Homem simples


Simple Man- Lynyrd Skynyrd

Mama told me when I was young
Come sit beside me, my only son
And listen closely to what I say
And if you do this it will help you some sunny day

Take your time, don't live too fast
Troubles will come and they will pass
Go find a woman and you'll find love
And don't forget, son there is someone up above

And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?

Forget your lust for the rich man's gold
All that you need is in your soul
And you can do this if you try
All that I want for you my son?
Is to be satisfied

And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?

Boy, don't you worry, you'll find yourself
Follow you heart and nothing else
And you can do this if you try
All I want for you my son
Is to be satisfied

And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?

Baby, be a simple man
Be something you love and understand
Baby, be a simple man


Tradução: Homem Simples

Mamãe me disse quando eu era jovem
Venha sentar-se ao meu lado, meu único filho,
E escute com atenção o que eu digo.
E se você fizer isto irá lhe ajudar em algum belo dia.

Leve seu tempo... não viva tão rápido,
Dificuldades virão e passarão.
Vá encontre uma mulher e encontrará amor,
E não esqueça filho, Há alguém lá em cima. (Deus)

E seja um tipo simples de homem. (Refrao)
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.
Você não quer fazer isso por mim filho,
Se você puder?

Esqueça seu desejo pelo ouro do homem rico
Tudo aquilo que você precisa está em sua alma,
E você pode fazer isto se você tentar.
Tudo aquilo que eu quero para você meu filho,
É estar satisfeito.

E seja um tipo simples de homem. (Refrao)
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.
Você não quer fazer isso por mim filho,
Se você puder?

Menino, não se preocupe... você se achará.
Siga seu coração e nada mais.
E você pode fazer isto se você tentar.
Tudo que eu quero para você meu filho,
É estar satisfeito.

E seja um tipo simples de homem. (Refrao)
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.
Você não quer fazer isso por mim filho,
Se você puder?

E seja um tipo simples de homem.
Seja algo que você ame e entenda.
Seja um tipo simples de homem.

A História Secreta da Raça Humana - Discovery Channel

O vídeo abaixo é um trecho de uma entrevista com os autores Michael A. Cremo e Richard L. Thompson sobre o livro "A História Secreta da Raça Humana", ou simplesmente: "Arqueologia proibida", lançado em 2004 pela editora ALEPH. O site do livro é http://www.mcremo.com

Os autores mostram evidencias de que a história arqueológica "oficial" da vida na Terra pode ser completamente diferente daquilo que é ensinado nas escolas. Interessante.




E tem mais essa: clique aqui e assista Richard Dawkins reconhecendo a Teoria do Design Inteligente como possibilidade científica autêntica. Depois dessa teve muito ateu perdendo o chão...


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Agora é isso...



Continuando a postagem anterior, e respondendo às perguntas deixadas pelo leitor João Luiz (que disse que leu o blog inteiro, depois perguntou, perguntou, depois sumiu). Passando à pergunta 2...


2) Depois que você se converteu ao catolicismo, como ficou o seu espírito de buscador? Suas dúvidas foram respondidas, sua angústia foi acalmada? Você não busca mais, não se pergunta sobre as coisas mais? Está calmo com as respostas que a igreja dá?


_______Bom, João (gosto deste nome, é forte, amigo, arquetípico, transcendente...), sendo bem direto, depois que eu me converti ao catolicismo... A minha paz acabou, para sempre. A tranquilidade, a quietude de espírito, que eu tanto prezava nas religiões orientais, saiu pela porta, foi embora sem se despedir e, até hoje, não voltou.

_______Chocante? Deve ser. Mas a minha experiência de cristianismo é muito intensa e profunda, como é a minha cara em tudo. Não sou morno, e o mais próximo que eu já fui capaz de chegar disso foram minhas experiências no hinduísmo, brahmanismo e budismo. Talvez por isso tenha me encantado tanto, na época. É muito agradável ser morno, crer que tudo está bem e eu não tenho que fazer nada, não tenho que me preocupar com nada... É isso que eles dizem, por lá. Mas quando me tornei cristão, o morno se tornou fervente, e eu gritei: Ai! Está queimando!

_______Em muitos outros momentos eu me assustei, me afastei um pouco, e em outras vezes corri e tentei fugir mesmo, porque o Jesus que eu encontrei é um fogo que queima fundo, até os ossos, é um DEUS que atrai e repele a um só tempo. É um Jesus muito diferente daquele cara vestido de branco, sentado placidamente em posição de lótus, olhando o horizonte, cabelos ao vento e olhos azul profundo. E quando eu tive medo, achando que não seria capaz de suportar o "tranco", e corri, fugi da raia, nessas ocasiões me senti gelado, trêmulo, como que mergulhado num mar de gelo. E DEUS ria de mim, eu, pobre tolo, covarde, identificado com o tempo, apegado aos prazeres temporários, efêmeros e fúteis deste mundo...

_______Mas DEUS ri para me acalmar, para tornar a cruz mais leve, para se fazer próximo. Não ri com desdém, porque eu sei que ele também sofre por mim, também sente quando eu fracasso, quando decepciono. E essa é uma parte muito difícil de ser cristão: que DEUS é esse que ri, que sofre por mim, que me ajuda a levar minha cruz?? DEUS não "deveria" ser magnânimo, Todo-poderoso, impassível, imóvel, completamente alheio aos sentimentos e fraquezas humanas? E não seria mais fácil ele não me dar uma cruz para carregar, antes de qualquer coisa, ao invés de me colocar esse peso nas costas para depois me ajudar a levar? O Senhor me perdoe, pois eu sei que é isso que Ele quer para mim, mas em minha caminhada eu senti saudades do tempo em que acendia varetas de incenso e recitava mantras sem saber direito o que estava dizendo, porque eram tempos de paz. Mesmo que fosse uma paz fundamentada em mentiras e falsidade. Não digo que as religiões orientais sejam mentirosas e falsas, mas elas representavam um caminho falso para mim. E ninguém pode se realizar se não for si mesmo.

_______Quando cheguei ao catolicismo, exclamei: "aqui é de verdade!"... Eu havia sido levado até ali, mas a minha convicção não era só por esse motivo. Eu sabia, no mais íntimo do meu ser, no mais profundo da minha alma, que era ali, exatamente ali, que a Verdade que eu buscava desde a infância me esperava para se revelar. Só não sabia que eu teria que persegui-la, num jogo divino de gato e rato que parece nunca ter fim. - Mas que me torna mais forte a cada tropeço, a cada cabeçada, a cada derrapada, e também a cada acerto.

_______Eu já tinha passado por inúmeras salas de meditação, já tinha me retorcido em busca do Yoga, já havia me deslumbrado com as filosofias Advaita... E não havia encontrado DEUS em nenhum daqueles lugares. Mas no catolicismo DEUS se manifestava de modo tão claro, sua presença era tão concreta que chegava a me deixar tonto, desnorteado... e às vezes também extasiado. Mas Ele sem dúvida estava ali. Eu o vi, além de tudo, na coerência, nas vidas dos santos, - mortos e vivos, - na prática diária... e nos Milagres. Nem vou considerar, nesta análise breve, os inúmeros sinais recebidos, por sua natureza intrinsecamente subjetiva. Embora, em muitas ocasiões, seja muito difícil ignorá-los.

_______Não, não encontrei paz no cristianismo, a não ser em momentos especiais. - Momentos tão especiais e avassaladores que bastam para compensar todo o restante. - O cristianismo não é um caminho de paz. Não é suave, é radical. É conflituoso, gera conflito interno, por sua própria natureza, pois é a busca incessante do ser humano por negar a si mesmo. Os maiores santos e santas foram heróis e heroínas na arte da auto-negação. Ser cristão é lutar contra si mesmo, todos os dias. Não há muito espaço nem muito tempo para a paz, a não ser em breves pausas no combate, que são consolação e descanso para a alma extenuada.

_______Ok, ok, estou pintando um quadro assustador. Mas procure manter em mente que este quadro é parcial. Só estou respondendo às suas perguntas a partir da perspectiva do quadro geral, tendo em vista aquele menino buscador que cresceu, amadureceu e se vestiu com as cores da Igreja para continuar a Busca. Foi o meu espírito de buscador sincero e honesto consigo mesmo que me levou à Igreja, pois DEUS, sem nenhuma sombra de dúvida, me conduziu a isso. DEUS me abriu essa porta e ordenou: entre. Obedeci, confesso, cheio de medo. Ainda tenho medo hoje, porque é uma opção que exige coragem, e minha coragem às vezes falha. Mas é a Verdade. É o que eu queria e busquei a vida inteira. Para o menino que queria encontrar a Verdade, foi a única opção. A partir do momento em que se entra por essa porta estreita e se toma este Caminho apertado, é um aprender sem fim.

_______Mas é compensador esse Caminho. É gratificante, é transcendental, é tudo! É o que dá fundamento e base, é o que faz feliz, é o que consola nas dores, o que realça e dá cor às alegrias desta vida! É pura loucura! No fim, é simplesmente ser feliz!

_______Uma explicação: estive falando em cristianismo, em ser cristão... Mas você me perguntou sobre catolicismo. É que, para mim, as duas coisas são absolutamente indissociáveis. Honestamente, não vejo diferença entre catolicismo e cristianismo autêntico. No mundo de hoje, vejo muita deturpação escondida sob o rótulo de "cristianismo", mas que não tem nada a ver com o puro e verdadeiro cristianismo. Bem ou mal, a Igreja Católica é a Igreja deixada por Cristo sobre a Terra, e quem se debruçar sobre a questão com espírito desarmado e puro, isentando-se de preconceitos e medos, vai acabar enxergando isto.

