Anotações

Todos me dizem que desperdicei os muitos dons com os quais fui agraciado, por Deus ou pela natureza, e que com toda a minha inteligência e múltiplas capacidades eu poderia ter chegado muito mais longe na vida.

_______Com “muito mais longe...” eles querem dizer que eu poderia ter ganhado muito mais dinheiro. Com “...na vida” eles se referem, obviamente, a esta sociedade insana que criamos para nós mesmos e que nos escraviza, governada e dominada por gente fútil, que desrespeita nossos direitos mais básicos e nos trata como imbecilóides. Claro que é disso que eles estão falando, afinal é neste mundo que vivemos, não é?

_______Ok. Não vou falsamente bancar o modesto, nem sou estúpido para não saber que de fato eu poderia ocupar hoje uma posição social bem mais privilegiada. Poderia ser chefe de alguma coisa. Poderia ter muito mais grana e posses. Oportunidades não me faltaram; não foram poucas. E eu recusei cada uma delas.

_______Conversando com Hana sobre isso há poucos dias, numa dessas cenas de filme romântico que acontecem nas vidas de quem é feliz no relacionamento (naquele mesmo parque onde toda a história concluída no último post começou), ela aninhada nos meus braços, nós dois sentados na grama, olhando o por do sol em meio a um grande silêncio... Ela finalmente entendeu.

_______Já havíamos conversado sobre isso, claro, algumas vezes, e ela já havia entendido, sim. Mas, naquele final de tarde ela foi realmente tocada pela minha história. A história da minha vida. Aquela grande parte da história da minha vida que eu contei aqui no a Arte das artes, da melhor maneira que pude, e que começa com um menino de 4 anos recebendo a revelação mais terrível e cruel de toda a sua vida: ele era mortal. Não só ele, como também sua mãe, e todas as pessoas do mundo, morreriam um dia.

_______Hana entendeu a maneira como deixei tudo para segundo plano, absolutamente todas as coisas deste mundo, do tipo, - como diria Cazuza, - carreira, dinheiro, canudo... Como tudo passou a não ter importância para mim. Nada importou para mim realmente, absolutamente nenhum desses valores temporais pelos quais as pessoas se vendem, roubam, matam, perdem sua honra... Nada importou, desde aquele dia até hoje, a não ser... a Busca.

_______Tudo que eu sempre quis e busquei foi a transcendência. Transcender este mundo, a morte, a perda, a dor da perda, o medo, o medo de ter medo... Tinha que haver uma resposta, tinha que haver um jeito, uma solução. E essa solução só poderia ser... Deus. D’us. DEUS.

_______Nunca vi sentido em concentrar minhas melhores forças em coisas que são, por sua própria natureza, efêmeras. Dinheiro é efêmero? Uma carreira sólida é algo efêmero? Para mim, a resposta sempre foi sim. E, por favor, ninguém se deixe convencer por minhas loucuras. Apenas digo que o tempo que temos neste mundo é pouco para alcançarmos DEUS. Se eu dedicasse o melhor do meu tempo, e minhas melhores energias, a buscar DEUS, talvez eu o encontrasse. Era preciso alcançar DEUS, não no sentido de construir uma torre de Babel para chegar ao Céu, mas sim entender o que DEUS esperava de mim, o que eu estava fazendo aqui, essas coisas. Encontrar o caminho até Ele, enfim. O tempo que eu tinha era pouco, e não havia nada mais importante do que isso.

_______Então, eu passei a minha vida inteira procurando empregos de meio período, dispensando as oportunidades de crescimento profissional, quando apareciam, o que não era raro. Todos os meus chefes, até hoje, gostaram de mim, e me imaginaram com um futuro brilhante. Mas eu precisava de muito tempo livre para estudar, meditar, rezar, jejuar, praticar Yoga, respirar, contemplar, praticar artes marciais, me aperfeiçoar como guerreiro Bushidô, aprender novas técnicas, novos métodos, novas práticas espirituais... Qualquer coisa que me levasse para mais perto de DEUS. Que me ajudasse a entender DEUS. E assim que eu pudesse chegar perto dele, eu perguntaria: "por que temos que morrer?"...

_______Nesse tempo todo, entremeado a tudo isso, muitos tropeços, muitas dúvidas, descobertas, novas dúvidas, redescobertas e novíssimas dúvidas... DEUS não deixa pegadas, nem placas indicativas para que possamos segui-lo. Muitas vezes eu achei que estava chegando perto, quase sentindo o perfume de Deus, quase ouvindo seus ruídos... Será?

_______Muita água passou por debaixo da ponte desde então. Eu entendi muitas coisas. A árvore voltou a ser árvore, a nuvem voltou a ser nuvem. Mas eu vivo querendo fazer da árvore e da nuvem coisas que elas não são. Quero a árvore com penas ao invés de folhas, a nuvem roxa com bolinhas amarelas... Porém a árvore continua com suas folhas, maravilhosamente árvore. E a nuvem continua bela, calma, leve, branca. E essa é a grande maravilha do Ser. O complicado da vida é que, para aceitar e ver a nuvem e a árvore como elas são, é preciso não aceitar que elas são como são. É preciso acreditar que é possível ir além, ver algo que de fato não existe, e aí... Aí sim, você retorna e pode ver que a a árvore e a nuvem são do jeito que são, simplesmente. Tudo voltou ao lugar de sempre, exatamente igual ao que era antes de você se aventurar. Mas você não está igual. Agora você sabe apreciar a beleza de cada coisa como é.

______Uma chave para vencer o medo, e retomar o rumo à Transcendência, é manter em mente que nós não podemos "domesticar" a Transcendência Divina. Parece que temos, - pelo menos eu tenho, - uma mania inveterada de modelar às coisas àquilo que nós queremos ver, o que queremos que seja... Manter a consciência de que a Transcendência é "indomesticável", isto é, é impossível de ser modelada ao nosso gosto, é uma grande arte. Quando conseguimos de fato assumir essa verdade, deixamos de nos martirizar com questões do tipo: "por que existe o sofrimento no mundo?", ou "por que o meu passarinho morreu, assassinado pela própria mãe?".

______Essas angústias são típicas de quem tenta domesticar a transcendência, e mais ainda, tenta domesticar a Transcendência Divina conforme suas próprias limitações, seus gostos, suas próprias manias e costumes. A confusão no quarto representa esse monte de convicções, de quinquilharias que vamos acumulando ao longo do Caminho. Nisso eu acredito, nisso eu não acredito... Nos portamos como se o Caminho fosse um longo corredor de supermercado, e vamos escolhendo nas prateleiras as nossas convicções. Escolho esse aspecto de determinada religião, porque gosto, descarto este outro aspecto aqui, porque acho incômodo... E vamos perdendo mobilidade a cada passo, a cada nova escolha. De repende, estamos parando de caminhar, porque já possuímos tantas convicções, é tanta bagagem que não temos mais como avançar. E aí levantamos paredes ao nosso redor, porque também não queremos ver os outros viajantes a caminho, acenando com novas possibilidades. Eu tenho minhas próprias convicções, minha religião própria, muito bonitinha, belamente construída, e isso me basta.

______Quando nos damos conta estamos presos naquele quartinho escuro, cheio de quinquilharias acumuladas, com medo de sombras que nós mesmos criamos... E DEUS? E a transcendência? T-R-A-N-S-C-E-N-D-Ê-N-C-I-A é o contrário de tudo isso! É o oposto de limitação, de escolha. Eu não tenho que escolher nada. Tudo que tenho a fazer é me permitir ser escolhido. E aí, naquele abrir de cortinas, liberando a luz do sol nascente a entrar pela janela, dissipando sombras e medos, mais uma vez eu percebo que aquela janela é o Amor.

______Depois de tanto estudo, depois de tanta coisa, o que sei eu? Que o Amor é Janela para a Transcendência. Engraçado é que disso eu já sabia. Todo mundo sempre me disse isso. E eu achava que sabia. Mas como existem diferentes modos de saber! E, às vezes, quando (re)descobrimos algo muito belo, acontece algum sinal em nossas vidas, como que para confirmar o precioso ensinamento que recebemos. Poucos dias depois de pensar e rascunhar todas essas coisas, recebi um e-mail de um grande amigo buscador. É com parte do conteúdo desse e-mail que encerro este post:


"Inicialmente, o que me levou a buscar o caminho espiritual foi a Realidade Transcendente. Pra mim, conhecer o Transcendental era a meta. Por isso, o meu caminho sempre foi muito voltado para os ensinamentos do oriente, como o budismo e o advaita.

