Reencarnação - final



Eu disse na postagem "Porque deixei de crer na reencarnação" que citaria um caso que considero bastante curioso: ocorre que uma das contestações à reencarnação mais bem elaboradas que já li na internet foi escrita por alguém que acredita piamente na reencarnação espírita. Ou acreditava, não sei. Estava falando do Acid Zero, do blog Saindo da Matrix. Apesar dos posts sacanas que ele costumava publicar descendo a lenha no catolicismo (pior que quase sempre injustamente e promovendo calúnias, ao invés de criticar a Igreja nos pontos em que ela de fato merece ser criticada), eu respeito o trabalho dele. E sempre achei interessante, também, o fato de ele recusar o rótulo de "espírita". - Isto é, ele considera o Allan Kardec como um dos homens mais importantes que já nasceram no planeta Terra, o Chico Xavier como um dos maiores mensageiros da Verdade de todos os tempos, além de ser, declaradamente, um devorador de livros espíritas e ter a reencarnação e os fenômenos ditos mediúnicos como verdades inquestionáveis... O que falta para que alguém assim possa ser considerado espírita??

Enfins... Já percebi há algum tempo que, assim como existem muitos indivíduos que se declaram católicos, sem o serem de fato, muitos espíritas não assumem o título, mesmo sendo espíritas de fato. É o contrário! Não afirmo que seja o caso específico do Acid, e nem poderia fazê-lo, mas que isso acontece, e muito, não há como se negar. Estranho... Mas vamos ao conteúdo da tal postagem, uma perfeita contestação à teoria da reencarnação, ela própria baseada, segundo as palavras do autor, - n"uma coletânea de coisas que foram debatidas na lista 'Voadores', principalmente por Lázaro Freire, Patrícia Montini e Arauto Draconiano. Me apoderei sem piedade dos textos deles como se fossem meus, mudando coisas aqui e ali, e acrescentando tantas outras"... - O que não lhe tira, de modo algum, o mérito pela clareza e brilho da postagem.

Então é isso. Eu também vou me apoderar do texto dele (hehe) agora, porque é tão perfeitamente alinhado com o que eu penso, que acho que não preciso me dar ao trabalho de reescrever tudo de novo, para falar exatamente as mesmas coisas... Encerro esta nossa série sobre a teoria da reencarnação, ao menos por enquanto, com a reprodução de alguns trechos do longo artigo publicado no "Saindo da Matrix", que começa com um exercício de razão combinado com dados estatísticos, bem semelhante ao da
minha postagem anterior, como poderão perceber. Enjoy...


Reencarnação - do blog "Saindo da Matrix" (agosto / 2007)

Alguns dados que comprometem o raciocínio reencarnacionista tradicional:

1) Nascidos nesse planeta até meados de 2002 = 106.456.367.669 pessoas.
Fonte:
Population Reference Bureau

2) Pessoas vivas nesse planeta até meados de 2002 = 6.215.000.000 pessoas.
Fonte: Population Reference Bureau

3) Razão entre total de espíritos encarnados e total de espíritos desencarnados aguardando reencarnação = 1:10.
Fonte: Várias obras espíritas dão essa estimativa.

4) Total de espíritos que já nasceram alguma vez nesse planeta, mas que já passaram a habitar planetas mais adiantados e não mais encarnarão aqui (digamos uma estimativa conservadora de 10% do total de nascidos) = 10.645.636.766,9.


Conclusão:

1) 95.810.730.902.1 vidas já foram realizadas, distribuídas entre 68.365.000.000 espíritos, o que dá uma média de 1,4 vidas por espírito(!), o que significa que, se cada um dos 68.365.000.000 espíritos ainda ligados a esse planeta tivesse tido o mesmo número de encarnações que os demais, então cada espírito teria que ter reencarnado 1,4 vezes(!).

2) Prosseguindo nos cálculos, chegamos à conclusão de que, para que pelo menos 10% dos espíritos ainda ligados a este planeta (encarnados ou não) tenham tido 5 encarnações, os outros 90% teriam que ter tido SOMENTE UMA ENCARNAÇÃO.

Estranho, não?



Sim. Para quem crê na reencarnação, deve ser estranho. Muito. Para quem tem convicções diferentes, como é o meu caso, nem um pouco. Bem, neste princípio foi feita uma análise racional e estatística, como já disse, bem parecida com a que vimos na última postagem do "a Arte das artes", só que mais completa e mais aprofundada. A seguir vem a reprodução de um diálogo do filme Waking Life, e a partir daí, a postagem caminha para uma conclusão que, como disse no começo, traz linhas de raciocínio bem semelhantes às minhas próprias. Veja o diálogo:


- É... andei pensando sobre algo que você disse.

- O que é?

- Sobre reencarnação, e de onde todas as novas almas vêm ao longo do tempo. Todo mundo sempre diz ser a reencarnação de Cleópatra, ou de Alexandre, o Grande... Não passam de bestas quadradas, como todo mundo. Quero dizer, é impossível. Pense sobre isso: a população mundial duplicou nos últimos 40 anos, certo? Então, se você acredita nessa história egóica de ter uma alma eterna, há 50% de chance da sua alma ter mais de 40 anos. Para que ela tenha mais de 150 anos, é... uma chance em seis.

- O que você está dizendo? Reencarnação não existe ou somos todos almas jovens? Metade de nós é de humanos de primeira viagem?

- (...) Eu acredito que, de alguma forma, a reencarnação é uma expressão poética... do que realmente é a memória coletiva... Eu li um artigo de um bioquímico, não faz muito tempo. Ele dizia que, quando um membro de uma espécie nasce, ele tem um bilhão de anos de memória para usar. É assim que herdamos nossos instintos.

- Gosto disso. É como se houvesse uma ordem telepática da qual nós fazemos parte, conscientes ou não. Isso explicaria os saltos aparentemente espontâneos, universais e inovadores na ciência e na arte. Como os mesmos resultados surgindo em toda a parte, independentemente. Um cara num computador descobre algo e, simultaneamente, várias outras pessoas descobrem a mesma coisa. - Houve um estudo em que isolaram um grupo por um tempo e monitoraram suas habilidades em fazer palavras cruzadas em relação à população em geral. Então, deram-lhes um jogo da véspera, que as pessoas já tinham respondido. A sua pontuação subiu dramaticamente. Tipo 20%. É como se, uma vez que as respostas estejam no ar, pudessem ser pescadas. É como se estivéssemos partilhando nossas experiências telepaticamente...



