Reatar relações com Deus - princípios

O que fazer para reatar a relação íntima e direta com DEUS?


"Responde ou te devoro!"


A primeira coisa é não esperar nada. A segunda coisa é descartar todos os conceitos preestabelecidos. Para voltar a Deus, não pense "Deus é bom" e nem mesmo "Deus é amoroso"... Ainda que esses conceitos humanos possam representar a verdade, num sentido específico, não deixam de ser conceitos humanos, limitados ao entendimento humano, e imperfeitos tanto quanto nossa própria capacidade de compreensão. Existem conceitos humanos positivos e negativos, mas nenhum conceito humano é vasto o suficiente, e nem pode ser perfeito como teria que ser, para falar de Deus.

Reatar a relação direta e íntima com Deus, portanto, implica deixar tudo o que eu acredito, tudo o que eu escolhi, tudo aquilo em que eu acho que preciso acreditar, e deixar de querer ser ou fazer qualquer coisa; deixar de tentar, de buscar. Deixar de desejar. Somente quando deixo de tentar alcançar é que de fato alcanço o inalcançável.

Estando eu arrebatado de meu próprio corpo e dos meus próprios julgamentos, de meus sentimentos e, em última análise, do meu próprio "ser" (aquilo que os budistas chamam 'ego'); tendo transcendido todos os meus desejos e anseios pessoais em prol de um único e infinito Desejo, que bem poderia ser chamado Não-Desejo, posto que se trata de ir além de todo desejo que ordinariamente conhecemos nesta vida... Entendi, afinal, que a resposta é o Amor, somente o Amor, e que de fato não há outro caminho. E que, antes de qualquer coisa, eu precisava entender o Amor completamente. Precisava compreender o Amor de uma maneira nova e perfeita.

Não podia saber se me encontrava assim tão elevado, como que livre de todas as limitações do corpo físico (embora sabendo que me restasse ainda um longo caminho a ser seguido), por conta de todas as mortificações e ascetismo a que me submetera ao longo da minha vida, por tantas horas de oração e meditação, por todo o jejum e toda a entrega; por ter, desde tão cedo, desejado o Sumo Bem antes de qualquer outra coisa. Sem saber se me encontrava assim tão elevado, e caminhando por sobre a cidade, por ter buscado me conhecer a mim mesmo intimamente, o mais perfeitamente que pudesse, antes de buscar os prazeres e alegrias fugazes, ilusórios e passageiros dos sentidos... Sabia que havia desde sempre desejado tanto a Deus, e que por isso busquei me conhecer tão profundamente e intimamente quanto possível, pois de algum modo eu sabia que Deus estava em mim, e assim, conhecendo-me a mim, conheceria meu Bem Amado, a Fonte de todo o Bem, acima de todas as imperfeições, limitações e decepções deste mundo de ilusão. Na casa do autoconhecimento, elevei minha voz e minha mente ao Pai do Amor. E um Pastor benevolente me disse:


"Quem ama, guarda a minha Palavra, e eu me manifestarei a ele. Ele será um comigo e eu com ele"


Mas sei que entendi, afinal, que a resposta é o Amor, somente o Amor, e que de fato não há outro caminho. E que antes de qualquer coisa, precisava entender o Amor de maneira nova e perfeita. Precisava saber, definitivamente, o que é o Amor. - Compreender o Amor como nunca antes tinha compreendido. - E, somente percebi isto, soube que o Amor é como um Desejo Diferente. Não como um desejo mundano, não como querer algo para acrescentar ao meu "baú", às minhas posses; não é nada que eu poderia chamar de "meu". É mais parecido com o "querer nada mais querer": é como escolher a Fonte, antes das bençãos que jorram dela.

Juntamente com este entendimento, brotaram muitas outras compreensões fundamentais da vida chamada espiritual, - que é a única vida verdadeira, - que me trouxeram esplendorosos raios de Paz Divina, refletindo em mim imensa tranquilidade, pois então não haviam mais preocupações ou ansiedades. Pelo Amor, tornamo-nos Deus!


"Usa a tua fé e fixa o pensamento em Mim; verás a dignidade e a beleza da humanidade! Mas além da beleza que lhe provém da criação, presta atenção nestes que estão revestidos com a roupa nupcial do Amor Cáritas, adornados com tantas e tão belas virtudes. Eles se acham unidos a Mim pelo Amor. Se me perguntares quem são, direi que são um outro Eu. Eles destruíram a vontade própria, revestiram-se da minha Vontade, uniram-se a ela, a ela se conformaram. Verdadeiramente, é pelo Amor que o homem se une a Deus."

"Verbo Amoroso" (Santa Catarina de Sena, em 'O Diálogo')






( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Reatar relações com Deus: voltar a si




Retomando o papo ou anteriormente em “Respostas”...

Dizia eu que Podemos afirmar tranquilamente, sem medo de errar, que praticamente todas as tradições religiosas referiram a esse momento em suas mitologias, que para nós, ocidentais, se convencionou chamar de ‘a Queda do Homem’. O homem (isto é, a humanidade) estava com Deus, era UM com Deus e partilhava da Vida de Deus, em Deus. Hoje, estamos divididos, separados, afastados de nosso Criador. Perdemos contato com essa Realidade Transcendente e só conseguimos acessá-la, - e mesmo assim em parte e imperfeitamente, - em momentos e situações muito especiais, como nas epifanias. Foi algo assim que eu tentei relatar aqui, e também aqui, aqui e aqui, entre tantas outras. A esses especiais e raros momentos de conexão muitos chamam de ‘milagres’.

Mas o que fazer para reatar essa relação íntima e direta com DEUS? Isso é possível? É desejável? Vale a pena tentar? O que ganhamos com isso? O que perdemos? Devemos ter medo? Esse "reatar relações" com Deus pode ser alcançado por meio de alguma religião? Ou por todas elas? Algum personagem histórico já conseguiu tal feito? Se a resposta for positiva, como alcançar tal experiência? Ou ela só estará disponível para aqueles seres humanos muito especiais ou muito santos? Como buscar essas experiências sem me tornar alienado, maluco, execrado pela sociedade, sem perder a noção da realidade, do que é concreto, e, até mesmo, sem me sentir especial ou superior aos outros?


Ousei fazer as perguntas, agora é respondê-las, uma por uma; afinal, chamei essa fase do blog de “Respostas”. Sou corajoso ou completamente insano, eu sei... (provavelmente mais a segunda coisa que a primeira). Vejamos: essas perguntas fundamentais se complementam e interagem entre si, mas obviamente precisam ser respondidas individualmente. Na medida em que as respostas forem se desenvolvendo, observaremos as possíveis relações e/ou dependências entre elas. E lá vamos nós de novo...


O que fazer para reatar a relação íntima e direta com DEUS?


Quando o estranho personagem que descrevi em “Primeira resposta” me perguntou "quem era eu" (e interpretei que a resposta deveria ser no sentido mais perfeito que eu pudesse alcançar), tive num instante uma visão de tudo o que representou a experiência humana nesta Terra, desde o princípio dos tempos (claro, da maneira que poderia ser compreendida por minhas singelíssimas capacidades). Então compreendi que eu sou desde o Alfa da Criação, e desde ainda antes. Entendi que venho dO que havia antes do Princípio, antes que as coisas existissem. Que existo na Mente do Universo, desde antes da criação do próprio Universo, e que a minha origem está na Origem das origens. Eu sou uma legítima manifestação do EU SOU. - Eu sou luz e meu corpo é manifestação de luz: ainda que no nível mais raso, meu corpo ainda provém da Luz. O mais é Mistério. E o primeiro passo no caminho para a Verdade é a aceitação do Mistério. Sendo assim, compreendi instantaneamente que questionar o porque de me encontrar agora separado da Fonte Primordial é completamente insensato (dada a minha pequenez e a minha pobreza).

Partindo destes princípios básicos, a pergunta seguinte, inevitável, é exatamente esta: se venho de DEUS, se sou parte de DEUS, - se sou Imagem e Semelhança do próprio Criador das Origens, mas sou ao mesmo tempo pequeno e fraco, isolado numa realidade de provações e sofrimento, o que fazer para reatar a relação íntima e direta com DEUS, que antes havia como coisa natural?


A Fera ruge, a Fera Sagrada: perdão amigos, ainda não pude encará-la...



