Encontro

Continuação de "Conexão"




Alguma coisa chamou a minha atenção; uma mancha clara a se insinuar em meio ao escuro. Alguma coisa que se parecia com um homem. Olhei e vi uma figura elegante acomodada no banco de concreto que havia bem ao lado do casebre. Eu não me lembrava daquele banco ali, e pensei nisso, mesmo assustado como estava.

_______Fixei o olhar: era um ancião de aparência robusta, sentado com as costas bem eretas, pernas cruzadas e um jeito calmo. Usava uma camisa branquíssima de mangas curtas, que lhe caía muito bem, contrastando harmoniosamente com a pele bronzeada. Cabelos grisalhos muito lisos, fios semi longos cuidadosamente penteados para trás emolduravam uma face de contornos bem marcados, porém sóbrios, sobre um pescoço sólido.

_______Havia muito de ameríndio em suas feições, com vestígios caucasianos e talvez um quê de asiático. A fronte larga lhe conferia um ar de sabedoria, e um nariz largo acima de um sorriso sereno transmitia confiança. – Um homem grande com uma atitude amiga, que se tornou acolhedora quando ele se reclinou em minha direção.

_______De imediato ele me inspirou confiança. Fiquei olhando para ele sem saber o que fazer, me aproximar ou me afastar, esquecido de que tudo não passava de sonho. Mas o meu impasse não durou. O homem fez um gesto com a sua grande mão, convidando a me acomodar ao seu lado, no banco. Aquilo soou um pouco intimidante, e eu titubeei para aceitar o convite, antes de me deixar levar pela curiosidade e por alguma outra coisa.

_______Me aproximei devagar, sem saber o que fazer, pois eram um homem e uma situação bastante estranhas. Talvez estender a mão e me apresentar, como seria de bom tom. Mas ele não se moveu, somente moveu o olhar, e a expressão em seu rosto me acalmou. A mãozona suspensa em minha direção, aberta, convidando-me a me aproximar...

_______E sem saber como me opor ou protestar, caminhei até o ancião grande ameríndio elegante sereno. Com curiosidade, mas com calma.

_______Ao me aproximar, ele se chegou um pouco para o lado, para a sua esquerda no banco, não propriamente para liberar espaço para que eu me sentasse, pois ele já estava acomodado no canto, e já havia espaço de sobra para eu me acomodar. Era muito mais uma maneira de dizer que eu era bem-vindo.

_______Eu ainda fiquei olhando para ele, que tinha uma expressão ao mesmo tempo sábia e amiga, mas não o suficiente para dissolver minha desconfiança. Então o sorriso se desvaneceu em seu rosto, e me fitando com olhos negros muito profundos, ele falou:

_______“Não se preocupe. Não vou pedir a sua confiança, e não espero isso. Eu procuro o mesmo que você, e sirvo ao mesmo Senhor. Me fiz escravo por vontade própria, e renego tudo que renegue o Sacrifício do Cordeiro. Sendo escravo, sou livre, e somente por isso o nosso encontro foi possível. Por estar pronto, você precisa da confirmação. Eu a dou: há um só Deus e um só Caminho.”

_______Sua voz é grave e poderosa. Ecoa como vento de tempestade sobre o campo gramado; reverbera nos troncos, nas copas das árvores. A última frase é pronunciada de maneira mais acentuada, e os gestos se tornam elaborados. Ao dizê-lo, esconde a mão sob a gola da camisa por um segundo, e logo em seguida, para o meu espanto, retira um crucifixo de prata que trazia pendurado numa corrente, em volta do pescoço largo. É exatamente igual ao meu crucifixo abençoado, que levo sempre junto ao peito, preso à corrente de prata que ganhei de minha filha! Imediatamente levo a mão ao peito, e percebo que estou usando também o meu crucifixo.

_______Aquele gesto e aqueles dizeres me acalmaram, e a voz do ancião, perfeitamente compatível com seus gestos, reconfortantes e amigos, me animaram a aceitar o convite. Acomodei-me no banco, ao lado do ancião, e então me senti curioso e empolgado...

_______Sentado, fiquei de frente para o casebre, e experimentei uma sensação gélida no fundo do estômago: A porta estava aberta! Não estava aberta há um segundo, pois eu havia acabado de rodear a estrutura toda, duas vezes, e com toda a certeza teria reparado se estivesse. Ou não?

