Reencarnação: uma análise social, ética, moral e espiritual

Nesta abordagem sobre a reencarnação, faço questão de publicar a adaptação de um artigo analítico bastante aprofundado que li há alguns anos, num site cético (infelizmente não me lembro qual), escrito pelo Profº José Moreira da Silva. Eu copiei, salvei e arquivei o texto, porque o achei coeso, racional e bem sintetizado, sem deixar de ser sensato. Aborda principalmente os aspectos morais, éticos e lógicos envolvidos num sistema filosófico/religioso que adotasse a teoria da reencarnação. Em homenagem ao meu caro amigo e leitor, Mizi, vou publicar esse material antes de contar a história do reencarnacionista que escreveu uma ótima contestação à teoria da reencarnação, que mencionei no final da postagem anterior. A postagem a seguir é uma adaptação do artigo do Profº José Moreira da Silva, com excertos meus.


Aprendizado, evolução e consciência. O Eu e a memória



Eu tenho um cão. Não foi fácil, mas ele aprendeu a fazer as suas necessidades fisiológicas no lugar certo. Sabe por quê? Porque eu o pego no ato e o repreendo, falando alto e firmemente: “Não pode!”, e então o levo para o local adequado. Esse método funciona porque o cão percebe o que está fazendo e associa a desaprovação com o ato praticado. Com o tempo e a repetição, ele aprende a não usar outro local para suas necessidades, a não ser o que eu indiquei. Mas se você vir o cachorro fazendo suas necessidades em um local proibido, esperar uma hora e só depois repreendê-lo, isso não vai funcionar. Ele não vai aprender nada desse jeito. Por quê? Porque ele não sabe a razão de estar sendo repreendido! Sendo assim, puni-lo seria pura perda de tempo e até crueldade. O mesmo acontece com uma criança. Se uma criança não souber porque está sendo repreendida, se ela não se lembra o que fez de errado, a "bronca" será, obviamente, cruel e injusta. Portanto, também às crianças convém admoestar em tempo hábil.

Reencarnação: segundo essa teoria, analogamente, eu estaria na mesma condição do cão punido uma hora depois da travessura. Estou pagando crimes que eu nem sei que cometi. E se eu não me lembro de nada, a punição será sempre cruel e injusta para mim. E ainda que não se use o termo 'punição' (sei que os espíritas não o apreciam), a ideia é exatamenete a mesma: responder hoje por meus atos de uma outra vida.

Outro exemplo prático: suponhamos que você esteja aprendendo a dirigir. Você não entende nada da condução de veículos automotores; então procura um professor: na primeira aula ele começa a lhe ensinar tudo o que você tem que fazer. Passam uma tarde inteira juntos, praticando. Mas aí você vai dormir e, no dia seguinte, você acorda tendo esquecido tudo que o professor ensinou! - Ora, esse professor teria que começar tudo de novo, do zero...

Claro, se você esqueceu tudo, o aprendizado volta à estaca zero, simplesmente porque a aprendizagem é um processo cumulativo. É mais do que óbvio que você nunca vai evoluir dessa forma. Você nunca poderia aprender nada, se continuasse perdendo a sua memória, de uma existência para outra. Aprendizado é como a adição: todo dia você vai acrescentando conhecimento e experiência, até chegar no ponto desejado. Esse total é o que você aprendeu até agora, o seu grau de evolução, seja intelectual ou moral. Mas sem memória ativa não pode haver aprendizado.

O detalhe que faz toda a diferença é que a memória é bem mais importante do que costumamos imaginar. A memória representa o componente mais básico das nossas consciências. Em última análise, poderíamos dizer que a memória é aquilo que somos, o que você é, o seu "Eu" real, o seu "Self". Se você retira a memória de um indivíduo consciente e pensante, esse indivíduo simplesmente deixa de existir, ele se torna como um vegetal.

Agora imaginemos que o "indivíduo X" viveu criminosamente, por algum tempo. Ele pode perfeitamente, em algum momento da sua vida, vivenciar uma retomada de consciência e mudar o seu proceder a partir daquele ponto. Consequentemente, se ele resolve mudar de atitude, toda a sua vida muda para melhor. - O que possibilitou essa mudança? Uma decisão pessoal. - O Sr. X vinha agindo de uma determinada maneira, mas depois de algum tempo se arrependeu e reviu suas atitudes. Sim, nós podemos nos arrepender de um mal feito, por vários motivos: ao vermos um semelhante que sofre por nossa causa, por entendermos que somos também responsáveis pelo bem da coletividade, por compaixão, por medo de punição ou simplesmente por entendermos que fazer o bem é, em algum nível, mais gratificante do que praticar o mal.

Certo. Mas esse tipo de mudança para melhor também só é possível de ocorrer quando o indivíduo faz uso da memória. - Se eu não me lembro de algo ruim que fiz, como poderia optar pela mudança? Somente se eu me lembro do que fui, de tudo que fiz de ruim e das consequências dos meus atos é que posso me arrepender. É assim que algumas pessoas resolvem procurar por alguém que prejudicaram, para se desculpar ou tentar compensar, de algum modo, o mal que causaram, e se comprometer a nunca mais repetir o mesmo erro. Eis a verdadeira evolução espiritual.

Dependendo da sociedade em que nascer, você será uma pessoa totalmente diferente. Se você tivesse nascido no Japão, hoje seria outra pessoa, não só com costumes diferentes, mas também com valores de moral diferentes dos de outros povos. Se tivesse nascido nos EUA, na África, na Europa ou no Alaska, idem. Tendências naturais fora do seu controle equivalem a pelo menos 90% do que você é, e este é um fato científico fartamente comprovado em estudos diversos. Mas a sua personalidade não poderia se desenvolver dentro de nenhum sistema cultural sem o uso da sua memória. Imagine se num dia você ensina ao seu filho sobre quem ele é, sobre a sua família, suas raízes e sua cultura, e também sobre o certo e o errado. Além disso, nesse mesmo dia ele aprende, por experiência própria, que colocar a mão sobre a chama acesa no fogão é algo muito perigoso. Bem, ele aprendeu coisas importantes nesse dia. - Evoluiu enquanto ser consciente. - Mas agora imagine que, no dia seguinte, ele simplesmente acorda sem se lembrar de nada! O que aconteceria? Tal criança não seria capaz de nenhum progresso, não seria possível acontecer evolução alguma na vida de uma pessoa assim, e ela viveria até o fim da vida repetindo sempre e sempre as mesmas experiências, sem aprender nada, nunca.

Nós somos aquilo que lembramos que somos, e isso não é teoria, é um fato científico. Alguns talvez se lembrem do filme "Como se Fosse a Primeira Vez", protagonizado por Drew Barrymore e Adam Sandler. Num determinado momento da história, o mocinho vai procurar a mocinha (que tem um transtorno de memória crônico adquirido num acidente) numa clínica especializada, e lá encontra um paciente cuja memória recente dura apenas alguns segundos. Os dois se cumprimentam e se apresentam, mas, após alguns segundos de conversa, o homem volta a se apresentar. Os dois novamente se apertam as mãos e dizem seus nomes, para logo em seguida... O homem se esquece e volta a se apresentar! A cena é hilária, mas esse tipo de transtorno existe e na vida real não tem nada de engraçado. Uma pessoa com uma doença desse tipo é como um zumbi, um morto vivo. - Exatamente como seria a alma humana, migrando de uma vida para outra, indefinidamente, sem nunca se lembrar o que foi ou do que fez em sua existência anterior: marcando passo na mesma situação, indefinidamente, incapaz de usar a experiência adquirida para melhorar. É assim que, inexorável, inevitável e obviamente, a teoria da reencarnação, enquanto processo evolutivo, cai por terra.


Karma ou carma

Muitos reencarnacionistas acreditam no karma ou carma. Outros tantos dizem que não, mas na realidade o conceito de ação e reação cármica (que é bem diferente da lei de ação e reação da física), isto é, a crença de que vamos todos receber a paga pelo que fizemos, nesta vida ou na outra, está sempre presente. Muitos reencarnacionistas dizem que não é assim tão simples, que a questão toda faz parte de um complicado processo evolutivo. - Mas esse processo sempre envolve um conceito mais ou menos idêntico ao do carma. - Um conceito impossível de aceitar, se fizermos uso do nosso discernimento, pura e simplesmente, livre de apegos à qualquer doutrina humana. Vejamos:

O carma seria como uma força invisível e irresistível que está sempre como a registrar tudo que você faz, a cada momento, para depois manipular circunstâncias para que você sofra ou alcance bênçãos, dependendo do mal ou do bem que fez, nesta ou noutra vida. Um sistema incompatível com o livre arbítrio e ainda mais incompatível com os conceitos cristãos do perdão incondicional e da gratuidade. Deus perdoa, desde que você pague. Isso é perdão? Jesus falou em "perdoai as nossas dívidas". O que é perdoar uma dívida? Esquecer essa dívida, deixar para lá, como se ela nunca tivesse existido, ou obrigar o devedor a pagar o que deve, de um jeito ou de outro? Se a sua dívida tem que ser paga, de qualquer maneira, nesta vida ou na outra, faz sentido pedir "perdão para nossas dividas"?

Não.

Isso significaria que o perdão de Deus, na verdade, não existe, e que nenhuma dívida poderia ser perdoada: todas elas precisariam ser pagas, inexoravelmente, sem escapatória, sendo esta uma lei espiritual/universal imutável.

E se esta é uma lei inapelável, então as pessoas não são livres. Esta lei estaria, inclusive, muitas vezes usando uma pessoa para punir outra. Um exemplo bem simplificado, para não complicar o raciocínio: se alguém me dá uma surra porque eu dei uma surra numa outra pessoa, nesta ou numa outra vida, onde está o livre arbítrio da pessoa que surgiu para me dar uma surra, como reação pelo que eu fiz? Essa pessoa está me dando uma surra hoje como compensação pelo que eu fiz ontem, mas... Agora ela vai ter que receber a compensação também, por ter me surrado!?! Nesse exemplo hipotético, precisaria depois surgir um terceiro, para dar uma surra no segundo, e depois um quarto para surrar o terceiro e assim sucessivamente, sem fim... Ou então, ele me surra hoje, e amanhã eu volto a surrá-lo, depois ele me surra novamente, sendo um ato a reação do outro ato, ad infinitum... Claro que aqui estamos falando em surras como uma metáfora para todas a más ações que praticamos na vida.

Uma mulher foi vítima de um assaltante: ele a baleou, o tiro atingiu sua coluna vertebral e a condenou a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. Se isso foi a consequência de algo que ela fez, então o assaltante está apenas cumprindo a Vontade de Deus, manifestada na lei de ação e reação espiritual, fazendo a mulher pagar sua dívida cármica. Mas não estaria ele próprio iniciando uma ação, usando seu livre arbítrio? E então, estaria ele também gerando carma ruim para si mesmo. Se for esse o caso, se ele está iniciando uma ação fazendo uso do seu livre arbítrio, então não podemos explicar o sofrimento com base em vidas passadas, porque para alguém iniciar uma ação é preciso que tenha o direito de fazer o que quiser, independente do que aconteceu numa outra vida. É um poço sem fundo, um círculo vicioso sem solução, sem razão de ser e completamente insano.

Se um homem resolve estuprar a primeira mulher que passar no beco à meia noite, usando seu livre arbítrio, essa mulher não tinha nada a ver com isso. Ele usou o seu livre arbítrio para fazer o mal a uma pessoa inocente. Dizer que a moça estuprada tinha algo para pagar ou aprender também não explica nada, porque sempre teria que existir uma equivalência proporcional entre os que decidem prejudicar alguém e os que devem ser prejudicados para pagar suas dívidas. Em outras palavras, as circunstâncias teriam que ser manipuladas o tempo todo, para levar os que estão a fim de punir alguém ao encontro dos que precisam ser punidos!

Esta noção não pode ser compatível, de modo algum, com o conceito de livre arbítrio. O tipo de controle que o carma teria que exercer sobre todas as pessoas e coisas seria algo injusto para todos. É muito mais coerente afirmar que as pessoas fazem o que querem e sofrem as consequências por isso nesta vida, de acordo com as circunstâncias específicas de cada caso, do que crer na atuação de uma força invisível que a tudo controla, numa sucessão de vidas sem fim. O estuprador terá um peso na consciência que vai carregar para o resto da vida. Suas noites de sono não serão as mesmas. Mas ele também pode ser um homem muito frio, que não se preocupa com dramas de consciência: ainda assim, viverá sob o risco de ser preso a qualquer momento, se a mulher voltar a vê-lo e chamar a polícia. Há também o risco de o marido ou algum parente da mulher decidir fazer justiça por conta própria... Enfim, sua má ação vai gerar N consequências na vida deste homem. Esta é a lei de ação e reação que a simples observação do mundo natural demonstra ser real. E assim é muito mais simples, prático e justo para todos.

O livre arbítrio exige acaso. Somente pode existir liberdade num sistema imprevisível. Nosso direito de decidir o que é certo e errado precisa da liberdade.


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Postagem adaptada de artigo do autor José Moreira da Silva, filósofo pela Universidade de Nova Iorque, professor e intérprete, dedicado ao estudo da natureza humana através da psicologia, filosofia e religião.



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