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

História do Cristianismo - 8


Sim, eu vou dar continuidade às postagens da série “Respostas”, mas vamos convir que a coleção de perguntas que deixei no ar ao final de ”A queda do homem” exigem um momento, e, principalmente, um estado de consciência muito específico para serem respondidas. E como não quero continuar deixando o blog tanto tempo sem atualização, e também prometi que daria continuidade às outras postagens em série que estão atrasadas, vamos à continuidade de “História do Cristianismo”, do ponto em que paramos, lá no dia 10 de junho de 2009 (vergonha...)... Avante, que, além de “Respostas”, ainda temos “Dhamapada” e “Evangelhos” para concluir... Quem mandou se meter a blogar espiritualidade e religião...


Apóstolo Paulo, num afresco policrômico do século IV
"Cabeçudo e careca" - Catacumbas de Roma


O Primeiro Concílio: Jerusalém

Em
algum momento, em meados do primeiro século dC, muito provavelmente no ano 49, Paulo de Tarso saiu de Antióquia (isso mesmo: é AntiÓquia e não ‘Antioquía’) e rumou para Jerusalém, ao sul, onde encontrou seguidores sobreviventes de Jesus de Nazaré, que havia sido crucificado cerca de 16 anos antes. Essa conferência apostólica ficou conhecida como Concílio de Jerusalém, e foi o primeiro concílio da Igreja, isto é, o primeiro ato político na história do Cristianismo. - Lembrando que a ‘política’ é necessária em qualquer instituição humana, e não precisa ser sinônimo de corrupção ou deturpação. Aproveitando o ensejo, aqui vai um pensamento para os que não se interessam por política: se você não se interessa por política, estará sujeito a viver eternamente governado por aqueles que se interessam.

Mas voltando ao Concílio de Jerusalém, ele representa também o ponto inicial e central a partir do qual podemos procurar reconstruir e compreender a natureza da doutrina de Jesus, bem como as origens da religião e da Igreja que ele trouxe à luz. E aqui tenho que interromper o raciocínio mais uma vez...

Está bem, todos nós sabemos que muita gente que não tem religião gosta de pensar, e até apregoar, que Jesus nunca fundou igreja nem religião alguma. Mas se quisermos mesmo conhecer a Verdade (sempre ela...), temos que nos render aos fatos:

Fato 1: a principal fonte que temos a respeito de Jesus Cristo, indiscutivelmente, está no conjunto dos Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João). Existe até uma teoria, cada vez mais respeitada entre os exegetas, de que o Evangelho de Mateus, mais do que um relato posterior (produzido décadas mais tarde) poderia ter sido uma espécie de "reportagem" da vida de Jesus de Nazaré, o testemunho ocular de partes do que ele fazia e dizia produzido in loco, enquanto acontecia. Já O Evangelho Apócrifo de Tomé (que havemos de abordar por aqui) é bastante interessante e pode ser levado a sério enquanto documento autêntico, mas ele não retrata a vida de Jesus enquanto personagem histórico, atendo-se às questões espirituais, a partir de uma abordagem profundamente mística. Uma obra espiritual escrita para poucos, assim como, por exemplo, o Livro da Sabedoria, Pistis Sofia e A Nuvem do Não Saber, escrito séculos mais tarde. Quanto aos demais textos apócrifos, eles foram escritos muito tempo após o acontecimento dos eventos, trazendo fortes influências filosóficas e doutrinárias de diversas seitas periféricas ao núcleo dos primeiros cristãos, o que inviabiliza a autenticidade das informações ali contidas, ao menos enquanto documental histórico confiável. Portanto, para efeito de pesquisa histórica, repito que o nosso conhecimento básico a respeito da doutrina, vida e obra de Jesus de Nazaré deriva principalmente dos Evangelhos canônicos. Este é um fato inegável, com o qual tanto religiosos, cristãos ou não, quanto ateus ou agnósticos, concordam.

E assim, partindo dos Evangelhos como a principal fonte para conhecermos o personagem histórico Jesus de Nazaré, não podemos ignorar o que os próprios Evangelhos dizem; assim como não podemos considerar apenas os trechos e passagens que nos agradam e com os quais “concordamos”, e descartar aqueles que não entendemos e com os quais "não concordamos". E então, o que Jesus diz, textualmente, nos Evangelhos?

