Pecados da Igreja Católica - conclusão

"Com o desaparecimento do mundo antigo, que se assentava sobre a instituição da escravidão, nasceu uma nova sociedade, cujos traços essenciais se delinearam desde os séculos V e VI de nossa era, e cuja existência se prolongará durante uns dez séculos. Trata-se da sociedade feudal medieval, cujo regime econômico-social se caracterizou pela divisão em duas classes sociais fundamentais: a dos senhores feudais e a dos camponeses servos; os primeiros eram donos absolutos da terra e detinham uma propriedade relativa sobre os servos, presos a terra durante a vida inteira.

Os servos da gleba eram vendidos e comprados juntamente com as terras às quais pertenciam, e que não podiam abandonar. Eram obrigados a trabalhar para o seu senhor e, em troca, podiam dispor de uma parte dos frutos do seu trabalho. Embora a sua situação continuasse sendo muito dura, (...) eles tinham direito à sua própria vida, e formalmente reconhecia-se que não eram coisas, mas sim seres humanos. É perceptível o progresso moral desta fase em relação à civilização anterior, que admitia a escravidão e o comércio de vidas humanas, quando o proprietário podia dispor à vontade da vida e da morte de seus escravos sem ter que prestar contas por isso.

A moral da sociedade medieval correspondia às suas características econômico-sociais e espirituais. De acordo com o papel preponderante da Igreja na vida espiritual da sociedade, a moral estava impregnada de conteúdo religioso e como o poder espiritual eclesiástico era aceito por todos os membros da comunidade — senhores feudais, artesãos e servos da gleba — tal conteúdo garantia uma certa unidade moral da sociedade."
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_______...E por incrível que possa parecer a ouvidos desavisados e mentes confortavelmente assentadas sobre uma montanha de preconceitos reafirmados muitas e muitas vezes, foi exatamente a Igreja Católica que, majoritariamente, contribuiu para essa evolução consciencial da civilização ocidental. Por que sim, por que não? Vejamos...


Alguns fatos históricos sobre a Inquisição e a Idade Média:

Sobre a tortura, que era imposta pelo Estado, e não pela Igreja: a inquisição foi a primeira instituição jurídica no mundo a declarar que as confissões sob tortura não seriam válidas para a condenação de alguém. Também foi a Inquisição que exigiu que a tortura fosse limitada, e que deveria ser usada apenas para a obtenção de informações (e não como instrumento de punição, conforme praticado pelos nobres)4. Que não poderia violar a integridade física da pessoa, que deveria ser limitada a no máximo meia hora, que deveria ser assistida por um médico, e que jamais poderia ser repetida. Dado oficial: De 1309 a 1323, em 636 processos inquisitoriais realizados em Toulose - principal centro herético medieval – só num deles se aplicou a tortura5. O que já é uma monstruosidade para o nosso padrão moral de hoje, mas notemos como a verdade histórica é bastante diferente daquela que vemos nos filmes hollywoodianos (Hollywood às vezes tenta limpar sua barra, com filmes como 'Joana Darc', de Luc Besson, e 'O Mercador de Veneza', com Al Pacino e Jeremy Irons, que trazem reconstituições de época bem mais próximas da realidade histórica, e retratam com fidelidade a mentalidade naquele período: matar alguém que tivesse ofendido um cidadão honrado era considerado um direito, nada mais que um ato de justiça).