_______O cristianismo é, por sua própria natureza e essência, católico, isto é, universal. Não existe cristianismo da "igreja X", "igreja Y", "igreja Z"... Não é possível ser Igreja jogando-se fora o testemunho dos santos, o exemplo de Maria, a sabedoria de S. Tomás de Aquino, Sto. Agostinho, S. João da Cruz, etc, etc... Ser igreja não é seguir um indivíduo que simplesmente leu a Bíblia, alugou um salão e chamou de igreja, registrando um nome fantasia no cartório. Não. E também não é a interpretação pessoal deste ou daquele, por mais sábio e até honesto que seja. O cristianismo, isto é, a Igreja de Cristo, é a caminhada de um povo, que se iniciou há dois milênios e continua ainda hoje, pois as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela.

_______Esta Igreja precisou organizar-se, hierarquizar-se, por questões puramente práticas. Não haveria como ser diferente. Nesse processo, ao longo dos séculos, inúmeros erros foram cometidos, muitas deformações surgiram, e continuam surgindo. Existiram, existem e por certo continuarão existindo falhas humanas daqueles que gerenciam a "máquina" da Igreja na Terra. Mas existe uma Igreja dentro da Igreja, que é divina, que se mantém imaculada, que permanece lá, sob toda a crosta de impureza, intocada, e pode ser alcançada por todo buscador sincero. Às vezes, essa Igreja se manifesta através de visões, de Milagres, alguns grandiosos, outros discretos. Às vezes, essa Igreja santa e espiritual manda sinais sutis àqueles que a procuram sem saber, e sem saber onde ela está, e às vezes são sinais imensos, tremendos. Às vezes, um câncer incurável é curado. Uma face destruída é reconstituída. Outras, um braço ou uma perna são restituídos. Um santo(a) é desenterrado décadas depois de sua morte e seu corpo está inteirinho, preservado, exalando perfume... Às vezes, um santo voa, literalmente! Às vezes, outro santo aparece em dois ou mais lugares ao mesmo tempo! Outros ainda passam anos a fio sem se alimentar, mantendo o vigor físico... Às vezes, o vinho vira Sangue, o pão vira Carne. Às vezes, a Virgem Maria ou o próprio Senhor Jesus Cristo aparecem para algum vidente, e o sol muda de lugar, os cegos voltam a enxergar, a estéril concebe e dá a luz... Ou uma criança morta ressuscita.

_______São Sinais que demonstram que essa Igreja Celestial subsiste, que é real e está ao nosso alcance, e que não devemos nos deixar iludir com as falhas da Igreja Terrestre, visível, gerida por homens imperfeitos, e nem pelos gritos dos seus inimigos. Por isso coloquei uma foto do Papa Bento XVI, este imenso homem de Deus, este santo herói da fé, humano, fraco, humilde, velhinho, sentadinho num banco do jardim. Por que odiar um cara que tem sete doutorados, é considerado o maior teólogo vivo do nosso planeta, que poderia estar rico como autor e palestrante, mas prefere abraçar uma vida de total renúncia, jejua semanalmente, acorda todos os dias às 5h da manhã para rezar e precisa ser exemplo máximo de retidão e santidade para milhões? Podem existir motivos legítimos para discordar do homem, mas o ódio explícito que vemos não tem outra explicação a não ser esta: "Sereis odiados por causa do meu Nome".

_______Não; minhas dúvidas não foram todas respondidas; - até porque eu não sou um cara simples, que tem poucas dúvidas. Eu tenho muitíssimos questionamentos e perguntas, - mas elas vão sendo respondidas a cada dia, a cada novo passo nesse Caminho. E o bom desse processo difícil e lento é que, quando uma resposta vem, ela é bem fundamentada, é sólida, não se baseia em "achismo", em conjectura, não é algo imaginado, construído pelo intelecto humano. São respostas que satisfazem e dão liberdade e, aí sim, paz.

_______Alterno períodos de intensa paz e alegria com períodos de angústia profunda, que por sua vez me levam a novas fases de paz, que vai se tornando ainda maior. É um processo de eterna construção de si mesmo, é dinâmico, muitas vezes atribulado. - Por isso falei que o cristianismo não é um caminho de paz. E aí acho que respondo a todas as outras perguntas: Sim, eu continuo buscando, pois o cristianismo que descobri é buscar mais e mais; sim eu me pergunto sobre as coisas, sobre os porquês, e muitas vezes sou impaciente, mas a grande maravilha é que as respostas vêm, e são sempre perfeitas e saciam plenamente a minha sede de buscador. Até surgir uma nova pergunta, e aí começa tudo de novo. Não, eu não estou "calmo", isto é, conformado com as respostas que a Igreja me dá, ao menos não até que eu consiga digerir, compreender e assumir tais respostas.

_______Importante notar que as respostas dos homens que representam a Igreja nem sempre são as respostas da Igreja. Mas para cada resposta da Igreja, a Celeste, que eu refutei, até hoje, acabei sendo obrigado, algum tempo depois, a voltar atrás e dar a mão à palmatória, dizendo: "eu estava errado; a Igreja estava certa, e agora entendo porque".

_______Até a próxima...


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É mais ou menos isto, agora...



Continuando a postagem anterior, e respondendo às perguntas deixadas pelo leitor João Luiz. Comecemos pelo começo, pergunta 1...


1) Você encontrou o que estava procurando? Encontrou Deus? Encontrou a vida eterna? Definitivo?


Encontrei muitas coisas na Busca, sim. Por algumas vezes, em alguns episódios extraordinários da minha vida, que tentei descrever aqui, e você também leu e comentou, eu vivi a indescritível experiência de estar perto de Deus, sim.

É interessante responder a essa sua primeira pergunta, a pergunta de alguém que leu a minha história desde o começo e quer saber o desfecho, o ato final, o que aconteceu com o herói na conclusão da grande saga. Sabe, aquilo que eu imaginava, aquele contato direto, com todas as respostas objetivas, diretas e claras, como eu queria no começo, não, eu não encontrei essas coisas. Eu recebi um chamado, e depois tive uma série de confirmações desse chamado, confirmações da fé que eu abracei. Mas continua sendo fé.

Aqui, é importante falar de fé. Um amigo me disse, uma vez, que não acredita em ateísmo, que é impossível viver sem fé. Interessante essa afirmação, não? Não acreditar em não acreditar... Para explicar o conceito, ele deu um exemplo bem simples: um sujeito que vai à padaria pela manhã, compra alguns pães e talvez um pedaço de bolo. - Até para realizar um gesto simples como esse, é preciso ter fé. Fé naquele estabelecimento comercial, naquela padaria, no padeiro, na pessoa que está vendendo o pão e o bolo, no fornecedor da padaria, etc. É um gesto de fé consumir produtos de qualquer estabelecimento, pois o pão poderia estar envenenado, o bolo estragado, poderia ser prejudicial à saúde, por exemplo. O balconista poderia mandar uma cusparada no recheio do bolo, antes de embrulhar, ou coisa pior, só por estar com raiva da vida naquele dia... Mas o homem vai lá, compra o pão, o pedaço de bolo, leva para casa e come. É um ato de fé.

Esse raciocínio diz que tudo, absolutamente tudo o que fazemos, está baseado na fé em alguma coisa. Eu estou aqui, agora, e acredito que minha esposa não está me traindo, que meu filho não está cabulando aula, que vale a pena fazer o que estou fazendo, seja lá o que for, porque é o que deve ser feito por mim neste exato momento. Tudo é um gesto de fé.

Não se vive sem fé. Todos nós temos fé em alguma coisa. Fé na ciência, por exemplo. E é da incerteza das coisas comumente aceitas como certas é que nascem as revoluções, para o bem e para o mal, as grandes invenções, e também... as teorias da conspiração. Foi o Bush quem mandou explodir as torres gêmeas, para ter um álibi para começar a guerra e se apossar do petróleo... Os Illuminati, aliados aos maçons, estão tramando a dominação do mundo, o que, se não tomarmos cuidado, vai acontecer em breve... Elvis não morreu... E a Nike comprou a copa do mundo de 1998 para a França, pois o Brasil nunca teria perdido aquela final, se não estivesse, inteirinha, subornada...

Sem fé, a cabeça pira, entra em parafuso. Todos temos fé em alguma coisa. Ter fé faz parte da experiência humana mais básica de todas: viver. E talvez até os animais, num nível instintivo, tenham fé. Minha gata deita-se sob a cadeira onde eu sento para escrever, bem debaixo dos meus pés. Ela tem uma grande convicção de que eu não vou pisar nela, que vou tomar cuidado e não vou me afastar para trás, passando com as rodinhas e meus 93 quilos sobre o seu rabo ou pata... ou será que ela simplesmente não tem noção do perigo? Acho que não, porque quando vem alguém aqui em casa que não gosta de gatos, ela nem chega perto. Mas quando é alguém que gosta dos bichanos, ela se aproxima, e se fizer um agrado ainda se aninha no colo dessa pessoa.

Bem, bem, a fé é um fator intrínseco da vida. Sem fé em alguma coisa, a vida seria impossível. E o objetivo máximo da fé é, como não poderia deixar de ser, DEUS: não podemos ver nem tocar, não podemos ouvir, não podemos sentir usando nenhum dos nossos sentidos físicos. Mas cremos que é o responsável por nossas vidas, por tudo o que somos, temos, vivemos... Ora, tudo o que podemos comprovar, como objetivamente real, neste mundo, se dá pelas vias dos sentidos físicos, certo? Afinal, vivemos num Universo físico. Tudo o que passa daí se inclui na categoria do subjetivo. E se é subjetivo, é pessoal, não pode ser compartilhado com outras pessoas, não pode ser provado nem demonstrado. a não ser... pela fé. Como uma ideia como essas pode ter sobrevivido por tanto tempo é algo de enlouquecer. A maior prova da importância fundamental da fé na experiência humana.

