Reencontro - parte 2



Ontem assisti, junto com milhões de pessoas ao redor do globo, à despedida de um mito. Ronaldo é um mito nas mentes de milhões de brasileiros e aficcionandos por futebol mundo afora.

_______Uma pessoa se torna um mito quando sua vida ou seus feitos extrapolam a realidade. Que Ronaldo foi um grande craque da bola ninguém duvida, é um fato inquestionável. Mas ele sem dúvida foi além da própria genialidade, foi além de si mesmo, nas mentes e corações de todos aqueles que acompanharam a sua trajetória profissional, tão cheia de superação, "voltas por cima" e lances emocionantes, dignos de filme hollywoodiano. Além de tudo, a extrema humildade e simplicidade de Ronaldo comovem. Uma característica típica dos brasileiros.

_______Não é sobre Ronaldo que quero falar, mas ele é um exemplo perfeito para falar de mitologia e tipificação. Mesmo que a sua festa de despedida da seleção brasileira de futebol não tenha sido digna da sua carreira, as vozes se embargaram, o nó na garganta se fez presente quando ele foi cercado pelos jogadores, tanto brasileiros quanto romenos, quando falou ao microfone e quando deu seu último aceno para a torcida que gritava seu nome. Todos torciam para que ele fizesse o último gol. Todos queriam ver seu recorde de maior goleador com a camisa da seleção do Brasil ampliado. Me arrisco a dizer que, se ele tivesse chutado uma bola um pouquinho longe do goleiro, este não teria se esforçado tanto para defender. Nas 3 oportunidades que teve, uma ele bateu em cima do goleiro, outra para fora e a terceira, apesar de ter sido um chute forte e bonito, foi também na direção do goleiro. Um pouquinho mais para um lado, e... será que esse goleiro se esforçaria para rebater? Talvez sim, talvez não...

_______E por que um goleiro não haveria de se esforçar para cumprir aquela que é, afinal de contas, a sua obrigação: impedir o gol adversário? Porque quem tentava fazer gol nele era ninguém menos que Ronaldo, o fenômeno. Tão fenomenal quanto a sua habilidade com a bola nos pés é a sua fama, a aura mística que se formou em torno dele. O homem se tornou um mito.

_______Dia desses, num desses programas "esportivos" da TV (esportivos entre aspas porque esportivo no Brasil é sinônimo de excusivamente futebol), vi um comentarista muito popular dizendo que Neymar, como o grande craque do momento, se continuasse evoluindo, treinando, levando sua carreira e seu talento a sério, e se tudo desse certo na sua vida, poderia chegar a ser, um dia, o melhor jogador de futebol da história, depois de Pelé. E todos os colegas comentaristas concordaram com ele. Entenderam? Se o Neymar fizer tudo certo, se aprimorar mais e mais sua técnica, se ele progredir incansavelmente, e se tudo der certo na carreira dele... Poderá se tornar o melhor, depois de Pelé.

_______Insisto que o post não é sobre futebol. O que estou querendo demonstrar aqui é a essência do significado do mito. Pelé é um mito tão grande que muitos especialistas em futebol concordam que ele nunca será superado! Observem a contradição na fala do comentarista: Neymar é um grande talento, um verdadeiro fenômeno dos gramados, mas mesmo que ele se aperfeiçoe ao máximo, o melhor que poderá alcançar é se tornar o segundo.

_______Ora, Pelé marcou mais de 1.284 gols, o que é um feito espetacular neste esporte. Pelé conquistou inúmeros títulos importantes que podem ser apreciados aqui e numa infinidade de outros sites especializados. Mas suponhamos que Neymar consiga atingir a marca de, sei lá, 1.500 ou 1.700 gols, e conquiste ainda mais títulos importantes do que Pelé. Isso não é impossível, aliás o argentino Messe já superou Pelé por alcançar 17 conquistas com apenas 23 anos de idade. E aí? Como pode alguém afirmar que ninguém, jamais, em tempo algum, vai superar o Pelé? Será que nossos especialistas possuem a capacidade de prever o futuro?

_______Pelé foi um atleta fantástico, que merece ter seus feitos lembrados e reverenciados. Superá-lo não será fácil, mas não é impossível. Ele, como qualquer ser humano, pode ser superado. Mas, na cabeça de muita gente, este homem se tornou uma espécie de semideus, imbatível, insuperável, intocável.

_______Ontem, quando Ronaldo se movia no campo, milhões de pessoas se moviam com ele. Quando recebeia a bola, milhões recebiam com ele. Quando chutava, milhões chutavam com ele, milhões torciam, rezavam para que aquelas bolas entrassem. A forma irreconhecível, a barriga proeminente que desfigurava o contorno do grande herói era solenemente ignorada, a não ser por uma ou outra voz dissonante. Assim são os mitos. Não importa o que é, importa o que nós queremos que seja. A realidade é deixada para trás, dando lugar ao que gostaríamos que fosse. E quando muitos querem ver alguma coisa, essa coisa acaba se tornando real, em muitos sentidos.

_______Isso tudo tem a ver com o que o homem de camisa branca sentado no sofá da sala me falou, naquela noite. Quando eu o vi, não me assustei, nem me espantei, o que foi muito estranho, e naquele exato momento eu tive plena consciência disso. Um leve estranhamento, porque aquela figura não deveria estar ali, uma figura fora de contexto no meio da minha sala, no meu canto favorito do sofá, em pleno princípio de madrugada. Mas quando ele começou a falar eu senti medo.

_______Não medo do homem, mas medo do que ele dizia, porque para mim era de fazer tremer o corpo, gelar o sange nas veias. Somente a luz tênue de um abajur estava acesa, e naquele canto da sala, a sombra era escura. O que eu podia ver com mais clareza era a camisa branca; as feições do rosto eram borradas, mas rapidamente eu soube quem era ele. Era o mesmo que me falou numa outra noite mística, num banco, num parque, e provocou um efeito marcante em minha vida de buscador. Naquele momento era um ancião. Mas agora, no sofá da minha sala, era um homem jovem. Permanecia, no entanto, a mesma serenidade em sua face de traços harmoniosos e amigos. E ele falou novamente.


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