Pecados da Igreja Católica - conclusão

"Com o desaparecimento do mundo antigo, que se assentava sobre a instituição da escravidão, nasceu uma nova sociedade, cujos traços essenciais se delinearam desde os séculos V e VI de nossa era, e cuja existência se prolongará durante uns dez séculos. Trata-se da sociedade feudal medieval, cujo regime econômico-social se caracterizou pela divisão em duas classes sociais fundamentais: a dos senhores feudais e a dos camponeses servos; os primeiros eram donos absolutos da terra e detinham uma propriedade relativa sobre os servos, presos a terra durante a vida inteira.

Os servos da gleba eram vendidos e comprados juntamente com as terras às quais pertenciam, e que não podiam abandonar. Eram obrigados a trabalhar para o seu senhor e, em troca, podiam dispor de uma parte dos frutos do seu trabalho. Embora a sua situação continuasse sendo muito dura, (...) eles tinham direito à sua própria vida, e formalmente reconhecia-se que não eram coisas, mas sim seres humanos. É perceptível o progresso moral desta fase em relação à civilização anterior, que admitia a escravidão e o comércio de vidas humanas, quando o proprietário podia dispor à vontade da vida e da morte de seus escravos sem ter que prestar contas por isso.

A moral da sociedade medieval correspondia às suas características econômico-sociais e espirituais. De acordo com o papel preponderante da Igreja na vida espiritual da sociedade, a moral estava impregnada de conteúdo religioso e como o poder espiritual eclesiástico era aceito por todos os membros da comunidade — senhores feudais, artesãos e servos da gleba — tal conteúdo garantia uma certa unidade moral da sociedade."
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_______...E por incrível que possa parecer a ouvidos desavisados e mentes confortavelmente assentadas sobre uma montanha de preconceitos reafirmados muitas e muitas vezes, foi exatamente a Igreja Católica que, majoritariamente, contribuiu para essa evolução consciencial da civilização ocidental. Por que sim, por que não? Vejamos...


Alguns fatos históricos sobre a Inquisição e a Idade Média:

Sobre a tortura, que era imposta pelo Estado, e não pela Igreja: a inquisição foi a primeira instituição jurídica no mundo a declarar que as confissões sob tortura não seriam válidas para a condenação de alguém. Também foi a Inquisição que exigiu que a tortura fosse limitada, e que deveria ser usada apenas para a obtenção de informações (e não como instrumento de punição, conforme praticado pelos nobres)4. Que não poderia violar a integridade física da pessoa, que deveria ser limitada a no máximo meia hora, que deveria ser assistida por um médico, e que jamais poderia ser repetida. Dado oficial: De 1309 a 1323, em 636 processos inquisitoriais realizados em Toulose - principal centro herético medieval – só num deles se aplicou a tortura5. O que já é uma monstruosidade para o nosso padrão moral de hoje, mas notemos como a verdade histórica é bastante diferente daquela que vemos nos filmes hollywoodianos (Hollywood às vezes tenta limpar sua barra, com filmes como 'Joana Darc', de Luc Besson, e 'O Mercador de Veneza', com Al Pacino e Jeremy Irons, que trazem reconstituições de época bem mais próximas da realidade histórica, e retratam com fidelidade a mentalidade naquele período: matar alguém que tivesse ofendido um cidadão honrado era considerado um direito, nada mais que um ato de justiça).

_______Insisto que a verdade dos fatos é sempre surpreendente para um leigo no assunto, acostumado a ouvir grandes e absurdos exageros a respeito desta matéria: a verdade é que a Inquisição tinha como principal finalidade controlar os excessos de violência cometidos pelo Estado, na figura dos governantes extremamente truculentos da época. Sobre a Inquisição espanhola, possivelmente a face mais temível da Igreja em todos os tempos, é preciso saber que ela foi principalmente uma instituição do Estado, não controlada pela Igreja, e que a própria Igreja teve que censurar e tomar medidas contra ela. Isso é fato, assim como é fundamental saber que quase tudo que se divulgou a respeito da inquisição espanhola no correr da história moderna é fruto de calúnias difundidas pelo ex-padre Juan Antonio Llorente, um apóstata que produziu documentos sobre a inquisição na Espanha com o interesse de ajudar a França de Napoleão a dominar aquele país. Llorente, terminada sua obra, queimou todos os documentos que usou, para que não se descobrissem falsificações. Você, que lê este texto agora, sabia disso? Não? Mas eu seria capaz de apostar que você achava que já sabia tudo que é preciso saber sobre este assunto, ou pelo menos o suficiente para expressar suas opiniões, e formar seu (pré)conceito a respeito, mesmo sem conhecer nada das fontes de que dispomos e dos fatos realmente históricos, ha?..