_______Insisto que a verdade dos fatos é sempre surpreendente para um leigo no assunto, acostumado a ouvir grandes e absurdos exageros a respeito desta matéria: a verdade é que a Inquisição tinha como principal finalidade controlar os excessos de violência cometidos pelo Estado, na figura dos governantes extremamente truculentos da época. Sobre a Inquisição espanhola, possivelmente a face mais temível da Igreja em todos os tempos, é preciso saber que ela foi principalmente uma instituição do Estado, não controlada pela Igreja, e que a própria Igreja teve que censurar e tomar medidas contra ela. Isso é fato, assim como é fundamental saber que quase tudo que se divulgou a respeito da inquisição espanhola no correr da história moderna é fruto de calúnias difundidas pelo ex-padre Juan Antonio Llorente, um apóstata que produziu documentos sobre a inquisição na Espanha com o interesse de ajudar a França de Napoleão a dominar aquele país. Llorente, terminada sua obra, queimou todos os documentos que usou, para que não se descobrissem falsificações. Você, que lê este texto agora, sabia disso? Não? Mas eu seria capaz de apostar que você achava que já sabia tudo que é preciso saber sobre este assunto, ou pelo menos o suficiente para expressar suas opiniões, e formar seu (pré)conceito a respeito, mesmo sem conhecer nada das fontes de que dispomos e dos fatos realmente históricos, ha?..

_______Tentemos imaginar uma sociedade em que qualquer figurão, apenas por se sentir ofendido por qualquer pessoa, e comprovasse a ofensa perante um tribunal comum (o que não era difícil), tinha pleno direito legal de assassinar o ofensor, em praça pública, o que era festa para o povo nas ruas. Era esse o padrão mental nesse controvertido período histórico. É por isso que se trata de um erro tremendo tentar classificar atos cometidos numa época como essas usando-se os padrões de hoje. Assassinato hoje é um completo absurdo. Na época, era um modo legítimo de se fazer justiça.

_______Com toda a certeza emitir opinião é muito mais fácil do que buscar a verdade a respeito de qualquer assunto. Analisar a história de qualquer grande religião antiga é perceber que todas elas viveram períodos de violência. Vejamos.


Inquisição ou inquisições?

Responda rápido: que instituição religiosa condenou mais de 300 pessoas pela prática de bruxaria, decretando tortura e pena de morte na forca, às célebres "bruxas de Salem"? Que instituição religiosa levou à morte pelo menos 30.000 camponeses abatistas na Alemanha? Sob ordens de quem o médico espanhol Miguel Servet Grizar, o descobridor da circulação sanguínea, foi condenado a morrer na fogueira? Quem mandou executar na fogueira mais de mil mulheres escocesas, num período de seis anos (1555 - 1561)? Sem dúvida muita gente responderia, sem medo de errar, que a resposta para todas essas questões é a mesma: a Igreja Católica!

_______Resposta errada. Todos estes atos foram cometidos pela Inquisição Protestante. É curioso que ela quase nunca seja mencionada. E, abro parênteses para dizer, é algo bastante revoltante para qualquer católico que conhece a história. Então vou parar por aqui e não vou mencionar os monges da Abadia de São Bernardo, Bremen, que foram esfolados vivos por grupos protestantes, que depois passaram sal em suas carnes vivas antes de pendurá-los no campanário do mosteiro. Nem vou dizer que em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder público protestante, sendo que muitos deles foram queimados vivos e outros marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada. Também vou resistir e não vou citar o teólogo protestante Meyfart, que descreveu uma tortura pela inquisição protestante, por ele presenciada, nos seguintes termos: “Um espanhol e um italiano sofreram esta bestialidade e brutalidade. Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura. Porém, na Alemanha protestante, a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias; outras vezes, até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada. Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer".

_______Então o problema deve ter a ver com o cristianismo, não somente o católico, certo? Errado. Erradíssimo! O judaísmo, origem de praticamente todas as religiões ocidentais, em sua origem foi uma religião de práticas que hoje seriam consideradas hediondas! Prescrevia a matança de qualquer filho que envergonhasse seus pais e o apedrejamento dos blasfemos. O povo hebreu era exclusivista e truculento: consideravam imundas as mulheres no período menstrual (ninguém podia sequer tocá-las sem se tornar também impuro); incitava o ódio a todos os povos estrangeiros, chamados "gentios"...

