História do Cristianismo - 8


Sim, eu vou dar continuidade às postagens da série “Respostas”, mas vamos convir que a coleção de perguntas que deixei no ar ao final de ”A queda do homem” exigem um momento, e, principalmente, um estado de consciência muito específico para serem respondidas. E como não quero continuar deixando o blog tanto tempo sem atualização, e também prometi que daria continuidade às outras postagens em série que estão atrasadas, vamos à continuidade de “História do Cristianismo”, do ponto em que paramos, lá no dia 10 de junho de 2009 (vergonha...)... Avante, que, além de “Respostas”, ainda temos “Dhamapada” e “Evangelhos” para concluir... Quem mandou se meter a blogar espiritualidade e religião...


Apóstolo Paulo, num afresco policrômico do século IV
"Cabeçudo e careca" - Catacumbas de Roma


O Primeiro Concílio: Jerusalém

Em
algum momento, em meados do primeiro século dC, muito provavelmente no ano 49, Paulo de Tarso saiu de Antióquia (isso mesmo: é AntiÓquia e não ‘Antioquía’) e rumou para Jerusalém, ao sul, onde encontrou seguidores sobreviventes de Jesus de Nazaré, que havia sido crucificado cerca de 16 anos antes. Essa conferência apostólica ficou conhecida como Concílio de Jerusalém, e foi o primeiro concílio da Igreja, isto é, o primeiro ato político na história do Cristianismo. - Lembrando que a ‘política’ é necessária em qualquer instituição humana, e não precisa ser sinônimo de corrupção ou deturpação. Aproveitando o ensejo, aqui vai um pensamento para os que não se interessam por política: se você não se interessa por política, estará sujeito a viver eternamente governado por aqueles que se interessam.

Mas voltando ao Concílio de Jerusalém, ele representa também o ponto inicial e central a partir do qual podemos procurar reconstruir e compreender a natureza da doutrina de Jesus, bem como as origens da religião e da Igreja que ele trouxe à luz. E aqui tenho que interromper o raciocínio mais uma vez...

Está bem, todos nós sabemos que muita gente que não tem religião gosta de pensar, e até apregoar, que Jesus nunca fundou igreja nem religião alguma. Mas se quisermos mesmo conhecer a Verdade (sempre ela...), temos que nos render aos fatos:

Fato 1: a principal fonte que temos a respeito de Jesus Cristo, indiscutivelmente, está no conjunto dos Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João). Existe até uma teoria, cada vez mais respeitada entre os exegetas, de que o Evangelho de Mateus, mais do que um relato posterior (produzido décadas mais tarde) poderia ter sido uma espécie de "reportagem" da vida de Jesus de Nazaré, o testemunho ocular de partes do que ele fazia e dizia produzido in loco, enquanto acontecia. Já O Evangelho Apócrifo de Tomé (que havemos de abordar por aqui) é bastante interessante e pode ser levado a sério enquanto documento autêntico, mas ele não retrata a vida de Jesus enquanto personagem histórico, atendo-se às questões espirituais, a partir de uma abordagem profundamente mística. Uma obra espiritual escrita para poucos, assim como, por exemplo, o Livro da Sabedoria, Pistis Sofia e A Nuvem do Não Saber, escrito séculos mais tarde. Quanto aos demais textos apócrifos, eles foram escritos muito tempo após o acontecimento dos eventos, trazendo fortes influências filosóficas e doutrinárias de diversas seitas periféricas ao núcleo dos primeiros cristãos, o que inviabiliza a autenticidade das informações ali contidas, ao menos enquanto documental histórico confiável. Portanto, para efeito de pesquisa histórica, repito que o nosso conhecimento básico a respeito da doutrina, vida e obra de Jesus de Nazaré deriva principalmente dos Evangelhos canônicos. Este é um fato inegável, com o qual tanto religiosos, cristãos ou não, quanto ateus ou agnósticos, concordam.

E assim, partindo dos Evangelhos como a principal fonte para conhecermos o personagem histórico Jesus de Nazaré, não podemos ignorar o que os próprios Evangelhos dizem; assim como não podemos considerar apenas os trechos e passagens que nos agradam e com os quais “concordamos”, e descartar aqueles que não entendemos e com os quais "não concordamos". E então, o que Jesus diz, textualmente, nos Evangelhos?

“(...)Jesus perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizeis vós que Eu Sou?’ Simão respondeu: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo!’. Jesus, então, lhe disse: ‘Bem aventurado és, Simão filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai, que está nos Céus. Pois eu te declaro: tu és Pedra (corruptela 'Pedro'), e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja: os portais do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado no Céus.’”