Mas... no decorrer do Caminho, aconteceu uma coisa que me surpreendeu: eu entendi que era possível transcender o mundo e que, mesmo assim, o mundo ainda continuaria sendo o mundo. Em minha experiência, eu aprendi que 'viver no mundo, sem ser do mundo'... isso é transcendental, porque implica um estado de consciência acima do mundo. A pessoa se percebe fora do mundo, mas ela ainda percebe o mundo passando diante de si, como um filme. Ou seja, ela está fora do filme, mas o filme ainda acontece. Esse 'perceber-se fora do filme', é o que eu entendo por 'estar no mundo, mas sem ser do mundo'. A surpresa com que me deparei foi: o mundo não pára apenas porque você passou a percebê-lo como um filme. E, dentro do filme, impera apenas uma coisa, da qual tudo depende: o amor. Essa foi a grande surpresa que entendi.

Ou seja, antes eu apenas buscava transcender o mundo. Não havia compreendido o papel que o amor cumpre no funcionamento e andamento do mundo. Agora, além da necessidade de transcender, eu também entendo que existe a necessidade de amar. Logo, o que antes era uma coisa só, passou a ser um binômio, que, no caminho da espiritualidade, a meu ver, hoje, devem andar inseparáveis: transcender e amar. O transcender diz respeito ao 'outro mundo', o amar diz respeito a 'este mundo', porque é assim que ele tem de funcionar.

Onde há unidade, não há a possibilidade de amar (amar = unir; juntar os pedaços separados de modo que se tornem um). No plano na Unidade, a Unidade já é. Lá o amor já é, não precisamos juntar os pedaços a fim de que ele 'seja'. Logo, no plano da Unidade, pelo fato de o amor já ser, não é possível praticá-lo. Quem irá amar quem, se não existe "o outro"? Mas é possível contemplá-lo (e é por isso que tem as meditações). Por outro lado, "este mundo" é um mundo dual, onde tudo é separado. É aqui o lugar onde é possível e onde se deve praticar o amor. O plano dual é um reflexo fragmentado do plano Único, então, a fim de torná-lo semelhante ao "de cima", devemos "juntar" (amar) os pedaços fragmentados. Aqui é o lugar onde o amor pode ser colocado em ação, somente aqui. E é bom não contemplarmos muito as coisas "deste mundo"... é melhor deixar que o objeto de nossa contemplação seja o Uno. Contemplar com a mente as coisas desse mundo pode ser um tanto prejudicial, sob pena de fragmentarmos ainda mais as coisas por aqui. Este mundo é o lugar de agir. Contemplar o Sagrado ajuda a melhorar o mundo, pois a mente, ao captar a Sua unidade, tende a refletir de forma nao-fragmentada, e isso ajuda na concretização do amor no mundo.

Isso tudo só pra dizer que: a manifestação do amor no mundo (o plano da dualidade) é o reflexo do próprio Ser Divino (Deus) que habita o Alto (mundo eterno da Unidade). Por isso o binômio. "Realização do Uno" + "prática de amor".

Essa é uma síntese das minhas conclusões, ao longo da jornada feita até agora."



_______Como não tenho autorização, não acrescentei o nome desse meu amigo, mas acho que ele sentirá prazer em compartilhar suas conclusões, tão parecidas com as minhas. No Reino de Deus, no Plano Uno, como ele diz, nesse Lugar que não é lugar, o Amor é sublimado, elevado a um estágio que, para nós, aqui, é inimaginável. Penso que neste Não-Lugar Infinito, o Amor é tudo em todos, e não há mais nada.


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9 comentários:

Mizi disse...

Merton, o jeito como você discursa lembra muito o estilo de João Batista. (Senta o pé no balde...) Rs...

Obs.: fiquei curioso para saber o nome do amigo do post. Se bem que, pela forma como foi escrito, faço uma boa idéia de quem seja esse amigo... ora, ora... Rs.

Abraços a ti e ao amigo!

Anônimo disse...

