Pecados da Igreja Católica Apostólica Romana: Inquisição, Cruzadas...

dois dias apareceu entre os comentários deste blog uma pergunta de ouro que representa mais uma oportunidade de ouro para um post de ouro. Estou pensando em aproveitar o agravamento da escassez de tempo livre na minha vida, ultimamente, para começar uma nova etapa deste blog, na qual eu apareço para responder às perguntas que me fizerem (antes que alguém pergunte, o animal mais rápido da Terra é o guepardo, aquele felino charmoso, e a capital da Eslováquia é Bratislava. Hoshhohshhosh... Claro que as perguntas tem que se situar nos campos em que eu auto: Teologia, Ciência da Religião, Filosofia... talvez um pouco de História Antiga). Falando sério, a pergunta do meu leitor e amigo LEON é bem oportuna e me deu muito prazer em responder. O tema é complexo e gerou um texto longo, que pretendo publicar em duas partes (se tudo der certo e se este conteúdo realmente couber em duas partes, assim será, sendo que a segunda parte virá, no máximo, até o final da próxima semana). Enjoy...

Leon pergunta: "...aproveitando o Domingo de folga pra voltar de cabeça aos estudos, voltados atualmente pro cristianismo, me deparei com algo que me afastou da Igreja Católica lá no começo da minha Busca pela Grande Obra: Cruzadas e, principalmente, as várias "Inquisições". (...) Eu pude refletir e, apesar de eu ter uma afeição mto grande pelos preceitos da vida monástica católica e uma grande admiração pelos grandes fundadores das ordens, desde o comecinho informal do monasticismo, esses dois pontos ainda me constituem um Grande Obstáculo a minha aceitação do catolicismo."

"Por isso, gostaria de pedir a vc Merton (se puder, claro) como uma pessoa que conseguiu aceitar de volta a raiz cristã de sua vida, escrever algo sobre as Cruzadas e a Inquisição."


Antes
de qualquer coisa faço questão de deixar bem claro que não, eu não vou tentar defender a Igreja, só porque sou católico. Não é possível defender o indefensável. E.. Wow! "Grande Obstáculo" com iniciais maiúsculas!? Isso deve ser algo realmente grande aí na sua psique! Por isso mesmo, em respeito à sua inteligência e em nome da Verdade, vou apenas apresentar fatos, nus e crus, porque os conheço bem, já que são parte da ciência a qual estudo há anos (lá se vão mais de duas décadas), e que há pouco retomei "academicamente", com o intuito de me tornar mestre e doutor. - Mestre e doutor de homens, porque os maiores mestres que já conheci não tinham diploma algum a não ser o amor incondicional impresso em seus corações, a marca divina gravada e selada em suas almas. Os conhecimentos que todas as universidades do mundo seriam capazes de transmitir não me graduariam para tocar os pés de um Francisco de Assis, um João da Cruz... Mas isso é outro assunto. Retomemos a pergunta.

_______Como eu disse na resposta ao seu comentário (no espaço para comentários), responder à pergunta quanto à Inquisição não é difícil como possa parecer. Nem um pouco difícil, na verdade. A explicação da resposta, esta sim é complexa, por envolver termos e conceitos que podem não ser do conhecimento público. Afinal, como é que um cara de boa consciência, como supostamente eu sou, pode ser católico, sabendo que a Igreja, em eras passadas, cometeu atrocidades? Inquisição?? Cruzadas??? Ooohhhh!..

_______Gostaria de fazer um drama e criar um clima de suspense, deixando a grande revelação para o final, mas vou é desembaralhar a aparente grande dificuldade logo de cara. A resposta é tão simples que chega a parecer mágica, quando a conhecemos. Se resume a algumas palavrinhas mágicas. Aí vão elas: História das Mentalidades, isto é, História das Representações Sociais, isto é, Imaginário Coletivo.

_______Pronto. É basicamente isso. Aí está a sua resposta, perfeita, completa e acabada. Obrigado pela participação e até a próxima oportunidade.

























_______Viu o que eu disse? A resposta é muito, muito simples. Ela já foi dada, e é mais do que suficiente para justificar todos os seus questionamentos, LEON, tanto os expostos quanto os que não foram expostos e estáo aí dentro, tumultuando seus pensamentos. Como disse, a explicação da resposta é que talvez não seja tão simples. - Mas também não é assim tão difícil. Então vamos a ela, já que você me deu um tema para um post relativamente fácil...

_______Você já parou para pensar no que significa o termo evolução? E evolução da mente? Se somos espiritualistas, podemos falar sem melindres em evolução do espírito. Tá, o famigerado do Kardec se apropriou indevidamente do termo, e aqui no Brasil compraram a ideia de uma tal maneira que não tem como usar essa expressão sem lembrar de doutrina espírita. Mas, acredite, essa expressão nada tem a ver com espiritismo. Estou falando do modo como os seres humanos evoluíram moralmente na História, desde a época das cavernas até os dias de hoje.


O problema fundamental

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Para que a resposta fique realmente muito clara, se faz necessário analisar o significado de moral, antes de qualquer coisa. Por quê? Porque a questão toda se resume a um dilema moral, e nada além disso. A reflexão automática e instantânea que se faz é: como pode uma instituição que milhões de pessoas consideram, em última análise, santa e divinamente instituída, que deveria ser a guardiã da moral no mundo (ainda mais sendo a sublime moral baseada no Amor, trazida por Cristo), se comportar de maneira tão absurdamente imoral? É este, e somente este, o problema.

_______Inquisição, simonia, indulgências, cruzadas... Por que essas coisas são chocantes, revoltantes e/ou desanimadoras para nós? A resposta é uma só, e é bem simples: porque são imorais. Se todas essas coisas fossem moralmente corretas, se fossem pelo menos moralmente aceitáveis, não haveria henhuma polêmica, nem dificuldade para entender, aceitar, e nós não estaríamos tendo esta conversa, agora. Tudo se resume a uma questão moral.

_______Se chegamos a um termo a respeito do que torna essas questões inaceitáveis, - a nossa noção de moral, - o próximo e óbvio passo é compreender o que significa moral. E para entender o que significa qualquer coisa, a melhor maneira é sempre a maneira mais simples. Ok, lá vamos nós: o que qualquer aluno do primeiro ano de qualquer ciência da área de humanidades precisa saber sobre moral é que ela é, basicamente:

"...um conjunto de normas e regras destinadas a regular as relações dos indivíduos numa comunidade social dada. O seu significado, função e validade não podem deixar de variar historicamente nas diferentes sociedades. Assim como umas sociedades sucedem a outras, também as morais concretas, efetivas, se sucedem e substituem umas às outras." 1

_______Compreendida esta noção fundamental, retomemos as nossas palavrinhas mágicas: História das Mentalidades. E o que vem a ser isto? História das Mentalidades é um disciplina da Historiografia cujos estudos enfatizam a maneira de pensar, interagir e sentir dos indivíduos que viveram num mesmo período histórico, fundamentados na dialética, na sociologia, filologia, arqueologia e, principalmente, na antropologia. É uma matéria fascinante. Mais do que fascinante, porém, trata-se de um estudo essencial e necessário. Se não fosse por essa consciência básica, elementar, de que a moral humana evolui com o passar dos tempos, seria completamente inviável analisar acontecimentos históricos ocorridos há tempos. O autor que eu citei acima, o espanhol Adolfo Sánchez Vázquez, é uma sumidade no assunto, referência absoluta para ética e moral (por isso comecei o post citando um cara que conhece muito bem o assunto). Vejamos o que mais ele tem a dizer:

"...Pode-se falar da moral da Antiguidade, da moral feudal, própria da Idade Média, da moral burguesa da sociedade moderna, etc... Portanto, a moral é um fato histórico e, por conseguinte, a ética, como ciência da moral, não pode concebê-la de uma vez para sempre (ou seja, ela não é rígida, imóvel, estática, definitiva, acabada, imutável), mas tem de considerá-la como um aspecto da realidade humana que é mutável com o tempo. A moral é histórica precisamente porque é um modo de comportar-se de um ser - o homem - que por natureza é histórico, isto é, um ser cuja característica é estar-se construindo ou autoproduzindo constantemente, tanto no plano da sua existência material quanto no da sua vida espiritual, incluída nesta a moral." 2
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_______Não sei se ficou claro. Trocando em miúdos, tudo que tentei fazer até aqui foi demonstrar que a moral não é uma coisa rígida, pronta e acabada, que exisitiu desde sempre da maneira como a entendemos hoje. A moral não pode deixar de variar historicamente, através das diferentes sociedades. Assim como as culturas se sucedem, também os conceitos de moral se sucedem e se subistituem uns aos outros. Nos tempos dos homens primitivos, por exemplo, a moral estava vinculada à noção de coletivo. - O coletivo absorvia o indivíduo. - Não se reconhecia a propriedade privada nem a divisão da sociedade em classes. Era uma só moral válida para todos os membros da comunidade (comum unidade), e o comportamente de cada um era regulado pelos princípios aceitos pelo grupo. O que os outros grupos (tribos vizinhas, no caso) aceitavam como certo não interessava, era simplesmente considerado errado, inválido, pecaminoso perante os deuses. Essa realidade era tão concreta nas mentes desse período histórico que a reparação de um mal causado a um membro da comunidade era coletiva: o derramamento do sangue de um era o derramamento do sangue de todos, e como tal deveria ser vingado e/ou punido/reparado por todos. Assim, uma mulher infiel não era castigada somente pelo marido traído, mas por toda a tribo. Um filho que desonrasse os pais ou transgredisse a moral comunitária era punido por todo o grupo, completamente excluído ou, em casos mais severos, sumariamente eliminado - leia-se assassinado - de modo exemplar. Não havia noção de individualidade, mas sim de tribo. Os que existiam fora daquele grupo eram considerados, em certo sentido, menos que humanos.

_______Somente sob esta lente é possível a leitura do Antigo Testamento da Bíblia, por exemplo. Testemunho pessoal: ler aqueles livros sem nenhum conhecimento complementar, sem o acompanhamento de um tutor qualificado, me deixou literalmente doente. Minha mente adolescente foi destroçada pelas cenas do Deus Todo Poderoso ordenando aos filhos de Israel, seu povo escolhido e eleito dentre todas as nações da terra, que trucidasse os povos inimigos, que assassinassem os velhos e crianças sem piedade, que arremessassem os bebês de peito contra as rochas... Um deus capaz de mandar um anjo para assassinar uma criança inocente (o filho do Faraó, que não tinha nada a ver com a história) para libertar seus protegidos, que não eram melhores que os egípcios em absolutamente nada. Como poderia aquele deus tribal, irado e guerreiro, que favorecia um pequeno grupo de seus filhos contra toda a humanidade que ele mesmo criara, ser o mesmo Inefável Pai do Amor ao qual Jesus se referia tão apaixonadamente? Minha recuperação psicológica durou décadas...

_______Mas essa é outra história. Importa no momento saber que esse tipo de confusão se dá exatamente, e somente, por não conhecermos o contexto histórico, cultural, político, etc, etc... de cada época. E quer saber de uma coisa fascinante? Vivemos o hoje sem ter a percepção da mentalidade agora existente. Seremos estudados daqui a 500 anos pelos historiadores do futuro, que saberão classificar o nosso modo de pensar atual. Imagine um professor de um tempo futuro dizendo à classe: "As pessoas que viviam lá nas primeiras décadas do século 21 acreditavam que podiam encontrar a felicidade nas posses materiais! E achavam o sistema capitalista muito justo, porque qualquer pessoa disposta a trabalhar duro seria capaz de conquistar uma posição social digna! Eles não consideravam os biologicamente incapazes de se adequar ao meio! As desigualdades sociais eram vistas como coisa perfeitamente normal e justa..." - E a classe toda, com toda a razão, exclama: "Aaaaahhhhh, mas que absurdo!"...

_______Sim, a moral muda. E parece evoluir, isto é, progredir. É quase consenso entre os estudiosos do assunto que, assim como os princípios e normas morais mudam com o passar dos tempos, essas mudanças e substituições estão numa relação de continuidade, de tal forma que a conquista de uma época ou determinada sociedade acaba por "preparar o caminho" para um nível superior que a substituirá. Existiria um progresso moral no correr da História.

_______Objetividade, no estudo da História, é reconhecer a complexidade do objeto das ciências sociais. Não sei se a esta altura já ficou claro o ponto central deste post, mas retomarei o assunto diretamente do tema central da conversa, a Inquisição e as Cruzadas.

Ler a continuação...

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1 VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética, 24ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 37;
2
Idem.


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