_______O hinduísmo, de tantos mestres pacifistas, legou à Índia um sistema que perpetua a crença na superioridade racial de determinadas classes de seres humanos sobre outras, e a opressão desumana das castas nobres sobre a maioria sofredora, que é aceita tanto pela população quanto pelos religiosos de lá como uma atitude religiosa e espiritualizada. - Este é o código sócio-religioso fundamental do hinduísmo, que influencia toda a estrutura da sociedade na Índia até os dias de hoje! Os dalits (sem casta), são completamente excluídos da sociedade, denominados cruelmente "intocáveis”, porque não devem jamais ser tocados pelos membros da sociedade (isso os contaminaria). Recebem apenas os serviços considerados imundos, geralmente associados com cadáveres (e restos humanos ou animais) ou com excrementos. Só lhes é permitido lidar com lixo, esgoto, cadáveres e outras funções que lhes mantém em contato constante com aquilo que o resto da sociedade indiana considera nojento e repugnante. Não apenas as suas ocupações são consideradas indignas: os próprios dalits são considerados imundos e indignos, e assim não podem manter nenhum contato com os "limpos" e nem com as partes “puras” da sociedade. Vivem isolados e ninguém pode interferir na sua vida social. Se alguém, por descuido, tocar algum deles, deve se submeter a longos rituais de purificação, e até a sombra de um deles deve ser evitada...

_______Para se ter uma idéia da gravidade da situação, quando os tsunamis de 2004 tragaram a costa do Estado indiano de Tamil Nadu, imaginava-se que a tragédia e a morte agiriam como niveladoras sociais. Mas os esforços de reabilitação e o envio de ajuda econômica por parte de órgãos humanitários internacionais não conseguiram superar a discriminação que impera na Índia. As vítimas de Tamil Nadu, o Estado indiano mais devastado pelos tsunamis, esperavam ansiosas a ajuda para poderem reconstruir suas vidas, mas os "intocáveis" não receberam nada por parte das autoridades locais! Oficialmente, dez mil pessoas morreram, por absoluta falta de cuidados! E nessa ocasião ninguém na Índia considerou isso chocante. Tudo justificado pela crença na reencarnação. Saiba mais aqui. Mas não é só. O hinduísmo, ao longo de toda a sua história, perseguiu praticantes de outras religiões, em especial budistas. Atualmente, cristãos são perseguidos e mortos na Índia por motivos religiosos.

_______E quanto ao taoísmo? Até mesmo essa filosofia espiritualista de origem chinesa, com sua doutrina introspectiva e pacífica, já causou destruição e mortes na história. Na China, no fim da dinastia Tang (1845), o imperador taoísta Wu Zong proibiu todas as influências religiosas estrangeiras (zoroastrismo e cristianismo, entre outras), com o objetivo de apoiar o taoísmo. Sim, e ao longo de todo o território chinês o imperador mandou confiscar os bens de sacerdotes e fiéis cristãos, bem como de outros religiosos, além de destruir templos, capelas, mosteiros e casas de oração, causando derramamento de sangue de gente inocente, apenas por não compactuar com a religião estabelecida. - Assim como houve na Idade Média, em pleno século XIX!

_______Mais um bom exemplo: Pushyamitra Sunga (séc. II aC) foi um monarca brâmane ortodoxo que perseguiu os budistas durante todo o seu reinado, destruindo mosteiros e matando monges. Nas cidades de Bodhgaya, Nalanda, Sarnath e Mathura, grande parte dos mosteiros budistas foram convertidos à força em templos hindus. Esculturas, escritos antigos e obras de arte seculares de valor inestimável foram impiedosamente destruídos...

_______O que é preciso dizer do islamismo? Esta é provavelmente a religião em nome da qual mais se oprimiu as mulheres em toda a história da humanidade. - Outras religiões também o fizeram, mas o islamismo é sem dúvida o campeão absoluto nesse quesito, e o pior é que, em muitos países, isso continua acontecendo ainda hoje: valores medievais impostos à sociedade atual! Mas isso não é nada comparado ao estrago causado por grupos terroristas como o Taliban e a Al Qaeda, entre outros. O islamismo também é o maior entrave à democracia nos países árabes, em nome de uma religião que prega a paz. Estes são fatos palpáveis e objetivos, e contra fatos não podem existir argumentos.

