Reminiscências


"E de repente juntou-se ao anjo uma multidão do Exército Celeste, a louvar a Deus!"
(Lc 2, 13)


Uma tradição judaica afirma que quando os anjos viram o que Deus havia feito na Obra da Criação, eles irromperam em um canto de louvor que continua ao longo do tempo, no Coração de todas as coisas. A história de que o Nascimento de Jesus provocou outra irupção cósmica similar, depois que os pastores ouviram a Boa Nova, nos lembra o quanto a nova Criação em Cristo é, ao mesmo tempo, diferente e similar. De maneira semelhante, o mantra canta em nossos corações, na Epifania do Seu nascimento em nós.

No Evangelho a história do nascimento e da infância de Jesus contém alguns cânticos: o Benedictus de Zacarias, o Magnificat de Maria e o Cântico de Simeão, que acabaram se tornando parte das preces diárias dos cristãos. Esses atos humanos de louvor foram provavelmente compostos pelas primeiras comunidades cristãs, à medida que refletiam sobre o Mistério de Jesus e gradativamente nele se aprofundavam. Então, eles foram aplicados retrospectivamente ao Evangelho de Lucas, para os posteriores relatos de seu nascimento. Esse padrão demonstra como a prece, a Liturgia e a Sagrada Escritura entrelaçam a Tradição de fé, e é para esse denso significado que retornamos todos os anos, na celebração do Tempo do Natal.




Os seres humanos contam histórias para criar o Significado que necessitamos descobrir para vivermos bem. As histórias da Sagrada Escritura são diferentes das telenovelas ou mesmo da literatura ficcional que usamos como entretenimento. As narrativas da Sagrada Escritura, tais como a do nascimento de Jesus, proporcionam mais respostas cada vez que as relembramos, isso por estarem tão vividamente interligadas com nossas próprias vidas. Essa experiência de aprofundamento espiritual, essa elevação e esclarecimento de consciência, que resulta de nossa meditação, é alimentada pelo Verbo, que está vivo e ativo. Isso também nos reconduz à Sagrada Escritura com uma nova sede e uma nova capacidade de discernir.

O Natal é um banquete de significados. Grande parte dele se reflete nas nossas formas culturais de celebração nesta parte do ano: a troca dos presentes que nos lembra que os relacionamentos humanos se fundamentam na doação e não na barganha ou na exploração; a reunião da família e dos amigos que nos lembra que não estamos sós na solitude da jornada humana; a comida e a bebida que nos lembra que a comemoração nos é natural e necessária. Todavia, todas essas coisas dependem da experiência pessoal do que é que o Natal significa: a radical pobreza e simplicidade, a intoxicante proximidade com Deus que nos revela essa completa dependência em ser. Quanto mais nos aproximamos dessa radical simplicidade, para a qual nossa meditação continua a nos impelir, mais precisamos cantá-la. Quanto mais completo o canto, mais rico o silêncio.

Como Comunidade, unamo-nos em nossos corações neste Tempo cheio de alegria. Que nossa percepção dessa nova criação possa restaurar o necessário amor pela terra, para que possamos reparar os danos que a ela infligimos. Que nossa vida como Comunidade possa incrementar a energia de paz de que nosso mundo dividido tanto carece, bem como a justiça da qual a paz depende: a verdadeira sabedoria que o recém nascido Jesus corporifica.

No dia 30 de Dezembro, no Centro de Retiros em Londres, celebramos o dom de John Main para o mundo, no 27º aniversário de sua mais completa entrada na luz de Cristo. No website http://www.wccm.org/ colocaremos uma sugestão de uma simples recordação que alguns de nós poderão querer observar ao redor dessa data em seus grupos de meditação.


Com Muito Amor,

Laurence Freeman OSB

Do portal da
Comunidade Mundial de Meditação Cristã



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