Um Papa em apuros

Nova chuva de escândalos sexuais e um suposto passado de tolerância para com padres abusadores abalam a imagem de Bento XVI. Mas a reação do Papa pode marcar uma revolução na Igreja.

Baseado em texto de Alexandre Vernignassi e Maurício Horta - Revista Superinteressante (Maio/2010, pp. 19-20)


Duzentos meninos de uma escola para crianças surdas. Essa era a ficha corrida de abusos sexuais de um único padre, o americano Lawrence Murphy. Apesar de a porcentagem de casos de pedofilia no clero norte-americano ser de 0,3% ('La'Stampa'), casos como esse provocam muito barulho, como não poderia deixar de ser, pois são extremamente chocantes. Mas é importante saber que essa acusação não veio da imprensa: partiu de outros clérigos, que tomaram conhecimento dos crimes do colega e resolveram denunciá-lo à Congregação para a Doutrina da Fé, - que, ao contrário da malfadada versão que agia na Idade Média, funciona como uma espécie de corregedoria interna do Vaticano. - É esse organismo que decide quem deve ser expulso da Igreja, por exemplo.

-- Bem, o chefe da congregação já havia recebido denúncias contra Murphy em 1996, mas, inexplicavelmente, não tomou as providências que dele se esperavam. Segundo o New York Times, que revelou esse fato em março último, o chefe da congregação tentou evitar um escândalo e procurou resolver o problema internamente. O nome dele? Joseph Ratzinger, que 9 anos depois se tornaria o Papa Bento XVI. A divulgação do fato lançou muito combustível na fogueira e colocou a imagem do Papa em cheque.

-- A pedofilia é definida como doença mental, distúrbio psicológico grave e desvio sexual (parafilia) pela Organização Mundial de Saúde. O diagnóstico consta nos manuais médicos de transtornos mentais. Desejo sexual de adulto por criança, mesmo sem a realização do ato, já caracteriza o desvio mental conhecido como pedofilia. Óbvio, no entanto, que o fato de ser doença não reduz a necessidade de ações concretas para a proteção de nossas crianças, nem exime os pedófilos da responsabilidade pelo crime. Outro fato público e notório é que a pedofilia vem crescendo assustadoramente no mundo inteiro. Diversos órgãos oficiais de pesquisa têm demonstrado um grande aumento nos casos: a organização Save the Children (Itália), em relatório sobre pornografia infantil na internet, registrou gigantesco aumento dessas ocorrências. No Brasil ficou demonstrado que, nos últimos 5 anos, o número dos casos de violência sexual contra crianças de classe média subiu de zero para 22% nos registros oficiais de São Paulo (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Hospital das Clínicas - USP). O Hospital Pérola Byington (São Paulo) criou um serviço de atendimento a vítimas de violência sexual destinado a mulheres adultas: com o tempo, cada vez mais crianças passaram a ser atendidas. Já em 2008, 47% das pacientes tinham menos de 12 anos de idade, e essa proporção vem aumentando!!

-- É um quadro estarrecedor. Todos os dados provam que esse mal tenebroso cresce e se alastra assustadoramente no mundo, aumentou muito com a popularização da internet e faz vítimas em todos os setores, inclusive os religiosos: não só no catolicismo, é muito importante que se diga. Existem numerosos casos de religiosos pedófilos (dificilmente divulgados na mídia), por exemplo, nas igrejas evangélicas, como é o caso dos pastores Sílvio Roberto dos Santos Galiza (IURD), Jonatas Aurélio Velozo Lourenço, Manoel Wanterly da Anunciação Guimarães, Carlos Roberto Batista, Francisco Vicente Corrêa Filho e muitos, muitos outros. Apesar disso, alguns meios de comunicação no Brasil, especialmente a Rede Record de televisão, vêm colocando insistentemente no ar somente os casos envolvendo padres, como se o problema fosse exclusivo da Igreja Católica.

-- É verdade que o Vaticano vem tomando ações para afastar os culpados desde o ano de 2003 (embora ineficientes), enquanto o nosso governo, por exemplo, até hoje (2010), não enquadrou a pedofilia como crime. - O presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, Wilton Gregory, divulgou documento oficial declarando que a cúpula da Igreja americana vai instalar processos especiais para a expulsão dos padres culpados, e o Cardeal-Arcebispo de Washington defendeu a política de tolerância zero, com a expulsão sumária e a denúncia dos casos à Justiça comum e à polícia. - E a Igreja vem arcando com as consequências, de todas as maneiras possíveis. O acordo entre a Arquidiocese de Los Angeles e as vítimas de abusos sexuais envolveram o valor de 600 milhões de dólares! Federico Lombardi, Porta-voz da Santa Sé, declarou que “Esta é uma tentativa de fechar um capítulo doloroso e olhar para a frente”. O acordo impõe sacrifícios extremos à Arquidiocese de LA: ela terá que vender seu patrimônio imobiliário, até mesmo o edifício da Sede do Arcebispado, e recorrer à ajuda de seguradoras e congregações católicas.

-- Mas a reportagem sobre os meninos da escola para crianças surdas engrossou um caldo que já estava entornando. - As acusações de pedofilia contra padres chegaram a um ponto crítico em 2009: foi quando vieram à tona, na Irlanda, dossiês de um período de 60 anos (entre 1930 e 1990) relatando o abuso de 15 mil crianças, a maioria meninos, em mais de 250 instituições da Igreja no país. Seguiram-se, então, denúncias na Holanda, na Áustria e na Alemanha. E apesar de os casos de pedofilia no mundo inteiro não pararem de crescer em todos os setores da sociedade, o desastre assume uma escala gigantesca quando se trata da maior religião do mundo, com 1 bilhão de fiéis e 400 mil sacerdotes.

-- A lente de aumento colocada pela Imprensa e pela mídia sobre esses casos específicos é inevitável. Mas o próprio Vaticano assume o problema e declara que sim, existe a chance de a proporção de pedófilos entre padres ser até maior do que na sociedade: a principal razão para isso é o fato (já estudado) de que muitos portadores desse tipo de desvio procuram o celibato como uma forma de tentar se proteger e fugir da própria fraqueza. A maior culpa da Igreja nesse quesito é não ter sido rígida o bastante na seleção e formação dos seus sacerdotes. Por outro lado, também precisamos reconhecer que é muito difícil reconhecer um pedófilo em potencial através de entrevistas e/ou na convivência com colegas. Casos de professores pedófilos na Suíça provocaram estupefação geral na sociedade, pois eles não demonstravam quaisquer sinais que pudessem denuciá-los. Um pedófilo não é reconhecível antes de ceder aos impulsos que ele, na maioria dos casos, tenta ocultar com todas as suas forças.

-- Também é importante saber que a maioria dos abusos de padres aconteceu antes dos anos 80, quando a Igreja não os via como reflexos de doença mental e nem como crime, mas exclusivamente como um pecado - algo que equivale a tratar o agressor como vítima. Felizmente, as coisas têm mudado desde 1976. Foi quando começou, nos EUA, um programa para o tratamento de desordens psicossexuais dentro da Igreja. Era a primeira vez que transferiam a questão, do plano espiritual para o científico. Hoje, seminaristas precisam passar por avaliações psicológicas antes de serem admitidos, e, com isso, eventuais candidatos que escolhem o celibato como um meio torto para suprimir seus conflitos sexuais têm menor possibilidade de receber a batina. Graças a Deus...

-- A maior mudança, porém, veio a público dia último dia 12 de abril: o Vaticano instruiu abertamente os bispos do mundo todo a acionar a Justiça comum de seus países quando souberem de algum caso de pedofilia envolvendo os padres de sua diocese. Se funcionar, será uma revolução. Desde quando se entende por instituição, a Igreja evita trocar figurinhas com o Estado laico. Faz sentido, de certo ponto de vista. Nos seus 2 mil anos de existência, o catolicismo viu surgir e ruir impérios, sistemas de governo foram criados e destruidos. É natural que uma instituição com esse passado se resguarde em suas próprias leis.

-- O silêncio sobre crimes internos foi até ratificado no século 20. Se as provas contra um acusado fossem contundentes, ele receberia uma intimação e seria levado a um julgamento canônico - isto é, próprio da Igreja. Em 2001, o então cardeal Ratzinger confirmou que a Congregação para a Doutrina da Fé continuaria a ter competência exclusiva em relação aos abusos. E, até que as investigações terminassem, as acusações deveriam permanecer em segredo. Até então, levar à Justiça comum não era uma possibilidade. Agora, ao voltar atrás, Bento XVI deu um grande passo à frente. Resta saber se a instituição que ele comanda saberá lidar com a Justiça dos homens, depois de milênios vivendo no mundo particular da lei divina. Se ela aprenderá a purgar seus pecados assim, na terra. Como no Céu.



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