“(...)Jesus perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizeis vós que Eu Sou?’ Simão respondeu: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo!’. Jesus, então, lhe disse: ‘Bem aventurado és, Simão filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai, que está nos Céus. Pois eu te declaro: tu és Pedra (corruptela 'Pedro'), e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja: os portais do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado no Céus.’”

Bem, então vemos claramente que as fontes mais confiáveis que temos a respeito de Jesus Cristo nos declaram, explicitamente, textualmente, que, sim, Jesus fundou uma Igreja (no grego Eclesia, que sifnifica o grupo daqueles 'chamados de fora', designando o povo que Deus convoca e reúne de todos os confins da terra) e deixou um caminho bem específico a ser seguido.

Fato 2: Dizer que Jesus não fundou “religião” alguma é uma afirmação um tanto quanto nebulosa, isto é, controversa, já que o termo “religião” está sujeito a diversas interpretações. Religião no sentido original do religare, a Religação com o Divino, isso ele pregou sim, inquestionavelmente. E também falou em arrependimento, batismo, mudança de vida, jejum, amor a Deus e ao próximo, Comunhão, etc... Todos esses elementos levam a um modo de vida bastante particular, que poderíamos chamar de religioso/religião/cristianismo. Mas, ainda que optássemos por chamar a este seguimento por outro nome qualquer, isso não mudaria o fato de que Jesus deixou um caminho específico a ser seguido. Ainda que a jornada principal e mais importante seja sempre mais a interior do que a exterior, o interior inexoravelmente se reflete no exterior, e esse ser humano integral, em perfeita e total Comunhão com Deus, com o seu semelhante e com a vida como um todo é que representaria a perfeita expressão da "Religião de Jesus".




Mas voltando à História, temos dois relatos quase contemporâneos do Concílio de Jerusalém: um, datando da década seguinte, foi ditado pelo próprio Paulo em sua carta às congregações da Galácia, na Ásia Menor. O segundo é posterior, e provém de uma série de fontes ou relatos de testemunhas oculares, reunidos por Lucas nos Atos dos Apóstolos. O de Lucas é uma descrição branda e quase oficial de uma disputa interna da Igreja em sua infância, e termina com a sua resolução satisfatória. Examinemos essa segunda versão antes: ela conta que “acalorado debate e controvérsia” tinham surgido em Antióquia porque “certas pessoas” em Jerusalém e na Judéia, em direta contradição à doutrina de Paulo, vinham dizendo aos adeptos do Cristianismo que não poderiam ser salvos a menos que se submetessem ao ritual judaico da circuncisão. Por consequencia, Paulo, seu companheiro Barnabé e outros da missão para os gentios em Antióquia viajaram para Jerusalém para consultar os Apóstolos e os anciãos.

Ali, tiveram uma recepção mista. Receberam as boas-vindas da “Igreja, dos Apóstolos e anciãos”; todavia, “algumas pessoas do partido dos fariseus, que tinham abraçado a fé”, insistiam que Paulo estava errado e que todos os convertidos deveriam não apenas ser circuncidados como também aprender a seguir a lei judaica de Moisés. Houve “uma longa discussão”, seguida de discursos de Pedro, que apoiava Paulo, do próprio Paulo e de Barnabé, e uma síntese de Tiago, parente próximo de Jesus (era irmão de Jesus? Falarei sobre isso no próximo post desta série). Tiago propôs um meio-termo que foi aceito “com a concordância de toda a Igreja”. Assim sendo, Paulo e seus companheiros seriam enviados de volta para Antióquia, acompanhados por uma delegação de Jerusalém, que levava uma carta estabelecendo as regras da conciliação: os convertidos não precisariam submeter-se à circuncisão, mas teriam de observar certos preceitos da lei judaica, em termos de regime alimentar e conduta sexual, social e moral. O relato de Lucas, nos Atos, assevera que se chegou a essa posição intermediária “por unanimidade”, e que, quando a decisão foi comunicada à congregação de Antióquia, “todos se rejubilaram”. Os delegados puderam, portanto, retornar a Jerusalém tendo solucionado o problema, e Paulo prosseguiu com a sua colossal missão.

