Expansão

Este post é uma continuação de Reencontro - parte 2

Mas o que ele falou, afinal? Depois de me cumprimentar com um movimento de cabeça e me encarar por alguns segundos, ele se levantou com leveza, se aproximou e ergueu o braço direito em minha direção, apontando para minha testa, um pouco acima do espaço entre minhas sombrancelhas, e disse:


"Você não pode domesticar a Transcendência Divina!"


_______Aquilo foi uma ordem, partindo de alguém que sabia bem mais do que eu, a respeito de todas as coisas. Conhecimento bruto, era essa a "energia" que eu sentia emanar daquele homem. Eu permaneci em silêncio, olhando diretamente para a face do inusitado personagem, que, se por um lado já me era familiar, agora se apresentava sob uma forma diferente: além de mais jovem, pude perceber que agora não era tão alto e majestoso quanto o ancião do parque. Cheguei a divagar, em meus pensamentos, que ele parecia ter exatamente a minha altura e o meu porte físico: Era um homem grande, mas não enorme como o ancião que eu conhecera antes. Mesmo assim, não havia dúvidas que se tratava da mesma pessoa! O tempo em que nos contemplamos foi breve, e logo percebi que ele, sem ter nada mais a dizer, fazia menção de se retirar. Rapidamente elevei a minha voz e, sem poder evitar, fiz mais uma vez a pergunta mais óbvia: "quem é você?"...

_______Ele sorriu discretamente, voltou a balançar a cabeça num gesto amistoso e se voltou para o seu lado esquerdo, e caminhou. Sentidos amortecidos, eu só observava. Na penumbra, seu corpo se afastou e caminhou numa linha reta, diretamente para um lugar atrás do móvel onde está o computador do qual escrevo agora, onde só há... a parede. Mas ele avança, e parece atravessar essa parede.

_______Sinto um impulso de segui-lo, mas por um momento permaneço estático, ponderando e questionando-me a mim mesmo, se deveria fazê-lo ou não. Havia percebido, porém, que o seu gesto tinha sido uma resposta à minha pergunta, um convite a segui-lo; e eu o fiz. Atravessei o espaço da sala, avancei para trás do móvel, e vi uma porta semiaberta(!) que se fechava. Ainda pude ouvir, por trás da fresta que diminuia, um ruído sutil a denunciar que o meu estranho amigo(?) entrara por ela.

_______Não, aquela porta não existia na realidade. Minha sala não tinha mais que duas portas, e se houvesse uma terceira porta ali, ela daria para o quintal. Isso era para mim a prova definitiva de que eu deveria estar sonhando, imaginando, tendo um surto ou alguma experiência fora da realidade ordinária dos homens. E antes que a porta se fechasse completamente, eu a impedi. Entrei por ela, sem medo. Perdi o medo do que possa acontecer no mundo dos sonhos há muito tempo.

_______Atravessando a porta, saí num corredor, totalmente desconhecido. Um corredor comum, sem nenhuma decoração que o identificasse como parte de uma casa ou instalação que me fosse familiar. A iluminação era tênue, amarelada, e às vezes vacilante. Olhei para o teto, mas não vi lâmpada. As paredes eram claras, porém manchadas, como se o lugar fosse antigo, gasto pelo tempo. Para os dois lados, o corredor continuava, com muitas portas dos dois lados, e eu não podia ver o seu fim. Não havia sinal do homem de camisa branca. Parei, me coloquei em oração e pedi proteção, e também orientação sobre qual lado deveria seguir.

_______Então ouvi um ruído abafado, distante, como que um soluço de mulher ou de criança, que vinha do meu lado direito. Imediatamente avancei nessa direção. Caminhei devagar, por talvez uns dez ou doze metros, e então cheguei a um ponto do qual pude ver que o corredor fazia uma curva em L, bem à minha frente. Avancei.

_______Quando virei no corredor, o pequeno ruído se repetiu, e pude percebê-lo um pouco mais nítido. Fosse qual fosse a fonte causadora dos sussurros, estava um pouco mais próxima. Avançando mais rápido, alcancei enfim o final do corredor, onde uma velha porta feita de ripas pregadas dava para uma escada estreita, que descia cerca de dois metros abaixo...