_______Acrescentei todas estas questões porque muitos comentários que vemos e ouvimos nos dão a impressão de que muita gente realmente imagina que cometer erros em nome da religião seja exclusividade da Igreja Católica... Isso demonstra uma mentalidade muito rasa, um modo de pensar no mínimo infantil. A Igreja falhou, sim. Gravemente. Assumiu o erro e se desculpou por isso. o Papa João Paulo II pediu perdão por esses erros. Alguém já ouviu, alguma vez, um grande líder mundial pedir perdão por erros cometidos por seus antecessores, há séculos passados?

_______Mesmo assim, às vezes ouço o seguinte argumento: “Fez e agora vem pedir desculpas?” – Isso me espanta! Ora, depois de algo feito, algo que nos envergonha, o que mais é possível fazer, a não ser pedir desculpas? Simplesmente não temos o poder de fazer voltar o tempo! Então, se você cometeu um erro e agora se arrepende, o que mais? Pedir desculpas, é claro. Essa é uma atitude cristã. Por isso rezamos sempre: “Somos Igreja Santa e Pecadora...”

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Encerro este longo post à moda socrática, procurando o caminho do bom senso, em perguntas: podemos julgar toda a religião catolicismo, e mais ainda, a verdadeira doutrina cristã católica, baseados apenas nos erros humanos? Precisamos amadurecer a nossa espiritualidade, buscar a compreensão dos fatos concretos, da História, da realidade das coisas... A Igreja Católica nos deu santos, nos deu as artes, criou a universidade, grandes filósofos e pensadores, deu origem à ciência, e gerou homens de ciência. É a geradora de tantas e tantas imensas e importantíssimas obras assistenciais. No caso do Brasil, assim como em muitos outros países, há também toda uma bela e heróica história de resistência e luta contra a opressão e as ditaduras militares. Que Igreja vemos? A qual Igreja nos referimos, em nossas críticas? Que Igreja acolhemos ou rejeitamos?


Para aprofundar seus conhecimentos:

# Revista História Viva - especial Grandes Temas nº 32 / A Redescoberta da Idade Média (ler online);

# Livro A Inquisição em seu Mundo, de João Bernardino G. Gonzaga (download gratuito aqui ou aqui)


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3. VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética, 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 45;
4. CAMMILIERI, Rino. La Vera Storia dell´Inquisizione, Piemme: Casale Monferrato, 2001, p. 48;
5. GONZAGA, João Bernardino G. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 49.

Fontes e bibliografia:
AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997;
WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963;
FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977;
MAISONNEUVE, Henri. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989.



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Pecados da Igreja Católica Apostólica Romana: Inquisição, Cruzadas...

dois dias apareceu entre os comentários deste blog uma pergunta de ouro que representa mais uma oportunidade de ouro para um post de ouro. Estou pensando em aproveitar o agravamento da escassez de tempo livre na minha vida, ultimamente, para começar uma nova etapa deste blog, na qual eu apareço para responder às perguntas que me fizerem (antes que alguém pergunte, o animal mais rápido da Terra é o guepardo, aquele felino charmoso, e a capital da Eslováquia é Bratislava. Hoshhohshhosh... Claro que as perguntas tem que se situar nos campos em que eu auto: Teologia, Ciência da Religião, Filosofia... talvez um pouco de História Antiga). Falando sério, a pergunta do meu leitor e amigo LEON é bem oportuna e me deu muito prazer em responder. O tema é complexo e gerou um texto longo, que pretendo publicar em duas partes (se tudo der certo e se este conteúdo realmente couber em duas partes, assim será, sendo que a segunda parte virá, no máximo, até o final da próxima semana). Enjoy...

