Primeira Resposta




Num dos períodos difíceis da minha vida, quando passei longos dias me sentindo inútil, achando que a existência não tinha sentido nem propósito, não importando o trabalho que se faz ou as coisas em que se acredita, nem os princípios que se tem ou o bem ou mal que se faz nesta vida... Algo importante aconteceu.

Estava eu em casa, - eu, que trabalho em casa, - deprimido e indisposto. Esse estado durava já algumas semanas, culminando num estado de apatia e irritabilidade inalterável. Mas naquele dia, depois desse período de treva para mim longo e tenebroso, simplesmente levantei-me, de repente, sem mais, sentindo um bem-estar inexplicável, como se uma lufada de esperança tivesse passado por mim, ou melhor seria dizer: como se toda a letargia tivesse sido arrancada por uma grande pinça invisível, deixando somente o que restava de positivo, crente e otimista em mim. Como que num transe hipnótico, fui até o lado de fora e parei no quintal, alegremente aturdido. Olhei para o alto e vi o céu, que ainda estava lá, ainda muito azul.

Já passava do meio da tarde, o sol perdia seu ímpeto, e algumas nuvens claras passavam preguiçosamente por sobre minha cabeça. Fechei os olhos e aproveitei aquele bem-estar, aquele sentimento de harmonia que parecia encobrir ou sufocar o desespero dos últimos dias, ou sentia um completar de tudo que era ainda inacabado em mim.

Então, um ruído seco despertou minha atenção, fazendo abrir meus olhos: minha visão foi atraída por uma mancha que se movimentava acima e à esquerda do meu raio de visão. Olhei e vi, encarapitado no topo do telhado da casa vizinha, um homem engraçado a se encurvar, buscando equilíbrio. Pareceu-me que consertava alguma telha, mas, assim que o vi, ele imediatamente se virou para mim e me sorriu. Acenei levemente com a cabeça e fixei o olhar: parecia um homem simples, de pele escura e cabelos ondulados já bem fora de corte, emaranhados e bastante volumosos no alto da cabeça. Vestia calça jeans gasta e uma curiosa camisa vermelha, de mangas longas e fechada até o último botão, mesmo no calor do verão. Enquanto o olhava, ele veio descendo, agora com grande equilíbrio, pelo telhado, em minha direção, até chegar ao beiral, onde se sentou e continuou me encarando.

A sensação de bem estar que eu experimentava se ampliava, até exceder o raciocínio, a razão e a lógica. Foi um momento estranho. Era como se o homem esquisito tivesse algo a ver ou fizesse parte daquela sensação agradabilíssima. Sim, muito estranho. Por um momento pensei que ele bem poderia ser um assaltante, invadindo pelos telhados. Ou então me ofereceria seus serviços de pedreiro. Enquanto assim divagava, ele fez um gesto com a mão que me distraiu, espantando as conjunturas como se fossem moscas inconvenientes. Fixei o olhar no rosto do homem: vi a tez morena, um bigode farto e desalinhado a lhe encobrir os lábios, e os olhos de um castanho esverdeado muito claro, profundos, contrastando com a moldura escura. Sorri talvez como quem sorri ao ver um gato manhoso rolando pelo chão, porque vi pureza e grande simplicidade naquele homem. Mas meu sorriso se desvaneceu, quase imediatamente, pois vi também seriedade, e uma profundidade que inspirava mais espanto do que riso. Então ele, sentado, uma perna pendurada e outra apoiada no beiral, me encarando profundo, simplesmente perguntou:


"Quem és?"


Pode parecer ainda mais estranho agora, e para quem lê deve soar surrealista, mas eu somente me sentei no chão, pernas cruzadas, confortavelmente, e apoiando minhas costas, compreendi que a pergunta transcendia todo entendimento racional. Mergulhei dentro de mim, mas sem fechar os olhos, pois encarar aquele homem estranho era como estar de olhos fechados (em momentos suas feições se desvaneciam à vista, como quando olhamos muito tempo para o sol e depois tentamos focar em algum outro objeto).

Quem sou eu?

Todas as formas se foram; eu vi as cores das coisas se fundirem num turbilhão caleidoscópico que por fim sumiu num flash absoluto, e, súbito, só havia branco, refulgente e total. Quem sou eu? Não há visão, não há meu corpo, não existe contraste, não luz e sombra. Quem sou eu? Terra, sol, verde, terra, lodo, vida... Vegetação, movimento, lança, caça, luta, dor, dança, riso, cansaço, morte. Quem sou eu?

Eu sou desde o princípio dos tempos, eu venho dO que havia antes do Princípio. Antes que as coisas existissem, eu sou. Existo na Mente do Universo, e existo desde antes da criação do próprio Universo. Minha origem está na Origem das origens; eu sou manifestação do Eu Sou.

Estrelas são luz (tanto a luz quanto a matéria se comportam ora como ondas ora como partículas blablabla...), e meu corpo é feito do pó das estrelas. Eu sou luz e meu corpo é manifestação de luz, no nível mais raso, mas ainda provém da Luz. O mais é Mistério.


O primeiro passo no caminho para a Verdade é a aceitação do Mistério


Aceitação incondicional e amorosa. Desistir de querer saber. Sair do rota e entrar no Caminho; deixar de buscar. Eu sei porquê. Eu sei muitas coisas. Eu sou o Mistério. E o Mistério, assim como eu, apenas é.




Há um homem grande, um homem muito forte, maior que o maior dos homens, cheio de majestade e imponência. Longos cabelos e barba clara como neve lhe recaem sobre os ombros. Olhos profundos, que viram o que ninguém viu, fazem com que as outras frontes se curvem diante dele. Este homem sobe e passa grandes períodos na Montanha, e quando ressurge, do alto, um halo incandescente permeia suas formas, sua túnica colorida, seus cabelos esvoaçantes. Ele abre seus braços e guia rumo à liberdade. Multidões o procuram e seguem. Seu espírito entendeu o que ninguém entendeu. Foi quando ainda era menor, pequeno e sujo, afogado na ilusão de uma caricatura de homem, medroso e vacilante, que ele viu o que ninguém viu. Cheio de medo e espanto, ele perguntou: “Quem és, Senhor? Quem direi aos homens que és?” – E uma Voz diferente de todas as vozes, uma Voz que não é uma voz, respondeu:


“Eu sou o EU SOU!”


Moisés não conseguiu transmitir o que entendeu, ao menos não completamente, mas ele lançou a semente. Foi uma tentativa, foi o começo de uma longa história na história dos homens, perdidos e fracos por opção.


Tudo isso eu vi, cego ou de olhos fechados, agora não sei (um detalhe assim tão pequeno não me importa a mínima), diante daquele homem estranho. Abri meus olhos para responder (então estavam fechados?), mas ele já se ia, sumindo por detrás do telhado, equilibrando-se ao avançar pela guia das telhas, como se fizesse questão de se mostrar frágil, limitado, pequeno... e mesmo engraçado. Já estava fora da vista quando ouvi sua voz meio rouca: “A resposta é só para você!”

E agora, neste momento, eu contrario o que ele disse, compartilhando a resposta que era só minha com todo aquele que ler este escrito. Não é errado. A resposta é minha, e dela posso fazer o que quiser. - Incluindo compartilhar. E compartilhar é da minha natureza.



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários