"Interlúdio"

Continuação de "Ansiedade"



Respiro fundo e me convenço que é inútil tentar me enganar: eu vou olhar, e sei que vou encontrar, lá dentro, algo que me fará completamente diferente daquilo que eu era ao chegar naquele parque, naquela tarde de inverno atipicamente quente...

_______O ar parece denso, os piados dos pássaros ecoam lentos, anormais. A situação tem um quê de assustadora, intimidante. Tento evitar a tensão, mas sinto meu corpo inteiro retesado, e a transpiração fria já é mais do que uma hipótese.

_______Em passos lentos e calculados, me aproximo da parede branca esverdeada pela ação da umidade. Acho que não queria estar ali. Preferiria sair correndo e voltar para o conforto da minha casa, das minhas convicções prontinhas e familiares...

_______Mas não posso fazer isso; eu não fui feito assim. Me aconchegar em minhas certezas seria uma vergonha para qualquer membro da minha família espiritual, e eu não suporto me sentir envergonhado. Acho que meu velho sensei cumpriu bem o seu papel, na tarefa de me dar vergonha e me fazer optar sempre pelo caminho dos bravos. Por mais que se trema. É o que eu sempre faço.

_______Sempre a escolha dos bravos. E olhar naquele buraco exigia uma dose generosa de bravura. Definitivamente a situação toda era muito estranha, e as circunstâncias que haviam me levado a estar frente a frente com aquela parede branca meio esverdeada, com portas azuis trancadas e um buraco na parede bem acima da minha cabeça, eram extremamente intimidantes.

_______Também tenho um lado prático predominante: se não há outro jeito, encarar de uma vez. Inspirei fundo, desliguei a máquina de pensar por um segundo e me ergui na ponta dos pés, posicionando meus olhos à altura da abertura, me esforçando para não fechar os olhos. E olhei.

_______Olhei dentro do buraco. Mas com minha cabeça diante da abertura, eu mesmo impedia a fraca luminosidade de penetrar o ambiente, e apenas escassos filetes de luz avançavam, tímidos, no meio da treva, fazendo cintilar algumas partículas de poeira esvoaçantes.

_______Depois que se dá o primeiro passo, ignorando o medo, a coragem se manifesta. O que poderia me aguardar dentro do casebre? Num primeiro momento, o escuro só me deixou perceber, lá dentro, uma mancha escura e informe junto ao piso.

_____Apertei meus olhos, tentando acurar a visão, mas por longos segundos não pude ver nenhum detalhe. Só depois do que me pareceu uma longa eternidade, meus olhos começaram a se adaptar ao escuro, e enfim consegui enxergar o que me aguardava dentro da casinha rodeada de vegetação, no alto do aclive gramado, no meio do parque...

_____Duas semanas depois do ocorrido voltei ao parque, fui ao mesmo lugar, subi o mesmo aclive, levando uma máquina fotográfica. Pensei em fotografar o lugar para ilustrar estes posts. Na ocasião fotografei o que eu vi no interior da casinha. O que havia lá dentro? Isto.

_______O que é isto? Não sei dizer com certeza, mas faço ideia. E posso garantir que não tem nada a ver com o que eu esperava encontrar ali. Absolutamente nada que pudesse ter alguma relação com a experiência toda, a menina estranha, sua fala imensamente mais estranha, e todo o rico universo de expectativas gerado em mim a partir dali.

_______Fiquei ali por longos minutos, me esticando na ponta dos pés, olhando para dentro do buraco, até as articulações dos meus calcanhares começarem a doer, e até a dor se tornar insuportável. Desci à altura ordinária dos homens comuns, absurdamente frustrado, decepcionado, confuso e atordoado... Voltei a alinhar meus olhos ao buraco várias vezes, e repeti o mesmo exercício de frustração, decepção...

_______Depois de inúmeras tentativas de enxergar alguma coisa que só existiu nas minhas fantasias, sem sucesso, me apoiei de costas contra a parede e deixei meu corpo escorregar até o solo. Sentado na relva, percebi que a noite começava a se pronunciar. Meus olhos ficaram, por outra eternidade, olhando o verde que começava a se tornar acinzentado, naquele parque agradável, logo abaixo. Depois olhei para o céu azul-veludo e vi a velha Lua a rir de mim.

_______O quê? Por quê?.. Louco, eu? Mais do que já imaginava? Esquizofrenia? Coincidência? Delírio?..

_______Delírio... Talvez aquilo que a menina esquisita havia me dito não tivesse nada de transcendental, e eu tivesse o tempo todo fantasiado uma situação que nunca existiu. Claro, seria uma coincidência titânica uma menina de aparência angélica (ou fantasmagórica) aparecer e me dizer que eu estava pronto, e que a verdade me esperava num determinado lugar, nada mais nada menos que um casebre ao melhor estilo Willian P. Young...

_______E depois... O que acontece depois? Nada. Nenhuma visão maravilhosa, nenhuma epifania, nenhum contato com o além, nenhuma revelação sobrenatural de verdades supremas...

_______Então tudo fora apenas o resultado da soma de uma tolice comum de criança e as minhas tendências megalomaníacas? Tenho que confessar que aceitar isso me soava tão incrível quanto a menina ter sido a portadora de alguma mensagem dos reinos espirituais endereçada especialmente.

_______Mas, bem, meus queridos amigos, se tiverem um pouco de perspicácia, vocês certamente poderão imaginar que, se a história toda terminasse aí, eu não teria me dedicado ao trabalho e ao prazer de voltar a escrever neste blog. Não. Tudo que contei até aqui representa apenas o começo de uma história que trouxe consequências concretas importantíssimas em minha vida, mudando o meu modo de pensar e de ser. E me fez voltar a escrever no a Arte das artes...

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