Leon pergunta: "...aproveitando o Domingo de folga pra voltar de cabeça aos estudos, voltados atualmente pro cristianismo, me deparei com algo que me afastou da Igreja Católica lá no começo da minha Busca pela Grande Obra: Cruzadas e, principalmente, as várias "Inquisições". (...) Eu pude refletir e, apesar de eu ter uma afeição mto grande pelos preceitos da vida monástica católica e uma grande admiração pelos grandes fundadores das ordens, desde o comecinho informal do monasticismo, esses dois pontos ainda me constituem um Grande Obstáculo a minha aceitação do catolicismo."

"Por isso, gostaria de pedir a vc Merton (se puder, claro) como uma pessoa que conseguiu aceitar de volta a raiz cristã de sua vida, escrever algo sobre as Cruzadas e a Inquisição."


Antes
de qualquer coisa faço questão de deixar bem claro que não, eu não vou tentar defender a Igreja, só porque sou católico. Não é possível defender o indefensável. E.. Wow! "Grande Obstáculo" com iniciais maiúsculas!? Isso deve ser algo realmente grande aí na sua psique! Por isso mesmo, em respeito à sua inteligência e em nome da Verdade, vou apenas apresentar fatos, nus e crus, porque os conheço bem, já que são parte da ciência a qual estudo há anos (lá se vão mais de duas décadas), e que há pouco retomei "academicamente", com o intuito de me tornar mestre e doutor. - Mestre e doutor de homens, porque os maiores mestres que já conheci não tinham diploma algum a não ser o amor incondicional impresso em seus corações, a marca divina gravada e selada em suas almas. Os conhecimentos que todas as universidades do mundo seriam capazes de transmitir não me graduariam para tocar os pés de um Francisco de Assis, um João da Cruz... Mas isso é outro assunto. Retomemos a pergunta.

_______Como eu disse na resposta ao seu comentário (no espaço para comentários), responder à pergunta quanto à Inquisição não é difícil como possa parecer. Nem um pouco difícil, na verdade. A explicação da resposta, esta sim é complexa, por envolver termos e conceitos que podem não ser do conhecimento público. Afinal, como é que um cara de boa consciência, como supostamente eu sou, pode ser católico, sabendo que a Igreja, em eras passadas, cometeu atrocidades? Inquisição?? Cruzadas??? Ooohhhh!..

_______Gostaria de fazer um drama e criar um clima de suspense, deixando a grande revelação para o final, mas vou é desembaralhar a aparente grande dificuldade logo de cara. A resposta é tão simples que chega a parecer mágica, quando a conhecemos. Se resume a algumas palavrinhas mágicas. Aí vão elas: História das Mentalidades, isto é, História das Representações Sociais, isto é, Imaginário Coletivo.

_______Pronto. É basicamente isso. Aí está a sua resposta, perfeita, completa e acabada. Obrigado pela participação e até a próxima oportunidade.

























_______Viu o que eu disse? A resposta é muito, muito simples. Ela já foi dada, e é mais do que suficiente para justificar todos os seus questionamentos, LEON, tanto os expostos quanto os que não foram expostos e estáo aí dentro, tumultuando seus pensamentos. Como disse, a explicação da resposta é que talvez não seja tão simples. - Mas também não é assim tão difícil. Então vamos a ela, já que você me deu um tema para um post relativamente fácil...

_______Você já parou para pensar no que significa o termo evolução? E evolução da mente? Se somos espiritualistas, podemos falar sem melindres em evolução do espírito. Tá, o famigerado do Kardec se apropriou indevidamente do termo, e aqui no Brasil compraram a ideia de uma tal maneira que não tem como usar essa expressão sem lembrar de doutrina espírita. Mas, acredite, essa expressão nada tem a ver com espiritismo. Estou falando do modo como os seres humanos evoluíram moralmente na História, desde a época das cavernas até os dias de hoje.


O problema fundamental

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Para que a resposta fique realmente muito clara, se faz necessário analisar o significado de moral, antes de qualquer coisa. Por quê? Porque a questão toda se resume a um dilema moral, e nada além disso. A reflexão automática e instantânea que se faz é: como pode uma instituição que milhões de pessoas consideram, em última análise, santa e divinamente instituída, que deveria ser a guardiã da moral no mundo (ainda mais sendo a sublime moral baseada no Amor, trazida por Cristo), se comportar de maneira tão absurdamente imoral? É este, e somente este, o problema.

_______Inquisição, simonia, indulgências, cruzadas... Por que essas coisas são chocantes, revoltantes e/ou desanimadoras para nós? A resposta é uma só, e é bem simples: porque são imorais. Se todas essas coisas fossem moralmente corretas, se fossem pelo menos moralmente aceitáveis, não haveria henhuma polêmica, nem dificuldade para entender, aceitar, e nós não estaríamos tendo esta conversa, agora. Tudo se resume a uma questão moral.

_______Se chegamos a um termo a respeito do que torna essas questões inaceitáveis, - a nossa noção de moral, - o próximo e óbvio passo é compreender o que significa moral. E para entender o que significa qualquer coisa, a melhor maneira é sempre a maneira mais simples. Ok, lá vamos nós: o que qualquer aluno do primeiro ano de qualquer ciência da área de humanidades precisa saber sobre moral é que ela é, basicamente:

"...um conjunto de normas e regras destinadas a regular as relações dos indivíduos numa comunidade social dada. O seu significado, função e validade não podem deixar de variar historicamente nas diferentes sociedades. Assim como umas sociedades sucedem a outras, também as morais concretas, efetivas, se sucedem e substituem umas às outras." 1

_______Compreendida esta noção fundamental, retomemos as nossas palavrinhas mágicas: História das Mentalidades. E o que vem a ser isto? História das Mentalidades é um disciplina da Historiografia cujos estudos enfatizam a maneira de pensar, interagir e sentir dos indivíduos que viveram num mesmo período histórico, fundamentados na dialética, na sociologia, filologia, arqueologia e, principalmente, na antropologia. É uma matéria fascinante. Mais do que fascinante, porém, trata-se de um estudo essencial e necessário. Se não fosse por essa consciência básica, elementar, de que a moral humana evolui com o passar dos tempos, seria completamente inviável analisar acontecimentos históricos ocorridos há tempos. O autor que eu citei acima, o espanhol Adolfo Sánchez Vázquez, é uma sumidade no assunto, referência absoluta para ética e moral (por isso comecei o post citando um cara que conhece muito bem o assunto). Vejamos o que mais ele tem a dizer:

"...Pode-se falar da moral da Antiguidade, da moral feudal, própria da Idade Média, da moral burguesa da sociedade moderna, etc... Portanto, a moral é um fato histórico e, por conseguinte, a ética, como ciência da moral, não pode concebê-la de uma vez para sempre (ou seja, ela não é rígida, imóvel, estática, definitiva, acabada, imutável), mas tem de considerá-la como um aspecto da realidade humana que é mutável com o tempo. A moral é histórica precisamente porque é um modo de comportar-se de um ser - o homem - que por natureza é histórico, isto é, um ser cuja característica é estar-se construindo ou autoproduzindo constantemente, tanto no plano da sua existência material quanto no da sua vida espiritual, incluída nesta a moral." 2
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_______Não sei se ficou claro. Trocando em miúdos, tudo que tentei fazer até aqui foi demonstrar que a moral não é uma coisa rígida, pronta e acabada, que exisitiu desde sempre da maneira como a entendemos hoje. A moral não pode deixar de variar historicamente, através das diferentes sociedades. Assim como as culturas se sucedem, também os conceitos de moral se sucedem e se subistituem uns aos outros. Nos tempos dos homens primitivos, por exemplo, a moral estava vinculada à noção de coletivo. - O coletivo absorvia o indivíduo. - Não se reconhecia a propriedade privada nem a divisão da sociedade em classes. Era uma só moral válida para todos os membros da comunidade (comum unidade), e o comportamente de cada um era regulado pelos princípios aceitos pelo grupo. O que os outros grupos (tribos vizinhas, no caso) aceitavam como certo não interessava, era simplesmente considerado errado, inválido, pecaminoso perante os deuses. Essa realidade era tão concreta nas mentes desse período histórico que a reparação de um mal causado a um membro da comunidade era coletiva: o derramamento do sangue de um era o derramamento do sangue de todos, e como tal deveria ser vingado e/ou punido/reparado por todos. Assim, uma mulher infiel não era castigada somente pelo marido traído, mas por toda a tribo. Um filho que desonrasse os pais ou transgredisse a moral comunitária era punido por todo o grupo, completamente excluído ou, em casos mais severos, sumariamente eliminado - leia-se assassinado - de modo exemplar. Não havia noção de individualidade, mas sim de tribo. Os que existiam fora daquele grupo eram considerados, em certo sentido, menos que humanos.