_______Tentemos imaginar uma sociedade em que qualquer figurão, apenas por se sentir ofendido por qualquer pessoa, e comprovasse a ofensa perante um tribunal comum (o que não era difícil), tinha pleno direito legal de assassinar o ofensor, em praça pública, o que era festa para o povo nas ruas. Era esse o padrão mental nesse controvertido período histórico. É por isso que se trata de um erro tremendo tentar classificar atos cometidos numa época como essas usando-se os padrões de hoje. Assassinato hoje é um completo absurdo. Na época, era um modo legítimo de se fazer justiça.

_______Com toda a certeza emitir opinião é muito mais fácil do que buscar a verdade a respeito de qualquer assunto. Analisar a história de qualquer grande religião antiga é perceber que todas elas viveram períodos de violência. Vejamos.


Inquisição ou inquisições?

Responda rápido: que instituição religiosa condenou mais de 300 pessoas pela prática de bruxaria, decretando tortura e pena de morte na forca, às célebres "bruxas de Salem"? Que instituição religiosa levou à morte pelo menos 30.000 camponeses abatistas na Alemanha? Sob ordens de quem o médico espanhol Miguel Servet Grizar, o descobridor da circulação sanguínea, foi condenado a morrer na fogueira? Quem mandou executar na fogueira mais de mil mulheres escocesas, num período de seis anos (1555 - 1561)? Sem dúvida muita gente responderia, sem medo de errar, que a resposta para todas essas questões é a mesma: a Igreja Católica!

_______Resposta errada. Todos estes atos foram cometidos pela Inquisição Protestante. É curioso que ela quase nunca seja mencionada. E, abro parênteses para dizer, é algo bastante revoltante para qualquer católico que conhece a história. Então vou parar por aqui e não vou mencionar os monges da Abadia de São Bernardo, Bremen, que foram esfolados vivos por grupos protestantes, que depois passaram sal em suas carnes vivas antes de pendurá-los no campanário do mosteiro. Nem vou dizer que em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder público protestante, sendo que muitos deles foram queimados vivos e outros marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada. Também vou resistir e não vou citar o teólogo protestante Meyfart, que descreveu uma tortura pela inquisição protestante, por ele presenciada, nos seguintes termos: “Um espanhol e um italiano sofreram esta bestialidade e brutalidade. Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura. Porém, na Alemanha protestante, a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias; outras vezes, até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada. Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer".

_______Então o problema deve ter a ver com o cristianismo, não somente o católico, certo? Errado. Erradíssimo! O judaísmo, origem de praticamente todas as religiões ocidentais, em sua origem foi uma religião de práticas que hoje seriam consideradas hediondas! Prescrevia a matança de qualquer filho que envergonhasse seus pais e o apedrejamento dos blasfemos. O povo hebreu era exclusivista e truculento: consideravam imundas as mulheres no período menstrual (ninguém podia sequer tocá-las sem se tornar também impuro); incitava o ódio a todos os povos estrangeiros, chamados "gentios"...

_______O hinduísmo, de tantos mestres pacifistas, legou à Índia um sistema que perpetua a crença na superioridade racial de determinadas classes de seres humanos sobre outras, e a opressão desumana das castas nobres sobre a maioria sofredora, que é aceita tanto pela população quanto pelos religiosos de lá como uma atitude religiosa e espiritualizada. - Este é o código sócio-religioso fundamental do hinduísmo, que influencia toda a estrutura da sociedade na Índia até os dias de hoje! Os dalits (sem casta), são completamente excluídos da sociedade, denominados cruelmente "intocáveis”, porque não devem jamais ser tocados pelos membros da sociedade (isso os contaminaria). Recebem apenas os serviços considerados imundos, geralmente associados com cadáveres (e restos humanos ou animais) ou com excrementos. Só lhes é permitido lidar com lixo, esgoto, cadáveres e outras funções que lhes mantém em contato constante com aquilo que o resto da sociedade indiana considera nojento e repugnante. Não apenas as suas ocupações são consideradas indignas: os próprios dalits são considerados imundos e indignos, e assim não podem manter nenhum contato com os "limpos" e nem com as partes “puras” da sociedade. Vivem isolados e ninguém pode interferir na sua vida social. Se alguém, por descuido, tocar algum deles, deve se submeter a longos rituais de purificação, e até a sombra de um deles deve ser evitada...

_______Para se ter uma idéia da gravidade da situação, quando os tsunamis de 2004 tragaram a costa do Estado indiano de Tamil Nadu, imaginava-se que a tragédia e a morte agiriam como niveladoras sociais. Mas os esforços de reabilitação e o envio de ajuda econômica por parte de órgãos humanitários internacionais não conseguiram superar a discriminação que impera na Índia. As vítimas de Tamil Nadu, o Estado indiano mais devastado pelos tsunamis, esperavam ansiosas a ajuda para poderem reconstruir suas vidas, mas os "intocáveis" não receberam nada por parte das autoridades locais! Oficialmente, dez mil pessoas morreram, por absoluta falta de cuidados! E nessa ocasião ninguém na Índia considerou isso chocante. Tudo justificado pela crença na reencarnação. Saiba mais aqui. Mas não é só. O hinduísmo, ao longo de toda a sua história, perseguiu praticantes de outras religiões, em especial budistas. Atualmente, cristãos são perseguidos e mortos na Índia por motivos religiosos.