Se eu encontrei o que estava procurando? A resposta mais sincera que posso dar, a esta altura da minha vida, é bem simples: não. Acho que cheguei perto, talvez bem perto. É nesse ponto que estou agora, num quarto escuro, tateando, chamando sem cessar: DEUS? Estais aí? Estou no caminho certo? É isso mesmo o que quereis de mim? Qual deve ser o meu próximo passo?

Às vezes, posso jurar, ouço uma voz muito suave me dizendo: "Sim, continua tentando, que Eu Sou próximo, não desanima!"... E, às vezes, é mais do que uma impressão, pois as comprovações daquilo que ouço se traduzem em efeitos concretos, palpáveis, bem reais.

O que tenho percebido é que DEUS parece querer que eu o procure, que eu o encontre por meus próprios esforços ou, ao menos, por minha persistência e determinação. Ás vezes sou tomado por dúvidas terríveis, e às vezes uma certeza imensa me invade, me aquece e conforta.

Disse que não encontrei o que procurava, porque o que procurava era uma certeza, uma resposta clara, um Encontro definitivo, perene, pleno, estável. Não encontrei estas coisas. Encontrei uma batalha, uma Busca depois da busca, que parece ser infinita enquanto durar esta vida.

Encontrei DEUS. Mas não como eu esperava. A vida eterna? Sim. Mas não como eu esperava. Algo definitivo? O que pode ser mais definitivo do que o Agora?




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Perguntas aguardando respostas

"Boa tarde, H K Merton. Meu nome é João Luiz, sou uma pessoa calma e tenho interesse pela espiritualidade desde que eu nasci, eu acho. Precisei de uma tarde inteira e uma manhã e uma parte de uma outra tarde para ler a história da sua vida. Tentei ler tudo com calma e pulei poucos posts. Comecei a ler "do começo"e não consegui parar mais! Me identifiquei demais com a sua história.

Algumas partes me chamaram muita atenção, e algumas me fizeram ir numa viagem que mudou a minha vida. Você escreve muito bem, e deu para ver a evolução na sua capacidade narrativa do começo até o fim. Cada vez melhor. No começo você escrevia muito, heim?

Gostaria de comentar com destaque as partes que falaram do problema do mal, as séries em busca da libertação final, a sequência do grande milagre que mudou tanto a sua vida... também li uma boa parte dos comentários e as suas respostas. Eu vi que as vezes você parecia ansioso, as vezes muito calmo, outras vezes arrogante, outras vezes você dava respostas muito precisas, muito perfeitas mesmo, para as perguntas que os outros lhe faziam. Virei seu admirador. Entendi o seu modo de pensar, meditei com você.

Estou transformado, eu fui mais um que você ajudou, mais uma vida que você transformou com a sua história e a sua generosidade em compartilhar as coisas que você aprendeu e viveu.

Mas de tudo, uma coisa ficou na minha cabeça e no meu coração, que eu preciso muito perguntar. Sei que ultimamente não ta dando tempo para responder e interagir com os seus leitores como você fazia antes, mas mesmo assim, se puder, me responda essas perguntas:

1) você encontrou o que estava procurando? Encontrou Deus? Encontrou a vida eterna? Definitivo?

2) Depois que você se converteu ao catolicismo, como ficou o seu espírito de buscador? Suas dúvidas foram respondidas, sua angústia foi acalmada? Você não busca mais, não se pergunta sobre as coisas mais? Está calmo com as respostas que a igreja dá?

3) a visão que você teve (na missa) foi muito importante pelo que eu notei ,mas você não está apoiando a sua fé numa visão? E se a visão fosse um engano? A mente as vezes engana a gente, não é mesmo? E se você de repente descobrisse que toda a visão não foi verdadeira?

4) como está a vida do H K Merton hoje? Qual é o seu pensamento? o que você fez par acalmar aquele espírito de questionador que tantas perguntas fazia e nunca se contentava com nenhuma resposta? Qual é a sua mensagem para os seus leitores hoje em dia?

Obrigado, querido mestre !

João Luiz..."



Olá, João Luiz! Obrigado por todos os elogios e pela amizade. Estava precisando que alguém comentasse algo assim, isto é, que alguém me fizesse estas perguntas fundamentais. No momento, porém, estou fechadíssimo para balanço. Assim que possível, venho responder às suas dúvidas, ok? Por ora, deixo um grande abraço fraterno para você, e duas pequenas observações: primeira, tomei a liberdade de corrigir pequenos erros de digitação na sua mensagem, antes de publicar em forma de post. Segunda, se você leu quase tudo que escrevi neste blog, deveria ter aprendido que eu não sou mestre nenhum!



Até breve, se Deus quiser...


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Entrega



"Ó meu Jesus, Vós sois o Cristo, meu Pai Santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande!

Vós sois meu Bom Pastor, meu único Mestre, meu Auxilio todo bondade, meu Bem-amado de arrebatadora Beleza, meu Pão da Vida, meu Sacerdote Eterno!

Vós sois meu Guia para a Pátria, minha Luz verdadeira, minha Doçura toda Santa, meu Caminho direto. Vós sois minha Sabedoria sublime, minha Simplicidade pura, minha pacífica Concórdia. Vós sois toda a minha Defesa, minha preciosa Herança, minha eterna Salvação.

Ó Jesus Cristo, Mestre adorável, porque é que eu amei ou desejei em toda minha vida outra coisa fora de Vós, Jesus, meu Deus?! Onde estava eu quando não pensava em Vós?! Que o meu coração, ao menos a partir deste momento, só arda em desejos de Vós, Senhor Jesus; que só para Vos amar ele se dilate!

Desejos da minha alma, correi doravante: já basta de delongas! Apressai-vos a atingir o fim por que aspirais, buscai em verdade Aquele que procurais!

Ó Jesus seja anátema quem não Vos amar! Seja repleto de amargura! Ó doce Jesus, sede o amor, as delicias e o objeto de admiração de todo coração dignamente consagrado à Vossa glória!

Deus do meu coração e minha herança, Divino Jesus, que o meu coração esvazie-se do seu próprio espirito para que Vós possais viver em mim, acendendo em minha alma a brasa ardente de Vosso Amor, que seja o principio de um incêndio todo divino.

Arda incessantemente sobre o altar do meu coração, inflame o mais íntimo do meu ser, e abrase as profundezas de minha alma! Que no dia da minha morte eu compareça diante de Vós todo consumido no vosso Amor! Amém! Assim Seja!

Santo Agostinho

Cristianismo e felicidade


O problema central da existência humana é ser feliz. Mas essa felicidade não deve depender de algo externo ao próprio ser; não deve ser criada por circunstâncias, mas deve brotar da profundeza interna do(a) próprio(a) homem/mulher. A pseudo-felicidade criada por circunstâncias externas também está sujeita, claro, a ser destruída pelas mesmas circunstâncias; é precária, incerta, fugaz. Por isso não é a verdadeira, duradoura e plena felicidade.


Para o Cristianismo, a única possibilidade de ser feliz vem de Deus

E para estar em Deus, é preciso ser santo (conf. Levítico 11, 44; 19, 2; 20, 7; I São Pedro 1,16). Há dois modos principais de ser santo: pode o ser humano ser sacrificialmente santo e pode ser jubilosamente santo. Somente este segundo tipo de santidade é que resolve, definitivamente, o problema central da felicidade humana. Enquanto ser santo ainda for difícil, amargo e exclusivamente sacrificial, estará o ser humano a caminho da felicidade, mas ainda não será plenamente feliz. Enquanto o ser humano na Terra não fizer a Vontade de Deus, assim como o fazem os seres humanos (os santos) nos Céus - isto é, espontânea e jubilosamente - não estará garantida a sua felicidade.

Mas esse cumprimento da Vontade de Deus, assim na Terra como nos Céus, é impossível ao homem que não tenha vivido a experiência íntima e direta de Deus. E essa experiência de Deus coincide com a experiência do verdadeiro eu do próprio homem. Se é verdade que é nesse eu central do homem que "o Espírito de Deus habita o homem", no dizer de São Paulo, ou "o Reino de Deus dentro do homem" (Lc 17, 21), então a experiência do nosso eu é necessária à experiência do próprio Deus.

O homem que chega a essa experiência vital chegou ao conhecimento da Verdade; - da Verdade que liberta. - Finalmente livre para ser feliz, independente de todos os fatores externos. Só essa pessoa é sólida e irrevogavelmente feliz. Sem essa experiência, o ser humano é infeliz, mesmo em meio a todos os gozos e prazeres que este mundo possa oferecer. Com essa experiência e consciência, a felicidade se mantém, mesmo em meio às maiores provações e aparentes sofrimentos deste mundo.

Felicidade ou infelicidade são estados do que poderíamos chamar de nosso eu central, isto é, na terminologia bíblica, o nosso espírito; felicidade ou infelicidade são coisas que os seres humanos são, e não algo que se tenha. Ninguém "tem" felicidade ou tristeza. Uma pessoa é feliz ou infeliz.

A perfeita harmonia do espírito, do eu humano, com a Realidade Divina: eis a plena felicidade. Isto é moldar-se à Vontade de Deus, que, - quer tenhamos consciência ou não, - é sempre o melhor para nós mesmos. A Cabala diz que cada homem/mulher é, em última análise, o seu maior desejo: todo ser humano é, em essência, aquilo que ele deseja. O desejo é a energia que move e define os seres humanos. Somos feitos dos nossos desejos. E antes de pensar “não, eu não concordo”, pare e pense um pouco sobre essas duas questões: 1) Qual o seu maior desejo? 2) De que maneiras você poderia definir a sua existência neste mundo?