Olá, parabéns pela postura. Como disse também um amigo, considere-se na vanguarda de uma nova Era.

LuZ!

Anônimo disse...

Querido Merton (peço permissão para chamá-lo assim, pois suas palavras nesse blog o fizeram querido pra mim),

perdi minha mãe há 3 meses e enquando ela estava hospitaliada, achei o seu blog em uma busca, para encontrar conforto nos "assuntos" de Deus.

Comecei, então, a conhecer sua história.

Quando fui derrubada pela realidade de 30 dias da perda dela, fiquei inerte. Só conseguia chorar e ler o seu blog. Li sua caminhada inteira, de cabo a rabo, em uma sentada.

Me encontrava sedenta, mas sem saber de que fonte beber. Sou de família católica. Fui protestante na busca pelo tal relacionamento íntimo com Jesus. Me assustei depois de alguns meses e voltei para o meu Cristianismo pessoal, com muito medo de alguma religião me tirar a sanidade e o bom senso.

Nesse momento árido da vida, quis exercitar a minha fé e encontrei a Arte das Artes. Você não faz ideia de como me ajudou e segurou a minha mão, sem nunca ter me visto ou saber da minha existência.

Sou muito grata. Muito.

Aceitei a minha condição de Cristã pensante, a de que poderia, sim, seguir Jesus, tê-lo como exemplo máximo e permanente na minha vida e continuar eu mesma, apenas melhor, muito melhor.

Nesse momento de sofrimento, concluí que Ele foi o único "deus" que não mentiu pra mim. Não disse que essa vida seria um mar de rosas, mas disse para me alegrar e em tudo dar Graças.

Foi o único que se colocou na minha pele. Fiz, Merton, uma opção racional pela proposta de Jesus. Aceitei Sua proposta, pois a achei Justa e Perfeita para o contexto desse mundo injusto e imperfeito.
A proposta Dele me chama à ação, me faz sair do próprio umbigo e transforma o meu próprio sofrimento em compadecimento pelo sofrimento alheio. Isso tem tratado a minha ferida.

Não quis seguí-Lo por medo do inferno ou por uma troca rasa pela salvação. Escolhi. Simples assim.

Porque Sua Vida nesse mundo, me fez pensar que, se há um Deus, Ele se revelaria daquela forma e viveria as agruras e os conflitos humanos na carne por Misericórdia, Humildade, Amor e Exemplo.

Bem, acabei falando demais. Só quis lhe agradecer publicamente, deixar meu forte abraço e expressar a minha mais profunda gratidão.

Muito obrigada!
Com carinho,
Patricia

*Não consegui publicar com open ID porque meu blog é wordpress, mas se quiser me conhecer, será muito bem vindo: www.oitidesign.wordpress.com

Anônimo disse...

Estava analisando o "Bilhete do apostolo Paulo escrito a Filemom, e, encontrei uma triste constatação feita por John Stott citando o Dr. Karl Menninger ele disse:

"muitos pecados antigos têm-se transformado em crimes"

Stott com base nesta constatação diz:

"de modo que a responsabilidade pela sua solução passou da igreja para o Estado, do sacerdote para o policial, ao passo que outros se dissipam em doenças; ou pelo menos em sintomas de doenças, de forma que nesses casos o tratamento substitui o castigo. Um terceiro e conveniente artifício chamado de 'irresponsabilidade coletiva' capacitou-nos a transferir a culpa de nosso comportamento desviado de nós mesmos como indivíduos para a sociedade como um todo ou para um de seus muitos agrupamentos".

Tudo isso para dizer que precisamos qualificar cada dia mais nossos espaços e debates responsáveis pela WEB!

Parabéns!

H K Merton disse...

PATRICIA,

Tudo o que você disse foi tão lindo, tão verdadeiro, tão transbordante de pureza, de amor fraterno... E eu queria retribuir esse carinho na alma que você me fez, com a mesma suavidade e ternura. Mas não sou capaz de tanto.

Tudo o que tenho a dizer é: para que serviria este blog, a não ser para isso? Para tocar alguém, e, - obrigado, meu DEUS! - Ajudar alguém, compartilhar algo bom com alguém.

