Esta noite escapei do Inferno

Este post foi escrito para mim, mais do que para vocês. É uma forma de registrar, para não esquecer; pois o mal do homem é esquecer.




Esta noite tive uma experiência apavorante. Me vi sendo sequestrado durante o sono, e transportado para um lugar macabro. Não me lembro de ter sentido tanto pavor em qualquer outro dia de toda a minha vida.

_______Não sei descrever meu sequestrador. Falei face a face com ele, ele me deu ordens e quis me obrigar a fazer coisas, mas eu não me lembro nada, absolutamente nada da sua aparência. Só sei que era como um homem. Um homem em trajes formais. Nada mais.

_______No começo eu não sabia exatamente o que estava acontecendo: achava que estava no interior de um grande edifício, vazio e estranho. As paredes me cercavam, eram hexagonais, com muitas portas e janelas por todos os lados. O estranho me fez entrar numa pequena sala. Ali me deu certas ordens. Para minha grande angústia, eu não me lembro exatamente o que ele queria que eu fizesse e porquê, mas basicamente eu tinha que entregar certos objetos e documentos para determinadas pessoas, que se encontravam em salas distintas, em andares diversos, espalhadas naquele grande edifício.

_______Eu podia sentir uma vibração pesadíssima de maldade exalando das paredes, espreitando nos corredores atrás de cada porta. Minha liberdade estava perdida, entregue ao controle do estranho. Tentei discutir e negar suas ordens, mas a sua ira era terrível; meus membros ficaram retorcidos ao renegá-lo. Por fim ele se mostrou tão poderoso e me fez ameaças tão horríveis que não pude mais resistir; relutante, disse que concordava em fazer o que ele queria, por puro terror. Eu sabia que ele podia me privar da minha liberdade e me infligir as dores mais atrozes, então assenti. Meus membros voltaram ao normal e ele me disse: "Assim que entregar o último pacote, você estará livre. Se você fizer o que mandei, teremos um pacto, pois você terá cumprido sua parte comigo. Você estará livre". Nesse momento ele sorriu e eu acreditei nele, isto é, acreditei que me libertaria.

_______Apesar do peso esmagador de toda a situação, talvez por estar fora do meu habitat, da realidade ordinária dos homens, eu me sentia entorpecido, e não tinha muita certeza do que estava acontecendo. Sabia que aquele ser, naquele momento, possuía completo controle sobre a minha vida. Minha cabeça pesava, e eu me encontrava num estado como que de transe. Não sabia bem o que estava fazendo, e somente aos poucos pude perceber, intuitivamente, o pior: eu havia encontrado um poderosíssimo representante do poder das trevas. No transcorrer da experiência, aos poucos passei a considerar que encontrara o príncipe dos demônios, frente a frente.

_______Não sei se poderia chamá-lo Belzebul, Satã, mas sei que era o mal personificado. O maligno recebeu muitos nomes: poderia eu dizer que aquele ser em forma de homem, diante de mim, era Satanás? Talvez fosse pior do que isso, pois Satanás é nosso acusador, e a energia com a qual me defrontei era puro mal: era todo sentimento e potência ruim que sou capaz de conceber.

_______De qualquer modo, a plena consciência de que estava sendo tentado ou posto à prova veio depois que aceitei a proposta. Tudo que eu queria era me ver livre daquela clausura angustiante, naquele prédio descorado e opressor. Coloquei os pacotes numa espécie de alforje que já carregava, e percebi que cada um deles era como uma grossa correspondência, embrulhada e selada. Não sabia o que fazer, mas aos poucos elaborei um plano: encontrar uma saída daquele lugar e fugir, antes de cumprir a minha parte no trato.

_______Claro, de maneira nenhuma eu concretizaria o pacto. Mas tomei meu caminho. De algum jeito, eu sabia que corredor tomar, que direção seguir, para realizar a nefasta missão que me fora confiada. Entrando e saindo de aposentos escuros, atravessando portas, tomei infindáveis escadarias, desci vários andares e comecei a entregar as encomendas, mesmo sabendo que estava fazendo algo muito errado. - Era em nome da liberdade que o fazia. – E principalmente porque sabia que, para que o mal fosse concretizado, era preciso que eu entregasse todos os pacotes, o que não faria.

_______Entreguei o primeiro, o segundo, o terceiro pacote. Tomava corredores que me levavam a outras partes do edifício, descia escadas, encontrava pequenas salas, todas parecidas, entregava as encomendas para pessoas sem rosto.

_______E assim prossegui. Por fim, faltava apenas um pacote. Alcancei a última sala, onde deveria entregar o último pacote. Sem saber direito o que fazer, mas decidido a não entregá-lo, entrei na sala. Se eu não o entregasse, as conseqüências seriam terríveis para mim. Se entregasse, estaria cumprindo um pacto com o demônio.

_______Então não entreguei o pacote. Abri-o e joguei seu conteúdo numa lixeira, atrás de um balcão, sem que o destinatário sem rosto, sentado ao fundo da sala, o percebesse. Depois fechei o embrulho vazio, e o entreguei sem nada dentro. O que eu queria era um jeito de entregar sem entregar, fazer sem fazer. Escapar, "agradando a Deus e ao demônio". Depois saí daquela sala, esperando ser libertado.

