Rejeição e auto-rejeição

Aviso: o post a seguir contém reflexões profundas que podem não passar desapercebidas. Mas se você ler tudo e não notar nada de profundo, não se preocupe: você está perfeitamente inserido e enquadrado na realidade atual do mundo que o cerca.




Suponho ser comum nos irmãos mais velhos, enquanto crianças, sentir-se diminuídos na companhia de um irmão quatro ou cinco anos mais novo, a quem consideram um bebê precisando de proteção, e que tratam com superioridade. Assim, quando Russ, eu e Bill fazíamos uma cabana no bosque, com tábuas e papelão que recolhíamos nas construções de casas populares que os especuladores estavam levantando o mais rápido possível em toda aquela região de Douglaston, proibíamos rigorosamente John Paul, Tommy – o irmão mais novo de Russ – e a todos os amigos deles de se aproximarem de nós. Se tentassem chegar perto da cabana, entrar nela ou só olhá-la, eram expulsos a pedradas.

_______Quando eu penso agora naquele período da minha infância, a imagem que tenho do meu irmão é esta: parado no meio de um campo, a uns cem metros de distância das árvores onde havíamos construído nossa cabana, estava aquele garotinho de 5 anos de idade, olhando perplexo, vestindo calças curtas e uma espécie de jaqueta de couro, muito quieto, com os braços caídos ao lado do corpo, olhando em nossa direção, com medo de chegar mais perto por causa de pedradas, tão insultado quanto triste, com olhos cheios de indignação e mágoa. E, todavia, não se afastava dali. Gritávamos para que saísse daí e fosse para casa, atirávamos algumas pedras na sua direção, mas ele não ia embora. falávamos que fosse brincar em outro lugar, mas ele não se movia.

_______E ali ficava, sem soluçar, sem chorar mas zangado e infeliz, ofendido e tremendamente triste. Olhava, porém, fascinado para aquilo que estávamos fazendo, isto é, pregando sarrafos por cima de nossa cabana nova. Seu imenso desejo de estar conosco e fazer o que fazíamos não o deixavam ir-se embora. A lei escrita em sua natureza simplesmente dizia que devia ficar com seu irmão mais velho e fazer o que ele fazia: não conseguia entender por que esta lei simples do seu amor puro de criança estava sendo tão selvagem e injustamente violada.

_______Muitas vezes acontecia a mesma coisa. E, em certo sentido, esta situação terrível é o padrão e propósito de todo pecado: a vontade deliberada e formal de rejeitar o amor desinteressado por nós, pela razão puramente arbitrária de radicalmente não o querermos!

_______Queremos separar-nos desse amor. Nós o rejeitamos total e absolutamente e não queremos reconhecê-lo, simplesmente porque não nos agrada sermos amados. Talvez o motivo mais profundo é que o fato de sermos amados desinteressadamente nos lembre de que todos precisamos do amor dos outros e de que dependemos da caridade de outros para levar avante nossa vida. Recusamos o amor e rejeitamos o convívio, à medida que isto parece, à nossa perversa imaginação, implicar alguma forma obscura de humilhação.


MERTON, Thomas. A Montanha dos Sete Patamares. Petrópolis: ed. Vozes. 2005, pp. 27, 28.


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15 comentários:

Nanny Patty* disse...

Adorei este texto, realmente faz uma reflexão profunda de como nós nos tratamos nos dias de hoje, de como deixamos de lado sermos amados.
Meus parabéns!

Mizi disse...

Merton, me desculpe comentar assim algo que não tem a ver com o post. Na verdade, ainda nem li e não sabia que tinha post novo. Eu entrei aqui só pra poder contar isso. Depois eu leio o post e faço um comentário pertinente.

Bom, o que eu queria contar é que ontem eu experimentei um milagre. Ontem, algo muito incomum e totalmente extraordinário ocorreu-me de uma forma muito inusitada que mexeu profundamente comigo, justamente pelo modo que tem andado minha vida e pelos pensamentos que tenho tido. E Deus me provou (uma prova concreta) de que Ele me ama e que me deu tudo. Despojou-se de tudo por mim, para que eu tivesse certeza de que Ele me ama.

Ontem, Deus me disse: "meu filho, eu dou o meu sangue por você. Eu te amo." E uma vozinha dentro de mim, muito envergonhada, perguntou-se: "o que vc tem dado a Deus? Tem dado tudo a Ele? Tem dado a sua vida a Ele? O seu sangue a Ele?"

Meus amigos, de hoje em diante me esforçarei para ser verdadeiramente santo, segundo a vontade Dele. Pois só Ele se deu de tal forma a mim. Amigos, me ajudem com orações, pois provavelmente passarei por um período conturbado de tentações e de muitas forças que tentarão me desviar desse propósito de superação pessoal. E eu preciso me superar pessoalmente, para que eu possa verdadeiramente me dispor aos outros.

O milagre que ocorreu em mim não foi um delírio, não foi tampouco um evento paranormal. Foi presenciado por no mínimo umas 300 pessoas, embora eu suspeite que nenhuma delas (exceto eu) tenha percebido o milagre. Claro, era um milagre para mim. Ontem, meus amigos, o sangue de Cristo desceu-me pela garganta e entrou dentro do meu ser (não... acho que Ele não foi pra barriga). Nunca em minha vida havia consumido tal preciosidade. Olha que conheço muito be o sabor dos vinhos. Mas ontem, o que bebi não tinha gosto de vinho, não tinha temperatura de vinho. Era quente e parecia pulsar. Parecia vivo. Não tenho outra explicação. Tive medo de abrir a boca e constatar que aquilo não era o que parecia, embora segundos antes eu tivesse visto com meus olhos que parecia ordinariamente normal.

Prelúdio: ao chegar à missa, avistei um amigo de que gosto muito especialmente. Infelizmente, não tenho muito contato com ele, mas, mesmo assim, não impede de que haja entre nós um amor muito grande. Não pude me conter. Vi o Fábio (que às vezes chamo de Papa Fábio, pq ele me disse uma vez que queria ser papa... Rss) sentado lá numa das últimas cadeiras. Fui lá e dei um abraço muito carinhoso e (como posso dizer... abraço de verdade). Disse-lhe: "nossa, que saudade de você, amigo". Soltei Fábio e olhei em seus olhos. Estavem marejados. Eu disse: "o que vc faz aqui atrás. Seu lugar é lá na frente". Fábio riu e apenas se assentou.

(continua...)

Mizi disse...

Voltei ao meu lugar (à esquerda do altar, onde ficam os músicos). Olhei para ver se Fábio tinha mudado de lugar. Ele nao estava no mesmo banco de antes. Tampouco o vi nas primeiras fileiras. Apenas perdi o Fábio de vista. Só o encontrei novamente na hora da comunhão.

Pós-lúdio (isso existe? hehe).
Comunhão. Nunca se viu tantas comunhões na paróquia. Eu, cantando, nao percebi nada do que aconteceu. Mas apenas uma voz me dizendo "VEM". Eu não iria. Eu sabia que não ia, porque justamente naquele dia, horas antes, eu tinha cometido uma falta grave, inclusive discriminada no evangelho há pouco lido. Mas a voz disse "VEM". Eu tive vergonha. Não fui. Aliás, eu estava cantando. ótima desculpa para não ir. Ao final, sem filas... Padre voltando pro altar. Olha para mim, e acena com a cabeça, como quem diz: "vc vai comungar?" Dei um passo para traz. Mas a voz disse "VEM". Entãoo, inconscientemente, mexi a cabeça pra cima e pra baixo (isso é um sim... meu Deus... é um sim... o que estou fazendo? Bom, agora já é tarde). Pensei que o padre fosse ao meu encontro à esquerda, como faz quando não deixamos os instrumentos para entrar na fila. Mas ele não fez isso. Foi para frente do altar, pegou o cálice e olhou para mim. Fiquei sem saber o que fazer. A voz me empurrrou ("VEEEEEMM" dentro de mim). Olhei pra traz e nada. Olhei pra frente. O Padre acessou para eu prosseguir. Meu Deus, eu subi no altar...

O.O

No altar!! A igreja toda vendo. Meu deus... Esperei que o padre levantasse aquele cálice, tirasse uma hóstia, anunciasse baixinho "o corpo de Cristo", e me desse. Mas ele me estendeu o cálice para eu pegar. Peguei e olhei. Era vinho. Olhei para ele sem entender. Ele disse: "Sangue de Cristo. Pode tomar". Mas a outra voz (a que tinha dito VEM) disse "TOMA... VOCÊ NÃO QUERIA? AGORA TOMA!". Achei que fosse desmaiar. Olhei para todos, mas parece que todos estavam bem alheios, ainda que transcorresse aquele estranho fato de que um membro do canto estivesse no altar tomando o cálice do padre. Será que alguém se perguntou o porque? Bom... eu não posso julgar. Nem mesmo eu perguntei "porque". Eu sabia exatamente o porque. Eu sabia. E quando levantei o "pote" para poder beber, dei o gole, tive vontade de regurgitar. O braço desceu como se quisesse devolver o líquido que eu antes tentara colocar pra dentro. "Meu Deus, o que é isso? Não é vinho." Tive a impressão de ter quase devolvido o líquido pro "pote", mas a mão do padre segurou a minha por baixo e a levantou novamente (da mesma forma que, quando a gente é criança, e está tentando tomar dipirona líquida, a gente leva o copo à boca, mas na mesma hora desce o braço por causa do forte cheiro do remédio que causa ânsia de vômito, e nossos pais seguravam nossos braços para nos forçar a engolir... como quem diz, "toma essa remédio. Se não tomar por bem, vai ser na marra"). Foi isso que o padre fez. E Ele desceu pela garganta. O que era Aquilo? Era quente e "pulsava". Meu Deus... o que era aquilo. Só me lembro de ter voltado para o meu lugar e sentido uma forte onda de calor. Provavelmente devo ter ficado vermelho, como se tivesse corrido.

(continua...)

Mizi disse...

Meu coração asselerou. E minha boca só abriu para poder cantar a música do "ação de graças", que aliás já esperava para se iniciar... mas quase não saiu voz... Eu estava lutando com Aquela outra voz que agora dizia "Eu te dei o meu Sangue. Você ainda duvida que te amo?"

Não sei porque, mas percebi uma estranha relação entre o fato ocorrido com o Fábio, e esse outro fato ocorrido comigo. E talvez quem já leu isso no evangelho, deva saber do que estou falando. Mas disso eu não vou falar, porque é pessoal. Muito pessoal. E não quero dizer o que aconteceu. Mas apenas como me senti.

Não sei se imaginei tudo isso (daquele estranho sabor na boca, quente e pulsante). Só sei que o fato ocorreu. Ou seja, eu, inesperadamente, fui convidado a tomar o cálice, na boca do cálice. Nunca, em minha vida toda, isso tinha acontecido. Nunca tinha visto acontecer com ninguém. Geralmente, apenas o padre toma o cálice. Porque ele derrama as migalhas da hóstia no cálice e bebe tudo para não sobrar nada. A única vez que tinha tomado o vinho consagrado foi na primeira comunhão, e mesmo assim, era a hóstia mergulhada no vinho (como no máximo é o que acontece nas paróquias aqui de Brasília, isso qd tem muito vinho... pois o normal mesmo é só serem distribuídas hóstias). Por que o padre fez isso comigo? Por que me expôs? Na frente de todos? Será que ele sabia de algo? Mas eu nunca me confessei com ele. Aliás, há muito tempo não me confessava com padre nenhum. Por vergonha, claro. Seria um milagre?

Pós-pós-lúdio (totalmente lúdico na minha opinião): após os avisos finais, o padre disse que ia passar um videozinho para a comunidade. Era um clip, com uma música muito bonita, que dizia “Meu filho me perguntou se, se Ele desse tudo, o que poderia acontecer... e eu respondi. Meu filho, uma atitude dessas poderia mudar o mundo”. Era mais ou menos isso que dizia a letra da música. Era uma música em inglês... mas tinha legenda.

Bom... não precisa dizer mais nada. Não creio eu que tudo isso tenha sido normal. Muito pelo contrário. Estou acostumado com as liturgias, e nada nem parecido com esse estranho fato aconteceu. A não ser que tenha acontecido com outra pessoa. Pois, embora muitos tenham visto, ninguém parecia ter notado. Digo isso porque toda minha família estava lá, e todos agiram como se nada de mais tivesse acontecido. Até perguntei a minha mãe: “mãe, vc viu o que o padre fez comigo? Meu Deus, que vergonha.... que vinho quente... que...” eu nem conseguia me expressar... estava totalmente confuso... não saía nenhuma palavra logicamente formada. Ela me disse: “vi o que? Ué, vc foi lá na frente, neh?” Tá... e fiquei pensando “será mesmo que ela achou isso tudo normal? Não é posível”. Então perguntei “vc não viu que tomei do cálice lá na frente?” E ela disse: “Vi, ué”... e mais nada... Desisti de tentar entender... Não perguntei mais nada.

Bom, está aí algo incomum. Algo que resolvi compartilhar, para dar testemunho de que Deus Às vezes chama à Vida até mesmo aqueles que se acham "vergonhosos", "indignos". E eu muito tenho vivido isso.

Irmãos, se puderem, orem por mim.

Camy Andrade disse...

Merton, na realidade o que me veio a mente no momento em que li o post " Rejeição e auto-rejeição", foi um despreparo por parte dos responsáveis "pais", de vocês, pois na realidade a rejeição feita aos irmãos mais novos nas brincadeiras dos irmãos mais velhos devem ser corrigidas e observadas e orientadas pelos pais, é uma tendencia natural dos irmãos essa super autoridade, mas o que deve prevalecer entre irmãos é o sentimento de apoio, companherismo, proteção e muito amor e respeito um pelo outro, e isso se aprende...Fiquei imaginando ao terminar de ler o post, como é a relação entre esses irmãos na idade adulta?? E aí fiquei imaginando a fragilidade e a falta de segurança que pode existir entre vocês hoje,pois isso tudo se adquire na convivência e no apoio que devemos aprender na infância e nas brincadeiras de infância com os nossos irmãos.Um abraço companheiro.

Fiat Lux disse...

Mizi,

Que acontecimento lindo esse q vc nos contou, fiquei muito tocada com a emoção de suas palavras!

Engraçado q eu fiquei lembrando muito de vc esses dias q estive ausente ( problemas com a internet).

Gostaria apenas de dizer, em relação ao milagre do vinho, o seguinte:

Você merece!

Em relação as possíveis tentações q o aguardam, tenho certeza q vc consegue superar tudo com esse Amor q Ele te demonstrou, e com essa pureza q vc possui dentro do coração.
Vou orar e pedir q Ele lhe traga confiança, paciência(consigo mesmo) e paz interior nessa jornada.
Te admiro muito, filhão!

Ah, antes q eu me esqueça:

Parabéns pra vc, por esta data tão querida, muitas felicidades e muitos anos de vidaaa!!

FAM :)


Merton, parabéns atrasado pelo seu niver irmão!
Bjs

H K Merton disse...

Oi, NANNY PATTY! Seja bem vinda. Obrigado pelo comentário, o seu blog é bem interessante, sabia?

H K Merton disse...

Olá, CAMMY ANDRADE, bem vinda!

Parece que houve uma pequena confusão. Na verdade, o que está relatado no post não aconteceu comigo, o autor do blog. É um trecho do livro "A Montanha dos Sete Patamares" do Thomas Merton, meu "ídalo". =P~

Ele é meu "ídalo" porque foi através dele que entendi que não é preciso buscar alguma tradição distante, exótica e diferente, lá no outro hemisfério do nosso planeta, para ser verdadeiramente místico. Ao contrário.

Nele, Thomas Merton, e em outros que conheci depois, percebi que a mística mais profunda e transformadora estava justamente ali na esquina, naquela igrejinha singela, na religião da minha infância...

Isso foi tão marcante que adotei o sobrenome dele no meu nick. Abraço!

H K Merton disse...

MIZI,

"...me desculpe comentar assim algo que não tem a ver com o post"??

Isso foi uma piada? Espero que sim, porque, irmão, o seu comentário foi mil... não mil não, foi um milhão, um bilhão... Foi um zilhão de vezes mais importante que o conteúdo deste post! Tanto que vai virar um novo post, junto com a minha resposta, se você me permitir.

Leon disse...

Legal você transformar sua resposta em um Post,Merton.
Tou ansioso pra ler.
Abraços.

Camy andrade disse...

Merton, obrigada pelo esclarecimento fiquei feliz em saber que vc realmente se preocupa com os leitores e os comentários feitos em seu blog. Ah! prometo ler o livro " A montanha dos sete patamares", que não tive oportunidade de ler ainda. Beijos e desculpa-me o mal entendimento. Um forte abraço.

Mizi disse...

Obrigado pelo parabéns, mãe Fiat. Mizi tb ama... Rs.

Merton, Grão-mestre... vc agora provavelmente já sabe tudo sobre mim. Então, pega leve na resposta, e manda ^ver no seu post. Hehe. Na verdade, o intuito é fazer com que "diminua eu" e "cresça o Senhor". Eu queria mais que tudo que as pessoas entendessem que a Eucaristia é Real é Verdadeira. E Ela salva... ...como está me salvando. E eu nunca mais vou duvidar disso.

Abraços!

H K Merton disse...

CAMY,

Se fosse para escrever só para mim mesmo, ignorando os comentários, eu continuaria usando cadernos e guardando nos meus armários, como fiz até um tempo atrás, antes de existir essa ferramente maravilhosa chamada blog.

Valorizo demais a participação dos leitores. A interação entre aquele que escreve e os que lêem o que foi escrito é a base e o princípio de tudo, poxa...

Uma dica: o preço do livro novo (maravilhoso) na livraria é R$60,00. Mas no “Estante Virtual” achei por até R$18, R$15 e até R$12,00. Dá uma olhadinha lá:

http://www.estantevirtual.com.br/qtit/A-Montanha-dos-Sete-Patamares

O serviço funciona e eu recomendo.

Um abraço pra você!

H K Merton disse...

MIZI,

O que é isso, nobre cavaleiro? "Pega leve"?! Cadê seu espírito de guerreiro da Luz?

Brincadeira, meu irmãozinho querido. Já comecei a resposta, mas o assunto é tão sério e importante para mim que não consegui concluir hoje, como pretendia.

Mas já adianto que testemunhos como esse são poderosíssimos, e o que você relatou mexeu demais comigo. Abraço forte, amado!

Camy Andrade disse...

Merton, obrigada pela dica do valor do livro. Você é muito especial, e tenho uma boa admiração pelo que você escreve. UM abraço.