Conexão

Continuação de "Interlúdio"

Sim, meus queridos amigos. O que aconteceu depois foi muito mais importante do que o que aconteceu durante a experiência em si. Se bem que eu não saberia explicar exatamente onde termina e onde começa a experiência toda. Quando vi a menina estranha, tive um choque. Depois que ela se aproximou de mim e me disse que eu estava pronto, e que a Verdade estava a minha espera(!), minhas expectativas foram às alturas. E eu fui muito rápido em imaginar que a menina era algum anjo, que eu estava prestes a travar um contato imediato de altíssimo grau com as Realidades Celestes.

_______E não foi bem assim. Ao menos não como eu imaginava. Aliás, aí se encerra um segredo da vida. As coisas não são como imaginamos, e às vezes (ou sempre) é muito difícil aceitar isso.

_______Infelizmente, a continuação deste post demorou mais do que eu estava imaginando em princípio, e os detalhes destes acontecimentos estão começando a ficar um pouco mais difusos em minhas lembranças. O que sei com certeza é que naquele dia voltei meio transtornado para casa. Hana chegou mais tarde e conversamos a respeito de tudo. Ela é muito mais simples do que eu para questões transcendentais, chegando a parecer pragmática de um jeito tipicamente feminino. Para ela, se de repente as paredes começarem a falar, ela simplesmente vai bater um papo com as paredes, sem questionar como ou por quê. E tudo que ela me disse foi: “Que interessante... Algum motivo isso teve para acontecer”...

_______E depois de um jantarzinho romântico tipicamente paulistano na pizzaria próxima de casa, a história toda já não me parecia tão importante assim...

_______Voltei para casa meio “alto” depois de duas cervejas e alguns goles na taça de Saint Remy de Hana. E depois de uns quinze sonolentos minutos de TV na sala, fui dormir sem nenhum vestígio dos estranhos acontecimentos daquela tarde na memória.

_______Deitado em minha cama, coberto até o pescoço, olhando para o teto, meu último lampejo de consciência, antes de me desligar totalmente deste mundo de confusões, foi: “fim do meu dia de folga”...

_______E estava novamente no parque. Em sonhos.

_______Era como se tivesse me levantado da cama e caminhado até lá, pois não me sentia como em sonho, mas como se estivesse acordado. Sentia cansaço, respirava pesadamente, sentia os espinhos do gramado sob a planta dos meus pés, já que estava descalço.

_______Noite, o parque vazio, mas a lua nova iluminava a grama, as pedras, as árvores... e o casebre.

_______Sim, lá estava eu no mesmo lugar, no alto do platô gramado, diante do casebre. Mas agora tudo estava mais calmo e silencioso. Apesar de todo o realismo, no entanto, eu sabia que não estava ali, fisicamente presente, e sabia que toda aquela situação era de sonho. Por isso, achei que era essa a explicação para uma sensação extremamente agradável que eu experimentava.

_______Era muito bom estar ali. Um prazer imenso afogava qualquer vestígio de outros sentimentos, e assim me deixei cair de costas sobre a grama, que me acolheu morna e macia. Ali permaneci deitado, completamente relaxado, olhando o céu limpo e a Lua clara, a me sorrir e perguntar: “Por que vocês complicam tanto a vida?”

_______As copas das árvores se moviam como que em câmera lenta, os ramos das pontas dançando graciosamente ao som da brisa que os acariciava gentilmente. Como é doce a noite. E suave...

_______Me absorvi em devaneios sem razão e sem sentido, até a sombra do casebre ali ao lado fazer com que eu me movesse. E a mesma coisa que fizera algumas horas antes, acordado, repeti ali em sonho. Caminhei em volta do casebre, rodeei-o completamente duas vezes, antes de perceber que, então, não havia nenhum buraco na parede. Não havia espaço aberto pela falta de dois tijolos: toda a singela construção estava íntegra, e não seria possível espiar o que havia dentro dela.

_______Num instante me lembrei do sentimento de frustração que experimentara ao olhar para dentro daquele aposento e ver, em meio ao escuro, uma máquina desengonçada, algumas latas de lubrificantes e nada mais.

_______Eu nunca tentei interpretar o que acontecera. Em nenhum momento quis encontrar algum significado mais profundo para uma máquina e algumas latas dentro de um velho casebre, no meio de um parque público. Não busquei pela “moral da história” nem quis ler uma mensagem dos Céus naquela situação tão banal. Apenas aceitei que tudo, por mais incomum que parecesse, não passara de... uma sequência de acontecimentos um pouco... bizarros.

_______Bizarros, porém totalmente naturais, isto é, comuns, ordinários, sem nada de místico ou mensagem sobrenatural envolvida. Uma criança de aparência um pouco incomum me dissera uma frase sem sentido, que por uma incrível coincidência fazia um sentido muito especial para mim. O resto foi um delírio, uma sucessão de expectativas grandiosas porém vazias, criadas pela mente imaginativa de alguém que queria acreditar.

_______Mas lá estava eu, em sonho, diante do casebre, e era um sonho bem vívido. Eu já contei aqui que costumo ter sonhos lúcidos, isto é, saber que estou sonhando enquanto o sonho acontece? Acho que sim, acho que não... O fato é que ali, no sonho, mais uma vez desisti de encontrar alguma coisa especial no casebre que a menina esquisita me indicara. E me preparava para ganhar novos cenários oníricos, curioso em saber o que viria a seguir, quando algo muito importante aconteceu. Algo que viria, finalmente, a dar sentido para a minha estranha experiência no parque...

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