Reencarnação, afinal

Resposta à pergunta do leitor "Daniel"


se vão mais de três anos que publiquei neste blog a conclusão de uma série de postagens falando sobre a minha experiência pessoal no espiritismo. E, lá no dia 15 de outubro de 2006, eu concluí esses relatos com uma lista, que representava uma espécie de resumo das coisas que vi e vivi dentro do espiritismo, dividida em duas partes: uma para as coisas que eu gostei e outra para as que eu não gostei. Dentre as “coisas que gosto” no espiritismo, constava o seguinte item:

“# Existem certas evidências em favor da possibilidade de ocorrer a reencarnação em alguns casos. Há registros interessantes em publicações médicas e científicas;”

Reencarnação é um tema recorrente, neste blog ou em qualquer espaço aberto em que se pretenda debater sobre religião e espiritualidade. E como naquela primeira fase do a Arte das artes eu apenas contava a história da minha própria jornada pessoal, sem entrar em maiores detalhes a respeito dos assuntos abordados, ficou no ar uma promessa e uma expectativa de um dia voltar a falar sobre o tema. Na verdade, cheguei a prometer isso, porque após a conclusão desta primeira etapa, de minhas experiências pessoais, a nova fase deste blog se propôs à elaboração de uma enciclopédia das religiões.

E, bem, dentro desta nossa Enciclopédia das Religiões (que anda desatualizada mas que será retomada brevemente, com a continuação da série sobre o cristianismo), as postagens sobre o hinduísmo, - fonte e origem da ideia da reencarnação, - foram completadas, e por algum motivo eu ainda não achava que seria o momento oportuno para falar de reencarnação. Acho que estava esperando o momento de abordar o tópico Alan Kardec e o espiritismo, até porque vivemos num país onde reencarnação é praticamente sinônimo de espiritismo: no Brasil, a grande maioria identifica os dois assuntos, e o que nas mentes daqui se têm por processo reencarnatório está profundamente enraizado às ideias de Kardec.

Acontece, porém, que neste momento de retorno (pós-recesso de final de ano), minha mente estava absolutamente vazia quanto a que continuidade trazer para este meu trabalho no a Arte das artes. - Eu ainda não tinha a mais vaga ideia sobre o que postar, e como tenho imenso carinho por este blog, não queria deixar meus queridos leitores a ver navios. Eis que me sento, ontem, ao computador, com a mente completamente em branco, na esperança de que "me viesse" o próximo assunto a postar, e o que encontro? A pergunta de um leitor chamado Daniel, que se manifestou por aqui pela primeira vez para perguntar o seguinte:

“'# Existem certas evidências comprovadas em favor da possibilidade de ocorrer a reencarnação em alguns casos. Há registros interessantes em publicações médicas e científicas;'

Por favor você poderia disponibilizar para os leitores alguma fonte idônea para essa afirmação? Alguma publicação médica / científica que aponte para tal conclusão da possibilidade da reencarnação? Obrigado!!!"



Dr. Ian Stevenson


Eu é que agradeço! Daniel reproduz o item da lista que eu citei no começo deste post, e pede maiores informações e esclarecimentos. E resolve de vez o meu problema: já sei sobre o que falar! Não vou esperar mais; vou falar sobre reencarnação agora. – Pronto, arrumei pra cabeça e assunto para, no mínimo, algumas dúzias de postagens polêmicas, que vão ser refutadas, detonadas e amaldiçoadas, por alguns, e aclamadas e aplaudidas por outros. Uma boa oportunidade para colocar à prova a minha sempre aperfeiçoada capacidade de coexistência e tolerância...

Deixando de lado a embromação e partindo para a resposta à pergunta de um milhão de dólares, Daniel, quando mencionei “evidências em favor da possibilidade de ocorrer a reencarnação em alguns casos", (observando que eu fiz questão de destacar o trecho EM ALGUNS CASOS em negrito), eu estava me referindo ao trabalho do Dr. Ian Stevenson (1918 – 2007), da Universidade de Virgínia, EUA, que estudou cerca de 2.000 casos em diversos países, entre os quais alguns que supostamente evidenciariam a possibilidade de reencarnação. Essa pesquisa encontrou, principalmente no Sri Lanka, - país onde a crença na reencarnação é praticamente unânime e extremamente popular, - resultados que poderíamos considerar interessantes. Dr. Stevenson, formado em medicina no Canadá, se especializou em psiquiatria e, em 1957, se tornou chefe do departamento de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, onde começou a estudar o caso de uma criança que alegava se lembrar de uma outra existência, num tempo passado, e a partir daí se dedicou totalmente à pesquisa dos fenômenos paranormais.