_______Somente sob esta lente é possível a leitura do Antigo Testamento da Bíblia, por exemplo. Testemunho pessoal: ler aqueles livros sem nenhum conhecimento complementar, sem o acompanhamento de um tutor qualificado, me deixou literalmente doente. Minha mente adolescente foi destroçada pelas cenas do Deus Todo Poderoso ordenando aos filhos de Israel, seu povo escolhido e eleito dentre todas as nações da terra, que trucidasse os povos inimigos, que assassinassem os velhos e crianças sem piedade, que arremessassem os bebês de peito contra as rochas... Um deus capaz de mandar um anjo para assassinar uma criança inocente (o filho do Faraó, que não tinha nada a ver com a história) para libertar seus protegidos, que não eram melhores que os egípcios em absolutamente nada. Como poderia aquele deus tribal, irado e guerreiro, que favorecia um pequeno grupo de seus filhos contra toda a humanidade que ele mesmo criara, ser o mesmo Inefável Pai do Amor ao qual Jesus se referia tão apaixonadamente? Minha recuperação psicológica durou décadas...

_______Mas essa é outra história. Importa no momento saber que esse tipo de confusão se dá exatamente, e somente, por não conhecermos o contexto histórico, cultural, político, etc, etc... de cada época. E quer saber de uma coisa fascinante? Vivemos o hoje sem ter a percepção da mentalidade agora existente. Seremos estudados daqui a 500 anos pelos historiadores do futuro, que saberão classificar o nosso modo de pensar atual. Imagine um professor de um tempo futuro dizendo à classe: "As pessoas que viviam lá nas primeiras décadas do século 21 acreditavam que podiam encontrar a felicidade nas posses materiais! E achavam o sistema capitalista muito justo, porque qualquer pessoa disposta a trabalhar duro seria capaz de conquistar uma posição social digna! Eles não consideravam os biologicamente incapazes de se adequar ao meio! As desigualdades sociais eram vistas como coisa perfeitamente normal e justa..." - E a classe toda, com toda a razão, exclama: "Aaaaahhhhh, mas que absurdo!"...

_______Sim, a moral muda. E parece evoluir, isto é, progredir. É quase consenso entre os estudiosos do assunto que, assim como os princípios e normas morais mudam com o passar dos tempos, essas mudanças e substituições estão numa relação de continuidade, de tal forma que a conquista de uma época ou determinada sociedade acaba por "preparar o caminho" para um nível superior que a substituirá. Existiria um progresso moral no correr da História.

_______Objetividade, no estudo da História, é reconhecer a complexidade do objeto das ciências sociais. Não sei se a esta altura já ficou claro o ponto central deste post, mas retomarei o assunto diretamente do tema central da conversa, a Inquisição e as Cruzadas.

Ler a continuação...

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1 VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética, 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 37;
2
Idem.


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