Bem, então vemos claramente que as fontes mais confiáveis que temos a respeito de Jesus Cristo nos declaram, explicitamente, textualmente, que, sim, Jesus fundou uma Igreja (no grego Eclesia, que sifnifica o grupo daqueles 'chamados de fora', designando o povo que Deus convoca e reúne de todos os confins da terra) e deixou um caminho bem específico a ser seguido.

Fato 2: Dizer que Jesus não fundou “religião” alguma é uma afirmação um tanto quanto nebulosa, isto é, controversa, já que o termo “religião” está sujeito a diversas interpretações. Religião no sentido original do religare, a Religação com o Divino, isso ele pregou sim, inquestionavelmente. E também falou em arrependimento, batismo, mudança de vida, jejum, amor a Deus e ao próximo, Comunhão, etc... Todos esses elementos levam a um modo de vida bastante particular, que poderíamos chamar de religioso/religião/cristianismo. Mas, ainda que optássemos por chamar a este seguimento por outro nome qualquer, isso não mudaria o fato de que Jesus deixou um caminho específico a ser seguido. Ainda que a jornada principal e mais importante seja sempre mais a interior do que a exterior, o interior inexoravelmente se reflete no exterior, e esse ser humano integral, em perfeita e total Comunhão com Deus, com o seu semelhante e com a vida como um todo é que representaria a perfeita expressão da "Religião de Jesus".




Mas voltando à História, temos dois relatos quase contemporâneos do Concílio de Jerusalém: um, datando da década seguinte, foi ditado pelo próprio Paulo em sua carta às congregações da Galácia, na Ásia Menor. O segundo é posterior, e provém de uma série de fontes ou relatos de testemunhas oculares, reunidos por Lucas nos Atos dos Apóstolos. O de Lucas é uma descrição branda e quase oficial de uma disputa interna da Igreja em sua infância, e termina com a sua resolução satisfatória. Examinemos essa segunda versão antes: ela conta que “acalorado debate e controvérsia” tinham surgido em Antióquia porque “certas pessoas” em Jerusalém e na Judéia, em direta contradição à doutrina de Paulo, vinham dizendo aos adeptos do Cristianismo que não poderiam ser salvos a menos que se submetessem ao ritual judaico da circuncisão. Por consequencia, Paulo, seu companheiro Barnabé e outros da missão para os gentios em Antióquia viajaram para Jerusalém para consultar os Apóstolos e os anciãos.

Ali, tiveram uma recepção mista. Receberam as boas-vindas da “Igreja, dos Apóstolos e anciãos”; todavia, “algumas pessoas do partido dos fariseus, que tinham abraçado a fé”, insistiam que Paulo estava errado e que todos os convertidos deveriam não apenas ser circuncidados como também aprender a seguir a lei judaica de Moisés. Houve “uma longa discussão”, seguida de discursos de Pedro, que apoiava Paulo, do próprio Paulo e de Barnabé, e uma síntese de Tiago, parente próximo de Jesus (era irmão de Jesus? Falarei sobre isso no próximo post desta série). Tiago propôs um meio-termo que foi aceito “com a concordância de toda a Igreja”. Assim sendo, Paulo e seus companheiros seriam enviados de volta para Antióquia, acompanhados por uma delegação de Jerusalém, que levava uma carta estabelecendo as regras da conciliação: os convertidos não precisariam submeter-se à circuncisão, mas teriam de observar certos preceitos da lei judaica, em termos de regime alimentar e conduta sexual, social e moral. O relato de Lucas, nos Atos, assevera que se chegou a essa posição intermediária “por unanimidade”, e que, quando a decisão foi comunicada à congregação de Antióquia, “todos se rejubilaram”. Os delegados puderam, portanto, retornar a Jerusalém tendo solucionado o problema, e Paulo prosseguiu com a sua colossal missão.

Essa, pois, é a descrição do primeiro Concílio da Igreja, tal como narrada por um documento consensual, que se poderia considerar uma versão conciliatória e ecumênica, designada para apresentar a nova religião como um corpo místico dotado de vida própria, coordenada e unificada, encaminhando-se para conclusões inevitáveis e predestinadas. Assim, todos em Antióquia teriam se “rejubilado frente ao ânimo por ele proporcionado”.

Mas a versão de Paulo apresenta um quadro diferente. E seu relato não é “apenas” o de uma testemunha ocular, mas do participante principal e central do concílio, talvez o que melhor compreendia a magnitude das questões ali colocadas em jogo. Paulo não está interessado em aparar as arestas ásperas da controvérsia. Ele está apresentando um caso a homens e mulheres cujas vidas espirituais são dominadas pelas questões com que se defrontam os Apóstolos e anciãos naquela sala em Jerusalém. Seu objetivo não é pacificador nem ecumênico, e muito menos diplomático. É um homem determinado a dizer a verdade e imprimi-la como fogo nas mentes de seus ouvintes e leitores.

Nos apócrifos Atos de Paulo, escritos talvez cem anos após a sua morte, a tradição de sua aparência física é preservada com nitidez: “...um homem pequeno com uma grande cabeça careca. Suas pernas eram curvas, mas seu porte era nobre. Suas sobrancelhas eram bem unidas ele tinha um grande nariz. Um homem que inspirava amizade.” O próprio Paulo diz que sua aparência não impressionava. Admite também que não era bom orador; tampouco, externamente, era um líder carismático. Contudo, as cartas autênticas que sobreviveram irradiam seu carisma interior: possuem a marca indelével de uma personalidade maciça, ávida, aventureira, incansável, um homem que luta heroicamente pela Verdade e, então, apresenta-a com incontrolável entusiasmo, correndo à frente de sua própria capacidade de articulação. Não um homem com quem seria fácil trabalhar, ou a quem refutar em uma discussão, fazer calar com acordos ou propor compromissos com facilidade: um homem perigoso, rígido, inesquecível. Inspirando amizade, de fato, mas criador de grandes dificuldades e se negando de resolvê-las por meio do sacrifício de qualquer pequena parte da Verdade.

Ademais, Paulo tinha certeza de estar com a Verdade. Em sua carta (epístola) aos gálatas, algumas frases antes da sua versão do Concílio de Jerusalém, ele repudia, como tal, toda e qualquer ideia de um sistema conciliar que orientasse as questões da Igreja, todo e qualquer apelo ao julgamento dos mortais ali reunidos. “Tenho que deixar claro para vocês, meus amigos”, escreve ele, “que o Evangelho que me ouviram pregar não é nenhuma invenção humana. Não o recebi de homem algum; nenhum homem ensinou-o para mim; recebi-o por meio da revelação de Jesus Cristo”. Assim sendo, ao descrever o Concílio e suas consequências, Paulo escreve exatamente como se sente, de forma crua, concreta e inequívoca. Seu concílio é uma conferência humana de homens fracos e vulneráveis, dentre os quais ele sabia possuir um mandato divino. Os elementos judaicos arruinavam sua missão em Antióquia, que ele conduzia segundo instruções explícitas de Deus, que, segundo suas palavras: “...Me havia destinado desde o nascimento e chamado por meio de Sua Graça, escolheu revelar Seu Filho para mim e através de mim, a fim de que eu pudesse proclamá-Lo entre os gentios”. Para convencê-los, pois, foi ele a Jerusalém “porque fora revelado por Deus que eu deveria fazê-lo”. Viu os líderes dos cristãos de Jerusalém, “homens renomados”, como ele os chama, “em uma entrevista particular”. Esses homens, - Tiago, Pedro e João, “esses bem considerados pilares de nossa sociedade”, - sentiram-se inclinados a aceitar o Evangelho tal como Paulo o ensinava e a reconhecê-lo como Apóstolo de Cristo. Dividiram então o território missionário, “concordando que deveríamos ir para os gentios enquanto eles iam para os judeus”. Tudo que pediram foi que Paulo se certificasse de que suas congregações gentílicas proporcionassem apoio à igreja de Jerusalém, “exatamente o que me encarreguei de fazer”.

Tendo chegado a esse acordo, Paulo e os pilares chegaram a uma conciliação. Não há referência quanto a qualquer concessão feita por Paulo no que concerne à doutrina. “Nem por um momento cedi aos seus ditames”, deixou ele bem claro. Encontrava-se “determinado na Verdade plena do Evangelho”. Infelizmente, prossegue Paulo, sua vitória em Jerusalém não encerrou a questão. Os pilares que se haviam comprometido a permanecer firmes contra os falsos cristãos judeus não o fizeram. Quando Pedro, posteriormente, veio a Antióquia, estava pronto para tratar os cristãos gentios como iguais em termos religiosos e raciais, comendo suas refeições com eles. Quando os emissários de Tiago chegaram à cidade, porém, ele “retrocedeu e começou a manter-se à parte, por temer os partidários da circuncisão”. Pedro encontrava-se nesse momento “claramente em erro”, o que Paulo lhe disse “em sua cara”.

Infelizmente, outros mostraram “a mesma falta de princípios”, até Barnabé, que “agiu com a mesma falsidade dos demais”. Paulo escreve num contexto em que a batalha, longe de estar ganha, continua e se intensifica.


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Fonte e bibliografia
Esta postagem contém trechos da obra:
JOHNSON, Paul. História do Cristianismo, Rio de Janeiro: Imago, 2001, pp 11-14.



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