Foi exatamente a isso que me referia naquele item. Sim, eu conheci pelo menos uma dúzia de outros alegados pesquisadores do espiritismo, principalmente brasileiros, mas estes não poderiam em hipótese alguma serem levados a sério, por questões elementares de metodologia e confiabilidade. Ao contrário, Dr. Stevenson foi um pesquisador sério dos fenômenos paranormais, com destaque à reencarnação, e buscou fazê-lo com método científico. De resto, temos muitos aventureiros e afoitos travestidos de “pesquisadores”, mais rápidos que o Flash na hora de fazer afirmações que chamam de “científicas” sem nenhuma experimentação, comprovação ou evidência minimamente plausível.

Um ótimo exemplo disso é a Sônia Rinaldi. Festejadíssima nos meios espíritas, foge de averiguações realmente científicas, escuta nomes em chiados distorcidos de rádio fora de estação e vê imagens de gente morta no chuvisco de aparelhos de TV fora do ar. Desse jeito não dá para ser levado a sério.

Quanto ao Dr. Stevenson, o fato é que, anos antes de sua morte, ele reconheceu que, mesmo através do trabalho monumental a que se entregou e que consumiu toda a sua vida e os seus melhores esforços, por anos a fio, ele não conseguiu comprovar a existência da reencarnação. E declarou: “Não consegui provar, acima de dúvidas, que nós realmente vivemos muitas vezes”. Não há dúvida de que, para a ciência, o que conta é a experimentação e a existência de provas conclusivas. Stevenson viajou para a Índia, para o Oriente Médio e muitos outros locais coletando informações, entrevistando crianças e anotando dados por elas fornecidos, para depois partir numa investigação de reconstituição das "vidas passadas" às quais elas se referiam.


Aldous Huxley


O interesse de Stevenson por assuntos extra-acadêmicos provavelmente teve a influência de sua mãe, que era adepta da teosofia. Em 1950, depois de um encontro com Aldous Huxley, ele se tornou um dos pioneiros no estudo médico dos efeitos do LSD, e as suas pesquisas na área parapsicológica passaram a incluir temas como telepatia, precognição, xenoglossia, experiências de quase-morte, aparições, mediunidade e fotografia psíquica.

Mas, apesar de todo o barulho feito em torno de Ian Stevenson pelos entusiastas da reencarnação, é importante colocar que ele nunca afirmou, nem mesmo dos seus melhores casos, que eles poderiam ser vistos como comprovações para a reencarnação. Ele sempre reconheceu os pontos positivos das contraargumentações dos seus colegas céticos (grande maioria) quanto ao seu trabalho – principalmente quanto às distorções de significado cometidas pelos intérpretes e sua metodologia, que embora meticulosa era sujeita a falhas relevantes, – e procurava usar essas críticas para refinar seus métodos. Assim, o que divulgava eram casos que, em suas palavras, “sugeriam” reencarnação.

A maior autoridade reconhecida no estudo da reencarnação, em todos os tempos, nunca, jamais afirmou nada além disso. E é exatamente por isso que ele tem o meu respeito e continuou sendo considerado um homem de ciência: por não deixar que o seu desejo pessoal (‘preciso acreditar‘) de comprovar a continuidade da vida após a morte o cegasse, quanto à seriedade que é preciso assumir para que um estudo seja considerado válido.

Mesmo assim, não tenho nenhuma publicação médica ou científica para lhe indicar, amigo Daniel, no sentido de comprovar a teoria da reencarnação, porque isso simplesmente não existe, em lugar algum. Tudo que temos são livros escritos por autores espíritas (o que de cara os compromete), que buscam, através de uma linguagem profundamente emocional e narrativas carregadas de sentimentalismo, convencer o leitor de que a reencarnação é um fato. A obra do Dr. Ian Stevenson é diferente, sem dúvida.

Dito isto, darei continuidade ao tema reencarnação, a partir das próximas postagens. Saúdo a todos neste começo de 2010!



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