_______Por um instante meu olhar se concentrou na escuridão profunda atrás da porta aberta. Senti um princípio de enjôo e retomei a consciência de que aquilo tudo era parte de um sonho. Mesmo assim, num instante completamente ilógico, vi matas, águas e prados luxuriantes se manifestarem diante de meus olhos não físicos. O silêncio era absoluto, mas eu tinha a incrível sensação de que os sons de todo o Universo estavam contidos naquele Silêncio. Minha visão viajava a uma velocidade estonteante, longe do parque, do casebre, de todo o contexto, e vivi a indescritível experiência de sonhar dentro do sonho. Ou algo assim.

_______“É preciso avançar. Não só a sua, mas outras vidas precisam dos seus passos decididos, da sua coragem. É preciso ir além. É preciso descer do Livro.”

_______A voz do ancião ressoou novamente, através do vácuo de minhas visões insólitas, de revoadas de borboletas, das libélulas pairando como bailarinas sobre a superfície espelhada de lagos repletos de luz, dos cardumes de peixes multicoloridos em apoteose, do nado gracioso de baleias, do dançar de pássaros...

_______“É preciso instalar o fato no lugar da interpretação, o modelo original no lugar da representação, a alma no lugar da casca...”

_______Uma coruja parda, de plumagem ricamente desenhada em tons de claro e escuro, planou diante de mim, surgindo de grandes alturas, e pousou graciosa sobre um tronco retorcido, tombado e coberto de limo, entre mim e o casebre que tantas expectativas me trouxera. Com a coruja, minha consciência retornou ao ambiente do parque, e tudo se tornou sólido novamente. - Tanto quanto é possível num sonho.

_______Olhei para o lado buscando o ancião, e levei um susto: ele não estava mais elegantemente sentado ao meu lado; estava a dois ou três passos distante do banco, deitado sobre a grama.

_______Por um segundo pensei que sentia alguma vertigem, ou que tivesse caído, tropeçado numa pedra ou algo assim. Mas logo percebi que ele, de costas para mim, parecia entretido com algo ali no solo. Me aproximei, curioso, contornando o corpanzil ali deitado, passo ante passo, e vi que o ancião tinha um sorriso angelical. Estava observando formigas, que carregavam grandes pétalas amarelas numa fileira longa e impecável, passando sob raízes da grama e folhas soltas, escalando torrões de terra e gravetos como se fossem obstáculos titânicos.

_______Depois de longos minutos naquela situação estranha, eu de pé, encurvado, e ele deitado, olhando formigas, ele finalmente elevou os olhos em minha direção e disse: “Só as crianças têm o privilégio de ver o outro mundo. E é um mundo muitíssimo mais vasto...”.

_______Voltou a olhar apaixonadamente para as formigas, e depois de algum tempo, transparecendo muito pesar por ter que deixá-las para voltar a prestar atenção em mim, se levantou com grande agilidade, e me olhando nos olhos completou a frase: “...mas as serpentes são astutas, e é bom ser astuto no seu mundo. Este é um exemplo perfeito de paradoxo da Sabedoria Divina para a vida”.

_______Aquela fala mexeu comigo. Considerar a pureza e a astúcia não como forças antagônicas, mas energias irmãs e complementares, virtudes igualmente importantes para um buscador, abriu minhas perspectivas da Verdade, ela que quase sempre nos chega por trás das pequenas verdades que nossos orientadores espirituais conseguem nos transmitir. Na maioria das vezes precariamente.

_______Digo que apenas essa abertura de consciência já teria feito valer a pena a experiência toda, desde que encontrei a menina no parque (na verdade ela me encontrou). Mas eu senti, naquele exato instante, uma curiosidade irresistível: o que eu haveria de aprender ainda com aquela estranha figura? Pensei isso porque, mesmo tendo me entregado uma grande chave a ser usada na Arte das artes que é a vida, ele ainda continuava ao meu lado, e me encarava. Algo grande ainda estava por vir, eu sentia, e possivelmente o principal.

_______Depois de uma longa pausa fitando aqueles olhos de imensa profundidade, baixei o olhar por um instante e notei que a camisa bem passada que ele usava não era totalmente branca, como eu imaginara em princípio: o tecido tinha finas linhas num tom cinza claro sobre o fundo branco, formando um xadrez suave.

_______“Sua estrutura espiritual é poderosa, incomum; mas não está bem fundamentada. A magnitude de todos os talentos que lhe foram concedidos é grande demais para ser sustentada por um só pilar.”