Essa, pois, é a descrição do primeiro Concílio da Igreja, tal como narrada por um documento consensual, que se poderia considerar uma versão conciliatória e ecumênica, designada para apresentar a nova religião como um corpo místico dotado de vida própria, coordenada e unificada, encaminhando-se para conclusões inevitáveis e predestinadas. Assim, todos em Antióquia teriam se “rejubilado frente ao ânimo por ele proporcionado”.

Mas a versão de Paulo apresenta um quadro diferente. E seu relato não é “apenas” o de uma testemunha ocular, mas do participante principal e central do concílio, talvez o que melhor compreendia a magnitude das questões ali colocadas em jogo. Paulo não está interessado em aparar as arestas ásperas da controvérsia. Ele está apresentando um caso a homens e mulheres cujas vidas espirituais são dominadas pelas questões com que se defrontam os Apóstolos e anciãos naquela sala em Jerusalém. Seu objetivo não é pacificador nem ecumênico, e muito menos diplomático. É um homem determinado a dizer a verdade e imprimi-la como fogo nas mentes de seus ouvintes e leitores.

Nos apócrifos Atos de Paulo, escritos talvez cem anos após a sua morte, a tradição de sua aparência física é preservada com nitidez: “...um homem pequeno com uma grande cabeça careca. Suas pernas eram curvas, mas seu porte era nobre. Suas sobrancelhas eram bem unidas ele tinha um grande nariz. Um homem que inspirava amizade.” O próprio Paulo diz que sua aparência não impressionava. Admite também que não era bom orador; tampouco, externamente, era um líder carismático. Contudo, as cartas autênticas que sobreviveram irradiam seu carisma interior: possuem a marca indelével de uma personalidade maciça, ávida, aventureira, incansável, um homem que luta heroicamente pela Verdade e, então, apresenta-a com incontrolável entusiasmo, correndo à frente de sua própria capacidade de articulação. Não um homem com quem seria fácil trabalhar, ou a quem refutar em uma discussão, fazer calar com acordos ou propor compromissos com facilidade: um homem perigoso, rígido, inesquecível. Inspirando amizade, de fato, mas criador de grandes dificuldades e se negando de resolvê-las por meio do sacrifício de qualquer pequena parte da Verdade.

Ademais, Paulo tinha certeza de estar com a Verdade. Em sua carta (epístola) aos gálatas, algumas frases antes da sua versão do Concílio de Jerusalém, ele repudia, como tal, toda e qualquer ideia de um sistema conciliar que orientasse as questões da Igreja, todo e qualquer apelo ao julgamento dos mortais ali reunidos. “Tenho que deixar claro para vocês, meus amigos”, escreve ele, “que o Evangelho que me ouviram pregar não é nenhuma invenção humana. Não o recebi de homem algum; nenhum homem ensinou-o para mim; recebi-o por meio da revelação de Jesus Cristo”. Assim sendo, ao descrever o Concílio e suas consequências, Paulo escreve exatamente como se sente, de forma crua, concreta e inequívoca. Seu concílio é uma conferência humana de homens fracos e vulneráveis, dentre os quais ele sabia possuir um mandato divino. Os elementos judaicos arruinavam sua missão em Antióquia, que ele conduzia segundo instruções explícitas de Deus, que, segundo suas palavras: “...Me havia destinado desde o nascimento e chamado por meio de Sua Graça, escolheu revelar Seu Filho para mim e através de mim, a fim de que eu pudesse proclamá-Lo entre os gentios”. Para convencê-los, pois, foi ele a Jerusalém “porque fora revelado por Deus que eu deveria fazê-lo”. Viu os líderes dos cristãos de Jerusalém, “homens renomados”, como ele os chama, “em uma entrevista particular”. Esses homens, - Tiago, Pedro e João, “esses bem considerados pilares de nossa sociedade”, - sentiram-se inclinados a aceitar o Evangelho tal como Paulo o ensinava e a reconhecê-lo como Apóstolo de Cristo. Dividiram então o território missionário, “concordando que deveríamos ir para os gentios enquanto eles iam para os judeus”. Tudo que pediram foi que Paulo se certificasse de que suas congregações gentílicas proporcionassem apoio à igreja de Jerusalém, “exatamente o que me encarreguei de fazer”.

