Ansiedade

Continuação de "A Busca é eterna"

Repentinamente,
com extrema e desconcertante naturalidade, a menina de olhos quase totalmente brancos mudou de assunto e de atitude: ela me perguntou, com um sorriso apenas infantil e nada enigmático, se eu sabia plantar bananeira(?)...

-------Enquanto eu tentava recompor minhas ideias, do meio do playground, abaixo de onde estávamos, um garoto rechonchudo gritou alguma coisa, atraindo a atenção da menina estranha... Num descuido ela saiu correndo em direção ao garoto, que poderia ser o seu irmão, embora eu tenha ficado com a impressão de que os dois não se pareciam nem um pouco.

-------Não posso descrever o quanto foi frustrante ver aquela figurinha incomum se afastar de mim, tão rapidamente e sem explicação quanto surgira. E não sei o que o menino gritou para ela; provavelmente teria sido o seu nome, mas agora não sou capaz de me lembrar, provavelmente porque o que ela me havia dito antes provocou um choque tão grande que me impedia de prestar atenção em qualquer outra coisa.

-------Ela se foi, e por um instante experimentei uma solidão gigantesca. Havia passado sozinho todo o dia, mas agora me sentia terrivelmente solitário, porque uma menina que conversara comigo por menos de 1 minuto tinha me deixado. Muito maior que a solidão, no entanto, era a estupefação por ter escutado, dessa criança estranha (em todos os sentidos que posso imaginar), que eu estava “pronto” e que a Verdade estava a minha espera, logo ali.

-------Há muito tempo eu venho me definindo como um buscador da Verdade. Era surrealista, simplesmente inaceitável o que acabara de ouvir: esta é a reação previsível de um racionalista, quando algo completamente absurdo lhe acontece. Algo dentro de mim não cessava de tentar encontrar explicação racional para o insólito acontecimento. Pensei que alguém que me conhecesse muito bem poderia estar me pregando uma peça, pedindo à menina que viesse me dizer aquilo. E essa hipótese até me pareceu plausível por alguns segundos, apesar de altamente improvável. Outra hipótese, eu simplesmente poderia não ter escutado direito. Talvez minha mente condicionada estivesse mascarando meus sentidos.

-------“Devo ter ouvido mal”, pensei comigo. Eu deveria estar sugestionado, pois estivera meditando e lendo a Bíblia, ali no parque, e eu deveria ter imaginado aquela situação. Pelo menos deveria ter imaginado a frase. Talvez ela tivesse dito alguma outra coisa... “Você está pronto”?? "A Verdade espera, naquele lugar”?? Não... Soava fictício demais, raciocinava eu, enquanto olhava em redor, para me certificar que não havia nenhum maroto escondido, se divertindo às minhas custas.

-------Mas lá no fundo eu sabia que não havia engano nenhum. Ela realmente me dissera aquilo e me mostrara um lugar específico, logo acima de onde eu estava, deitado em minha toalha, descansando depois de semanas consecutivas de stress e trabalho duro. - Depois de alguns minutos tentando me recompor, sem sucesso, olhei novamente para o ponto que a menina havia apontado. Parecia haver uma construção lá. Vi paredes brancas por trás das árvores e vegetação, e é claro que resolvi subir para ver. Olhei para o playground e não vi a menina estranha. Também não a procurei com o olhar. Minha mente estava em outro lugar. Eu tinha que subir o aclive e ver o que havia lá em cima. Algo ou alguém me esperava lá?

-------Havia uma escadaria tosca, com velhos e largos degraus de concreto batido, bem à minha frente. Com ansiedade, mas devagar, comecei a subir. Devagar, apesar da grande ansiedade, porque existia também um grande receio. A situação toda era muito, muito esquisita, e num misto de emoções descompassadas estava presente, também, um forte desejo de esquecer aquilo tudo, me convencer que a experiência fora apenas um delírio e fazer o que estava prestes a fazer antes de a menina surgir: voltar para casa.

-------Mas resolvi enfrentar o meu destino. Como costuma acontecer nesses casos, a curiosidade falou mais alto. Deveriam ser uns vinte e tantos largos degraus diante de mim, numa subida suave porém crescente. O sol, enfraquecido, tornava minha sombra alongada adiante dos meus pés. Uma subida curta que me pareceu durar horas: culpa dos pensamentos confusos e frenéticos que subjugavam a minha razão. No meio da subida, olhos fixos no ponto do meu destino, confirmei que caminhava em direção a uma espécie de velho casebre pintado de branco, no qual eu nunca havia reparado, em minhas outras visitas àquele parque. Devia ser a quarta ou quinta vez que passava por ali em minha vida, e nunca tinha visto ou notado uma casinha branca.