_______Desci as escadas. Nas paredes encardidas, pequenos quadros pareciam retratar paisagens arcaicas, mas a luz não era suficiente para que pudesse ter certeza. A intervalos regulares eu ouvia gemidos e sussurros estranhos. Abafados, aumentavam cada vez mais em intensidade, conforme eu avançava. Minha audição é excelente, mas sentia como se estivesse ainda mais aguçada em razão de toda a situação, o receio, a ansiedade. Ao final dos degraus, uma outra porta, lisa, de madeira crua.

_______Enquanto eu estava descendo as escadas, me parecia que a porta estava fechada, mas quando me aproximei percebi que estava aberta. Isso foi esquisito. Olhei para dentro do aposento: luzes apagadas, mas havia uma janela com empoeiradas e pesadas cortinas semiabertas, por onde entrava alguma luz, ainda que difusa e fraca. Estaria amanhecendo? Discreta sensação de felicidade passou por mim: os raios de sol, ainda que tímidos, trouxeram-me a sensação de ainda pertencer ao mundo real, o velho mundo de sempre, do qual havia tanto para reclamar e amaldiçoar, mas do qual tão poucos estão preparados para se despedir.

_______No aposento havia um confusão de cacarecos e móveis, que apesar de não poder enxergar em detalhes me pareceram velhos e empoeirados, espalhados por toda parte. Bem no centro havia algo que se parecia com uma cristaleira, muito alta, com recipientes de vidro e enfeites, talvez de porcelana, empilhados sobre ela. Estava um pouco inclinada para um lado, como se um dos seus pés estivesse quebrado, mas se apoiava numa espécie de guarda-roupas estreito e escuro, de aparência sólida e antiga, com saliências entalhadas na parte de cima, por trás dos quais despontavam contornos do que imaginei serem velhos brinquedos. Haviam panos grossos, cortinas ou cobertores, alguns mal dobrados, outros amarrotados, espalhados pelo chão e sobre os móveis. No canto à minha esquerda, bem no fundo da sala retangular, uma gasta poltrona de napa vermelha pregueada, voltada para a parede escura, onde se apoiava uma estante de ferro repleta de livros e revistas velhas. Por trás do braço estofado e roto, a visão repentina de uma pequena e alongada mão clara me fez estremecer de susto. Eu não estava só!

_______Susto e depois curiosidade. Empurrei suavemente a porta, que se abriu num leve rangido. Meus olhos estavam fixos na mãozinha, que recuou assustada, rápida como uma cobra, desaparecendo por trás da poltrona. Pensei em chamar, dizer um “olá” ou algo assim, mas o silêncio prevaleceu. Avancei para dentro do quarto a passos curtos. Respiração presa. Um silêncio impressionante reinava no lugar.

_______Rodeei o centro do quarto, contornando tranqueiras e um tapete de retalhos colorido, muito encardido. Caminhei para o extremo oposto ao da poltrona, querendo ver quem estava ali escondido. Devagar e com prudência, me coloquei bem rente à parede direita, e continuei avançando em direção aos fundos do aposento, olhos fixos na poltrona.

_______Minha visão já estava bem adaptada à penumbra, e agora a claridade que entrava pela fresta das pesadas cortinas era suficiente para enxergar o principal. Mais um passo e vi duas pernas como de criança, compridas e finas, se encolhendo sob a poltrona. Alguém não queria ser visto. A essa altura, a impaciência era maior que o receio, e falei com voz branda: “olá...”

_______Não obtive resposta. Agora já estava bem ao lado da velha poltrona de napa vermelha. Mais alguns passos e já conseguia ver os contornos do perfil de um rapazinho singular: cabelo liso e escuro, com um grande franja quase cobrindo os olhos. Os braços magros estavam cruzados sobre os joelhos dobrados, atrás dos quais se escondia o queixo e a boca do garoto. A pouca luz que entrava era refletida nos olhos do menino, num efeito incômodo, causando a ilusão fantasmagórica de duas pequenas lanternas a se projetar das órbitas.

_______Cheguei mais perto, lentamente. Minha primeira impressão foi a de que o garoto estivesse assustado com a minha presença. Depois de alguns instantes e o ajuste da minha visão, porém, senti-o envergonhado, ou talvez enfadado. Mas, ao encurtar a distância, quando cheguei perto o suficiente para poder tocá-lo com meu braço bem esticado, se o quisesse, percebi que não havia expressão alguma em seu rosto.

_______Talvez angústia. Talvez ele demonstrasse um pouco de angústia nos olhos grandes e amendoados que me encaravam, surpreendentemente sem muito interesse. Afinal, depois de um instante de silêncio, tendo o meu olhar irresistivelmente preso àquele rosto, confirmei esta última impressão. Um pré-adolescente frágil, com uma expressão de angústia que eu esperaria encontrar num homem velho. Não perguntei nada a respeito do lugar, dos porquês, não quis saber de imediato quem era ele: senti que, se fizesse as perguntas óbvias, não receberia resposta, como se estivesse diante de uma esfinge a me inquirir: “Decifra-me ou te devoro!”...

_______Fiquei de cócoras diante do garoto, sentado no chão atrás da poltrona velha, de napa vermelha, na penumbra do canto do quarto, e um calafrio percorreu minha espinha. Sem nenhuma razão racional, me senti desprotegido. Fiquei de cócoras para me colocar a altura dele, para que meu rosto ficasse na linha do seu rosto, e meus olhos pudessem encarar os seus olhos de frente. Mas uma sensação desagradável tomou conta de mim, me fez estremecer dos pés a cabeça, e rapidamente me recoloquei de pé.

_______O menino não tinha me encarado nos olhos até então, mas quando me levantei depois de ter me colocado de cócoras à sua frente, seus olhos se voltaram diretamente para os meus. E eu senti como se ele pedisse socorro. A essa altura eu queria começar uma conversa e não sabia por onde começar. Mas o meu constrangimento não durou muito. Eu vi o garoto abrir a boca antes de ouvir sua frase incompreensível: “Cuidado! Tem coisas horríveis aqui dentro! Estão me observando, me cercando, e eu não posso sair! Se eles me 'ver' vão me atacar!..”

_______Seus olhos estavam cheios d'água e sua expressão era de pavor, misturado com uma grande tristeza. Recuei, repentinamente invadido por um arrasador sentimento de angústia. Mas sabia o que tinha a fazer. Corri até a janela e, com força, afastei as cortinas para os lados, escancarando a janela e deixando entrar a luz da manhã. Todo o aposento e seus objetos foram iluminados, e assim era possível ver que não haviam criaturas ameaçadoras à espreita, e sim móveis e coisas velhas acumuladas, parecendo assustadoras no escuro. Olhei para o menino e vi seus olhos arregalados numa expressão de surpresa: os monstros haviam sumido!




_______Mas com a entrada da luz pude notar mais um objeto na sala: um espelho na parede oposta, na exata altura e direção do menino, que deveria refleti-lo como eu o via. Mas quando prestei atenção ao reflexo, através de milhões de partículas de poeira que gravitavam freneticamente, acesas pela luz que agora entrava, eu vi não uma criança, mas a minha própria imagem. Era eu, prostrado e encolhido, escondido atrás do velho sofá; a expressão de espanto no rosto do menino era a minha própria. Assustado, voltei meu olhar, do reflexo no espelho para a criança, e a última coisa que notei nela foi que usava uma camisa de adulto, que lhe caía muito grande, como se fosse uma toga: encolhido como estava, cobria seu corpo até os pés. Uma camisa muito branca.

_______Logo depois, num lapso da consciência, retornei para o calor da minha cama e o conforto do edredom. E uma grande compreensão em minha mente, coração e alma. Só pensava no reflexo do espelho, onde deveria estar a imagem refletida daquela criança escondida atrás do sofá, onde vi a mim mesmo. O ancião do parque, o homem no sofá da minha sala, o menino assustado: finalmente compreendi que todos eram o mesmo e um só. Finalmente descobri quem eram eles, ou quem era ele. Eram todos reflexos de mim mesmo. E como sempre faço quando compreendo alguma coisa que considero profunda e importante, procurei meus cadernos, e rapidamente, antes de esquecer, rascunhei algumas anotações...

...Continua


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