A Busca é eterna


Olhei para o céu, agora, e vi cinza. Moro em São Paulo, quarta ou quinta maior metrópole do planeta Terra, e vivo todas as vantagens e desvantagens que isso traz. Uma delas é olhar para o céu e ver cinza em vez de azul. É uma grande desvantagem.

Mas isso só me passou pela cabeça de relance, porque importante é dizer que o motivo de eu olhar para o céu é buscar o Céu. E busco o Céu para manifestar gratidão por mais uma grande Graça Divina. Uma daquelas Graças que me obrigam a retornar a este espaço virtual abençoado, para compartilhar com vocês, velhos amigos buscadores da Arte das artes.

A TV está ligada e lá vem notícia do goleiro suspeito de assassinato com requintes de crueldade, Bruno, e seu parceiro "Macarrão"... Argh! Por que as pessoas gostam tanto de notícia ruim? Por que a desgraça, a tragédia, o sofrimento e a destruição das vidas alheias atraem tanta gente? Pessoas acordam cedo, ligam seus aparelhos de TV e já começam o dia com notícias de assassinatos, crimes hediondos, violência, pedofilia, chacinas, assaltos... Que maneira de começar o dia!

Enquanto isso, Ele continua esperando, pacientemente... Cada vez menos adorado em Verdade e em Espírito, quanto mais os templos se enchem. Que pena. Ou não. Tudo tem um propósito, até os descaminhos, até os desencontros.

Saudades de todos vocês! Enquanto meus dedos passeiam pelas teclas desta maquininha maravilhosa chamada laptop, me parece que posso ver, com olhos não-físicos, o seu rosto, você que pacientemente lê o que eu escrevo. Por que se lê pouco hoje em dia? Porque estamos, cada vez mais, impacientes. Cultive a paciência em sua vida, e você se tornará um mestre espiritual. Mas, bem, toda essa conversa periférica é para matar as saudade de vocês, bons amigos virtuais. Passemos logo ao tema desta postagem...





"A mística é um fenômeno humano, do qual a mística cristã é uma expressão. Isto não é sem importância, e não pode ser ignorado pelos cristãos, sejam teólogos ou monges"


Dom Armand Veilleux, OCSO

Recentemente, passei por uma grande provação. Vivi um dos períodos mais difíceis de toda a minha vida. Por envolver questões muito íntimas, não vou entrar em detalhes, mas digo que a situação toda envolveu problemas de saúde, o risco da perda de um ente querido muito próximo, o sentimento de culpa, o medo do futuro, o estremecimento das minhas relações com Hana, etc...

-------Foi um tsunami que passou na minha vida, e eu precisei de muita serenidade para não sucumbir. Mas eu permaneci conectado à Fonte, e a onda passou, me deixando vivo, inteiro e mais forte.

-------Por conta dos problemas, precisei adiar uma série de compromissos e, passado o sufoco maior, minhas obrigações profissionais estavam todas atrasadas. O resultado foi que trabalhei por mais de 50 dias ininterruptamente, sem descanso, até tarde da noite, incluindo finais de semana.

-------Finalmente, depois de todo o esforço e stress, consegui colocar meus compromissos em dia e tirar dois dias para relaxar um pouco. Nesses momentos tão especiais (de pausa para descanso), gosto de procurar a natureza; sentir o cheiro do mato e ouvir passarinhos cantando.

-------Fui passar uma tarde no parque, sozinho. Estava com a mente e o corpo cansados, e tudo o que desejava era um pouco de quietude. É um parque relativamente próximo à minha casa, com área verde próxima a trezentos mil metros quadrados. Um bom lugar para recarregar as baterias.

-------Passeei, meditei, li um pouco, fiz alongamento, conheci pessoas, joguei conversa fora... Lá pelas 17h30, sol de inverno se despedindo, estava eu, perfeitamente relaxado, deitado em minha velha toalha de piquenique sobre a grama, já pensando em recolher minhas coisas para ir embora, quando vi uma figura meio... diferente... a uns quinze metros de distância, caminhando em minha direção.

-------No final da tarde, sob a copa das árvores e contra a luz do sol poente, não podia ver direito, mas parecia uma criança, uma menina. Me chamou a atenção porque vinha diretamente em minha direção, e não sei porque, me senti inquieto. Desviei o olhar por um instante. Mas não pude resistir e voltei a olhar na mesma direção: um arrepio percorreu a minha espinha, porque a criança continuava avançando direto para mim, e havia algo de... incomum naquela menina.

-------Ela andava com serenidade, mas firmemente. Seus passos eram cadenciados, e ela se aproximou de mim com velocidade espantosa, embora não andasse com pressa. Apertei meus olhos, mas continuava não podendo vê-la com clareza, talvez pela luminosidade, pelos raios do sol, próximo à linha do horizonte, bem atrás do corpinho da criança, realçando seus contornos infantis, reluzindo em seus cachinhos louros...

-------Ela tinha cabelo louro muito claro, em cachinhos. Chegou aonde eu estava e aconteceu aquilo que eu, de alguma maneira, já esperava: parou bem na minha frente e ficou ali, me encarando. Ela parecia ter uns 5 anos de idade. Vestia uma bermudinha larga, escura, encardida, ao que tudo indicava, de tanto rolar na grama e brincar na areia, e uma blusinha branca em xadrez cinza claro, muito delicada, com adoráveis lacinhos nas mangas.

-------Mas toda a sua beleza infantil não surtiu em mim o efeito que seria de se esperar. Eu não sorri nem fiquei encantado com a linda menina. Não reparei nos detalhes que acabei de descrever, sobre a sua aparência; eles só me ocorreram quando pensava em como as coisas aconteceram, horas depois. Porque, quando aquela criança parou na minha frente, tudo que senti foi medo.

-------E tudo que podia ver eram seus olhos: inquietantes, não sei explicar porque. Eram de um claro espantoso. Provavelmente azuis, mas praticamente não se via cor. A íris era tão incrivelmente clara que quase se fundia com o branco em redor; apenas as pupilas eram bem visíveis. Duas pequenas esferas negras a me perscrutar, sem nenhuma cerimônia.

-------Me sentindo nu, inquieto, imaginei que a temperatura havia caído, bruscamente. Tentei me convencer de que era apenas uma criança. Esbocei um sorriso, mas ela, entre séria e, talvez, algo desdenhosa, continuou apenas me olhando, por alguns estranhos segundos. O espaço próximo à menina parecia estranho, distorcido, como se aquele corpinho interferisse nas ondas de realidade que formam o mundo dos humanos.

-------Assim ficamos, eu e ela, até que, repentinamente, me senti relaxar. Alguma coisa fez com que eu me soltasse completamente, deixando a lógica agonizar em paz em algum canto bem isolado da minha psique. Estivera deitado. Quando a menina se aproximou, eu recostei. Ao me acalmar, me sentei e a encarei de volta, esperando para ver o que iria acontecer.

-------E seus olhos agora não pareciam assustadores. Apenas deixavam tudo com jeito de sonho. Por fim entendi que a sua expressão se tornava amigável, e pensei ver algo como um sorriso naquela delicadíssima face. Ficamos ainda algum tempo apenas nos olhando, como se nos comunicássemos por telepatia. Me pareceu (como num delírio) que ela esperava que eu me comunicasse assim, sem usar palavras. E numa fração de segundo, a palavra "casa" surgiu na minha mente, numa voz doce e estridente de menina de 5 anos. E foi só. Mais alguns segundos nessa comunhão agradável e esquisita, e ela ergueu seu bracinho pálido, quase iridescente, com o dedinho indicador apontando um ponto bem atrás de mim.

-------Olhei e vi que parecia haver uma velha construção lá atrás, depois de algumas árvores, aclive acima, bem no meio do parque, que eu nunca tinha visto ou reparado. Voltei a olhar para ela, achando que não a veria mais, como costuma acontecer nos sonhos. Mas ela ainda estava ali, e disse: "Você está pronto. A Verdade espera, naquele lugar".

-------Eu quis grafar a palavra Verdade assim, com inicial maiúscula, porque sabia que era disso que ela estava falando.

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