-------Em algum momento, me lembrei de “A Cabana”, e divaguei imaginando se alguma manifestação do Todo-Poderoso em forma humana (talvez uma mulher negra e gorda?) estaria me esperando lá dentro, com todas as respostas sobre a existência. Acho que sorri ao pensar nisso. Também pensei que, ao entrar naquele casebre, entraria numa outra dimensão de tempo espaço, deixando a realidade ordinária dos homens para trás. Mas a razão insistia que tudo, de algum modo, tinha que ser uma brincadeira sem graça, e que eu, ao descobri-lo, me sentiria no papel do crédulo tolo.

-------Mas o meu lado crente já estava plenamente convencido de que a menina estranha era um anjo, ou a portadora temporária da mensagem de algum anjo, ou algo assim. “Sou o cético mais crédulo que eu conheço, e o crédulo mais cético que já conheci...” Repetia comigo mesmo enquanto vencia os últimos degraus.

-------Cheguei no alto do que percebi ser um platô gramado, e contemplei a casinha velha, pintada de branco; um branco já conquistado, quase até a metade, pelo verde do limo que avançava, e finas rachaduras brotando aqui e acolá. Nenhuma porta naquela face. Coração aos pulos, avancei e toquei a parede áspera, fria e úmida. Tentava em vão acalmar meus pensamentos. A expectativa de um encontro sobrenatural era tão vívida que minhas mãos tremiam.

-------Comecei a contornar o casebre, devagar, a partir do lado esquerdo. Na face lateral, nada, nenhuma abertura. Cheguei ao lado oposto ao da escadaria, e encontrei uma porta azul. Prendi a respiração. Quem ou o quê estaria me esperando lá dentro? O que aconteceria agora? Com pressa e com medo, toquei a porta de madeira, que não tinha maçaneta, apenas alça e fechadura. Empurrei suavemente, depois com força. Trancada.

-------Continuei circulando a casinha. Antes da próxima quina, uma valeta. Caminhava com cautela, mas pisava em muitas folhas secas, o que, contra a minha vontade, provocava muito ruído. Herança do meu treinamento Karatê, sou alguém extremamente silencioso (por causa disso, sou alvo de brincadeiras há anos). Aprendi a me aproximar sem ser notado: eu sempre vejo antes de ser visto, usando técnicas muito simples que eu tenho praticado por toda a minha vida, desde que conheci meu shihan. É um hábito reflexo, automático: não me sinto bem anunciando a minha chegada, e pode parecer mania de perseguição, mas faço sem pensar; é parte intrínseca da minha natureza. Enquanto assim divagava, me passou pela cabeça que de qualquer maneira eu não poderia mesmo me aproximar, sem ser notado, da Verdade personificada.

-------Na última face do casebre encontrei algo que fez a minha ansiedade redobrar: uma janela! Moldura pintada com a mesma tinta azul desbotada da porta e vidraças cobertas de poeira, que não me permitiam ver nada através dela. Me aproximei rápido, tropeçando em pedras, coração acelerado, sentimentos em turbilhão... E finalmente vi... Tijolos. Inútil: para o meu desespero, por trás dos vidros trincados, a janela havia sido emparedada, por dentro, com cimento e tijolos sólidos.

-------Estranhamente, aquilo despertou ainda mais a minha curiosidade e aguçou a minha determinação em descobrir o que poderia haver lá dentro: a experiência me ensinou que, quase sempre, as coisas realmente importantes são difíceis de alcançar. Estaria sendo um tolo?

-------“Sou um tolo, sou um tolo...” repetia para mim mesmo, ainda tentando encontrar explicação lógica, completando mais duas voltas em torno do casebre, observando-o tão atentamente quanto possível, dado meu grau de ansiedade. No fundo eu sabia: depois daquela menina e sua mensagem, algo haveria de aconter. E reparei em algo que não tinha visto quando escalei os degraus de cimento e vi o que era a parte de trás da casinha branca: a uma altura de pouco menos de dois metros acima do nível do solo, na parede branca havia uma abertura de forma retangular, do tamanho exato de dois tijolos que faltavam. O estranho é que não parecia que a parede havia sido quebrada a marretadas ou coisa parecida. Era como se esses dois tijolos tivessem sido retirados cuidadosamente, pois a parede ao redor estava intacta.

-------Avancei e percebi que, se eu ficasse na ponta dos pés, a abertura ficaria exatamente ao nível dos meus olhos... E eu poderia ver o que me esperava lá dentro, no escuro.

-------Ansiedade... Um mosquitinho se chocou contra a minha face, como que para quebrar a tensão do momento. O sol já se escondia, bem às minhas costas, a luminosidade era cada vez mais fraca e a sensação de estar num sonho voltava. Olhei para trás e vi, esquecidos lá embaixo, minha toalha, minha mochila e minha Bíblia de Jerusalém em cima dela... O parque estava vazio até onde a vista alcançava, e o silêncio só era quebrado por um ou outro grito de euforia distante, vindo das quadras de tênis a uns 500 ou 600 metros de distância dali.