Tendo chegado a esse acordo, Paulo e os pilares chegaram a uma conciliação. Não há referência quanto a qualquer concessão feita por Paulo no que concerne à doutrina. “Nem por um momento cedi aos seus ditames”, deixou ele bem claro. Encontrava-se “determinado na Verdade plena do Evangelho”. Infelizmente, prossegue Paulo, sua vitória em Jerusalém não encerrou a questão. Os pilares que se haviam comprometido a permanecer firmes contra os falsos cristãos judeus não o fizeram. Quando Pedro, posteriormente, veio a Antióquia, estava pronto para tratar os cristãos gentios como iguais em termos religiosos e raciais, comendo suas refeições com eles. Quando os emissários de Tiago chegaram à cidade, porém, ele “retrocedeu e começou a manter-se à parte, por temer os partidários da circuncisão”. Pedro encontrava-se nesse momento “claramente em erro”, o que Paulo lhe disse “em sua cara”.

Infelizmente, outros mostraram “a mesma falta de princípios”, até Barnabé, que “agiu com a mesma falsidade dos demais”. Paulo escreve num contexto em que a batalha, longe de estar ganha, continua e se intensifica.


________________________
Fonte e bibliografia
Esta postagem contém trechos da obra:
JOHNSON, Paul. História do Cristianismo, Rio de Janeiro: Imago, 2001, pp 11-14.



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Hoje




É madrugada.

Há silêncio no ar.

Por um instante,

o soluço parou

a tristeza dormiu

e o pranto cessou.

Na barra do novo dia
brilha sorridente o sol da Alegria.

O ventre da Terra se contraiu,
a Natureza gemeu em santo parto,
reuniram-se todos os átomos
da força energética da vida...

O Pai é o parteiro presente;
anjos e mulheres o auxiliam.
Os guardas, homens armados,
cochilam frágeis e inofensivos.

Poderosos: sacerdotes, Herodes, Pilatos...
Com remorso no estômago, sofrem pesadelos.

O túmulo rompeu-se e a pedra rolou!
Eis de pé, vitorioso, o Renascido!
Do infinito parto da Natureza e do Céu
ressurge livre, vencedor,
o Filho Amado;
ontem matado e enterrado.

Termina, enfim,
a cansativa teimosia
entre o homem
e seu Criador.

Alguns lençóis,
placentas inúteis, restos da morte
que agoniza, faixas manchadas do pecado vencido,

voam pelo ar, no chão em festa, feito jardim,
por onde passeia, sorridente,
o Jardineiro imortal.

Tudo é surpresa e espanto
tudo é certeza e encanto.
Os convidados e seguidores cantam

Aleluia!

Maria, mulher símbolo,
suspira, aliviada e segura;
uma lágrima feliz terá corrido rápida,
fazendo ponto final, no seu papel genial.
por ela somos benditos também, quem não diria

Amém?

Enquanto os filhos da morte,
envergonhados, insistem em combater
de boca em boca, de casa em casa,
corre veloz a Notícia Feliz:

"Ressuscitou!!!"

Quem crê, saia depressa, correndo
atrás de Madalena, de Pedro, de João...
A Vitória será sempre da Vida!
E cada esforço, cada luta,
cada gota de sangue derramado
pela Justiça não terá sido em vão...

A última palavra será: Ressurreição!

FELIZ PÁSCOA!


A queda do homem


De acordo com uma mitologia muito antiga, houve um dia uma raça humana primordial, que teria vivido na terra antes da atual forma de ser humano que nossa civilização conhece. Formavam uma grande e adiantada civilização, que já foi identificada com os lendários atlantes, com os habitantes de Tule, da Lemúria, etc, etc... Esses seres humanos tinham uma sabedoria diferente da nossa e vidas muito longas, o que era possível por eles conviverem num mundo perfeito, de paz, saúde e felicidade, - já que haviam aprendido a manter uma relação de Amor e respeito com a natureza do Cosmo e com seu Criador.

