Skellig

Por Dom Laurence Freeman OSB - Agosto de 2010 (tradução: Roldano Giuntoli)




Às vezes, é melhor não saber tudo. À medida que nosso pequeno barco abria um sulco nas ondas, em direção a Skellig, uma peregrina inglesa, incerta quanto ao significado da peregrinação, perguntou: “Que raios é que os levou a vir até aqui?” Ela se referia aos monges celtas que, entre os séculos sexto e décimo terceiro, rezavam no alto dessa ilha rochosa, fustigada pelas ondas, que se eleva a 250m, pairando acima do mar a cerca de 50 km da costa de Kerry. Se havia uma resposta, ela estava perdida em meio ao vento e à espuma.

Um vizinho irlandês tinha aspecto menos ingênuo, mas não disse nada. Ainda que ele tivesse substituído a magia branca do catolicismo irlandês pelos encantos da nova era, parecia haver sobrevivido nele uma compreensão mais inalienável acerca do extraordinário local que visitávamos.

As preces mais bem atendidas são aquelas que nunca pedimos. Assim, nos pareceu pura graça, logo que, por capricho, o sol espantou as nuvens. Chegamos à ilha monástica na mais pura e lúcida glória do dia, o vasto céu azul, o mar suavemente ondulado e as duas ilhas Skellig: uma um santuário para os pássaros, a outra um santuário para a alma.

Costumamos filtrar a cegante luz do Sagrado com coisas mundanas. Assim, conversamos sobre os dois turistas que morreram em Skellig no ano anterior, e ouvimos os repetidos avisos dos curadores do universo insular quanto à segurança e à saúde. O farol do outro lado da ilha hoje é automático, mas no passado três mantenedores, e suas famílias, ali viviam por semanas a fio, aprovisionados e transportados por heróicos marinheiros dos barcos dos faróis irlandeses, sendo que o capitão de um deles foi meu avô, Mike Sullivan. Faziam-se necessários três mantenedores, para o caso de um deles enlouquecer; os outros dois poderem controlá-lo. Talvez pela mesma razão, eles ainda tenham três curadores. Eles são arqueólogos, mas, secretamente movidos pela mesma paixão pela solidão, tal como os mantenedores e seu predecessores monásticos.

Panorâmica das Ilhas Skellig

Acerca da história de Skellig, quase nada se pode afirmar com certeza. Todavia, tal como os sítios históricos da Terra Santa, ou o aspecto "o que realmente aconteceu" das histórias dos Evangelhos, isso na verdade não importa. O que importa é o quanto estamos presentes para aquilo que o local ou a Palavra nos diz no momento. Galgar os 500 degraus é um trabalho árduo, e uma pétrea alegoria da ascese da alma.

Assim como na vida, há alguns patamares de descanso, mas não há como voltar. Senti minha primeira manifestação do ego, de possessividade sobre a ilha, quando outros visitantes se intrometiam no curso de meus pensamentos, ou interrompiam a cadência de minha subida ao bloquear os degraus para tirar fotografias. Os monges que escolheram vir para cá devem ter se familiarizado muito com seus egos, para poder sobreviver.

Eles viviam em um recinto murado compacto, de seis cabanas em formato de colméia, em pedra, uma delas a cozinha, e a área comum, e dois oratórios, numa curva abrigada do cume. Uma das muitas lendas, que data de 1400 dC, diz que Daire Domhain, um "rei do mundo", aqui veio para recuperar suas forças antes de uma batalha épica. Se o seu título pode parecer exagerado, talvez seja apenas, e compreensivelmente, porque ele se sentia estar realmente no topo do mundo, quando olhava a seu redor do alto do cume de Skellig.

O que mais nos impressiona aqui é o paradoxo de que este local remoto, e muitas vezes inacessível, tanto era um local de solitude quanto de comunidade. Se você quisesse fugir de tudo e de todos, por quê vir com um grupo de doze pessoas, e compartilhar sua cabana com duas outras pessoas? Há ruínas de um eremitério individual no topo do cume sul, porém, este era um local para preces e vida solitária em grupo. Havia uma vida comunitária de refeições e de preces, e deve ter havido tarefas que precisavam ser feitas. Havia jazigos no pequeno cemitério, plantio em um não muito maior canteiro de vegetais, a coleta da água da chuva das cisternas ou de ovos de gaivotas. Não se trata da ‘solitude’ das moradias de solteiros no individualismo urbano, a kitinette ou o apartamento de solteiro. É extraordinário o quanto a vida deles aqui deve ter sido comum.

Sim, de fato: “Que raios é que os levou a vir até aqui?” Se você puder deixar de lado a sua câmera, por alguns momentos, e se você ficar meia hora no interior de uma das cabanas, você sentirá em você mesmo um tipo de resposta: repulsa ou alegria. Ou eles sofriam de fobia social, ou então, eles haviam encontrado algo que os levou a vir para cá de modo a poderem vivenciar este algo mais plenamente.

Muito provavelmente eles já haviam se apaixonado por aquele único Amor do qual você nunca mais se distancia. Na verdade, quando os monges deixaram o local, Skellig se tornou um local de peregrinação e penitência. Havia uma rude atração por sua dura beleza. No entanto, a princípio, foi um santuário de intimidade, paz e puro Amor.

Dom Laurence Freeman OSB


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