-------Os olhos da menina, os estranhos olhos extremamente claros da menina estranha... Meu corpo todo está tremendo. Por quê? Sendo honesto, sabia que tinha ótimos motivos para tanto. O que eu estaria prestes a ver lá dentro, no meio do escuro? - Procuro, por baixo da camiseta, o crucifixo abençoado que costumo levar pendurado ao pescoço, numa corrente de prata, presente da minha filha. Não o encontro. Não o estou usando, naquele dia. Não um talismã, mas um símbolo de fé.

-------O que vou encontrar? O que é que eu vou ver, ao olhar para dentro do buraco na parede? O medo, agora, é bem mais que uma hipótese. Estava ficando escuro, e talvez fosse melhor esquecer tudo aquilo e ir embora. Cabana do Jacob, de Lost. Casa do mato da Bruxa de Blair. Penso que gostaria de não ter encontrado aquela menina...

-------Respiro fundo e me convenço que é inútil tentar me enganar: eu vou olhar, e sei que vou encontrar, lá dentro, algo que me fará completamente diferente do que era ao chegar naquele parque, naquela tarde de inverno atipicamente quente...

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A Busca é eterna


Olhei para o céu, agora, e vi cinza. Moro em São Paulo, quarta ou quinta maior metrópole do planeta Terra, e vivo todas as vantagens e desvantagens que isso traz. Uma delas é olhar para o céu e ver cinza em vez de azul. É uma grande desvantagem.

Mas isso só me passou pela cabeça de relance, porque importante é dizer que o motivo de eu olhar para o céu é buscar o Céu. E busco o Céu para manifestar gratidão por mais uma grande Graça Divina. Uma daquelas Graças que me obrigam a retornar a este espaço virtual abençoado, para compartilhar com vocês, velhos amigos buscadores da Arte das artes.

A TV está ligada e lá vem notícia do goleiro suspeito de assassinato com requintes de crueldade, Bruno, e seu parceiro "Macarrão"... Argh! Por que as pessoas gostam tanto de notícia ruim? Por que a desgraça, a tragédia, o sofrimento e a destruição das vidas alheias atraem tanta gente? Pessoas acordam cedo, ligam seus aparelhos de TV e já começam o dia com notícias de assassinatos, crimes hediondos, violência, pedofilia, chacinas, assaltos... Que maneira de começar o dia!

Enquanto isso, Ele continua esperando, pacientemente... Cada vez menos adorado em Verdade e em Espírito, quanto mais os templos se enchem. Que pena. Ou não. Tudo tem um propósito, até os descaminhos, até os desencontros.

Saudades de todos vocês! Enquanto meus dedos passeiam pelas teclas desta maquininha maravilhosa chamada laptop, me parece que posso ver, com olhos não-físicos, o seu rosto, você que pacientemente lê o que eu escrevo. Por que se lê pouco hoje em dia? Porque estamos, cada vez mais, impacientes. Cultive a paciência em sua vida, e você se tornará um mestre espiritual. Mas, bem, toda essa conversa periférica é para matar as saudade de vocês, bons amigos virtuais. Passemos logo ao tema desta postagem...





"A mística é um fenômeno humano, do qual a mística cristã é uma expressão. Isto não é sem importância, e não pode ser ignorado pelos cristãos, sejam teólogos ou monges"


Dom Armand Veilleux, OCSO

Recentemente, passei por uma grande provação. Vivi um dos períodos mais difíceis de toda a minha vida. Por envolver questões muito íntimas, não vou entrar em detalhes, mas digo que a situação toda envolveu problemas de saúde, o risco da perda de um ente querido muito próximo, o sentimento de culpa, o medo do futuro, o estremecimento das minhas relações com Hana, etc...

-------Foi um tsunami que passou na minha vida, e eu precisei de muita serenidade para não sucumbir. Mas eu permaneci conectado à Fonte, e a onda passou, me deixando vivo, inteiro e mais forte.

-------Por conta dos problemas, precisei adiar uma série de compromissos e, passado o sufoco maior, minhas obrigações profissionais estavam todas atrasadas. O resultado foi que trabalhei por mais de 50 dias ininterruptamente, sem descanso, até tarde da noite, incluindo finais de semana.

-------Finalmente, depois de todo o esforço e stress, consegui colocar meus compromissos em dia e tirar dois dias para relaxar um pouco. Nesses momentos tão especiais (de pausa para descanso), gosto de procurar a natureza; sentir o cheiro do mato e ouvir passarinhos cantando.

-------Fui passar uma tarde no parque, sozinho. Estava com a mente e o corpo cansados, e tudo o que desejava era um pouco de quietude. É um parque relativamente próximo à minha casa, com área verde próxima a trezentos mil metros quadrados. Um bom lugar para recarregar as baterias.

-------Passeei, meditei, li um pouco, fiz alongamento, conheci pessoas, joguei conversa fora... Lá pelas 17h30, sol de inverno se despedindo, estava eu, perfeitamente relaxado, deitado em minha velha toalha de piquenique sobre a grama, já pensando em recolher minhas coisas para ir embora, quando vi uma figura meio... diferente... a uns quinze metros de distância, caminhando em minha direção.

-------No final da tarde, sob a copa das árvores e contra a luz do sol poente, não podia ver direito, mas parecia uma criança, uma menina. Me chamou a atenção porque vinha diretamente em minha direção, e não sei porque, me senti inquieto. Desviei o olhar por um instante. Mas não pude resistir e voltei a olhar na mesma direção: um arrepio percorreu a minha espinha, porque a criança continuava avançando direto para mim, e havia algo de... incomum naquela menina.

-------Ela andava com serenidade, mas firmemente. Seus passos eram cadenciados, e ela se aproximou de mim com velocidade espantosa, embora não andasse com pressa. Apertei meus olhos, mas continuava não podendo vê-la com clareza, talvez pela luminosidade, pelos raios do sol, próximo à linha do horizonte, bem atrás do corpinho da criança, realçando seus contornos infantis, reluzindo em seus cachinhos louros...

-------Ela tinha cabelo louro muito claro, em cachinhos. Chegou aonde eu estava e aconteceu aquilo que eu, de alguma maneira, já esperava: parou bem na minha frente e ficou ali, me encarando. Ela parecia ter uns 5 anos de idade. Vestia uma bermudinha larga, escura, encardida, ao que tudo indicava, de tanto rolar na grama e brincar na areia, e uma blusinha branca em xadrez cinza claro, muito delicada, com adoráveis lacinhos nas mangas.

-------Mas toda a sua beleza infantil não surtiu em mim o efeito que seria de se esperar. Eu não sorri nem fiquei encantado com a linda menina. Não reparei nos detalhes que acabei de descrever, sobre a sua aparência; eles só me ocorreram quando pensava em como as coisas aconteceram, horas depois. Porque, quando aquela criança parou na minha frente, tudo que senti foi medo.

-------E tudo que podia ver eram seus olhos: inquietantes, não sei explicar porque. Eram de um claro espantoso. Provavelmente azuis, mas praticamente não se via cor. A íris era tão incrivelmente clara que quase se fundia com o branco em redor; apenas as pupilas eram bem visíveis. Duas pequenas esferas negras a me perscrutar, sem nenhuma cerimônia.

-------Me sentindo nu, inquieto, imaginei que a temperatura havia caído, bruscamente. Tentei me convencer de que era apenas uma criança. Esbocei um sorriso, mas ela, entre séria e, talvez, algo desdenhosa, continuou apenas me olhando, por alguns estranhos segundos. O espaço próximo à menina parecia estranho, distorcido, como se aquele corpinho interferisse nas ondas de realidade que formam o mundo dos humanos.

-------Assim ficamos, eu e ela, até que, repentinamente, me senti relaxar. Alguma coisa fez com que eu me soltasse completamente, deixando a lógica agonizar em paz em algum canto bem isolado da minha psique. Estivera deitado. Quando a menina se aproximou, eu recostei. Ao me acalmar, me sentei e a encarei de volta, esperando para ver o que iria acontecer.

-------E seus olhos agora não pareciam assustadores. Apenas deixavam tudo com jeito de sonho. Por fim entendi que a sua expressão se tornava amigável, e pensei ver algo como um sorriso naquela delicadíssima face. Ficamos ainda algum tempo apenas nos olhando, como se nos comunicássemos por telepatia. Me pareceu (como num delírio) que ela esperava que eu me comunicasse assim, sem usar palavras. E numa fração de segundo, a palavra "casa" surgiu na minha mente, numa voz doce e estridente de menina de 5 anos. E foi só. Mais alguns segundos nessa comunhão agradável e esquisita, e ela ergueu seu bracinho pálido, quase iridescente, com o dedinho indicador apontando um ponto bem atrás de mim.

-------Olhei e vi que parecia haver uma velha construção lá atrás, depois de algumas árvores, aclive acima, bem no meio do parque, que eu nunca tinha visto ou reparado. Voltei a olhar para ela, achando que não a veria mais, como costuma acontecer nos sonhos. Mas ela ainda estava ali, e disse: "Você está pronto. A Verdade espera, naquele lugar".

-------Eu quis grafar a palavra Verdade assim, com inicial maiúscula, porque sabia que era disso que ela estava falando.

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