A Bíblia se refere aos primeiros patriarcas da humanidade como seres que viviam saudáveis por séculos, e também se refere aos poderosos nefilins (ou refains, anaquins, enaquins, zanzumins...), gigantes que viveram sobre a Terra antes do Dilúvio, como sendo filhos dos “filhos de Deus” com as “filhas dos homens”. Golias, o gigante filisteu morto por Davi e sua funda, seria descendente de um deles?

E quanto aos grandes heróis arquetípicos de todas as culturas, tais como Sansão, Osíris, Gilgamesh, Hércules e outros, assim como os míticos heróis da Bhagavad Gita: poderiam eles refletir antiquíssimas memórias desses nossos predecessores?

Os próprios textos bíblicos não afirmam taxativamente que Adão foi o primeiro homem a existir sobre a face da terra. Adão era um dos homens primordiais que viveram na Terra, escolhido para representar, metaforicamente, a primeira geração humana, dando início à saga do povo de Israel. - Ora, Caim, depois de matar Abel, imigrou para um país ao nascente do Éden, onde se casou, constituiu família e edificou uma cidade. Sendo Adão e Eva literalmente os primeiros seres humanos, de onde teria vindo a mulher de Caim? E como poderia existir toda uma cidade, para onde ele poderia se mudar? - E nesse caso, o “barro da Terra”, do qual Adão foi tirado, poderia representar uma humanidade anterior?

Segundo certas mitologias esotéricas, a raça humana derivada de Adão é a quarta raça a ocupar a terra. Antes dela, outras raças nos precederam, sendo que todas foram destruídas por grandes cataclismos. O Mahabharata descreveria um desses conflitos.


O Homem Vitruviano




A Biblia diz que o homem da Terra foi feito à imagem e semelhança de Deus. A Cabala, por sua vez, diz que o homem da Terra é um retrato do "Homem do Céu", chamado Adão-Kadmon, cuja figura reproduziria, simbolicamente, as medidas do Cosmo, - o qual, por sua vez, guardaria relação geométrica e matemática com o próprio Criador que o produzira. O homem da terra, feito á imagem e semelhança do Homem do Céu, portanto, era uma reprodução do Mestre Arquiteto do Cosmo, e suas medidas podiam ser aprendidas através de relações geométricas e matemáticas, utilizando-se para isso, conhecimentos cabalísticos.

Foi isso que buscou o arquiteto italiano Cláudio Vitrúvio. Utilizando tais conhecimentos aliados aos que já possuía em Arquitetura, ele compôs o chamado "homem vitruviano", que Leonardo da Vinci imortalizou no seu famoso desenho, reproduzido acima.

Note-se que no estudo feito por Vitrúvio, todas as partes do corpo humano estão em relação eométrica como o seu todo, isto é, braços e pernas são a medida exata do tronco, pés e mãos também mantém uma exata proporção com o tronco, e todas as demais medidas igualmente guardam essa relação. A ideia do homem vitruviano também revela uma analogia bastante próxima aos famosos heróis da mitologia grega, cuja perfeição de formas era sempre destacada, e lembra, de alguma maneira, o desenho da Árvore Sefirótica da Cabala, Árvore da Vida, símbolo da conformação energética do Universo.

No desenho de Da Vinci é possível notar que a combinação das posições dos braços e pernas do homem formam quatro posturas diferentes. As posições com os braços em cruz e os pés são inscritas juntas dentro de um quadrado. Por outro lado, a posição superior dos braços e das pernas é inscrita dentro de um círculo. Isso ilustra o seguinte princípio: na mudança entre as duas posições, o centro aparente da figura parece se mover, mas o umbigo, que é o verdadeiro centro de gravidade, permanece imóvel. Desse desenho é possível deduzir as seguintes relações:

# Um palmo equivale à largura de quatro dedos;

# Um pé tem a largura de quatro palmos;

# Um antebraço ou cúbito é igual a largura de seis palmos;

# A altura de um homem é de quatro antebraços (24 palmos);

# Um passo equivale a quatro antebraços;

# A longitude dos braços estendidos de um homem é a medida da sua altura;

# A distância entre o começo do cabelo e a ponta do queixo é igual um décimo da altura de um homem.

# A distância do começo do cabelo para o topo do peito pode ser calculado como um sétimo da altura.

# A distância do topo da cabeça para os mamilos equivale a um quarto da altura e a largura máxima dos ombros é igual a um quarto da altura ; A distância do cotovelo para o fim da mão também é um quarto da altura, e distância do cotovelo para a axila equivale um oitavo da altura de um homem;

#
O comprimento da mão é um décimo da altura de um homem e distância do fundo do queixo para o nariz é um terço da longitude da face;

#
A distância do início do cabelo para as sobrancelhas é um terço da longitude da face e a altura da orelha é um terço da longitude da face.


O propósito de Vitrúvio era mostrar a relação matemática entre as proporções do corpo humano e o Universo. Isso comprovaria a tese de que o homem foi feito á imagem e semelhança do Criador (Homem do Céu), partindo do princípio de que o Cosmo nada mais era que a reprodução do corpo do seu Criador? - A ideia era comprovar essa relação de simetria, através das relações geométricas. Note-se que a área total do círculo onde ele é inscrito é idêntica á área total do quadrado. Dele se pode extrair o número mágico Phi , que os antigos matemáticos acreditavam ser o algoritmo fundamental para o cálculo de qualquer medida do Universo...




Bem, bem, mas toda essa introdução foi só para dizer que, se nós viemos de Deus; se somos mesmo imagem e semelhança do Criador Bom e Perfeito... Se habita em nós a memória Universal e transcendente de nossa própria condição humana, se viemos a esta existência já com uma "bagagem" psíquica espiritual/ancestral que existe desde o princípio dos tempos... Então, nesse caso, algo aconteceu para nos trazer a nossa condição presente. Em algum momento de nossa história, houve uma ruptura. - Se existíamos e estávamos já com DEUS, desde o começo, se éramos "UM com" Ele, e agora estamos como estamos, torna-se evidente que houve um rompimento, uma divisão, um ponto de ruptura que ocorreu em algum momento da nossa história espiritual.

Podemos afirmar tranquilamente, sem medo de errar, que praticamente todas as tradições religiosas referiram a esse momento em suas mitologias, que para nós, ocidentais, se convencionou chamar de "a Queda do Homem". O homem (isto é, a humanidade) estava com Deus, era UM com Deus e partilhava da Vida de Deus, em Deus. Hoje, estamos separados, divididos, afastados de nosso Criador. Perdemos contato com essa Realidade Transcendente e só conseguimos acessá-la, e mesmo assim em parte e imperfeitamente, em momentos e situações muito especiais, como nas epifanias. Foi algo assim que eu tentei relatar na postagem anterior, e também aqui, aqui e aqui, entre tantas outras. São esses raros e especiais momentos de conexão que chamam de "milagres".

Mas o que fazer para reatar essa relação íntima e direta com DEUS? Isso é possível? É desejável? Vale a pena tentar? O que ganhamos com isso? O que perdemos? Devemos ter medo? Esse "reatar relações" com Deus pode ser alcançado por meio de alguma religião? Ou por todas elas? Algum personagem histórico já conseguiu tal feito? Se a resposta for positiva, como alcançar tal experiência? Ou ela só estará disponível para aqueles seres humanos muito especiais ou muito santos? Como buscar essas experiências sem me tornar alienado, maluco, execrado pela sociedade, sem perder a noção da realidade, do que é concreto, e, até mesmo, sem me sentir especial ou superior aos outros?

Perguntas, perguntas... Que eu vou responder. Na próxima. Uma Santa Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia e Páscoa a todos os que creem, e especialmente aos que não creem nestas coisas.

E a você que me lê agora e sabe que estou falando diretamente para você e mais ninguém: não fique triste, não se deixe abater. Tudo faz parte da Experiência, e quanto antes você rever e "reformatar" a sua escala de valores, tanto antes você vai superar todas essas dúvidas e anseios. Essas dúvidas todas são nada, mas cabe somente a você fazer a escolha certa. Meu Amor de amigo verdadeiro está com você, sempre, e mesmo que você não o queira e o jogue fora, a qualquer momento poderá resgatá-lo, porque o Amor não morre nunca. Amor e Paz!


________________________
Fonte e bibliografia
Partes desta postagem são baseadas na obra de
ANATALINO, João. O Filho do Homem, São Paulo: Recanto das Letras, 2009



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários