Porque deixei de crer na reencarnação

Sim, eu já fui um defensor ferrenho da doutrina da reencarnação. - No transcorrer desta série de postagens, pretendo explicar em detalhes a respeito das razões que me fizeram mudar de ideia, algo que ocorreu já há algum tempo. Correria o risco de estar escrevendo em vão, se a maior parte dos reencarnacionistas (baseado nos muitos que eu conheço) não fosse constituída de pessoas abertas ao diálogo e a discutir ideias, desde que respeitosamente. É este o meu caso também, então aí vamos nós... Antes de entrar nas particularidades do assunto, convém publicar uma breve história da ideia da reencarnação no mundo.


A reencarnação na Antiguidade




A primeira referência à idéia de reencarnação na História tem cerca de 2.600 anos de existência. Aparece nas Upanishads, as escrituras sagradas do hinduísmo, religião que continua até hoje como a maior da Índia (professada por cerca de 80% da população), embora nas últimas décadas venha perdendo terreno para o islamismo e, em menor grau, ao cristianismo. A crença na reencarnação surgiu no norte da Índia, entre 1.000 e 600 aC, na mesma época em que Davi e seus descendentes governaram Israel, até a queda de Jerusalém. - Pelo fato de ser o hinduísmo a grande fonte e origem de todas as chamadas religiões da Tradição Oriental, e também de algumas seitas nascidas no Ocidente, a maior parte dessas doutrinas se encarregou de repassar, por todo o mundo, a teoria de que a alma habita diversos e diferentes corpos através das gerações e do transcorrer da História.

No século VI antes de Cristo, duas novas religiões foram organizadas na Índia, ambas egressas ou dissidentes do hinduísmo: uma é o jainismo, fundado pelo príncipe indiano Nataputa Vardamana (cerca de 599 a 537 a.C.). A outra é o budismo, fundado por Siddharta Gautama, conhecido como o Buda Sakiamuni (563-483 a.C.). A maior preocupação de Vardamana e de Gautama, mais ou menos contemporâneos dos profetas bíblicos Ageu, Zacarias e Malaquias, era encontrar a maneira de “atravessar o rio” que separa a vida terrena e ilusória, experienciada nos domínios de maya (ilusão dos sentidos que contém samsara, o ciclo interminável de renascimentos proposto pelo hinduísmo) ao moksha (a liberação ou libertação final). Mas é explícito, na tradição e nos escritos dessas duas doutrinas, que a crença na reencarnação entrou quase que exclusivamente por uma questão cultural, por um hábito e costume do lugar e da época em que surgiram, muito mais do que como afirmação doutrinária. Buda preferia não falar sobre o assunto, e em diversas ocasiões escolheu o silêncio em lugar de partir para explicações detalhadas a respeito do que acontece depois da morte física. Era esta a sua postura quanto a tudo que não pudesse ser “experimentado”, através do estudo, da vivência pessoal e da meditação profunda.

"Não creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo. Não creiais em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes. Aquilo, porém, que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas; a isso aceitai como verdade. Por isso, pautai vossa conduta!"

Sidharta Gautama (Buda Sakiamuni)


Além disso, ao contrário do que muita gente pensa (e ensina por aí), reencarnação não é unanimidade entre os budistas. E mesmo entre as linhas do budismo que a aceitam, a noção que têm de "reencarnação" é algo completamente diferente daquilo que afirma Allan Kardec, por exemplo. Dúvidas podem ser tiradas aqui, aqui e aqui, mas uma breve pesquisa no Google com os termos reencarnação – budismo, vai facilmente demonstrar essa diferença de conceitos. Um clique aqui já basta...


“Em primeiro lugar, a reencarnação não é um conceito budista. É um conceito ocidental moderno inventado pelos socialistas utópicos do século XIX que foi adotado pelos espíritas e que as pessoas projetam equivocadamente no Budismo. Em segundo lugar, não existe no Budismo o conceito de espírito. Sendo o homem um ser impermanente e interdependente, não pode haver algo como um espírito autônomo e perene. O homem é um ser composto de agregados físicos e psíquicos impermanentes e interdependentes, sujeitos a contínuas transformações, como o é o próprio ser humano.

Textos budistas falam em vidas sucessivas condicionadas pelos atos das vidas anteriores. Mas nem todos os budistas acreditam nisso ao pé da letra, e os que o fazem falam em transmigração ou renascimento, nunca em reencarnação.”


Rev. Ricardo Mário Gonçalves - Instituto Budista de Estudos Missionários (Templo Higashi Honganji)


Continuando a nossa análise histórica, no mesmo século do surgimento do jainismo e do budismo, o filósofo e matemático grego Pitágoras, nascido por volta do ano 580 aC, disse que a alma era imortal e, depois da morte do corpo, poderia ocupar outro corpo, humano ou animal. Daí vem a palavra metempsicose, de origem grega, que significa transmigração.

A fala de Pitágoras representa a primeira vez que a teoria da reencarnação foi mencionada no Ocidente. - Isto veio a influenciar outro famoso filósofo grego, Platão (427 – 347 aC), a dizer que a alma nascia muitas vezes, até durante 10 mil anos, antes de partir para a bem-aventurança celestial.

Eis a breve história da teoria da reencarnação, antes de Cristo. Muitas publicações espíritas afirmam ou levam a crer que a reencarnação seria uma espécie de unanimidade ou consenso no pensamento religioso universal, desde a Antiguidade. Esta é uma via de pensamento totalmente incorreta. Se considerarmos apenas as 3 grandes religiões monoteístas do planeta (judaísmo, cristianismo e islamismo), - lembrando que só aí está concentrada algo próximo a 90% da população mundial - sendo que nenhuma delas prega a reencarnação, seremos obrigados a aceitar que a realidade é outra. E mesmo dentro do hinduísmo sempre existiram as linhas dvaita, que também não aceitam a reencarnação. - A síntese de tudo o que foi dito até aqui se traduz na constatação de um fato incontestável: a reencarnação é uma crença oriental surgida na Índia e difundida pela maioria das linhas do hinduísmo. Ponto.

Dito isto, particularmente considero bastante curioso o fato de uma das contestações à reencarnação mais bem elaboradas que eu já li na internet ter sido escrita por um cara que acredita piamente na reencarnação. Ou acreditava.

Na próxima...


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Fontes e bibliografia consultada:
Profº Roberto de Albuquerque Cezar;
BOWKER, John. Para Entender as Religiões, São Paulo: Ed. Ática, 1997;
NICHOLS, Larry A. Nichols. Dicionário das Religiões, São Paulo: Vida, 2000.




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Reencarnação, afinal

Resposta à pergunta do leitor "Daniel"


se vão mais de três anos que publiquei neste blog a conclusão de uma série de postagens falando sobre a minha experiência pessoal no espiritismo. E, lá no dia 15 de outubro de 2006, eu concluí esses relatos com uma lista, que representava uma espécie de resumo das coisas que vi e vivi dentro do espiritismo, dividida em duas partes: uma para as coisas que eu gostei e outra para as que eu não gostei. Dentre as “coisas que gosto” no espiritismo, constava o seguinte item:

“# Existem certas evidências em favor da possibilidade de ocorrer a reencarnação em alguns casos. Há registros interessantes em publicações médicas e científicas;”

Reencarnação é um tema recorrente, neste blog ou em qualquer espaço aberto em que se pretenda debater sobre religião e espiritualidade. E como naquela primeira fase do a Arte das artes eu apenas contava a história da minha própria jornada pessoal, sem entrar em maiores detalhes a respeito dos assuntos abordados, ficou no ar uma promessa e uma expectativa de um dia voltar a falar sobre o tema. Na verdade, cheguei a prometer isso, porque após a conclusão desta primeira etapa, de minhas experiências pessoais, a nova fase deste blog se propôs à elaboração de uma enciclopédia das religiões.

E, bem, dentro desta nossa Enciclopédia das Religiões (que anda desatualizada mas que será retomada brevemente, com a continuação da série sobre o cristianismo), as postagens sobre o hinduísmo, - fonte e origem da ideia da reencarnação, - foram completadas, e por algum motivo eu ainda não achava que seria o momento oportuno para falar de reencarnação. Acho que estava esperando o momento de abordar o tópico Alan Kardec e o espiritismo, até porque vivemos num país onde reencarnação é praticamente sinônimo de espiritismo: no Brasil, a grande maioria identifica os dois assuntos, e o que nas mentes daqui se têm por processo reencarnatório está profundamente enraizado às ideias de Kardec.