_______E quanto ao taoísmo? Até mesmo essa filosofia espiritualista de origem chinesa, com sua doutrina introspectiva e pacífica, já causou destruição e mortes na história. Na China, no fim da dinastia Tang (1845), o imperador taoísta Wu Zong proibiu todas as influências religiosas estrangeiras (zoroastrismo e cristianismo, entre outras), com o objetivo de apoiar o taoísmo. Sim, e ao longo de todo o território chinês o imperador mandou confiscar os bens de sacerdotes e fiéis cristãos, bem como de outros religiosos, além de destruir templos, capelas, mosteiros e casas de oração, causando derramamento de sangue de gente inocente, apenas por não compactuar com a religião estabelecida. - Assim como houve na Idade Média, em pleno século XIX!

_______Mais um bom exemplo: Pushyamitra Sunga (séc. II aC) foi um monarca brâmane ortodoxo que perseguiu os budistas durante todo o seu reinado, destruindo mosteiros e matando monges. Nas cidades de Bodhgaya, Nalanda, Sarnath e Mathura, grande parte dos mosteiros budistas foram convertidos à força em templos hindus. Esculturas, escritos antigos e obras de arte seculares de valor inestimável foram impiedosamente destruídos...

_______O que é preciso dizer do islamismo? Esta é provavelmente a religião em nome da qual mais se oprimiu as mulheres em toda a história da humanidade. - Outras religiões também o fizeram, mas o islamismo é sem dúvida o campeão absoluto nesse quesito, e o pior é que, em muitos países, isso continua acontecendo ainda hoje: valores medievais impostos à sociedade atual! Mas isso não é nada comparado ao estrago causado por grupos terroristas como o Taliban e a Al Qaeda, entre outros. O islamismo também é o maior entrave à democracia nos países árabes, em nome de uma religião que prega a paz. Estes são fatos palpáveis e objetivos, e contra fatos não podem existir argumentos.

_______Acrescentei todas estas questões porque muitos comentários que vemos e ouvimos nos dão a impressão de que muita gente realmente imagina que cometer erros em nome da religião seja exclusividade da Igreja Católica... Isso demonstra uma mentalidade muito rasa, um modo de pensar no mínimo infantil. A Igreja falhou, sim. Gravemente. Assumiu o erro e se desculpou por isso. o Papa João Paulo II pediu perdão por esses erros. Alguém já ouviu, alguma vez, um grande líder mundial pedir perdão por erros cometidos por seus antecessores, há séculos passados?

_______Mesmo assim, às vezes ouço o seguinte argumento: “Fez e agora vem pedir desculpas?” – Isso me espanta! Ora, depois de algo feito, algo que nos envergonha, o que mais é possível fazer, a não ser pedir desculpas? Simplesmente não temos o poder de fazer voltar o tempo! Então, se você cometeu um erro e agora se arrepende, o que mais? Pedir desculpas, é claro. Essa é uma atitude cristã. Por isso rezamos sempre: “Somos Igreja Santa e Pecadora...”

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Encerro este longo post à moda socrática, procurando o caminho do bom senso, em perguntas: podemos julgar toda a religião catolicismo, e mais ainda, a verdadeira doutrina cristã católica, baseados apenas nos erros humanos? Precisamos amadurecer a nossa espiritualidade, buscar a compreensão dos fatos concretos, da História, da realidade das coisas... A Igreja Católica nos deu santos, nos deu as artes, criou a universidade, grandes filósofos e pensadores, deu origem à ciência, e gerou homens de ciência. É a geradora de tantas e tantas imensas e importantíssimas obras assistenciais. No caso do Brasil, assim como em muitos outros países, há também toda uma bela e heróica história de resistência e luta contra a opressão e as ditaduras militares. Que Igreja vemos? A qual Igreja nos referimos, em nossas críticas? Que Igreja acolhemos ou rejeitamos?


Para aprofundar seus conhecimentos:

# Revista História Viva - especial Grandes Temas nº 32 / A Redescoberta da Idade Média (ler online);

# Livro A Inquisição em seu Mundo, de João Bernardino G. Gonzaga (download gratuito aqui ou aqui)


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3. VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética, 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 45;
4. CAMMILIERI, Rino. La Vera Storia dell´Inquisizione, Piemme: Casale Monferrato, 2001, p. 48;
5. GONZAGA, João Bernardino G. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 49.

Fontes e bibliografia:
AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997;
WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963;
FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977;
MAISONNEUVE, Henri. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989.



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