As duas respostas estão intimamente relacionadas? Pois bem. Esse experimento simples demonstra, de um jeito também simples e direto, que a verdadeira e plena felicidade só pode ser possível a partir do momento em que você alinhar a sua vontade com a Vontade Perfeita da Suprema Consciência Universal, que é Deus. Este é o meio cristão de ser feliz. Cremos que é o único meio. Outros tipos de felicidade podem existir, mas não representam a felicidade plena, pois são naturalmente efêmeros, temporários, incertos. Quem deposita a sua felicidade em posses ou pessoas, não pode se considerar realmente feliz, mas alguém que vive momentos de alegria. Por felicidade não entendemos alguma sensação passageira, mas um estado de realização que é pleno, integral, e se reflete concretamente na vida do indivíduo.

Conclusão

Concluímos, a partir daí, que o segredo da felicidade neste mundo é o Amor, se é que cremos e sabemos que Deus é Amor. Foi isso o que todos os santos afirmaram, e esta é uma maneira de resumir e simplificar a resposta.

"Ó Farol Luminoso do Amor, eu sei como chegar a Ti; encontrei o segredo de me apropriar da Tua Chama (...) Compreendi que o Amor engloba todas as vocações, que o Amor é tudo (...) Como estou longe de ser conduzida pela via do temor, sei sempre encontrar o meio de ser feliz e aproveitar de minhas misérias..." - Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face

Se aceitamos que a condição mínima de Jesus para quem deseja segui-Lo é renunciar a si mesmo e dedicar-se somente a segui-Lo, sem medidas, e se compreendemos e assumimos que Deus é Amor, de fato, entendemos que o caminho para a felicidade é também o caminho do Amor, o único que leva a Deus. Sim, o ser humano nasceu para ser feliz, embora o mundo não entenda nada de felicidade, à medida que a confunda com riquezas e posses. Deus é a Fonte da felicidade. Por isso dizemos também que o segredo da felicidade está em "deixar" Deus ser Deus em nossas vidas, não somente aceitando, mas modelando-nos e alinhando-nos, dia a dia, passo a passo, à sua Santa Vontade. Assim seja para cada um de nós.


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Anotações

Todos me dizem que desperdicei os muitos dons com os quais fui agraciado, por Deus ou pela natureza, e que com toda a minha inteligência e múltiplas capacidades eu poderia ter chegado muito mais longe na vida.

_______Com “muito mais longe...” eles querem dizer que eu poderia ter ganhado muito mais dinheiro. Com “...na vida” eles se referem, obviamente, a esta sociedade insana que criamos para nós mesmos e que nos escraviza, governada e dominada por gente fútil, que desrespeita nossos direitos mais básicos e nos trata como imbecilóides. Claro que é disso que eles estão falando, afinal é neste mundo que vivemos, não é?

_______Ok. Não vou falsamente bancar o modesto, nem sou estúpido para não saber que de fato eu poderia ocupar hoje uma posição social bem mais privilegiada. Poderia ser chefe de alguma coisa. Poderia ter muito mais grana e posses. Oportunidades não me faltaram; não foram poucas. E eu recusei cada uma delas.

_______Conversando com Hana sobre isso há poucos dias, numa dessas cenas de filme romântico que acontecem nas vidas de quem é feliz no relacionamento (naquele mesmo parque onde toda a história concluída no último post começou), ela aninhada nos meus braços, nós dois sentados na grama, olhando o por do sol em meio a um grande silêncio... Ela finalmente entendeu.

_______Já havíamos conversado sobre isso, claro, algumas vezes, e ela já havia entendido, sim. Mas, naquele final de tarde ela foi realmente tocada pela minha história. A história da minha vida. Aquela grande parte da história da minha vida que eu contei aqui no a Arte das artes, da melhor maneira que pude, e que começa com um menino de 4 anos recebendo a revelação mais terrível e cruel de toda a sua vida: ele era mortal. Não só ele, como também sua mãe, e todas as pessoas do mundo, morreriam um dia.

_______Hana entendeu a maneira como deixei tudo para segundo plano, absolutamente todas as coisas deste mundo, do tipo, - como diria Cazuza, - carreira, dinheiro, canudo... Como tudo passou a não ter importância para mim. Nada importou para mim realmente, absolutamente nenhum desses valores temporais pelos quais as pessoas se vendem, roubam, matam, perdem sua honra... Nada importou, desde aquele dia até hoje, a não ser... a Busca.

_______Tudo que eu sempre quis e busquei foi a transcendência. Transcender este mundo, a morte, a perda, a dor da perda, o medo, o medo de ter medo... Tinha que haver uma resposta, tinha que haver um jeito, uma solução. E essa solução só poderia ser... Deus. D’us. DEUS.

_______Nunca vi sentido em concentrar minhas melhores forças em coisas que são, por sua própria natureza, efêmeras. Dinheiro é efêmero? Uma carreira sólida é algo efêmero? Para mim, a resposta sempre foi sim. E, por favor, ninguém se deixe convencer por minhas loucuras. Apenas digo que o tempo que temos neste mundo é pouco para alcançarmos DEUS. Se eu dedicasse o melhor do meu tempo, e minhas melhores energias, a buscar DEUS, talvez eu o encontrasse. Era preciso alcançar DEUS, não no sentido de construir uma torre de Babel para chegar ao Céu, mas sim entender o que DEUS esperava de mim, o que eu estava fazendo aqui, essas coisas. Encontrar o caminho até Ele, enfim. O tempo que eu tinha era pouco, e não havia nada mais importante do que isso.

_______Então, eu passei a minha vida inteira procurando empregos de meio período, dispensando as oportunidades de crescimento profissional, quando apareciam, o que não era raro. Todos os meus chefes, até hoje, gostaram de mim, e me imaginaram com um futuro brilhante. Mas eu precisava de muito tempo livre para estudar, meditar, rezar, jejuar, praticar Yoga, respirar, contemplar, praticar artes marciais, me aperfeiçoar como guerreiro Bushidô, aprender novas técnicas, novos métodos, novas práticas espirituais... Qualquer coisa que me levasse para mais perto de DEUS. Que me ajudasse a entender DEUS. E assim que eu pudesse chegar perto dele, eu perguntaria: "por que temos que morrer?"...

_______Nesse tempo todo, entremeado a tudo isso, muitos tropeços, muitas dúvidas, descobertas, novas dúvidas, redescobertas e novíssimas dúvidas... DEUS não deixa pegadas, nem placas indicativas para que possamos segui-lo. Muitas vezes eu achei que estava chegando perto, quase sentindo o perfume de Deus, quase ouvindo seus ruídos... Será?

_______Muita água passou por debaixo da ponte desde então. Eu entendi muitas coisas. A árvore voltou a ser árvore, a nuvem voltou a ser nuvem. Mas eu vivo querendo fazer da árvore e da nuvem coisas que elas não são. Quero a árvore com penas ao invés de folhas, a nuvem roxa com bolinhas amarelas... Porém a árvore continua com suas folhas, maravilhosamente árvore. E a nuvem continua bela, calma, leve, branca. E essa é a grande maravilha do Ser. O complicado da vida é que, para aceitar e ver a nuvem e a árvore como elas são, é preciso não aceitar que elas são como são. É preciso acreditar que é possível ir além, ver algo que de fato não existe, e aí... Aí sim, você retorna e pode ver que a a árvore e a nuvem são do jeito que são, simplesmente. Tudo voltou ao lugar de sempre, exatamente igual ao que era antes de você se aventurar. Mas você não está igual. Agora você sabe apreciar a beleza de cada coisa como é.

______Uma chave para vencer o medo, e retomar o rumo à Transcendência, é manter em mente que nós não podemos "domesticar" a Transcendência Divina. Parece que temos, - pelo menos eu tenho, - uma mania inveterada de modelar às coisas àquilo que nós queremos ver, o que queremos que seja... Manter a consciência de que a Transcendência é "indomesticável", isto é, é impossível de ser modelada ao nosso gosto, é uma grande arte. Quando conseguimos de fato assumir essa verdade, deixamos de nos martirizar com questões do tipo: "por que existe o sofrimento no mundo?", ou "por que o meu passarinho morreu, assassinado pela própria mãe?".

______Essas angústias são típicas de quem tenta domesticar a transcendência, e mais ainda, tenta domesticar a Transcendência Divina conforme suas próprias limitações, seus gostos, suas próprias manias e costumes. A confusão no quarto representa esse monte de convicções, de quinquilharias que vamos acumulando ao longo do Caminho. Nisso eu acredito, nisso eu não acredito... Nos portamos como se o Caminho fosse um longo corredor de supermercado, e vamos escolhendo nas prateleiras as nossas convicções. Escolho esse aspecto de determinada religião, porque gosto, descarto este outro aspecto aqui, porque acho incômodo... E vamos perdendo mobilidade a cada passo, a cada nova escolha. De repende, estamos parando de caminhar, porque já possuímos tantas convicções, é tanta bagagem que não temos mais como avançar. E aí levantamos paredes ao nosso redor, porque também não queremos ver os outros viajantes a caminho, acenando com novas possibilidades. Eu tenho minhas próprias convicções, minha religião própria, muito bonitinha, belamente construída, e isso me basta.

______Quando nos damos conta estamos presos naquele quartinho escuro, cheio de quinquilharias acumuladas, com medo de sombras que nós mesmos criamos... E DEUS? E a transcendência? T-R-A-N-S-C-E-N-D-Ê-N-C-I-A é o contrário de tudo isso! É o oposto de limitação, de escolha. Eu não tenho que escolher nada. Tudo que tenho a fazer é me permitir ser escolhido. E aí, naquele abrir de cortinas, liberando a luz do sol nascente a entrar pela janela, dissipando sombras e medos, mais uma vez eu percebo que aquela janela é o Amor.

______Depois de tanto estudo, depois de tanta coisa, o que sei eu? Que o Amor é Janela para a Transcendência. Engraçado é que disso eu já sabia. Todo mundo sempre me disse isso. E eu achava que sabia. Mas como existem diferentes modos de saber! E, às vezes, quando (re)descobrimos algo muito belo, acontece algum sinal em nossas vidas, como que para confirmar o precioso ensinamento que recebemos. Poucos dias depois de pensar e rascunhar todas essas coisas, recebi um e-mail de um grande amigo buscador. É com parte do conteúdo desse e-mail que encerro este post:


"Inicialmente, o que me levou a buscar o caminho espiritual foi a Realidade Transcendente. Pra mim, conhecer o Transcendental era a meta. Por isso, o meu caminho sempre foi muito voltado para os ensinamentos do oriente, como o budismo e o advaita.

Mas... no decorrer do Caminho, aconteceu uma coisa que me surpreendeu: eu entendi que era possível transcender o mundo e que, mesmo assim, o mundo ainda continuaria sendo o mundo. Em minha experiência, eu aprendi que 'viver no mundo, sem ser do mundo'... isso é transcendental, porque implica um estado de consciência acima do mundo. A pessoa se percebe fora do mundo, mas ela ainda percebe o mundo passando diante de si, como um filme. Ou seja, ela está fora do filme, mas o filme ainda acontece. Esse 'perceber-se fora do filme', é o que eu entendo por 'estar no mundo, mas sem ser do mundo'. A surpresa com que me deparei foi: o mundo não pára apenas porque você passou a percebê-lo como um filme. E, dentro do filme, impera apenas uma coisa, da qual tudo depende: o amor. Essa foi a grande surpresa que entendi.

Ou seja, antes eu apenas buscava transcender o mundo. Não havia compreendido o papel que o amor cumpre no funcionamento e andamento do mundo. Agora, além da necessidade de transcender, eu também entendo que existe a necessidade de amar. Logo, o que antes era uma coisa só, passou a ser um binômio, que, no caminho da espiritualidade, a meu ver, hoje, devem andar inseparáveis: transcender e amar. O transcender diz respeito ao 'outro mundo', o amar diz respeito a 'este mundo', porque é assim que ele tem de funcionar.

Onde há unidade, não há a possibilidade de amar (amar = unir; juntar os pedaços separados de modo que se tornem um). No plano na Unidade, a Unidade já é. Lá o amor já é, não precisamos juntar os pedaços a fim de que ele 'seja'. Logo, no plano da Unidade, pelo fato de o amor já ser, não é possível praticá-lo. Quem irá amar quem, se não existe "o outro"? Mas é possível contemplá-lo (e é por isso que tem as meditações). Por outro lado, "este mundo" é um mundo dual, onde tudo é separado. É aqui o lugar onde é possível e onde se deve praticar o amor. O plano dual é um reflexo fragmentado do plano Único, então, a fim de torná-lo semelhante ao "de cima", devemos "juntar" (amar) os pedaços fragmentados. Aqui é o lugar onde o amor pode ser colocado em ação, somente aqui. E é bom não contemplarmos muito as coisas "deste mundo"... é melhor deixar que o objeto de nossa contemplação seja o Uno. Contemplar com a mente as coisas desse mundo pode ser um tanto prejudicial, sob pena de fragmentarmos ainda mais as coisas por aqui. Este mundo é o lugar de agir. Contemplar o Sagrado ajuda a melhorar o mundo, pois a mente, ao captar a Sua unidade, tende a refletir de forma nao-fragmentada, e isso ajuda na concretização do amor no mundo.

Isso tudo só pra dizer que: a manifestação do amor no mundo (o plano da dualidade) é o reflexo do próprio Ser Divino (Deus) que habita o Alto (mundo eterno da Unidade). Por isso o binômio. "Realização do Uno" + "prática de amor".

Essa é uma síntese das minhas conclusões, ao longo da jornada feita até agora."



_______Como não tenho autorização, não acrescentei o nome desse meu amigo, mas acho que ele sentirá prazer em compartilhar suas conclusões, tão parecidas com as minhas. No Reino de Deus, no Plano Uno, como ele diz, nesse Lugar que não é lugar, o Amor é sublimado, elevado a um estágio que, para nós, aqui, é inimaginável. Penso que neste Não-Lugar Infinito, o Amor é tudo em todos, e não há mais nada.


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(Uma) Conclusão


Afinal, a conclusão de "Expansão". Há muito a ser dito. Quero começar pela grande revelação de toda esta série de postagens, que seria: eu sou completamente maluco.

_______Sem dúvida eu me considero louco, entre muitos outros loucos. Para buscar a Deus, vivendo neste mundo hedonista e materialista, é preciso ser um pouco louco. E para buscar a Deus em primeiro lugar, como eu sempre fiz, é preciso ser completamente maluco. Ultimamente tenho passado muito tempo estudando entre religiosos consagrados, e, se não acreditasse na perfeição de todas as potencialidades, pensaria que foi um erro meu ter desistido de ser padre. Um religioso católico, nos dias de hoje, goza de muita liberdade para escolher entre uma pluralidade de vias e maneiras, dentro de um mesmo grande caminho, e até mudar de umas vias para outras quando achar conveniente, o que permite um enriquecimento espiritual imenso. Eu teria gostado disso. Mas não lamento, porque a minha vida é sumamente abençoada hoje, e os rumos que tomei me fizeram feliz e realizado. Hoje, a sensação de não estar cumprindo a missão que me foi confiada, que carreguei durante muitos anos, foi-se completamente. Sei que estou fazendo o que deveria estar fazendo. Isto é realização. O que resta é buscar a perfeição no que sou e faço, e creio que este é um processo sem fim.

_______Sim, o mundo considera loucura a verdadeira sanidade. Bom, bom, mas vamos parando com as divagações por aqui, que eu tenho coisas a esclarecer. A grande revelação de toda esta série de postagens (ver a série completa) não é a minha maluquice, até porque isso é de conhecimento público. A revelação é o fato de que tudo o que eu narrei das minhas experiências insólitas, desde "A Busca é eterna" até "Expansão", era, o tempo todo, uma espécie de diálogo comigo mesmo. Eu interagi com muitas facetas do meu próprio eu: a menina de olhos brilhantes, o velho no parque, o homem no sofá da minha sala, a criança escondida no quarto escuro. Todos são aspectos meus, me fazendo ver coisas que por mim mesmo, em meu “padrão consciencial comum”, eu não seria capaz de perceber. Uma parte da minha própria consciência se manifestou a mim em formas insólitas, para que eu lhe desse a devida atenção. Para que eu conseguisse prestar atenção àquilo que eu mesmo tenho a dizer a mim! Confuso? Eu sei...


_______Talvez algum leitor antigo perceba que esta foi uma espécie de confirmação dramática para o que eu já havia descoberto há muito tempo, lá num dos primeiros estágios da minha busca, quando descobri o meu "Segundo Pilar". Ao começar a escrever este blog, pretendia falar muito mais sobre os meus pilares, mas no correr das coisas, este assunto acabou ficando para depois, e para depois... E assim, nunca mais retornei a ele. Agora é o momento, pois foi exatamente o que aprendi com a revelação destes vários “personagens” ou “reflexos” de mim mesmo.

_______Dentro de mim, dentro de cada um de nós, existe uma consciência que poderíamos quase chamar de “super-poderosa”. Esta consciência, que já foi chamada de “eu superior”, é um certo nível do nosso entendimento que é capaz de guardar tudo aquilo que aprendemos, desde que existimos. Em nosso estado de consciência ordinária, isto é, dispersa nos muitos afazeres e preocupações do dia-a-dia, não somos capazes de acessar todo este conhecimento, toda esta riqueza de sabedoria em potencial. Mas se nos colocamos muito calmos, silenciosos e tranquilos, somos capazes de acessá-la, por assim dizer. E encontrar respostas. Parece simples, e é. O problema é que as coisas simples, nos nossos dias, andam muito distantes. É muito difícil simplesmente se colocar quieto. É muito difícil simplesmente ter silêncio, ainda mais o silêncio interno.

_______Toda a sabedoria de que somos capazes, e me parece que ainda mais, pode ser acessada a partir deste nosso nível inconsciente, que não se esquece de nada (muito menos do que nos foi revelado do Alto), em toda a nossa experiência de vida. É muito conteúdo! É muita sabedoria. Mas não é só isso: a partir de um estado de grande serenidade, somos capazes de acessar o canal através do qual todo este aprendizado foi possível: aquele pontinho especial e luminoso em você que transcende o físico e o mental. Aquele ponto em você que vai além de você mesmo.


_______Quando você faz uma pergunta para outra pessoa, a respeito de que decisão deve tomar, num momento importante da sua vida, ou sobre o que é certo ou errado, quando precisa resolver algo crucial, que vai mudar o destino, seu ou de outrem, para sempre, tudo o que você tem a fazer é parar e olhar para dentro de si, com muita calma e sinceridade: na maioria dos casos, você tem a resposta ali. Por isso é que sempre parece tão fácil resolver os problemas dos outros, mas os nossos problemas parecem difíceis: o fato de estarmos envolvidos emocionalmente é que dificulta tudo, por isso é mais difícil encontrar a calma para acessar essa memória interna, que é quase infinita. Sentimentos e expectativas criam muito barulho e confusão interna.

_______E por causa da nossa teimosia, das nossas crenças erradas ou por causa das nossas preocupações, ou ainda por causa da nossa vida corrida, por não dedicarmos o tempo devido a essa consciência superior, ela é capaz de usar de subterfúgios para entrar em contato conosco. E recebemos avisos em forma de sonhos, pressentimentos, insights. NÃO! Não estou dizendo que todos os sonhos, visões, pressentimentos e insights sejam manifestações desta nossa superconsciência: digo que alguns podem ser. E também não estou falando de coisas mágicas, místicas, esotéricas. Estou falando da coisa mais natural, que ao mesmo tempo é a mais mágica e incrível: ser naturalmente humano, com todas as incríveis capacidades que os seres humanos possuem.

_______A primeira revelação que eu fiz a mim mesmo (e que não é revelação, mas sim um relembrar de algo primordial e que eu estava prestes a esquecer) foi: "Você não pode domesticar a Transcendência Divina!"

_______Todos nós temos falsas crenças, profundamente enraizadas em nossa psique. Todos somos induzidos a "formatar" a Realidade que não tem forma, nem princípio nem fim, de acordo com as nossas próprias capacidades e "gostos", nossa própria finitude. Se DEUS é Infinito, como podemos nós, que somos finitos, interagir com Ele? Em nosso nível de consciência ordinário, só há um jeito: criando uma imagem. Essa imagem pode ter utilidade, mas não é real. É necessariamente incompleta.


_______Ok. Mas, se por sermos finitos, somos "obrigados" a interagir com o Infinito através de imagens imperfeitas que criamos, qual a utilidade, ou qual a finalidade de saber que "não podemos domesticar a Transcendência Divina"? A grande utilidade de saber disso é não nos preocuparmos com as coisas que não fazem sentido! Porque, em nossa busca espiritual, muitas coisas parecem não "se encaixar", os fatos muitas vezes parecem contrariar as nossas convicções, e por isso, muitos perdem a fé. Manter em mente que a Transcendência Divina não pode ser "domesticada", isto é, modelada de acordo com as nossas próprias limitações e expectativas, nos torna livres de buscar sentido em tudo, o tempo todo. Podemos parar de raciocinar e nos assumirmos, simplesmente, como nós mesmos. Isso é tão bom...

_______Na Visão do Profeta Isaías, anjos proclamavam que "Deus é Santo, é Santo, é Santo". Isto quer dizer que DEUS está Além, está Além, está Além! Além de tudo o que podemos ver, sentir com nossos sentidos físicos, compreender com o nosso intelecto... Conscientizarmo-nos disso nos liberta para simplesmente sermos o que somos, sem o peso da obrigação de corresponder às falsas expectativas que nós mesmos inventamos. É exatamente isso o que significavam, na minha visão, todas aquelas tranqueiras acumuladas e empoeiradas no quarto escuro: uma série de construções elaboradas da nossa própria mente, mascarando a consciência de que DEUS é eternamente Santo, Santo, Santo. Está Além, Além, Além. Além de toda explicação, além de toda crença. Há mais para dizer? Sim. Infinitamente mais. Inutilmente, muito mais.


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Incrível imagem patrocinada pelo frio



Esta é mais uma da estranha série "Sou Brasileiro de Araque". Que por sua vez pertence à insólita seção "Enchendo Linguiça" deste blog...

1. Sou brasileiro de araque porque, ao contrário de quase todos ao meu redor, eu gosto mais do inverno do que do verão! Junte-se a isso o fato de eu não ser fanático por futebol, não suportar comer arroz com feijão dois dias seguidos, detestar samba, pagode e afins, não curtir carnaval, preferir campo do que praia... Ora, que raio de brasileiro sou eu?? Será por isso que um dos meus filmes favoritos é "Estranho no Ninho"? É assim que eu me sinto a maior parte do tempo... O pior é que ultimamente vem piorando... É muito esquisito um cara que gosta de ler e de literatura, que se interessa por arte e história da arte, que dá mais valor ao caráter e à inteligência de uma pessoa do que à beleza, que se importa com honra e dá valor à palavra dada... De estranho no ninho já estou sendo alçado à categoria de ET...

Mas que delícia o inverno, que gostoso é o frio!.. Melhor para dormir, para comer, para namorar, para se vestir... Todos ficam mais estilosos, elegantes... À noite, aquele vinhozinho ou conhaque, ou então uma caneca de capuccino quentinho ao lado da lareira... Tá bom, ninguém tem lareira aqui no Brasil, mas se enrolar naquele cobertor felpudo dá um efeito parecido, aconchegante... Também é a ocasião ideal para colocar a filmografia em dia, passar algum tempo em frente à telinha, abraçado àquela tigelona de pipoca fumegante...

E a imagem acima? Na madrugada de ontem, nos quintais de São Joaquim (SC), o sereno congelado sobre as folhas se descolava ao amanhecer, formando esculturas de gelo naturais como as da imagem acima. Saudades da minha terra...

2. Estou enchendo linguiça porque ainda nao consegui fazer a necessária pausa para escrever com tranquilidade (como é preciso), a conclusão de Expansão. Como não gosto de deixar o A.D.A tanto tempo sem atualizar, pelo menos venho aqui postar algumas amenidades... Isso vale?


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Some tips

Uma pausa antes da conclusão final de "Expansão" para compartilhar algumas dicas com os meus diletos leitores.

Recomendo o novo filme de Woody Allen, que me fez lembrar dos bons tempos em que a humanidade ainda cultivava aquele negócio mole e cinza dentro da caixa craniana, que chamam de cérebro... Falar nisso, dia desses, de passagem no histórico (e delicioso) bairro da Penha, aqui em São Paulo, pensei em dar uma escapadinha ao shopping para um cineminha, sem saber que teria uma decepção tremenda: naquele mesmo lugar, onde assisti grandes filmes, agora só passa cópia dublada(!)...

Horror dos horrores. Triunfo da burrice. Boa parte da galerinha que vem chegando para nos substituir neste planeta, que já foi interessante, parece não conseguir ler às legendas e acompanhar às cenas ao mesmo tempo. Caraca, poucas coisas são tão horríveis quanto assistir filme dublado. Nada pior que ver o Brad Pitt falando com a voz do Selton Mello, ou o agente 007 arrastando sotaque carioca, tipo: "Meu nome é Bond, JameSH Bond, merrmão."... Só falta soar o "plim-plim" entre as cenas, para completar a sensação de estar assistindo à sessão da tarde da Globo. Decadência absoluta. Alguém nos salve.

Voltando ao (bom) filme "Meia Noite em Paris" (Midnight in Paris), que felizmente ainda pude assistir no original: é uma prova que Woody Allen continua capaz de fazer cinema de primeira linha, e uma bem-vinda brisa fresca para ajudar a enfrentar o deserto cultural que o mundo atravessa neste começo de terceiro milênio.




Não recomendo a nova temporada da série "Anciet Alien' (Alienígenas do Passado) do History Channel, que estreou agora há pouco. Esperei para assistir e até adiantei um compromisso para ver, achando que traria alguma coisa de pesquisa séria, informações concretas ou pelo menos alguma reflexão honesta a respeito do tema, mas agora estou com a sensação de ter perdido meu tempo... Os dois primeiros episódios, exibidos hoje, não passaram da mais pura viagem na maionese, um grupo de gente alienada (para não faltar com o respeito e dizer maluca) desfilando uma grande coleção de abobrinhas, e abobrinha da pior qualidade, tipo "Apolo era um astronauta que vivia no Monte Olimpo, que era na veradade um OVNI pousado em cima de um morro...." - Lamentável.


Impressionante imagem do "extraterrestre Bilu". Será que a série do History
vai trazer algum depoimento do picaret paranormal Urandir Fernandes de Oliveira?


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Expansão

Este post é uma continuação de Reencontro - parte 2

Mas o que ele falou, afinal? Depois de me cumprimentar com um movimento de cabeça e me encarar por alguns segundos, ele se levantou com leveza, se aproximou e ergueu o braço direito em minha direção, apontando para minha testa, um pouco acima do espaço entre minhas sombrancelhas, e disse:


"Você não pode domesticar a Transcendência Divina!"


_______Aquilo foi uma ordem, partindo de alguém que sabia bem mais do que eu, a respeito de todas as coisas. Conhecimento bruto, era essa a "energia" que eu sentia emanar daquele homem. Eu permaneci em silêncio, olhando diretamente para a face do inusitado personagem, que, se por um lado já me era familiar, agora se apresentava sob uma forma diferente: além de mais jovem, pude perceber que agora não era tão alto e majestoso quanto o ancião do parque. Cheguei a divagar, em meus pensamentos, que ele parecia ter exatamente a minha altura e o meu porte físico: Era um homem grande, mas não enorme como o ancião que eu conhecera antes. Mesmo assim, não havia dúvidas que se tratava da mesma pessoa! O tempo em que nos contemplamos foi breve, e logo percebi que ele, sem ter nada mais a dizer, fazia menção de se retirar. Rapidamente elevei a minha voz e, sem poder evitar, fiz mais uma vez a pergunta mais óbvia: "quem é você?"...

_______Ele sorriu discretamente, voltou a balançar a cabeça num gesto amistoso e se voltou para o seu lado esquerdo, e caminhou. Sentidos amortecidos, eu só observava. Na penumbra, seu corpo se afastou e caminhou numa linha reta, diretamente para um lugar atrás do móvel onde está o computador do qual escrevo agora, onde só há... a parede. Mas ele avança, e parece atravessar essa parede.

_______Sinto um impulso de segui-lo, mas por um momento permaneço estático, ponderando e questionando-me a mim mesmo, se deveria fazê-lo ou não. Havia percebido, porém, que o seu gesto tinha sido uma resposta à minha pergunta, um convite a segui-lo; e eu o fiz. Atravessei o espaço da sala, avancei para trás do móvel, e vi uma porta semiaberta(!) que se fechava. Ainda pude ouvir, por trás da fresta que diminuia, um ruído sutil a denunciar que o meu estranho amigo(?) entrara por ela.

_______Não, aquela porta não existia na realidade. Minha sala não tinha mais que duas portas, e se houvesse uma terceira porta ali, ela daria para o quintal. Isso era para mim a prova definitiva de que eu deveria estar sonhando, imaginando, tendo um surto ou alguma experiência fora da realidade ordinária dos homens. E antes que a porta se fechasse completamente, eu a impedi. Entrei por ela, sem medo. Perdi o medo do que possa acontecer no mundo dos sonhos há muito tempo.

_______Atravessando a porta, saí num corredor, totalmente desconhecido. Um corredor comum, sem nenhuma decoração que o identificasse como parte de uma casa ou instalação que me fosse familiar. A iluminação era tênue, amarelada, e às vezes vacilante. Olhei para o teto, mas não vi lâmpada. As paredes eram claras, porém manchadas, como se o lugar fosse antigo, gasto pelo tempo. Para os dois lados, o corredor continuava, com muitas portas dos dois lados, e eu não podia ver o seu fim. Não havia sinal do homem de camisa branca. Parei, me coloquei em oração e pedi proteção, e também orientação sobre qual lado deveria seguir.

_______Então ouvi um ruído abafado, distante, como que um soluço de mulher ou de criança, que vinha do meu lado direito. Imediatamente avancei nessa direção. Caminhei devagar, por talvez uns dez ou doze metros, e então cheguei a um ponto do qual pude ver que o corredor fazia uma curva em L, bem à minha frente. Avancei.

_______Quando virei no corredor, o pequeno ruído se repetiu, e pude percebê-lo um pouco mais nítido. Fosse qual fosse a fonte causadora dos sussurros, estava um pouco mais próxima. Avançando mais rápido, alcancei enfim o final do corredor, onde uma velha porta feita de ripas pregadas dava para uma escada estreita, que descia cerca de dois metros abaixo...

_______Desci as escadas. Nas paredes encardidas, pequenos quadros pareciam retratar paisagens arcaicas, mas a luz não era suficiente para que pudesse ter certeza. A intervalos regulares eu ouvia gemidos e sussurros estranhos. Abafados, aumentavam cada vez mais em intensidade, conforme eu avançava. Minha audição é excelente, mas sentia como se estivesse ainda mais aguçada em razão de toda a situação, o receio, a ansiedade. Ao final dos degraus, uma outra porta, lisa, de madeira crua.

_______Enquanto eu estava descendo as escadas, me parecia que a porta estava fechada, mas quando me aproximei percebi que estava aberta. Isso foi esquisito. Olhei para dentro do aposento: luzes apagadas, mas havia uma janela com empoeiradas e pesadas cortinas semiabertas, por onde entrava alguma luz, ainda que difusa e fraca. Estaria amanhecendo? Discreta sensação de felicidade passou por mim: os raios de sol, ainda que tímidos, trouxeram-me a sensação de ainda pertencer ao mundo real, o velho mundo de sempre, do qual havia tanto para reclamar e amaldiçoar, mas do qual tão poucos estão preparados para se despedir.

_______No aposento havia um confusão de cacarecos e móveis, que apesar de não poder enxergar em detalhes me pareceram velhos e empoeirados, espalhados por toda parte. Bem no centro havia algo que se parecia com uma cristaleira, muito alta, com recipientes de vidro e enfeites, talvez de porcelana, empilhados sobre ela. Estava um pouco inclinada para um lado, como se um dos seus pés estivesse quebrado, mas se apoiava numa espécie de guarda-roupas estreito e escuro, de aparência sólida e antiga, com saliências entalhadas na parte de cima, por trás dos quais despontavam contornos do que imaginei serem velhos brinquedos. Haviam panos grossos, cortinas ou cobertores, alguns mal dobrados, outros amarrotados, espalhados pelo chão e sobre os móveis. No canto à minha esquerda, bem no fundo da sala retangular, uma gasta poltrona de napa vermelha pregueada, voltada para a parede escura, onde se apoiava uma estante de ferro repleta de livros e revistas velhas. Por trás do braço estofado e roto, a visão repentina de uma pequena e alongada mão clara me fez estremecer de susto. Eu não estava só!

_______Susto e depois curiosidade. Empurrei suavemente a porta, que se abriu num leve rangido. Meus olhos estavam fixos na mãozinha, que recuou assustada, rápida como uma cobra, desaparecendo por trás da poltrona. Pensei em chamar, dizer um “olá” ou algo assim, mas o silêncio prevaleceu. Avancei para dentro do quarto a passos curtos. Respiração presa. Um silêncio impressionante reinava no lugar.

_______Rodeei o centro do quarto, contornando tranqueiras e um tapete de retalhos colorido, muito encardido. Caminhei para o extremo oposto ao da poltrona, querendo ver quem estava ali escondido. Devagar e com prudência, me coloquei bem rente à parede direita, e continuei avançando em direção aos fundos do aposento, olhos fixos na poltrona.

_______Minha visão já estava bem adaptada à penumbra, e agora a claridade que entrava pela fresta das pesadas cortinas era suficiente para enxergar o principal. Mais um passo e vi duas pernas como de criança, compridas e finas, se encolhendo sob a poltrona. Alguém não queria ser visto. A essa altura, a impaciência era maior que o receio, e falei com voz branda: “olá...”

_______Não obtive resposta. Agora já estava bem ao lado da velha poltrona de napa vermelha. Mais alguns passos e já conseguia ver os contornos do perfil de um rapazinho singular: cabelo liso e escuro, com um grande franja quase cobrindo os olhos. Os braços magros estavam cruzados sobre os joelhos dobrados, atrás dos quais se escondia o queixo e a boca do garoto. A pouca luz que entrava era refletida nos olhos do menino, num efeito incômodo, causando a ilusão fantasmagórica de duas pequenas lanternas a se projetar das órbitas.

_______Cheguei mais perto, lentamente. Minha primeira impressão foi a de que o garoto estivesse assustado com a minha presença. Depois de alguns instantes e o ajuste da minha visão, porém, senti-o envergonhado, ou talvez enfadado. Mas, ao encurtar a distância, quando cheguei perto o suficiente para poder tocá-lo com meu braço bem esticado, se o quisesse, percebi que não havia expressão alguma em seu rosto.

_______Talvez angústia. Talvez ele demonstrasse um pouco de angústia nos olhos grandes e amendoados que me encaravam, surpreendentemente sem muito interesse. Afinal, depois de um instante de silêncio, tendo o meu olhar irresistivelmente preso àquele rosto, confirmei esta última impressão. Um pré-adolescente frágil, com uma expressão de angústia que eu esperaria encontrar num homem velho. Não perguntei nada a respeito do lugar, dos porquês, não quis saber de imediato quem era ele: senti que, se fizesse as perguntas óbvias, não receberia resposta, como se estivesse diante de uma esfinge a me inquirir: “Decifra-me ou te devoro!”...

_______Fiquei de cócoras diante do garoto, sentado no chão atrás da poltrona velha, de napa vermelha, na penumbra do canto do quarto, e um calafrio percorreu minha espinha. Sem nenhuma razão racional, me senti desprotegido. Fiquei de cócoras para me colocar a altura dele, para que meu rosto ficasse na linha do seu rosto, e meus olhos pudessem encarar os seus olhos de frente. Mas uma sensação desagradável tomou conta de mim, me fez estremecer dos pés a cabeça, e rapidamente me recoloquei de pé.

_______O menino não tinha me encarado nos olhos até então, mas quando me levantei depois de ter me colocado de cócoras à sua frente, seus olhos se voltaram diretamente para os meus. E eu senti como se ele pedisse socorro. A essa altura eu queria começar uma conversa e não sabia por onde começar. Mas o meu constrangimento não durou muito. Eu vi o garoto abrir a boca antes de ouvir sua frase incompreensível: “Cuidado! Tem coisas horríveis aqui dentro! Estão me observando, me cercando, e eu não posso sair! Se eles me 'ver' vão me atacar!..”

_______Seus olhos estavam cheios d'água e sua expressão era de pavor, misturado com uma grande tristeza. Recuei, repentinamente invadido por um arrasador sentimento de angústia. Mas sabia o que tinha a fazer. Corri até a janela e, com força, afastei as cortinas para os lados, escancarando a janela e deixando entrar a luz da manhã. Todo o aposento e seus objetos foram iluminados, e assim era possível ver que não haviam criaturas ameaçadoras à espreita, e sim móveis e coisas velhas acumuladas, parecendo assustadoras no escuro. Olhei para o menino e vi seus olhos arregalados numa expressão de surpresa: os monstros haviam sumido!




_______Mas com a entrada da luz pude notar mais um objeto na sala: um espelho na parede oposta, na exata altura e direção do menino, que deveria refleti-lo como eu o via. Mas quando prestei atenção ao reflexo, através de milhões de partículas de poeira que gravitavam freneticamente, acesas pela luz que agora entrava, eu vi não uma criança, mas a minha própria imagem. Era eu, prostrado e encolhido, escondido atrás do velho sofá; a expressão de espanto no rosto do menino era a minha própria. Assustado, voltei meu olhar, do reflexo no espelho para a criança, e a última coisa que notei nela foi que usava uma camisa de adulto, que lhe caía muito grande, como se fosse uma toga: encolhido como estava, cobria seu corpo até os pés. Uma camisa muito branca.

_______Logo depois, num lapso da consciência, retornei para o calor da minha cama e o conforto do edredom. E uma grande compreensão em minha mente, coração e alma. Só pensava no reflexo do espelho, onde deveria estar a imagem refletida daquela criança escondida atrás do sofá, onde vi a mim mesmo. O ancião do parque, o homem no sofá da minha sala, o menino assustado: finalmente compreendi que todos eram o mesmo e um só. Finalmente descobri quem eram eles, ou quem era ele. Eram todos reflexos de mim mesmo. E como sempre faço quando compreendo alguma coisa que considero profunda e importante, procurei meus cadernos, e rapidamente, antes de esquecer, rascunhei algumas anotações...

...Continua


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Reencontro - parte 2



Ontem assisti, junto com milhões de pessoas ao redor do globo, à despedida de um mito. Ronaldo é um mito nas mentes de milhões de brasileiros e aficcionandos por futebol mundo afora.