Acontece, porém, que neste momento de retorno (pós-recesso de final de ano), minha mente estava absolutamente vazia quanto a que continuidade trazer para este meu trabalho no a Arte das artes. - Eu ainda não tinha a mais vaga ideia sobre o que postar, e como tenho imenso carinho por este blog, não queria deixar meus queridos leitores a ver navios. Eis que me sento, ontem, ao computador, com a mente completamente em branco, na esperança de que "me viesse" o próximo assunto a postar, e o que encontro? A pergunta de um leitor chamado Daniel, que se manifestou por aqui pela primeira vez para perguntar o seguinte:

“'# Existem certas evidências comprovadas em favor da possibilidade de ocorrer a reencarnação em alguns casos. Há registros interessantes em publicações médicas e científicas;'

Por favor você poderia disponibilizar para os leitores alguma fonte idônea para essa afirmação? Alguma publicação médica / científica que aponte para tal conclusão da possibilidade da reencarnação? Obrigado!!!"



Dr. Ian Stevenson


Eu é que agradeço! Daniel reproduz o item da lista que eu citei no começo deste post, e pede maiores informações e esclarecimentos. E resolve de vez o meu problema: já sei sobre o que falar! Não vou esperar mais; vou falar sobre reencarnação agora. – Pronto, arrumei pra cabeça e assunto para, no mínimo, algumas dúzias de postagens polêmicas, que vão ser refutadas, detonadas e amaldiçoadas, por alguns, e aclamadas e aplaudidas por outros. Uma boa oportunidade para colocar à prova a minha sempre aperfeiçoada capacidade de coexistência e tolerância...

Deixando de lado a embromação e partindo para a resposta à pergunta de um milhão de dólares, Daniel, quando mencionei “evidências em favor da possibilidade de ocorrer a reencarnação em alguns casos", (observando que eu fiz questão de destacar o trecho EM ALGUNS CASOS em negrito), eu estava me referindo ao trabalho do Dr. Ian Stevenson (1918 – 2007), da Universidade de Virgínia, EUA, que estudou cerca de 2.000 casos em diversos países, entre os quais alguns que supostamente evidenciariam a possibilidade de reencarnação. Essa pesquisa encontrou, principalmente no Sri Lanka, - país onde a crença na reencarnação é praticamente unânime e extremamente popular, - resultados que poderíamos considerar interessantes. Dr. Stevenson, formado em medicina no Canadá, se especializou em psiquiatria e, em 1957, se tornou chefe do departamento de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, onde começou a estudar o caso de uma criança que alegava se lembrar de uma outra existência, num tempo passado, e a partir daí se dedicou totalmente à pesquisa dos fenômenos paranormais.

Foi exatamente a isso que me referia naquele item. Sim, eu conheci pelo menos uma dúzia de outros alegados pesquisadores do espiritismo, principalmente brasileiros, mas estes não poderiam em hipótese alguma serem levados a sério, por questões elementares de metodologia e confiabilidade. Ao contrário, Dr. Stevenson foi um pesquisador sério dos fenômenos paranormais, com destaque à reencarnação, e buscou fazê-lo com método científico. De resto, temos muitos aventureiros e afoitos travestidos de “pesquisadores”, mais rápidos que o Flash na hora de fazer afirmações que chamam de “científicas” sem nenhuma experimentação, comprovação ou evidência minimamente plausível.

Um ótimo exemplo disso é a Sônia Rinaldi. Festejadíssima nos meios espíritas, foge de averiguações realmente científicas, escuta nomes em chiados distorcidos de rádio fora de estação e vê imagens de gente morta no chuvisco de aparelhos de TV fora do ar. Desse jeito não dá para ser levado a sério.

Quanto ao Dr. Stevenson, o fato é que, anos antes de sua morte, ele reconheceu que, mesmo através do trabalho monumental a que se entregou e que consumiu toda a sua vida e os seus melhores esforços, por anos a fio, ele não conseguiu comprovar a existência da reencarnação. E declarou: “Não consegui provar, acima de dúvidas, que nós realmente vivemos muitas vezes”. Não há dúvida de que, para a ciência, o que conta é a experimentação e a existência de provas conclusivas. Stevenson viajou para a Índia, para o Oriente Médio e muitos outros locais coletando informações, entrevistando crianças e anotando dados por elas fornecidos, para depois partir numa investigação de reconstituição das "vidas passadas" às quais elas se referiam.


Aldous Huxley


O interesse de Stevenson por assuntos extra-acadêmicos provavelmente teve a influência de sua mãe, que era adepta da teosofia. Em 1950, depois de um encontro com Aldous Huxley, ele se tornou um dos pioneiros no estudo médico dos efeitos do LSD, e as suas pesquisas na área parapsicológica passaram a incluir temas como telepatia, precognição, xenoglossia, experiências de quase-morte, aparições, mediunidade e fotografia psíquica.

Mas, apesar de todo o barulho feito em torno de Ian Stevenson pelos entusiastas da reencarnação, é importante colocar que ele nunca afirmou, nem mesmo dos seus melhores casos, que eles poderiam ser vistos como comprovações para a reencarnação. Ele sempre reconheceu os pontos positivos das contraargumentações dos seus colegas céticos (grande maioria) quanto ao seu trabalho – principalmente quanto às distorções de significado cometidas pelos intérpretes e sua metodologia, que embora meticulosa era sujeita a falhas relevantes, – e procurava usar essas críticas para refinar seus métodos. Assim, o que divulgava eram casos que, em suas palavras, “sugeriam” reencarnação.

A maior autoridade reconhecida no estudo da reencarnação, em todos os tempos, nunca, jamais afirmou nada além disso. E é exatamente por isso que ele tem o meu respeito e continuou sendo considerado um homem de ciência: por não deixar que o seu desejo pessoal (‘preciso acreditar‘) de comprovar a continuidade da vida após a morte o cegasse, quanto à seriedade que é preciso assumir para que um estudo seja considerado válido.

Mesmo assim, não tenho nenhuma publicação médica ou científica para lhe indicar, amigo Daniel, no sentido de comprovar a teoria da reencarnação, porque isso simplesmente não existe, em lugar algum. Tudo que temos são livros escritos por autores espíritas (o que de cara os compromete), que buscam, através de uma linguagem profundamente emocional e narrativas carregadas de sentimentalismo, convencer o leitor de que a reencarnação é um fato. A obra do Dr. Ian Stevenson é diferente, sem dúvida.

Dito isto, darei continuidade ao tema reencarnação, a partir das próximas postagens. Saúdo a todos neste começo de 2010!



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Pausa, Meditação e pausa

Atenção, buscadores! O a Arte das artes entra em recesso de final de ano (ninguém é de ferro) até o dia 18 de Janeiro de 2010, quando, se Deus assim quiser, voltará com postagens novas e (espero) úteis para a sua busca espiritual. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que elas sejam também empolgantes e agradáveis de ler. Até o nosso reencontro, mantenham em mente que:

Deus está em tudo;

Ele nos fala de inúmeras maneiras, em todos os lugares e situações, inclusive aquelas em que você não espera;

Ainda que, neste mundo, o número daqueles que atuam para convencê-lo de que a ideia de Deus está superada, que o melhor a fazer por sua vida é jogar fora toda essa história... Ainda assim, Deus é bom (e eu tive a Graça de viver o bastante para ver um ateu radical e convicto reconhecer estas duas coisas: que Deus existe e que é bom - um dia eu conto);

Deus é Amor (mas se não me engano alguém já falou isso antes de mim);

Se você escolher acreditar no algo mais, insistir em procurar ver além das aparências, e buscar a Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as suas forças e todo o seu endendimento... Bem, chegará um momento em que você já não existirá. Existirá apenas Deus... E, por contraditório que pareça, você entenderá que essa é a melhor e mais perfeita maneira de ser si mesmo. Quem renega a si mesmo por amor a Deus, ganha a si mesmo, pois ganha a própria vida; - é que, quando essa sublimação acontece, o indivíduo finalmente conhece a si mesmo. E compreende todas as coisas, porque passa a conter o Universo em si mesmo.

Se isso lhe parecer irreal ou impossível, meu querido leitor, é porque você ainda não entendeu que para ter tudo é preciso abrir mão de tudo. L i t e r a l m e n t e;

Digo essas coisas para a sua reflexão, para o seu despertar, para a sua loucura, mas se você me pergutar como cheguei a entender essas coisas, eu lhe responderei que foi principalmente através de uma prática espiritual muito antiga, ancestral, anterior até mesmo à sua própria instituição (não tente entender a Mística), denominada EUCHARISTICUM MYSTERIUM. Me faria muitíssimo feliz se você soubesse a que estou me referindo e se buscasse encontrar essa Experiência imensa. Mas isso está fora do meu controle.

Então, só posso lhe dizer que não desanime, que o certo continua existindo, mesmo em meio a todo o errado do mundo. Posso lhe dizer que meditar é muito bom, que este seria um bom ponto de partida. E sobre meditar posso dizer o seguinte:





Entendi, na minha experiência, que chega um momento na Jornada em que não se precisa mais parar para meditar, seja por uma ou por duas horas, todos os dias. Você não precisa parar para meditar todos os dias, e nem toda semana, nem por uma hora e nem por um minuto!

Eu já passei semanas inteiras meditando, jejuando, sem fazer nada além de dissolver o foco da minha mente, me lançar ao Vazio, aos braços do EU SOU. Já permaneci sentado numa posição, imóvel, de olhos fechados e mente quieta, por 7 horas seguidas, sem desejar nada, sem pensar em nada, sem intenção alguma: apenas me fazendo oco como um bambu oco, para poder ser flauta e que a Música do Universo pudesse tocar através de mim, assim como uma flauta precisa ser oca para que o vento sopre através dela e a música se faça. E convivi com gente que fez muito mais do que isso.

E tudo isso só me levou a entender que a prática de parar e se colocar imóvel é tão inútil quanto qualquer outra, se o buscador não perceber que toda a sua vida deve ser Meditação. Não aquela uma hora nem aquelas duas horas, mas toda a sua vida deve ser Meditação. - E Meditação é Comunhão. - Não há nenhum sentido em se trabalhar 8 ou 10 horas por dia (mais o tempo de deslocamento até o local de trabalho), dormir 6 ou 8 horas por dia, assistir TV 4 horas por dia e cuidar da sua higiene e cuidados pessoais e necessidades biológicas por cerca de 1 ou 2 horas por dia; - e só parar para meditar por uma ou duas horas por dia. A Meditação precisa tomar as 24 horas do dia, ela tem que acontecer todo o tempo. Então, o único jeito é aprender a meditar enquanto trabalha, enquanto come, enquanto dorme e enquanto vai ao banheiro. Somente a partir daí é que volta a ter sentido separar um período de tempo dos nossos dias para nos colocarmos a sós e quietos. É como ser casado e conviver com a sua esposa todos os dias: eu a vejo diariamente, estou com ela todo o tempo, mas nunca deixa de ser agradável (porque a amo, é claro), fazer uma pausa no dia, ou pelo menos uma vez na semana, para ir a algum lugar romântico e calmo, conversar, jantar ou talvez tomar um drink e relaxar... Dizer a ela o quanto a amo, o quanto ela é importante para mim e o quanto me faz feliz.

Você pode e deve demonstrar o seu amor pela sua esposa (ou pelo seu marido) em sua vida, em sua rotina diária, todo o tempo, em cada pequeno gesto e atitude, mas nem por isso deixa de ser uma boa ideia parar um pouco e levá-la(o) para um programa íntimo, sempre que possível. Isso é meditar, para mim, hoje. - Não adianta dizer à minha esposa (EU SOU) que a amo somente nessas pausas, esses momentos de relax. É preciso "dizer" isso o tempo todo, a cada novo instante da vida, através do meu modo de ser, do meu existir, do meu trabalho e de tudo que faço, e isso é mais importante do que aquele momento de pausa.

Eu precisei entender isso antes de perceber o valor e a importância da pausa em si.

Então é isso, faça uma pausa, sempre que puder, e depois transforme esse instante de pausa em toda a sua vida. Melhor: faça da sua vida um infinito momento de pausa, de todas as agitações e angústias do mundo, para estar em Comum União com o EU SOU.




Até o dia 18, ou não...


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Reminiscências


"E de repente juntou-se ao anjo uma multidão do Exército Celeste, a louvar a Deus!"
(Lc 2, 13)


Uma tradição judaica afirma que quando os anjos viram o que Deus havia feito na Obra da Criação, eles irromperam em um canto de louvor que continua ao longo do tempo, no Coração de todas as coisas. A história de que o Nascimento de Jesus provocou outra irupção cósmica similar, depois que os pastores ouviram a Boa Nova, nos lembra o quanto a nova Criação em Cristo é, ao mesmo tempo, diferente e similar. De maneira semelhante, o mantra canta em nossos corações, na Epifania do Seu nascimento em nós.

No Evangelho a história do nascimento e da infância de Jesus contém alguns cânticos: o Benedictus de Zacarias, o Magnificat de Maria e o Cântico de Simeão, que acabaram se tornando parte das preces diárias dos cristãos. Esses atos humanos de louvor foram provavelmente compostos pelas primeiras comunidades cristãs, à medida que refletiam sobre o Mistério de Jesus e gradativamente nele se aprofundavam. Então, eles foram aplicados retrospectivamente ao Evangelho de Lucas, para os posteriores relatos de seu nascimento. Esse padrão demonstra como a prece, a Liturgia e a Sagrada Escritura entrelaçam a Tradição de fé, e é para esse denso significado que retornamos todos os anos, na celebração do Tempo do Natal.




Os seres humanos contam histórias para criar o Significado que necessitamos descobrir para vivermos bem. As histórias da Sagrada Escritura são diferentes das telenovelas ou mesmo da literatura ficcional que usamos como entretenimento. As narrativas da Sagrada Escritura, tais como a do nascimento de Jesus, proporcionam mais respostas cada vez que as relembramos, isso por estarem tão vividamente interligadas com nossas próprias vidas. Essa experiência de aprofundamento espiritual, essa elevação e esclarecimento de consciência, que resulta de nossa meditação, é alimentada pelo Verbo, que está vivo e ativo. Isso também nos reconduz à Sagrada Escritura com uma nova sede e uma nova capacidade de discernir.

O Natal é um banquete de significados. Grande parte dele se reflete nas nossas formas culturais de celebração nesta parte do ano: a troca dos presentes que nos lembra que os relacionamentos humanos se fundamentam na doação e não na barganha ou na exploração; a reunião da família e dos amigos que nos lembra que não estamos sós na solitude da jornada humana; a comida e a bebida que nos lembra que a comemoração nos é natural e necessária. Todavia, todas essas coisas dependem da experiência pessoal do que é que o Natal significa: a radical pobreza e simplicidade, a intoxicante proximidade com Deus que nos revela essa completa dependência em ser. Quanto mais nos aproximamos dessa radical simplicidade, para a qual nossa meditação continua a nos impelir, mais precisamos cantá-la. Quanto mais completo o canto, mais rico o silêncio.

Como Comunidade, unamo-nos em nossos corações neste Tempo cheio de alegria. Que nossa percepção dessa nova criação possa restaurar o necessário amor pela terra, para que possamos reparar os danos que a ela infligimos. Que nossa vida como Comunidade possa incrementar a energia de paz de que nosso mundo dividido tanto carece, bem como a justiça da qual a paz depende: a verdadeira sabedoria que o recém nascido Jesus corporifica.

No dia 30 de Dezembro, no Centro de Retiros em Londres, celebramos o dom de John Main para o mundo, no 27º aniversário de sua mais completa entrada na luz de Cristo. No website http://www.wccm.org/ colocaremos uma sugestão de uma simples recordação que alguns de nós poderão querer observar ao redor dessa data em seus grupos de meditação.


Com Muito Amor,

Laurence Freeman OSB

Do portal da
Comunidade Mundial de Meditação Cristã



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