_______Nesse momento eu estava no nível mais baixo daquele edifício angustiante. O maligno surgiu diante de mim imediatamente, me parabenizou e me disse que eu tinha feito a minha parte: “Você está livre!” Uma porta se abriu e o demônio disse: “Vá! Você ganhou sua liberdade, porque cumpriu o pacto ainda melhor do que eu planejei. Você tentou me enganar! Você é um enganador! Todo enganador é meu servo!”

_______Fiquei apavorado. Mas me lancei em direção à porta, querendo escapar daquele lugar terrível o quanto antes. Mal atravessei a porta, estabanado, despenquei abaixo, numa escadaria em curva, ao fim da qual fui dar numa nova sala hexagonal, igual a maioria das outras naquele edifício de pesadelo, com muitas portas e janelas, mas estavam todas trancadas. Agora eu estava num nível ainda mais baixo, como que no subsolo do prédio, e o peso da angústia no ar, ali, era ainda mais tenebroso.

_______Como um animal acuado, completamente desesperado, eu me pus a tentar todas as portas e janelas, e a cada trinco que não se abria mais aumentava o meu pavor. A escadaria pela qual eu descera rolando, até ali, tinha sumido. Não havia saída. Eu, ireemediavelmente trancado. Encerrado. Enganado. Desespero absoluto...

_______Depois de várias tentativas inúteis de encontrar uma saída que não existia, passei a implorar para que o demônio me libertasse. No meu íntimo, eu sabia que não havia sido libertado por não ter cumprido o pacto. Mas não obtinha resposta. De uma maneira terrível, compreendi que minha vida estava perdida: eu estava no lugar que chamam de Inferno. Nunca, nunca mais sairia dali.

_______Então comecei a implorar por mais uma chance. Chorando, desesperado, pedia ao demônio que me desse uma nova oportunidade, em troca de liberdade. Novamente, eu não estava sendo sincero. Só tentava encontrar um jeito de sair dali; buscava desesperadamente uma nova oportunidade para tentar enganar o diabo e escapar; ganhar a liberdade...

_______Nada. Rastejei e implorei, chorei e gemi, completamente aterrorizado. No mais profundo de minha alma, entendia que minha vida estava totalmente perdida, para sempre. Compreendia que nunca mais sairia dali e que tudo estava inevitavelmente perdido para mim. Não é possível pactuar com o demônio, com vantagem. Eu passaria a eternidade trancado naquele lugar, oprimido por poderes negativos, pavorosos, arrasadores, sentindo medo. O medo mais total e absoluto que pode existir.




_______E foi então, e só então, que me lembrei. Ergui minhas mãos trêmulas e, sem nenhuma fé em meu coração, pois estava desesperado, comecei a entoar a Oração do Peregrino Russo, a Oração do Coração, que é também um versículo dos Evangelhos: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tem piedade de mim, que sou pecador!”

_______Mas não pude completar a oração. Mal pronunciei o nome de Cristo e, imediatamente, as paredes, o teto, o piso e tudo que havia ao meu redor começou a se desintegrar, como um castelo de cartas que desaba ou uma construção de areia na beira do mar, que se desfaz sob uma onda poderosa. Senti meu ânimo se recobrar enquanto, rápido como um raio, fui transportado dali para o meu leito, no escuro do meu quarto!

_______Minha recuperação psicológica, porém, não poderia ser assim tão rápida. Sentei-me na cama de um pulo, berrando e chorando muito alto, fazendo grande alarde. Hana levou um grande susto, perguntando apavorada: “O que foi? O que foi?”

_______Pulei da cama, olhei em redor. O quarto estava tenuemente iluminado pelos leds do aparelho de som. Levei alguns minutos para me certificar que estava mesmo em meu quarto, e que tudo continuava no lugar de sempre. Por fim, me senti aliviado. Foi um pesadelo? Naquele instante, eu tive a mais absoluta certeza que a resposta para essa pergunta era Não.

_______Sim. O nome de Jesus livra e liberta de todo o mal. Já o havia comprovado antes, mas jamais assim, tão literalmente na prática. Me coloquei de joelhos e agradeci. Respirei fundo. Voltei a deitar, e prometendo explicar tudo para Hana somente no dia seguinte, voltei a dormir, tranquilamente. Não me lembro de ter sonhado depois disso.

_______Por quê, nessa experiência, demorei tanto para recorrer a Deus? Por que tentei "dar o meu jeito" antes de pedir ajuda? Um dos aspectos mais estranhos da situação toda é que eu não me sentia eu mesmo. Todo o tempo era como se eu estivesse "no corpo" de alguma outra pessoa, vivendo a experiência de alguém, e não a minha própria. Ou como se a minha memória, a minha consciência tivesse sido completamente anestesiada. Porque o "eu" que conheço, se é que me conheço, em primeiro lugar e antes de qualquer coisa, pediria a ajuda de DEUS. O que essa experiência me mostra? Uma série de coisas importantes, que foram muito bem aprendidas, pois ficaram impressas, definitivamente, em meu coração e em meu espírito.


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