_______Uma pessoa se torna um mito quando sua vida ou seus feitos extrapolam a realidade. Que Ronaldo foi um grande craque da bola ninguém duvida, é um fato inquestionável. Mas ele sem dúvida foi além da própria genialidade, foi além de si mesmo, nas mentes e corações de todos aqueles que acompanharam a sua trajetória profissional, tão cheia de superação, "voltas por cima" e lances emocionantes, dignos de filme hollywoodiano. Além de tudo, a extrema humildade e simplicidade de Ronaldo comovem. Uma característica típica dos brasileiros.

_______Não é sobre Ronaldo que quero falar, mas ele é um exemplo perfeito para falar de mitologia e tipificação. Mesmo que a sua festa de despedida da seleção brasileira de futebol não tenha sido digna da sua carreira, as vozes se embargaram, o nó na garganta se fez presente quando ele foi cercado pelos jogadores, tanto brasileiros quanto romenos, quando falou ao microfone e quando deu seu último aceno para a torcida que gritava seu nome. Todos torciam para que ele fizesse o último gol. Todos queriam ver seu recorde de maior goleador com a camisa da seleção do Brasil ampliado. Me arrisco a dizer que, se ele tivesse chutado uma bola um pouquinho longe do goleiro, este não teria se esforçado tanto para defender. Nas 3 oportunidades que teve, uma ele bateu em cima do goleiro, outra para fora e a terceira, apesar de ter sido um chute forte e bonito, foi também na direção do goleiro. Um pouquinho mais para um lado, e... será que esse goleiro se esforçaria para rebater? Talvez sim, talvez não...

_______E por que um goleiro não haveria de se esforçar para cumprir aquela que é, afinal de contas, a sua obrigação: impedir o gol adversário? Porque quem tentava fazer gol nele era ninguém menos que Ronaldo, o fenômeno. Tão fenomenal quanto a sua habilidade com a bola nos pés é a sua fama, a aura mística que se formou em torno dele. O homem se tornou um mito.

_______Dia desses, num desses programas "esportivos" da TV (esportivos entre aspas porque esportivo no Brasil é sinônimo de excusivamente futebol), vi um comentarista muito popular dizendo que Neymar, como o grande craque do momento, se continuasse evoluindo, treinando, levando sua carreira e seu talento a sério, e se tudo desse certo na sua vida, poderia chegar a ser, um dia, o melhor jogador de futebol da história, depois de Pelé. E todos os colegas comentaristas concordaram com ele. Entenderam? Se o Neymar fizer tudo certo, se aprimorar mais e mais sua técnica, se ele progredir incansavelmente, e se tudo der certo na carreira dele... Poderá se tornar o melhor, depois de Pelé.

_______Insisto que o post não é sobre futebol. O que estou querendo demonstrar aqui é a essência do significado do mito. Pelé é um mito tão grande que muitos especialistas em futebol concordam que ele nunca será superado! Observem a contradição na fala do comentarista: Neymar é um grande talento, um verdadeiro fenômeno dos gramados, mas mesmo que ele se aperfeiçoe ao máximo, o melhor que poderá alcançar é se tornar o segundo.

_______Ora, Pelé marcou mais de 1.284 gols, o que é um feito espetacular neste esporte. Pelé conquistou inúmeros títulos importantes que podem ser apreciados aqui e numa infinidade de outros sites especializados. Mas suponhamos que Neymar consiga atingir a marca de, sei lá, 1.500 ou 1.700 gols, e conquiste ainda mais títulos importantes do que Pelé. Isso não é impossível, aliás o argentino Messe já superou Pelé por alcançar 17 conquistas com apenas 23 anos de idade. E aí? Como pode alguém afirmar que ninguém, jamais, em tempo algum, vai superar o Pelé? Será que nossos especialistas possuem a capacidade de prever o futuro?

_______Pelé foi um atleta fantástico, que merece ter seus feitos lembrados e reverenciados. Superá-lo não será fácil, mas não é impossível. Ele, como qualquer ser humano, pode ser superado. Mas, na cabeça de muita gente, este homem se tornou uma espécie de semideus, imbatível, insuperável, intocável.

_______Ontem, quando Ronaldo se movia no campo, milhões de pessoas se moviam com ele. Quando recebeia a bola, milhões recebiam com ele. Quando chutava, milhões chutavam com ele, milhões torciam, rezavam para que aquelas bolas entrassem. A forma irreconhecível, a barriga proeminente que desfigurava o contorno do grande herói era solenemente ignorada, a não ser por uma ou outra voz dissonante. Assim são os mitos. Não importa o que é, importa o que nós queremos que seja. A realidade é deixada para trás, dando lugar ao que gostaríamos que fosse. E quando muitos querem ver alguma coisa, essa coisa acaba se tornando real, em muitos sentidos.

_______Isso tudo tem a ver com o que o homem de camisa branca sentado no sofá da sala me falou, naquela noite. Quando eu o vi, não me assustei, nem me espantei, o que foi muito estranho, e naquele exato momento eu tive plena consciência disso. Um leve estranhamento, porque aquela figura não deveria estar ali, uma figura fora de contexto no meio da minha sala, no meu canto favorito do sofá, em pleno princípio de madrugada. Mas quando ele começou a falar eu senti medo.

_______Não medo do homem, mas medo do que ele dizia, porque para mim era de fazer tremer o corpo, gelar o sange nas veias. Somente a luz tênue de um abajur estava acesa, e naquele canto da sala, a sombra era escura. O que eu podia ver com mais clareza era a camisa branca; as feições do rosto eram borradas, mas rapidamente eu soube quem era ele. Era o mesmo que me falou numa outra noite mística, num banco, num parque, e provocou um efeito marcante em minha vida de buscador. Naquele momento era um ancião. Mas agora, no sofá da minha sala, era um homem jovem. Permanecia, no entanto, a mesma serenidade em sua face de traços harmoniosos e amigos. E ele falou novamente.


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Reencontro



Acho que finalmente estou amadurecendo. Ultimamente tenho pensado assim. Será que não me assustar com um sujeito estranho surgindo no sofá da minha sala, em plena madrugada, é um sintoma desse amadurecimento? É meio esquisito, mas eu acho que sim.

_______Uma pessoa madura vê a vida e as coisas da vida simplesmente como elas são, e não por trás de lentes coloridas escolhidas que mascaram a realidade. Ser maduro é isso, ver a Verdade com um pouco mais de clareza.

_______E aquela noite foi uma dessas noites de sono irrequieto, em que não se sabe se o sono foge a todo instante, se esse acordar constante é real ou dentro do sonho... Sei bem é que num dado momento, depois de um copo d'água iluminado pela luz da geladeira, chegando à sala, no meu canto favorito do sofá, em meio à penumbra, encontrei um velho conhecido. Bem, não tão velho, mas importa é que eu sabia que ele não poderia estar ali de verdade. Afinal era princípio de madrugada, e não haveria como aquele homem de camisa branca estar ali, sentado no sofá.

_______Mas o que realmente me fez ter certeza, e não demorou, de que eu não estava vivendo aquela situação toda no mundo ordinário, mas em algum outro "espaço", foi reconhecer o homem diante de mim. Nós já havíamos nos encontrado antes, embora ele estivesse um pouco diferente agora. Achei-o um pouco mais magro, e com certeza mais jovem. Fixei o olhar: aparência robusta, sentado com as costas bem eretas, pernas cruzadas e um jeito calmo. Usava uma camisa branquíssima, desta vez de mangas longas, que lhe caía bem. Cabelos negros muito lisos, fios semi longos cuidadosamente penteados para trás emoldurando uma face de contornos bem marcados, porém sóbrios, sobre um pescoço sólido. Algo de ameríndio em suas feições, com vestígios caucasianos e talvez um quê de asiático. A fronte larga conferia um ar de sabedoria, traços sólidos desenhando um sorriso sereno que transmitia confiança. – Um homem grande com uma atitude amiga.

_______Sim, era o ancião do parque. Eu tive certeza que era ele mesmo logo de cara, embora agora não fosse mais um ancião, e sim um homem que aparentava idade em torno de 30 anos... E o que ele teria para me dizer agora?


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Livro Pessoal da Sabedoria - Diálogo 1

Nunca desfrutei a benção do sono pesado. Dormir pesadamente, largado, despreocupada e descaradamente, o sono dos justos, é uma benção. Minha última noite de completo descolamento do mundo dos acordados deve ter sido lá no tempo dos meus 10 anos de idade. Ou não. Sei lá, às vezes tenho a sensação de que acordo a todo instante, a noite inteira, e às vezes acho que penso que acordo, mas estou como que em sonho. Alerta ao leitor: não sou um cara lá muito normal, mas gosto de mim mesmo nos meus melhores dias.

_______Mas então aquele dia foi... Ou melhor, aquela noite foi uma dessas noites em que eu não sabia se estava acordando a toda hora, se dormia, se acordava mas era dentro do sonho. Sei bem é que, cansado de rolar na cama, resolvi levantar para um copo de água e um pouco de TV na sala. É o melhor a fazer quando se está desperto em plena madrugada. Isso ou um bom livro, que assim o sono volta. Passei pela sala escura, meio zonzo e com muita sede. Abri a geladeira, enchi aquele copázio de mega-sede até a boca e mandei para dentro, de um gole só.

_______O líquido gelado aguçou a minha sensação de despertamento. Achei que agora o sono demoraria a voltar, má notícia, amanhã a dificuldade para sair da cama seria redobrada. Mas ao retornar à sala, voltei a me questionar: estava mesmo desperto ou sonhava? Lá estava, no meu canto favorito do sofá, em meio à penumbra, um velho conhecido. Que não poderia estar ali de verdade. E lá vamos nós de novo, para mais uma louca jornada alma adentro...


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