_______Ao pronunciar a palavra “pilar”, sua voz mudou de tom, e ele sorriu de um jeito maroto, dando-me a sensação de que iria piscar um olho, mas acho que não o fez.

_______“Você diz que se apóia em pilares, mas você sabe que vem tentando se equilibrar sobre um único pilar. E é um pilar com muitas imperfeições, irregular e incerto. Só o Livro não basta.”

_______Então compreendi o que ele estava dizendo, e senti medo. Estaria eu sendo tentado? E, finalmente, perguntei a ele quem era. “Quem é você?” Esta era a maior e única pergunta naquele momento, a questão que ocupava todo o espaço no meu entendimento. Sem uma resposta, eu sairia dali imediatamente, correndo, sem olhar para trás. E ele disse:

_______“Isso você terá que descobrir por si mesmo. E você saberá quando começar a escrever seu próprio livro; é isto que importa agora. Escreva o seu livro. Este será o novo e necessário pilar que vai lhe restituir o equilibro. Equilibrado, você será um gigante; vai mudar contornos nos mapas e o relevo da Terra por onde passar. Vai entrar nas mentes e realizar o propósito que lhe foi confiado: salvar vidas.”

_______Ao dizer isso, ele empertigou o corpo, e eu fiquei assombrado. Naquele momento, o homem parecia ter mais de dois majestosos metros de altura! E era belo. Seus olhos faiscavam em minha direção, do topo de sua magnífica estatura, e seus contornos pareciam emoldurados por um halo prateado, formado talvez pela luz da Lua atrás de sua silhueta grandiosa. Impressão ou ele aumentava, ainda, de tamanho?

_______Pisquei ou me distraí, e já não havia mais ancião, não havia mais voz de trovão e nem olhos incandescentes a me encarar. Só o banco de concreto, o verde do parque iluminado pela Lua. Virei-me e vi o casebre. A porta agora estava fechada.

_______Havia acabado de acontecer, afinal, o encontro sobre o qual eu tinha fantasiado, no lugar indicado pela menina estranha, naquela minha tarde de folga no parque? Num admirável lampejo de racionalidade, pensei: “preciso acordar e registrar tudo o que houve, e principalmente o que ele me disse, para que amanhã não me esqueça”.

_______Concentrei-me e tentei acordar, me abstrair daquele ambiente de sonho e sentir o meu corpo acomodado na cama. Lapso. Treva. Sinto-me deitado, o edredom enrolado em minhas pernas, o travesseiro dobrado sob meu pescoço. Tento mexer o dedão do pé direito, minha tática para quando fico nesse angustiante estado meio dormindo meio acordado, o que é comum para mim. Depois de algum esforço, costuma funcionar, mas dessa vez estava muito difícil. Não consigo mover o dedão.

_______Começo a ficar ansioso, mas não me deixo levar, e por fim relaxo. Lapso. Treva. Ouço gritinhos histéricos de criança. Vejo vultos e manchas tênues de luz. Cores. Estou de volta no parque. Sentado no banco. Gritinhos e risos de criança. Olho por sobre meu ombro direito e vejo, no campo gramado abaixo, duas crianças brincando.

_______Então me levanto e desço as mesmas escadas que, durante o dia, tinha subido, para chegar ao platô do casebre, quando acordado. Ao final da descida, reconheço as crianças: são a menina de olhos claros aberrantes e o menino rechonchudo! Ela corre e rodopia, executando “estrelas” muito corretas sobre o solo, e pede insistentemente ao menino: “Segura ‘meus pé?’” – Mas ele a ignora, e ela: “Eu quero ‘plantá’ bananeira”...

_______Eu percebo que a roupinha da menina é a mesma de quando a encontrara naquela tarde incomum. Ela se joga no chão. Me olha. Agora seus olhos não são mais como lamparinas azuis: são negros e profundos. Ela aponta o dedinho indicador em minha direção, num gesto que diz: “Lembre-se de tudo!”...

_______E eu acordei, imediatamente.

_______Hana não está ao meu lado. Não sei como não acordei quando ela se levantou para ir trabalhar, pois eu sempre acordo quando ela se levanta, e sempre acordo quando ela me dá um beijo e me diz "te amo" antes de sair, às 6h20...

_______E a primeira coisa que pensei, ao acordar, foi: “afinal encontrei a Verdade, no lugar que a menina me indicou?” - Levantei de um só impulso e, abrindo portas e gavetas no meu quarto, comecei a procurar algum dos meus cadernos de anotações, que tivesse algumas folhas em branco... Achei. E escrevi.




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