População da Terra - ano 1000: 310 milhões / ano 2050: 9 bilhões.

Não precisa de muita conta para ver que, matematicamente, quase todos estão na primeira "encarnação" aqui. Ou que o que chamamos de reencarnação pode ser algo bem mais coletivo, assim como a evolução, se "Somos Todos Um Só". Será por isso que tantas pessoas diferentes dizem acreditar (mesmo!) ter sido Cleópatra - ou Allan Kardec? Será que não está na hora de abrirmos a mente para um modelo um pouco mais akáshico e coletivo para reencarnação?

Se por um lado existem certas evidências em favor da autenticidade de pessoas que se lembram de vidas passadas, parece bastante razoável supor que acessamos, não "vidas", mas "vivências passadas", até como parte de nossa experiência pessoal. Podemos inclusive ter lembranças e sincronicidades. Mas será que vem mesmo de uma vida vivida por nosso espírito num outro corpo? Será que o que acessamos em TVP, Akash e sonhos, vem mesmo da continuidade de nosso ego pessoal?

Num artigo publicado em agosto de 2007 pela revista Science, o Dr. H. Henrik Ehrsson, do Departamento de Neurociências Clínicas do Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia), conseguiu induzir pessoas sadias a uma experiência extra-corporal. Segundo Ehrsson, o fenômeno é "uma ilusão perceptiva na qual os indivíduos experimentam que seu centro de consciência, ou seu 'eu', está situado fora de seus corpos físicos, e que olham para seus corpos do ponto de vista de outra pessoa. Esta ilusão demonstra que o sentido de 'ser', localizado dentro do corpo físico, pode estar determinado plenamente por processos perceptivos, isto é pela perspectiva visual junto com o estímulo multi-sensorial do corpo".

Caso não tenham entendido, é um cientista neuronal dizendo que seu EU não necessariamente existe dentro do seu corpo!!! E baseado em métodos científicos, publicados na prestigiada revista Science!

Lázaro conta que certa vez teve certezas íntimas de ter sido um personagem conhecido. Para não viajar muito, aceitou talvez ter sido um conhecido do cara, um colaborador. Mas o fato é que pegava um livro e lhe vinha tudo, fora sincronicidades variadas. Tudo o que faria um espírita pensar ter sido "o" cara, e tentar recuperar sua "missão". Por precaução, preferiu confirmar para si mesmo do que sair revivendo sua "encarnação" anterior. E obteve algumas confirmações. Até que começou a acessar a vida de outro autor B, com a mesma sinceridade e intensidade. Mais confirmações vieram, do mesmo modo. Mais tarde, ao pegar em um livro de um autor C, um pacote de conhecimentos lhe veio à mente. Ele já sabia o que estava escrito, escrevia parecido com ele, se identificou muito com o autor. O mesmo valeu para D, que referências de espiritualidades confiáveis lhe disseram mais tarde ter sido ele em uma outra vida. De fato, ele se identificava com todos eles. E os vários karmas de A, B, C e D explicavam bem sua vida, tanto nos defeitos quanto nas qualidades. O problema é que essas pessoas tinham vivido praticamente no mesmo tempo!! Ainda tentaram lhe dizer que talvez eles tivessem se encontrado, ou que talvez ele tivesse sido um intelectual que estudou muito os quatro, mas no íntimo ele sabe que os "acessou" de alguma forma.

O fato é que o nosso "hardware", mesmo sendo de última geração, parece poder acessar os "softwares" mais antigos via emulação.

Um modelo mais "dilatado" dos Arquivos/Registros Akáshicos pode responder por estes fenômenos. Pra quem não sabe, esses arquivos são como registros de eventos que acontecem em determinado lugar. Um sensitivo, por exemplo, poderia, ao caminhar nas praias da Normandia (França), "acessar" algumas cenas do desembarque do Dia-D (mais ou menos como aquela propaganda do History Channel, o "descubra onde você está") que ficaram impressas no "éter" ou "Akash" (a matéria-prima do Universo, na metafísica). Seria pelos mesmos motivos que certos lugares ficam "mal assombrados".

Uma pessoa faz terapia de vidas passadas para saber porque não gosta da nora, e então descobre que ela roubou seu marido em outra vida. Tudo faz sentido, tudo se encaixa magicamente como num romance da Zíbia Gaspareto, e a pessoa sai dali dizendo que "se resolveu". (...) Não basta, a meu ver, saber que o peso daqui é igual ao de lá, e que tudo está certo na mesma proporção. Ao contrário, creio que as coisas se encaixam tão magicamente assim (em sonhos, regressões ou romances da Zíbia) exatamente porque foram "feitas sob medida", ou seja, são a perfeita compensação da mente.



Aí está. Achei genial. Genial e simples, como as coisas geniais costumam ser. Me chama atenção especialmente este trecho de Walking Life: "(...)Quando um membro de uma espécie nasce, ele tem um bilhão de anos de memória para usar. É assim que herdamos nossos instintos". - É muito possível, biológica e racionalmente falando, que seja também assim que herdemos (alguns de nós), certas memórias ancestrais que os mais afoitos se apressam em afirmar que seriam provas da reencarnação. O texto do Saindo da Matrix alude a alguns casos de pessoas que relataram "memórias de vidas passadas" múltiplas, de diversos personagens que viveram na mesma época... Mais uma evidência da impossibilidade da reencarnação, ao menos segundo o conceito espírita. Penso também que seria interessante publicar alguma coisa sobre o Registro Akáshico, por aqui, e aprofundar sobre a matéria Inconsciente Coletivo: são alternativas bastante interessantes que explicam satisfatoriamente os fenômenos mediúnicos e de reminiscências de outras vidas. Tais lembranças são possíveis, mas não quer dizer que tenhamos sido nós, na pele dessas pessoas que viveram em outras épocas.

Esperando não ser processado por ter reproduzido um trecho de uma obra alheia ligeiramente maior do que o permitido por lei, me despeço deste polêmico assunto (achei que ia render mais debates, mas sei que alguns amigos meus ou estão tristes comigo, ou se colocaram numa postura 'religião não se discute'). Bom. O barulho que pretendo fazer, assim como o movimento que procuro provocar, é interno, muito mais do que externo.



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A reencarnação é possível?

Seria possível que a reencarnação constituisse um sistema obrigatório para a evolução dos espíritos, como afirma o espiritismo de Kardec? Continue a leitura e tire suas próprias conclusões.




Sabemos que muita gente faz "terapia de vidas passadas" e afirma ter acessado lembranças de outras encarnações. Um estudo que pode se revelar bem interessante, e o próprio trabalho do Dr. Ian Stevenson, que abordei aqui, se baseou principalmente em casos de lembranças como essas. Mas é curioso observar também que essas pessoas nunca dizem que estão em sua primeira encarnação. Todos os que se submetem a essas "terapias", com êxito, retornam dizendo que já estiveram por aqui antes (de preferência na pele de alguém importante), numa outra vida, em outra época. Não são poucos os que se impressionam com essas histórias, e eu mesmo conheci alguns casos intrigantes, em que foram citados lugares e nomes de outros tempos, por pessoas que dificilmente poderiam ter tido acesso a essas informações. Entretanto, se quisermos adotar uma postura investigativa e realmente científica a respeito do assunto, temos que nos obrigar a analisar a questão por todos os ângulos. Será a reencarnação a única hipótese viável para explicar esses fenômenos? Ainda antes: será viável a hipótese da reencarnação?

A ciência estatística e a matemática, junto com o discernimento humano mais elementar, provam que a resposta é não. - E antes que se diga que espiritualidade não combina com ciência, lembro que é o próprio espiritismo kardecista que se auto-proclama não como religião, mas como uma ciência. - Sendo assim, observemos: é fato que a população mundial aumentou exponencialmente nos últimos 1.000 anos, sendo que nos últimos 500 anos esse crescimento chegou a se tornar assustador, como demonstram os dados oficiais abaixo[1]:

• Em 10.000 aC o planeta abrigava poucos milhões de habitantes.

• No ano 1 dC a população mundial totalizava cerca de 250 milhões de habitantes.

• Após 1.600 anos, a soma da população mundial não ultrapassava 500 milhões de habitantes.

• Em 1850, a população do planeta atingiu 1 bilhão de pessoas.

• De 1850 a 1950 o contingente populacional teve um estrondoso crescimento, alcançando 2,5 bilhões de habitantes.

• 40 anos depois, a população já havia crescido mais do que o dobro, totalizando 5,2 bilhões de habitantes.

• A partir do ano 2.000 a população total do mundo somava 6 bilhões de pessoas.

• No dia 05 de agosto de 2008, a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou um relatório que apresenta uma estimativa em relação ao número de habitantes em escala planetária para o ano de 2050, que poderá atingir 9,2 bilhões de pessoas!!!


Para o bom entendedor meia palavra basta, e esta nossa análise poderia ser encerrada aqui mesmo, sem a necessidade de mais nenhuma palavra. Ocorre que, em 2.000 anos, a população mundial não só cresceu, mas dobrou, triplicou e quadruplicou - não uma, mas várias vezes! - Para avaliar esse fato concreto a partir da ótica da teoria da reencarnação, somos obrigados a concluir que a imensa maioria de nós teria que estar aqui pela primeira, ou no máximo, pela segunda vez. E é exatamente a partir deste ponto que todo o conceito de reencarnação começa a desabar por terra, de vez; simplesmente porque se revela nada menos que impossível! Vejamos...

A partir da simples constatação acima, o sistema reencarnatório se torna uma impossibilidade completa, por duas razões mais do que óbvias: primeiro, porque fica evidente que a humanidade não poderia se encontrar no meio de um processo evolutivo, através de uma sucessão gigantesca de reencarnações, sendo que a própria quantidade de indivíduos no mundo o desmente. Agora, se imaginarmos que uma quantidade simplesmente fenomenal de espíritos estaria sendo despejada em nosso plano de existência nos últimos séculos, seria preciso admitir que estaríamos, a grande maioria de nós, em nossa primeira encarnação. O que nos leva à segunda e óbvia conclusão: ora, segundo as afirmações de Kardec e os princípios básicos do espiritismo, os espíritos precisariam de muitas encarnações para evoluir e se tornarem seres humanos melhores. Sendo assim, com essa imensa quantidade de espíritos de primeira viagem chegando sem parar ao nosso mundo, seria de se esperar que o nosso plano estivesse involuindo, e tragicamente! - Observamos, no entanto, o exato oposto: que apesar de todos os pesares, mesmo o maior pessimista é obrigado a reconhecer que o nosso planeta vem evoluindo, cada vez mais e mais rápido, especialmente nos últimos séculos.

Evoluimos em nossas estruturas sociais, em nossos sistemas legais, em nossa justiça, de um modo geral, na medicina, na tecnologia... O avanço das telecomunicações tornou o mundo mais justo, pois agora é muito mais difícil esconder massacres e perseguições, como acontecia em outros tempos. Uma nóticia levava meses pra atravessar continentes, e hoje leva segundos. Com a globalização, a troca de informações facilita a integração entre culturas e línguas diferentes, o que levou o mundo a uma era de tolerância nunca vista. A escravidão, que já foi legal e "normal" no mundo considerado civilizado, foi finalmente vencida: embora persista em situações e lugares isolados, a sua prática hoje é ilegal em praticamente todo o planeta. Vivemos tempos inéditos com relação à superação do preconceito racial e religioso no mundo: vimos os EUA elegerem democraticamente um presidente negro, algo impensável em décadas passadas. Falar em política, a democracia cresce em todo o mundo, e se aperfeiçoa nos países em que existe há mais tempo. E este blog não poderia deixar de citar o avanço consciencial que as grandes religiões vivenciaram nos últimos anos. Avançamos dos tempos de guerra (literal) entre islâmicos e cristãos para uma época de diálogo e aproximação, ainda lenta, porém gradual. Entre muitos outros exemplos que poderia citar, posso testemunhar que acompanho, pessoalmente, uma integração nunca antes vista entre católicos e budistas, com diversos encontros de estudo, retiros espirituais conjuntos, oficinas de meditação e palestras mistas, monges que interagem, etc... Algo que seria impensável nos tempos dos meus avós.

A conclusão irrecusável é que o mundo está, sim, evoluindo, embora lentamente, e apesar de certos retrocessos que nos parecem inadmissíveis. Mas também é importante entender que até o fato de as coisas erradas nos parecerem tão teríveis, hoje, também é uma demonstração de evolução consciencial. Em outros tempos, situações muito mais graves eram vistas com indiferença por nossos antepassados. Voltando à questão central: se a maioria de nós está na primeira encarnação, como se explica a evolução da humanidade?


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1. Fonte: Divisão de População do Departamento de Assuntos Sociais e Econômicas da ONU (DESA)



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A reencarnação explica as diferenças e o sofrimento no mundo?

Continuação de Reencarnação: uma análise social, ética, moral e espiritual. Texto de autoria própria, baseado num artigo do Profº José Moreira da Silva.




"Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se? Sofrendo a prova de uma nova existência.”
(Livro dos Espíritos-Pergunta 166)


"Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação.”
(Livro dos Espíritos-Pergunta 132)


Se aceitarmos que tudo de ruim que acontece conosco é a reação por nossas falhas passadas, aí é preciso aguentar tudo calado. Aceitar e encarar as adversidades como instrumentos para a nossa "evolução", o nosso crescimento espiritual. Você deve se conformar, entender que é (ou foi) uma pessoa ruim e merece a dor. Este é, sabidamente, um dos fatores pelos quais as sociedades que adotam a teoria da reencarnação estão entre as mais atrasadas do mundo, econômica e socialmente falando. A Índia, mãe da ideia, é o maior exemplo: milhões de pessoas vivem resignadas na pobreza porque acreditam que merecem viver aquilo, que estão pagando por erros cometidos em vidas passadas e por isso nasceram como membros de castas inferiores, uma condição que terão que suportar sem reclamar por toda a vida. Conveniente para alguns, cruel para muitos.

Mas isso não surpreende: o conceito da reencarnação ensina, explicitamente, que em nosso plano convivem seres superiores, evoluídos, e outros espiritualmente inferiores e subdesenvolvidos. Segundo Kardec, por exemplo, negros e índios, entre outros, seriam encarnações de espíritos inferiores. Senão, vejamos o que o próprio tem a dizer sobre o assunto:

"Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, (...) perguntamos: (...) Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes de um menino hotentote recém-nascido e o educardes nos nossos melhores liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um Newton?"
(Allan Kardec, Livro dos Espíritos, Federação Espírita Brasileira, 76a. edição, 1995, Cap. V, q.222, pp.147-148)

"O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os espíritos recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados"...
(Allan Kardec, A Gênese, Ed . Lake, São Paulo, 1a edição, comemorativa do 100o aniversário dessa obra, p. 187)

"Um chinês, por exemplo, que progredisse suficientemente e não encontrasse em sua raça um meio correspondente ao grau que atingiu, encarnará entre um povo mais adiantado"
(Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Edição da Federação Espírita Brasileira, Brasília, 32a. edição, sem data, pp. 206-207. A edição original de Qu"est ce que le Spiritisme é de 1859)


Bom, Kardec era francês, europeu bem nascido, por isso muito superior a índios, negros, chineses e hotentotes... O curioso é que os séculos passam e a população negra e chinesa continua aumentando, e muito... Se estamos num processo de evolução, que segundo o próprio "codificador do espiritismo" é irreversível, o número de índios, negros e chineses deveria estar diminuindo. Aliás, acho que esqueceram de avisar ao grande mestre que alguns dos maiores gênios da História, entre poetas, cientistas, pensadores e políticos tinham (e tem) origem negra, ameríndia e chinesa.

Já Chico Xavier, expoente máximo do espiritismo no Brasil, ensinava que a pobreza é uma ótima oportunidade para uma maior evolução espiritual. Dizia que alguém que vive na pobreza nesta vida poderia numa próxima voltar, além de abastado, preparado para dividir a riqueza com os mais necessitados. E ele realmente parece ter feito questão de viver na pobreza durante toda a sua vida, apesar das inúmeras oportunidades que teve para enriquecer. - Isso cativa muita gente, e convence os mais impressionáveis de que, se ele viveu o que pregou, logo, o que ele pregou deve estar certo. - Simplório? Sem dúvida. Porém... será mesmo que quem nasce na miséria deve se conformar, esperando que talvez numa próxima vida possa voltar em outra condição, se praticar virtudes agora?

Bem, é exatamente nisso que acreditam também os hindus. - O que é ser bom, neste caso? Aguentar tudo calado, aceitar passivamente as injustiças e a própria condição social, seriam sinônimos de bondade?

A História mostra que não. A Europa só evoluiu, em termos tecnológicos, culturais e sociais, levando consigo o resto do mundo, quando pessoas em condições sociais inferiores se revoltaram e foram à luta. Se tivessem um governo teocrático baseado na crença da reencarnação, como é o caso, além da Índia, de diversos países subdesenvolvidos do continente asiático, isso nunca teria ocorrido. Provavelmente iriam aguentar as vicissitutes calados, esperando pela próxima vida. É mais do que evidente, histórica e sociológicamente falando, que a crença na reencarnação fatalmente leva ao conformismo. Contraditoriamente, os reencarnacionistas falam em evolução, mas a História nos mostra que, se o ser humano aceitasse o sofrimento como consequência de um processo reencarnatório, o mundo não teria evoluído de fato.


"A reencarnação explica"... Será?

Este é considerado pelos reencarnacionistas como o grande ponto forte da doutrina da reencarnação: o fato de ela “explicar” as diferenças e injustiças do mundo. E isso é tudo que uma mente questionadora procura: explicações. Mas me responda agora: qual deve ser o objetivo de um verdadeiro buscador espiritual? Explicações reconfortantes ou a Verdade, mesmo que num primeiro momento ela não pareça tão bonintinha e confortável?

O ser humano primitivo, quando queria algo, simplesmente tomava. Depois passou a viver em sociedade, e a própria natureza criou um sistema para garantir a sobrevivência no planeta. O que aconteceu foi o seguinte: milhões de espécies animais morreram porque não tinham um sistema que funcionasse. Quando surgiu um sistema que funcionou, este permaneceu. Simples como a natureza costuma ser. Esse sistema foi desenvolvido pelos animais sociais (que vivem em grupo) e é chamado de Sistema Hierárquico. Ou seja, todo grupo de animais tem um chefe. Isso funciona, porque sem um chefe (o mais poderoso ou persuasivo da turma), os animais lutam o tempo todo entre si. O chefe apareceu para manter a paz e garantir a partilha dos recursos. Foram encontradas evidências de que os seres humanos, já no período pré-histórico, ajudavam aos portadores de deficiências físicas, incapazes de caçar, a se adaptar em sociedade, a executar as tarefas essenciais do dia-a-dia. Mas antes da existência das estruturas sociais e do líder, a vida humana era uma luta constante.

O tempo passou, eras se sucederam, a sociedade humana foi evoluindo, aprimorando-se. E então, um dia, o inevitável aconteceu: alguém, há muito tempo atrás, perguntou: "porque uns nascem superiores e outros inferiores? Porque um nasce belo, saudável e rico, enquanto outro nasce feio, doente e pobre? Isso é injusto!" Aí, desenvolveu uma teoria baseada na mais elementar lógica humana para explicar todas as aparentes injustiças do mundo. Se esta vida parece injusta, nada mais reconfortante do que acreditar que haverá uma nova vida, aqui mesmo nesta Terra, onde tudo será diferente: o que me oprime será oprimido, e eu mesmo, que agora sou pobre e doente, um dia serei rico e saudável. A teoria da reencarnação surgiu para "explicar" as injustiças das diferenças de nascimento.

Observemos que o Sistema Hierárquico, explicado mais acima, funciona perfeitamente entre todos os animais sociais. Os mais aptos se destacam no grupo, dominando sobre os demais. Se você examinar o sistema hierárquico, comparando vários grupos animais, verá que é um fator positivo e resolve muitos problemas. Mas para os seres humanos, especificamente (e apenas para eles), a realidade biológica parece injusta, porque além de sociais somos racionais, espirituais e questionadores. Mesmo sendo inegavelmente especial em muitos aspectos, num particular o ser humano é igual às outras espécies da natureza: alguns nascem mais inteligentes, fortes e belos, enquanto outros nascem estúpidos, fracos e feios. Acontece que isso faz parte da verdadeira e soberbamente comprovada evolução natural que atua em nosso mundo.


Raquel Zimmermann, a nova "top one" do mundo


As disparidades sempre ocorrem no universo dos seres vivos, seja vegetal ou animal. Nossa racionalidade e sensibilidade, no entanto, reluta em aceitar este fato inquestionável. Todos nascemos com determinadas qualidades e desprovidos de outras, e nesse sistema existem superdotados e embotados. Por que uma roseira produz flores maravilhosas, enquanto outra, da mesma espécie e criada no mesmo tipo de solo, submetida às mesmas condições e cultivada igualmente, simplesmente não floresce? O mesmo se dá com as árvores frutíferas. Dentro do mesmo pomar, algumas produzem mais frutos que outras, e algumas até não produzem fruto algum. No caso das plantas ornamentais, algumas crescem belas e exuberantes enquanto outras não se desenvolvem ou se tornam retorcidas e feias. Será que isso acontece porque as plantas, na sua "encarnação anterior" foram más?? A flor nasceu torta porque na outra vida foi perversa e agora está evoluindo, para que numa nova encarnação possa nascer bonita e viçosa?

E quanto aos animais? Na criação de carpas do meu amigo, uma nasceu com uma nadadeira defeituosa. Ela tem dificuldades para nadar e principalmente para subir à superfície e buscar alimento. As outras comem tudo rapidamente, e ela precisa esperar uma ou outra migalha que desça no fundo do tanque para poder comer. Por conta disso, o seu desenvolvimento foi comprometido e ela cresceu menos que suas irmãs. Por que isso aconteceu? Na outra vida ela foi um peixe ruim? Ou será que na próxima ela vai nascer saudável, para compensar o sofrimento desta vida??

Evidente que não! A genética explica todos esses fatos! E no caso dos seres humanos não é diferente! O fato é que sempre vão existir pessoas superiores e inferiores umas às outras, num ou noutro aspecto, neste mundo. Isso faz parte de um outro processo evolutivo a que estamos submetidos, todos nós, humanos, animais e vegetais: aquele que foi descoberto por Charles Darwin. Este sim, é real. E, sinto dizer aos que apoiaram suas esperanças nessa crença, não tem nada a ver com reencarnação. E essa superioridade de uns sobre outros é individual, não racial, embora cada uma das classes biológicas humanas possua características distintas. Tanto que existem pessoas embotadas e inteligentes em todas as raças. Assim como existem "feios" e "belos" em todas, e assim por diante.

Você, fisicamente falando, é o resultado de muitos fatores genéticos combinados. Quais as chances de a Raquel Zimmermann ter se tornado o sucesso que é se tivesse nascido no Zimbabue? E se tivesse nascido com uma forte tendência genética à obesidade? É quase certo que nunca seria famosa, porque o padrão de beleza que impera no mundo, hoje, é “branco e magro”. Mas isso já foi diferente no passado. Cleópatra, considerada a mulher mais bela do mundo na Antiguidade, era uma mulher de pele escura e nada magra. No período renascentista, as mulheres que mais faziam sucesso eram as “rechonchudas”. O padrão atual é Raquel Zimmermann, mas ele pode mudar no futuro. Sorte da Raquel ter nascido nesta época, porque simplesmente sua condição física e sua capacidade de ficar à vontade diante das câmeras lhe valeram fama e fortuna.

Agora, dizer que a Raquel nasceu assim porque foi melhor numa outra encarnação do que alguém que nasceu no Zimbabue ou com uma tendência genética à obesidade é puro preconceito e elitismo. Você está dizendo, ainda que indiretamente, que a Raquel é melhor do que uma criança do Zimbabue, e não só por causa das circunstâncias, mas também moralmente. Você está dizendo que ela é rica, bonita e desfila bem porque é moralmente superior a quem nasceu no Zimbabue. Você pode tentar negar, dar voltas, mudar o foco do assunto (especialidade dos reencarnacionistas quando se toca nesses pontos-chave), mas é exatamente isso que a doutrina da reencarnação ensina. Que uma pessoa saudável, rica e bela, é moralmente superior a uma pessoa deficiente, feia e pobre.


"É por isso que a idéia da reencarnação é o pensamento mais preconceituoso, excludente, elitista e arrogante que eu conheço para explicar fatos naturais."

Profº José Moreira da Silva


E há um exemplo ainda mais claro para abordarmos a mesma questão: por que um ser humano sente compaixão por outro? Por causa de um fator chamado empatia: porque se põe no lugar do próximo, e assim pode sentir o que ele sente, num certo nível. Mas a empatia depende muito da sensibilidade de cada um. Tem gente que nunca consegue se por no lugar do próximo. Estes se mostram muito insensíveis, na maior parte do tempo. A reencarnação procura mostrar que os insensíveis ainda terão que nascer e renascer muito para desenvolver a sensibilidade para com o sofrimento alheio.

Mas o fato é que as diferentes sociedades também influenciam nesse grau de sensibilidade. Quanto mais avançada uma civilização, maior à capacidade de seus indivíduos se colocarem no lugar do outro. Quanto mais avançada é a cultura de um indivíduo, mais sensível ele é. Os europeus estão entre os que mais se preocupam com os direitos dos animais, por exemplo. Naqueles países acontecem até protestos públicos e grandes passeatas nas ruas em defesa dos direitos dos ratos de laboratório. Isso acontece, entre outras razões, porque as suas necessidades mais básicas já foram supridas. Eles não precisam se preocupar com o que vão comer hoje à noite e nem com o que vestir ou onde morar. O sistema de saúde pública funciona bem, o sistema educacional é bom e o transporte público eficiente. - Mas as crianças dos países miseráveis sofrem tanto, com a carência dessas necessidades essenciais, que não conseguem pensar em ninguém, a não ser nelas mesmas. A capacidade de se importar com a dor do outro fica naturalmente reduzida. Se eu não tenho o que comer ou onde morar, fica difícil me indignar com os maus tratos que os ratinhos brancos sofrem nos laboratórios. Agora, se a reencarnação fosse um fato, e visasse a evolução da alma, ninguém nasceria em condições que promovessem a insensibilidade e a violência, em sociedades menos evoluídas, - que na verdade ajudam a desenvolver mais esses fatores negativos.

É claro que alguém que nasceu miserável e desajustado tem mais motivos para se revoltar e se tornar um ser humano pior. Não afirmo que isto seja uma regra, porque não é. Mas estamos falando de estatística, aqui. Já é comprovado estatisticamente, inclusive por pesquisas da ONU/ACNUR, que nos países onde a desigualdade social é maior, os índices de criminalidade são maiores. Num país onde a justiça social é altamente satisfatória, como a Suíça ou a Holanda, os índices de violência são próximos de zero!

Só que aí, alguém que cometeu crimes, - por ter nascido num meio propício, sujeito a condições genéticas e psicológicas que o favoreceram a isso, - na próxima encarnação vai ter que sofrer ainda mais, por causa dos erros cometidos nesta vida. Ou seja, mais uma vez, as chances dele piorar mais ainda se tornam cada vez maiores; e assim num crescente infinito! É um círculo vicioso sem fim, e o contrário também vale: alguém que nasceu no seio de uma família rica e compreensiva, num país onde há justiça social e os direitos do cidadão são respeitados, tem muito mais chances de se tornar uma pessoa boa (às vezes uma pessoa dessas se torna um criminoso também, indo contra todas as probabilidades, mas esses casos representam uma minoria no quadro geral). - Com isso ela ganharia oportunidades cada vez maiores para reencarnar cada vez melhor, até finalmente alcançar os planos mais elevados. Onde está a justiça??

Um sistema como esse simplesmente não funcionaria. Insisto que a única maneira dele funcionar seria se a memória fosse preservada. Se eu me lembrasse porque estou sofrendo tanto, aí sim iria me esforçar para melhorar. - E a esse respeito, já ouvi muito que "Deus nos tira a memória por misericórdia. Seria insuportável lembrar o que fomos e do mal que fizemos"... E aí eu respondo: nos fazer esquecer de quem somos e do porquê de estarmos sofrendo tanto? QUE TIPO DE MISERICÓRDIA É ESSA??

E de novo, a reencarnação se mostra elitista. Ela está dizendo, de fato, que quem é mais sensível é mais evoluído moralmente do que quem não é. Ignora todos os fatores sociais, naturais, genéticos e biológicos que levam uma pessoa a ser como é. - O que você é está determinado pelo seu corpo, sua família, sua sociedade e sua história. Não por alguma coisa ocorrida em outra vida que foi apagada da sua memória. O próprio Buda, que apoiava a teoria dos renascimentos por ter nascido na Índia, questionou estas questões, e no final disse que não temos um ego de fato. Ele disse que o que somos é uma relação de vários fatores que, se analisados com seriedade e desapego, o mais sensato é não falar das realidades pós matéria. Isso simplesmente não nos cabe. Por isso é que o budismo primordial, aquele ensinado por Sakiamuni, não ensina reencarnação. Os ensinamentos da fase final da sua vida simplesmente não abordam a jornada da alma após a morte. Tudo que há é o silêncio.



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Reencarnação: uma análise social, ética, moral e espiritual

Nesta abordagem sobre a reencarnação, faço questão de publicar a adaptação de um artigo analítico bastante aprofundado que li há alguns anos, num site cético (infelizmente não me lembro qual), escrito pelo Profº José Moreira da Silva. Eu copiei, salvei e arquivei o texto, porque o achei coeso, racional e bem sintetizado, sem deixar de ser sensato. Aborda principalmente os aspectos morais, éticos e lógicos envolvidos num sistema filosófico/religioso que adotasse a teoria da reencarnação. Em homenagem ao meu caro amigo e leitor, Mizi, vou publicar esse material antes de contar a história do reencarnacionista que escreveu uma ótima contestação à teoria da reencarnação, que mencionei no final da postagem anterior. A postagem a seguir é uma adaptação do artigo do Profº José Moreira da Silva, com excertos meus.


Aprendizado, evolução e consciência. O Eu e a memória



Eu tenho um cão. Não foi fácil, mas ele aprendeu a fazer as suas necessidades fisiológicas no lugar certo. Sabe por quê? Porque eu o pego no ato e o repreendo, falando alto e firmemente: “Não pode!”, e então o levo para o local adequado. Esse método funciona porque o cão percebe o que está fazendo e associa a desaprovação com o ato praticado. Com o tempo e a repetição, ele aprende a não usar outro local para suas necessidades, a não ser o que eu indiquei. Mas se você vir o cachorro fazendo suas necessidades em um local proibido, esperar uma hora e só depois repreendê-lo, isso não vai funcionar. Ele não vai aprender nada desse jeito. Por quê? Porque ele não sabe a razão de estar sendo repreendido! Sendo assim, puni-lo seria pura perda de tempo e até crueldade. O mesmo acontece com uma criança. Se uma criança não souber porque está sendo repreendida, se ela não se lembra o que fez de errado, a "bronca" será, obviamente, cruel e injusta. Portanto, também às crianças convém admoestar em tempo hábil.

Reencarnação: segundo essa teoria, analogamente, eu estaria na mesma condição do cão punido uma hora depois da travessura. Estou pagando crimes que eu nem sei que cometi. E se eu não me lembro de nada, a punição será sempre cruel e injusta para mim. E ainda que não se use o termo 'punição' (sei que os espíritas não o apreciam), a ideia é exatamenete a mesma: responder hoje por meus atos de uma outra vida.

Outro exemplo prático: suponhamos que você esteja aprendendo a dirigir. Você não entende nada da condução de veículos automotores; então procura um professor: na primeira aula ele começa a lhe ensinar tudo o que você tem que fazer. Passam uma tarde inteira juntos, praticando. Mas aí você vai dormir e, no dia seguinte, você acorda tendo esquecido tudo que o professor ensinou! - Ora, esse professor teria que começar tudo de novo, do zero...

Claro, se você esqueceu tudo, o aprendizado volta à estaca zero, simplesmente porque a aprendizagem é um processo cumulativo. É mais do que óbvio que você nunca vai evoluir dessa forma. Você nunca poderia aprender nada, se continuasse perdendo a sua memória, de uma existência para outra. Aprendizado é como a adição: todo dia você vai acrescentando conhecimento e experiência, até chegar no ponto desejado. Esse total é o que você aprendeu até agora, o seu grau de evolução, seja intelectual ou moral. Mas sem memória ativa não pode haver aprendizado.

O detalhe que faz toda a diferença é que a memória é bem mais importante do que costumamos imaginar. A memória representa o componente mais básico das nossas consciências. Em última análise, poderíamos dizer que a memória é aquilo que somos, o que você é, o seu "Eu" real, o seu "Self". Se você retira a memória de um indivíduo consciente e pensante, esse indivíduo simplesmente deixa de existir, ele se torna como um vegetal.

Agora imaginemos que o "indivíduo X" viveu criminosamente, por algum tempo. Ele pode perfeitamente, em algum momento da sua vida, vivenciar uma retomada de consciência e mudar o seu proceder a partir daquele ponto. Consequentemente, se ele resolve mudar de atitude, toda a sua vida muda para melhor. - O que possibilitou essa mudança? Uma decisão pessoal. - O Sr. X vinha agindo de uma determinada maneira, mas depois de algum tempo se arrependeu e reviu suas atitudes. Sim, nós podemos nos arrepender de um mal feito, por vários motivos: ao vermos um semelhante que sofre por nossa causa, por entendermos que somos também responsáveis pelo bem da coletividade, por compaixão, por medo de punição ou simplesmente por entendermos que fazer o bem é, em algum nível, mais gratificante do que praticar o mal.

Certo. Mas esse tipo de mudança para melhor também só é possível de ocorrer quando o indivíduo faz uso da memória. - Se eu não me lembro de algo ruim que fiz, como poderia optar pela mudança? Somente se eu me lembro do que fui, de tudo que fiz de ruim e das consequências dos meus atos é que posso me arrepender. É assim que algumas pessoas resolvem procurar por alguém que prejudicaram, para se desculpar ou tentar compensar, de algum modo, o mal que causaram, e se comprometer a nunca mais repetir o mesmo erro. Eis a verdadeira evolução espiritual.

Dependendo da sociedade em que nascer, você será uma pessoa totalmente diferente. Se você tivesse nascido no Japão, hoje seria outra pessoa, não só com costumes diferentes, mas também com valores de moral diferentes dos de outros povos. Se tivesse nascido nos EUA, na África, na Europa ou no Alaska, idem. Tendências naturais fora do seu controle equivalem a pelo menos 90% do que você é, e este é um fato científico fartamente comprovado em estudos diversos. Mas a sua personalidade não poderia se desenvolver dentro de nenhum sistema cultural sem o uso da sua memória. Imagine se num dia você ensina ao seu filho sobre quem ele é, sobre a sua família, suas raízes e sua cultura, e também sobre o certo e o errado. Além disso, nesse mesmo dia ele aprende, por experiência própria, que colocar a mão sobre a chama acesa no fogão é algo muito perigoso. Bem, ele aprendeu coisas importantes nesse dia. - Evoluiu enquanto ser consciente. - Mas agora imagine que, no dia seguinte, ele simplesmente acorda sem se lembrar de nada! O que aconteceria? Tal criança não seria capaz de nenhum progresso, não seria possível acontecer evolução alguma na vida de uma pessoa assim, e ela viveria até o fim da vida repetindo sempre e sempre as mesmas experiências, sem aprender nada, nunca.

Nós somos aquilo que lembramos que somos, e isso não é teoria, é um fato científico. Alguns talvez se lembrem do filme "Como se Fosse a Primeira Vez", protagonizado por Drew Barrymore e Adam Sandler. Num determinado momento da história, o mocinho vai procurar a mocinha (que tem um transtorno de memória crônico adquirido num acidente) numa clínica especializada, e lá encontra um paciente cuja memória recente dura apenas alguns segundos. Os dois se cumprimentam e se apresentam, mas, após alguns segundos de conversa, o homem volta a se apresentar. Os dois novamente se apertam as mãos e dizem seus nomes, para logo em seguida... O homem se esquece e volta a se apresentar! A cena é hilária, mas esse tipo de transtorno existe e na vida real não tem nada de engraçado. Uma pessoa com uma doença desse tipo é como um zumbi, um morto vivo. - Exatamente como seria a alma humana, migrando de uma vida para outra, indefinidamente, sem nunca se lembrar o que foi ou do que fez em sua existência anterior: marcando passo na mesma situação, indefinidamente, incapaz de usar a experiência adquirida para melhorar. É assim que, inexorável, inevitável e obviamente, a teoria da reencarnação, enquanto processo evolutivo, cai por terra.


Karma ou carma

Muitos reencarnacionistas acreditam no karma ou carma. Outros tantos dizem que não, mas na realidade o conceito de ação e reação cármica (que é bem diferente da lei de ação e reação da física), isto é, a crença de que vamos todos receber a paga pelo que fizemos, nesta vida ou na outra, está sempre presente. Muitos reencarnacionistas dizem que não é assim tão simples, que a questão toda faz parte de um complicado processo evolutivo. - Mas esse processo sempre envolve um conceito mais ou menos idêntico ao do carma. - Um conceito impossível de aceitar, se fizermos uso do nosso discernimento, pura e simplesmente, livre de apegos à qualquer doutrina humana. Vejamos:

O carma seria como uma força invisível e irresistível que está sempre como a registrar tudo que você faz, a cada momento, para depois manipular circunstâncias para que você sofra ou alcance bênçãos, dependendo do mal ou do bem que fez, nesta ou noutra vida. Um sistema incompatível com o livre arbítrio e ainda mais incompatível com os conceitos cristãos do perdão incondicional e da gratuidade. Deus perdoa, desde que você pague. Isso é perdão? Jesus falou em "perdoai as nossas dívidas". O que é perdoar uma dívida? Esquecer essa dívida, deixar para lá, como se ela nunca tivesse existido, ou obrigar o devedor a pagar o que deve, de um jeito ou de outro? Se a sua dívida tem que ser paga, de qualquer maneira, nesta vida ou na outra, faz sentido pedir "perdão para nossas dividas"?

Não.

Isso significaria que o perdão de Deus, na verdade, não existe, e que nenhuma dívida poderia ser perdoada: todas elas precisariam ser pagas, inexoravelmente, sem escapatória, sendo esta uma lei espiritual/universal imutável.

E se esta é uma lei inapelável, então as pessoas não são livres. Esta lei estaria, inclusive, muitas vezes usando uma pessoa para punir outra. Um exemplo bem simplificado, para não complicar o raciocínio: se alguém me dá uma surra porque eu dei uma surra numa outra pessoa, nesta ou numa outra vida, onde está o livre arbítrio da pessoa que surgiu para me dar uma surra, como reação pelo que eu fiz? Essa pessoa está me dando uma surra hoje como compensação pelo que eu fiz ontem, mas... Agora ela vai ter que receber a compensação também, por ter me surrado!?! Nesse exemplo hipotético, precisaria depois surgir um terceiro, para dar uma surra no segundo, e depois um quarto para surrar o terceiro e assim sucessivamente, sem fim... Ou então, ele me surra hoje, e amanhã eu volto a surrá-lo, depois ele me surra novamente, sendo um ato a reação do outro ato, ad infinitum... Claro que aqui estamos falando em surras como uma metáfora para todas a más ações que praticamos na vida.

Uma mulher foi vítima de um assaltante: ele a baleou, o tiro atingiu sua coluna vertebral e a condenou a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. Se isso foi a consequência de algo que ela fez, então o assaltante está apenas cumprindo a Vontade de Deus, manifestada na lei de ação e reação espiritual, fazendo a mulher pagar sua dívida cármica. Mas não estaria ele próprio iniciando uma ação, usando seu livre arbítrio? E então, estaria ele também gerando carma ruim para si mesmo. Se for esse o caso, se ele está iniciando uma ação fazendo uso do seu livre arbítrio, então não podemos explicar o sofrimento com base em vidas passadas, porque para alguém iniciar uma ação é preciso que tenha o direito de fazer o que quiser, independente do que aconteceu numa outra vida. É um poço sem fundo, um círculo vicioso sem solução, sem razão de ser e completamente insano.

Se um homem resolve estuprar a primeira mulher que passar no beco à meia noite, usando seu livre arbítrio, essa mulher não tinha nada a ver com isso. Ele usou o seu livre arbítrio para fazer o mal a uma pessoa inocente. Dizer que a moça estuprada tinha algo para pagar ou aprender também não explica nada, porque sempre teria que existir uma equivalência proporcional entre os que decidem prejudicar alguém e os que devem ser prejudicados para pagar suas dívidas. Em outras palavras, as circunstâncias teriam que ser manipuladas o tempo todo, para levar os que estão a fim de punir alguém ao encontro dos que precisam ser punidos!

Esta noção não pode ser compatível, de modo algum, com o conceito de livre arbítrio. O tipo de controle que o carma teria que exercer sobre todas as pessoas e coisas seria algo injusto para todos. É muito mais coerente afirmar que as pessoas fazem o que querem e sofrem as consequências por isso nesta vida, de acordo com as circunstâncias específicas de cada caso, do que crer na atuação de uma força invisível que a tudo controla, numa sucessão de vidas sem fim. O estuprador terá um peso na consciência que vai carregar para o resto da vida. Suas noites de sono não serão as mesmas. Mas ele também pode ser um homem muito frio, que não se preocupa com dramas de consciência: ainda assim, viverá sob o risco de ser preso a qualquer momento, se a mulher voltar a vê-lo e chamar a polícia. Há também o risco de o marido ou algum parente da mulher decidir fazer justiça por conta própria... Enfim, sua má ação vai gerar N consequências na vida deste homem. Esta é a lei de ação e reação que a simples observação do mundo natural demonstra ser real. E assim é muito mais simples, prático e justo para todos.

O livre arbítrio exige acaso. Somente pode existir liberdade num sistema imprevisível. Nosso direito de decidir o que é certo e errado precisa da liberdade.


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Postagem adaptada de artigo do autor José Moreira da Silva, filósofo pela Universidade de Nova Iorque, professor e intérprete, dedicado ao estudo da natureza humana através da psicologia, filosofia e religião.



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