A reencarnação explica as diferenças e o sofrimento no mundo?

Continuação de Reencarnação: uma análise social, ética, moral e espiritual. Texto de autoria própria, baseado num artigo do Profº José Moreira da Silva.




"Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se? Sofrendo a prova de uma nova existência.”
(Livro dos Espíritos-Pergunta 166)


"Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação.”
(Livro dos Espíritos-Pergunta 132)


Se aceitarmos que tudo de ruim que acontece conosco é a reação por nossas falhas passadas, aí é preciso aguentar tudo calado. Aceitar e encarar as adversidades como instrumentos para a nossa "evolução", o nosso crescimento espiritual. Você deve se conformar, entender que é (ou foi) uma pessoa ruim e merece a dor. Este é, sabidamente, um dos fatores pelos quais as sociedades que adotam a teoria da reencarnação estão entre as mais atrasadas do mundo, econômica e socialmente falando. A Índia, mãe da ideia, é o maior exemplo: milhões de pessoas vivem resignadas na pobreza porque acreditam que merecem viver aquilo, que estão pagando por erros cometidos em vidas passadas e por isso nasceram como membros de castas inferiores, uma condição que terão que suportar sem reclamar por toda a vida. Conveniente para alguns, cruel para muitos.

Mas isso não surpreende: o conceito da reencarnação ensina, explicitamente, que em nosso plano convivem seres superiores, evoluídos, e outros espiritualmente inferiores e subdesenvolvidos. Segundo Kardec, por exemplo, negros e índios, entre outros, seriam encarnações de espíritos inferiores. Senão, vejamos o que o próprio tem a dizer sobre o assunto:

"Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, (...) perguntamos: (...) Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes de um menino hotentote recém-nascido e o educardes nos nossos melhores liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um Newton?"
(Allan Kardec, Livro dos Espíritos, Federação Espírita Brasileira, 76a. edição, 1995, Cap. V, q.222, pp.147-148)

"O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os espíritos recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados"...
(Allan Kardec, A Gênese, Ed . Lake, São Paulo, 1a edição, comemorativa do 100o aniversário dessa obra, p. 187)

"Um chinês, por exemplo, que progredisse suficientemente e não encontrasse em sua raça um meio correspondente ao grau que atingiu, encarnará entre um povo mais adiantado"
(Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Edição da Federação Espírita Brasileira, Brasília, 32a. edição, sem data, pp. 206-207. A edição original de Qu"est ce que le Spiritisme é de 1859)


Bom, Kardec era francês, europeu bem nascido, por isso muito superior a índios, negros, chineses e hotentotes... O curioso é que os séculos passam e a população negra e chinesa continua aumentando, e muito... Se estamos num processo de evolução, que segundo o próprio "codificador do espiritismo" é irreversível, o número de índios, negros e chineses deveria estar diminuindo. Aliás, acho que esqueceram de avisar ao grande mestre que alguns dos maiores gênios da História, entre poetas, cientistas, pensadores e políticos tinham (e tem) origem negra, ameríndia e chinesa.

Já Chico Xavier, expoente máximo do espiritismo no Brasil, ensinava que a pobreza é uma ótima oportunidade para uma maior evolução espiritual. Dizia que alguém que vive na pobreza nesta vida poderia numa próxima voltar, além de abastado, preparado para dividir a riqueza com os mais necessitados. E ele realmente parece ter feito questão de viver na pobreza durante toda a sua vida, apesar das inúmeras oportunidades que teve para enriquecer. - Isso cativa muita gente, e convence os mais impressionáveis de que, se ele viveu o que pregou, logo, o que ele pregou deve estar certo. - Simplório? Sem dúvida. Porém... será mesmo que quem nasce na miséria deve se conformar, esperando que talvez numa próxima vida possa voltar em outra condição, se praticar virtudes agora?

Bem, é exatamente nisso que acreditam também os hindus. - O que é ser bom, neste caso? Aguentar tudo calado, aceitar passivamente as injustiças e a própria condição social, seriam sinônimos de bondade?

A História mostra que não. A Europa só evoluiu, em termos tecnológicos, culturais e sociais, levando consigo o resto do mundo, quando pessoas em condições sociais inferiores se revoltaram e foram à luta. Se tivessem um governo teocrático baseado na crença da reencarnação, como é o caso, além da Índia, de diversos países subdesenvolvidos do continente asiático, isso nunca teria ocorrido. Provavelmente iriam aguentar as vicissitutes calados, esperando pela próxima vida. É mais do que evidente, histórica e sociológicamente falando, que a crença na reencarnação fatalmente leva ao conformismo. Contraditoriamente, os reencarnacionistas falam em evolução, mas a História nos mostra que, se o ser humano aceitasse o sofrimento como consequência de um processo reencarnatório, o mundo não teria evoluído de fato.


"A reencarnação explica"... Será?

Este é considerado pelos reencarnacionistas como o grande ponto forte da doutrina da reencarnação: o fato de ela “explicar” as diferenças e injustiças do mundo. E isso é tudo que uma mente questionadora procura: explicações. Mas me responda agora: qual deve ser o objetivo de um verdadeiro buscador espiritual? Explicações reconfortantes ou a Verdade, mesmo que num primeiro momento ela não pareça tão bonintinha e confortável?

O ser humano primitivo, quando queria algo, simplesmente tomava. Depois passou a viver em sociedade, e a própria natureza criou um sistema para garantir a sobrevivência no planeta. O que aconteceu foi o seguinte: milhões de espécies animais morreram porque não tinham um sistema que funcionasse. Quando surgiu um sistema que funcionou, este permaneceu. Simples como a natureza costuma ser. Esse sistema foi desenvolvido pelos animais sociais (que vivem em grupo) e é chamado de Sistema Hierárquico. Ou seja, todo grupo de animais tem um chefe. Isso funciona, porque sem um chefe (o mais poderoso ou persuasivo da turma), os animais lutam o tempo todo entre si. O chefe apareceu para manter a paz e garantir a partilha dos recursos. Foram encontradas evidências de que os seres humanos, já no período pré-histórico, ajudavam aos portadores de deficiências físicas, incapazes de caçar, a se adaptar em sociedade, a executar as tarefas essenciais do dia-a-dia. Mas antes da existência das estruturas sociais e do líder, a vida humana era uma luta constante.

O tempo passou, eras se sucederam, a sociedade humana foi evoluindo, aprimorando-se. E então, um dia, o inevitável aconteceu: alguém, há muito tempo atrás, perguntou: "porque uns nascem superiores e outros inferiores? Porque um nasce belo, saudável e rico, enquanto outro nasce feio, doente e pobre? Isso é injusto!" Aí, desenvolveu uma teoria baseada na mais elementar lógica humana para explicar todas as aparentes injustiças do mundo. Se esta vida parece injusta, nada mais reconfortante do que acreditar que haverá uma nova vida, aqui mesmo nesta Terra, onde tudo será diferente: o que me oprime será oprimido, e eu mesmo, que agora sou pobre e doente, um dia serei rico e saudável. A teoria da reencarnação surgiu para "explicar" as injustiças das diferenças de nascimento.

Observemos que o Sistema Hierárquico, explicado mais acima, funciona perfeitamente entre todos os animais sociais. Os mais aptos se destacam no grupo, dominando sobre os demais. Se você examinar o sistema hierárquico, comparando vários grupos animais, verá que é um fator positivo e resolve muitos problemas. Mas para os seres humanos, especificamente (e apenas para eles), a realidade biológica parece injusta, porque além de sociais somos racionais, espirituais e questionadores. Mesmo sendo inegavelmente especial em muitos aspectos, num particular o ser humano é igual às outras espécies da natureza: alguns nascem mais inteligentes, fortes e belos, enquanto outros nascem estúpidos, fracos e feios. Acontece que isso faz parte da verdadeira e soberbamente comprovada evolução natural que atua em nosso mundo.


Raquel Zimmermann, a nova "top one" do mundo


As disparidades sempre ocorrem no universo dos seres vivos, seja vegetal ou animal. Nossa racionalidade e sensibilidade, no entanto, reluta em aceitar este fato inquestionável. Todos nascemos com determinadas qualidades e desprovidos de outras, e nesse sistema existem superdotados e embotados. Por que uma roseira produz flores maravilhosas, enquanto outra, da mesma espécie e criada no mesmo tipo de solo, submetida às mesmas condições e cultivada igualmente, simplesmente não floresce? O mesmo se dá com as árvores frutíferas. Dentro do mesmo pomar, algumas produzem mais frutos que outras, e algumas até não produzem fruto algum. No caso das plantas ornamentais, algumas crescem belas e exuberantes enquanto outras não se desenvolvem ou se tornam retorcidas e feias. Será que isso acontece porque as plantas, na sua "encarnação anterior" foram más?? A flor nasceu torta porque na outra vida foi perversa e agora está evoluindo, para que numa nova encarnação possa nascer bonita e viçosa?

E quanto aos animais? Na criação de carpas do meu amigo, uma nasceu com uma nadadeira defeituosa. Ela tem dificuldades para nadar e principalmente para subir à superfície e buscar alimento. As outras comem tudo rapidamente, e ela precisa esperar uma ou outra migalha que desça no fundo do tanque para poder comer. Por conta disso, o seu desenvolvimento foi comprometido e ela cresceu menos que suas irmãs. Por que isso aconteceu? Na outra vida ela foi um peixe ruim? Ou será que na próxima ela vai nascer saudável, para compensar o sofrimento desta vida??

Evidente que não! A genética explica todos esses fatos! E no caso dos seres humanos não é diferente! O fato é que sempre vão existir pessoas superiores e inferiores umas às outras, num ou noutro aspecto, neste mundo. Isso faz parte de um outro processo evolutivo a que estamos submetidos, todos nós, humanos, animais e vegetais: aquele que foi descoberto por Charles Darwin. Este sim, é real. E, sinto dizer aos que apoiaram suas esperanças nessa crença, não tem nada a ver com reencarnação. E essa superioridade de uns sobre outros é individual, não racial, embora cada uma das classes biológicas humanas possua características distintas. Tanto que existem pessoas embotadas e inteligentes em todas as raças. Assim como existem "feios" e "belos" em todas, e assim por diante.

Você, fisicamente falando, é o resultado de muitos fatores genéticos combinados. Quais as chances de a Raquel Zimmermann ter se tornado o sucesso que é se tivesse nascido no Zimbabue? E se tivesse nascido com uma forte tendência genética à obesidade? É quase certo que nunca seria famosa, porque o padrão de beleza que impera no mundo, hoje, é “branco e magro”. Mas isso já foi diferente no passado. Cleópatra, considerada a mulher mais bela do mundo na Antiguidade, era uma mulher de pele escura e nada magra. No período renascentista, as mulheres que mais faziam sucesso eram as “rechonchudas”. O padrão atual é Raquel Zimmermann, mas ele pode mudar no futuro. Sorte da Raquel ter nascido nesta época, porque simplesmente sua condição física e sua capacidade de ficar à vontade diante das câmeras lhe valeram fama e fortuna.

Agora, dizer que a Raquel nasceu assim porque foi melhor numa outra encarnação do que alguém que nasceu no Zimbabue ou com uma tendência genética à obesidade é puro preconceito e elitismo. Você está dizendo, ainda que indiretamente, que a Raquel é melhor do que uma criança do Zimbabue, e não só por causa das circunstâncias, mas também moralmente. Você está dizendo que ela é rica, bonita e desfila bem porque é moralmente superior a quem nasceu no Zimbabue. Você pode tentar negar, dar voltas, mudar o foco do assunto (especialidade dos reencarnacionistas quando se toca nesses pontos-chave), mas é exatamente isso que a doutrina da reencarnação ensina. Que uma pessoa saudável, rica e bela, é moralmente superior a uma pessoa deficiente, feia e pobre.


"É por isso que a idéia da reencarnação é o pensamento mais preconceituoso, excludente, elitista e arrogante que eu conheço para explicar fatos naturais."

Profº José Moreira da Silva


E há um exemplo ainda mais claro para abordarmos a mesma questão: por que um ser humano sente compaixão por outro? Por causa de um fator chamado empatia: porque se põe no lugar do próximo, e assim pode sentir o que ele sente, num certo nível. Mas a empatia depende muito da sensibilidade de cada um. Tem gente que nunca consegue se por no lugar do próximo. Estes se mostram muito insensíveis, na maior parte do tempo. A reencarnação procura mostrar que os insensíveis ainda terão que nascer e renascer muito para desenvolver a sensibilidade para com o sofrimento alheio.

Mas o fato é que as diferentes sociedades também influenciam nesse grau de sensibilidade. Quanto mais avançada uma civilização, maior à capacidade de seus indivíduos se colocarem no lugar do outro. Quanto mais avançada é a cultura de um indivíduo, mais sensível ele é. Os europeus estão entre os que mais se preocupam com os direitos dos animais, por exemplo. Naqueles países acontecem até protestos públicos e grandes passeatas nas ruas em defesa dos direitos dos ratos de laboratório. Isso acontece, entre outras razões, porque as suas necessidades mais básicas já foram supridas. Eles não precisam se preocupar com o que vão comer hoje à noite e nem com o que vestir ou onde morar. O sistema de saúde pública funciona bem, o sistema educacional é bom e o transporte público eficiente. - Mas as crianças dos países miseráveis sofrem tanto, com a carência dessas necessidades essenciais, que não conseguem pensar em ninguém, a não ser nelas mesmas. A capacidade de se importar com a dor do outro fica naturalmente reduzida. Se eu não tenho o que comer ou onde morar, fica difícil me indignar com os maus tratos que os ratinhos brancos sofrem nos laboratórios. Agora, se a reencarnação fosse um fato, e visasse a evolução da alma, ninguém nasceria em condições que promovessem a insensibilidade e a violência, em sociedades menos evoluídas, - que na verdade ajudam a desenvolver mais esses fatores negativos.

É claro que alguém que nasceu miserável e desajustado tem mais motivos para se revoltar e se tornar um ser humano pior. Não afirmo que isto seja uma regra, porque não é. Mas estamos falando de estatística, aqui. Já é comprovado estatisticamente, inclusive por pesquisas da ONU/ACNUR, que nos países onde a desigualdade social é maior, os índices de criminalidade são maiores. Num país onde a justiça social é altamente satisfatória, como a Suíça ou a Holanda, os índices de violência são próximos de zero!

Só que aí, alguém que cometeu crimes, - por ter nascido num meio propício, sujeito a condições genéticas e psicológicas que o favoreceram a isso, - na próxima encarnação vai ter que sofrer ainda mais, por causa dos erros cometidos nesta vida. Ou seja, mais uma vez, as chances dele piorar mais ainda se tornam cada vez maiores; e assim num crescente infinito! É um círculo vicioso sem fim, e o contrário também vale: alguém que nasceu no seio de uma família rica e compreensiva, num país onde há justiça social e os direitos do cidadão são respeitados, tem muito mais chances de se tornar uma pessoa boa (às vezes uma pessoa dessas se torna um criminoso também, indo contra todas as probabilidades, mas esses casos representam uma minoria no quadro geral). - Com isso ela ganharia oportunidades cada vez maiores para reencarnar cada vez melhor, até finalmente alcançar os planos mais elevados. Onde está a justiça??

Um sistema como esse simplesmente não funcionaria. Insisto que a única maneira dele funcionar seria se a memória fosse preservada. Se eu me lembrasse porque estou sofrendo tanto, aí sim iria me esforçar para melhorar. - E a esse respeito, já ouvi muito que "Deus nos tira a memória por misericórdia. Seria insuportável lembrar o que fomos e do mal que fizemos"... E aí eu respondo: nos fazer esquecer de quem somos e do porquê de estarmos sofrendo tanto? QUE TIPO DE MISERICÓRDIA É ESSA??

E de novo, a reencarnação se mostra elitista. Ela está dizendo, de fato, que quem é mais sensível é mais evoluído moralmente do que quem não é. Ignora todos os fatores sociais, naturais, genéticos e biológicos que levam uma pessoa a ser como é. - O que você é está determinado pelo seu corpo, sua família, sua sociedade e sua história. Não por alguma coisa ocorrida em outra vida que foi apagada da sua memória. O próprio Buda, que apoiava a teoria dos renascimentos por ter nascido na Índia, questionou estas questões, e no final disse que não temos um ego de fato. Ele disse que o que somos é uma relação de vários fatores que, se analisados com seriedade e desapego, o mais sensato é não falar das realidades pós matéria. Isso simplesmente não nos cabe. Por isso é que o budismo primordial, aquele ensinado por Sakiamuni, não ensina reencarnação. Os ensinamentos da fase final da sua vida simplesmente não abordam a jornada da alma após a morte. Tudo que há é o silêncio.



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