Irmãzinha, seja a cristã que quiser, mas sempre de coração puro. Saiba que ontem, na Santa - Santa não, Santíssima, Sacratíssima Missa do Senhor, eu fui curado. Milagrosamente curado. Mais um milagre na minha vida, que já nem venho mais contar aqui, pois as carícias de Cristo vêm se tornando a minha rotina. Só me envergonho do meu egoísmo, da minha arrogância, da minha pequena fé. E o sacerdote, do Altar, me dizia:

"Homem fraco na fé, por que duvidaste?" (Mateus, 14, 22-33)- E a minha consciência completava a frase: "Por que duvidaste de novo?"

Eu sou fraco mesmo. Mas eu tento. E vou morrer tentando, com a Graça de Deus. Me perdoe a crueza do que vou dizer agora, mas para uma amiga querida, como você, seria muito feio usar de meias palavras: Igreja de Cristo, mesmo, é a católica. A ortodoxa é irmã, e existem outras católicas não romanas, de ritos diferentes, em comunhão com a mesma Igreja Una. Tem ainda as protestantes históricas, como a luterana, a calvinista, cujos membros merecem todo o nosso respeito. Agora, essas empresas que se vendem e se compram todos os dias e se autoproclamam "igrejas", essas são desonestas. São criminosas, pavorosas. Chamar isso de igreja é desrespeitar a santidade de Jesus. Chamar esses falsos profetas de "pastores" e esse negócio comercial de enganar gente simples, com promessa de prosperidade, milagres e salvação (nessa ordem), de "igreja" é muito ruim.

Só isso, irmãzinha. Graças a Ele, nos encontramos aqui, não é? Como sou grato por ter sido essa ponte. Conte comigo, e volte outras vezes. Rezo por você. Estamos juntos.

Patrícia Naves disse...

Querido Merton,

não pude deixar de re-comentar. Vou ter até que dividir o comentário em dois porque excedi a quantidade de caracteres.

A sua crueza foi, na verdade, o que eu teria continuado a escrever no meu primeiro comentário, mas achei que estaria falando demais. Não quis sobrepor a minha indignação à minha gratidão naquela ocasião.

Então, queria te falar que, na ocasião do calvário da minha mãe, senti vontade de voltar para o lugar do meu primeiro amor, onde fui apresentada pra Cristo. Onde, quando ainda criança, ficava ao lado dela, na missa, cutucando suas pernas, ansiosa pela parte que eu mais gostava: "mãe, já tá na hora da Paz de Cristo?"

Esperava ansiosa pelo momento de sair pela igreja abraçando "estranhos" e desejando-lhes e recebendo a PAZ.

Foi então que o "Arte das Artes" entrou em cena e seu caminho honesto de buscador legitimou a minha própria busca e a minha chegada ao tão improvável, já nesse altura da minha própria busca, do meu destino final: a Igreja Católica.

Imagine o espanto dos meus amigos ao verem Patrícia, moça tão esclarecida e preparada, virando carola.

Tem também a parcela pentecostal dos amigos que, me considerando "desviada", oram para que eu não "retroceda" na fé e, assim, perca a minha salvação até então assegurada. Fico tranquila e deixo que orem, pois oração nunca é demais, não é?

Enquanto protestante, congreguei em uma igreja com membros de alto poder aquisitivo. Pessoas que, em sua maioria, chegaram ali porque foram muito loucas no passado e se viram no chão; ou porque faliram e queriam a prosperidade de volta. Moças lindas, com roupas e tratamentos estéticos caros que, quando elogiadas falavam: "é a Graça de Deus que transparece". Em resposta eu pensava: "não, isso se chama vestido Channel, sapato Gucci, laser e botox. A Graça de Deus a gente vê pelos olhos, pelos gestos e ,em muitos casos, no que esse mundo considera feio e imperfeito. Não dei conta, me indignei. Fui embora.

Houve também a vez em que perguntei se Gandhi estaria queimando no fogo do inferno e Hitler estaria na Glória. A resposta foi ríspida e objetiva: "sim"! O que mais eu esperava, pois está na Palavra." Eu respondi que esperava que ambos fossem slavos, esse era meu desejo. Desejava que Hitler ao se encontrar com o Pai em Seu Amor Absoluto, tomasse consciência de seus erros e se compadecesse do sofrimento causado por ele mesmo. Que consciência aleijada, não se reconstruiria perante a Consciência Perfeita? Já Gandhi se prostraria, e maravilhado pensaria: "então, era o Senhor? Que bela surpresa!" Mas que esse era apenas o meu desejo, diante do que eu nem compreendo direito sobre a Misericórdia de Deus.

Fui, claro, tida como subversiva e como, quem sabe, um instrumento do inimigo, infiltrado naquele meio. Penso, questiono, logo sou aliada do inimigo. Por essas e outras, defendo o tal Cristianismo pensante, do qual falei no primeiro comentário e que vejo exemplificado naquela parte da sua história, onde você cai de para-quedas na palestra de Dom Lawrence.

*comentário continua...

Patrícia Naves disse...

Para que você fique tranquilo em relação ao meu caminho, quero falar que meu coração está puro, é a minha cabeça que me prega peças. O tempo todo.

O sofrimento me desnorteia e duvido, como duvido... É uma luta diária essa escolha, ainda atrapalhada pelas sequelas do meu caminho de busca. É impressionante como uma cabeça adulta e, teoricamente, bem formada carrega sequelas e culpas quase infantis. Santos, Maria, a Salvação pelo crer... e uma infinidade de outras... Espíritos, castigo, Karma...
Mas não adianta, espiritualidade sempre foi meu assunto favorito e não consigo deletar tudo e nem acho que devo. Só peço um grau mínimo de sabedoria para discernir e não julgar.

Nessa confusão, optei, por hora, por me alicerçar em uma só, a Misericórdia infinita de Deus. E é essa Misericórdia que me exime do papel de julgar ou me defender. Consigo, em dias bons, descansar Nela.

Acho que vou morrer duvidando, pois não sei nada dessa vida, quanto mais da VIDA. Meu sofrimento me jogou no chão, me tirou todas as certezas, mas me fez gente, de novo. Me considerava humilde, coitada. Agora, tenho conhecido um outro grau de humildade, onde me vejo tomada por uma única certeza: não sei nada. Essa humildade humilha, mas me humilhar diante de Deus através da aceitação da minha condição de ser nada e de saber nada, me conforta, pois é a realidade inquestionável da vida. Paradoxalmente, me sinto mais inteligente.

Psicoanaliticamente falando, é o tal "Real", né? E como lidar com ele? A minha forma - Lacan teria um ataque se me visse transformando o seu "Real" na vontade de Deus - é ver que o "Real" são os desígnios de Deus que transcendem a minha compreensão.

Vou seguindo com um certo grau de satisfação por não ter desistido de Deus, mas também com vergonha pela minha pouca fé, Merton. Peço para que ela se fortaleça, dia após dia. Peço, peço muito.

Nem rezar, sei mais. Tenho tentado, mas no fundinho da cabeça, fica aquela dúvida, será que tem mesmo alguém do outro lado da linha? Peço perdão e me apoio na Misericórdia, acho que Deus sabe que sou um bebê tentando engatinhar. Caio de cara no chão, coloco o dedo na tomada, bato na quina da mesa, mas vou tentando. Quem sabe um dia consiga ficar em pé? Quem sabe um dia consiga até andar?

Mais uma vez, falei demais. Mas falar de Deus me traz Paz imediata. Por isso falo, falo e não paro mais. As palavras vão saindo dos meus dedinhos frenéticos no computador.

Então, comecei bem o dia. Uma pequena pílula espiritual de Lexotan na veia compartilhada com um novo querido amigo, para encaminhar a semana.

Muito obrigada!
Obrigada por se importar, por rezar por mim. Também rezo por você e por esse espaço que vim a amar.

Grande e fraterno abraço,

Patrícia

Anônimo disse...

muito bem, vc ja esta orando,e bem, desde que assumiu as suas fragilidades diante do criador

Patrícia Naves disse...

Oi, Merton!

Passei aqui rapidinho só pra falar que quando seu blog indicar um visitante da Finlândia, sou eu!

Não tive a oportunidade de falar, mas faço mestrado aqui em Helsinki. Voltei faz dois dias e já andei passeando pelo Arte das Artes.

Continua me ajudando, o efeito é prolongado.

Mais uma vez, muito obrigada!

Abraço,
Patrícia