anos de idade. Ou não. Sei lá, às vezes tenho a sensação de que acordo a todo instante, a noite inteira, e às vezes acho que penso que acordo, mas estou como que em sonho. Alerta ao leitor: não sou um cara lá muito normal, mas gosto de mim mesmo nos meus melhores dias.

_______Mas então aquele dia foi... Ou melhor, aquela noite foi uma dessas noites em que eu não sabia se estava acordando a toda hora, se dormia, se acordava mas era dentro do sonho. Sei bem é que, cansado de rolar na cama, resolvi levantar para um copo de água e um pouco de TV na sala. É o melhor a fazer quando se está desperto em plena madrugada. Isso ou um bom livro, que assim o sono volta. Passei pela sala escura, meio zonzo e com muita sede. Abri a geladeira, enchi aquele copázio de mega-sede até a boca e mandei para dentro, de um gole só.

_______O líquido gelado aguçou a minha sensação de despertamento. Achei que agora o sono demoraria a voltar, má notícia, amanhã a dificuldade para sair da cama seria redobrada. Mas ao retornar à sala, voltei a me questionar: estava mesmo desperto ou sonhava? Lá estava, no meu canto favorito do sofá, em meio à penumbra, um velho conhecido. Que não poderia estar ali de verdade. E lá vamos nós de novo, para mais uma louca jornada alma adentro...


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