Livro Pessoal da Sabedoria - Capítulo I

_____"D'us"




Levante sua mão e ponha-a sobre seu coração. Ouça a palpitação; ouça a vida que flui e vibra. De onde vem essa força, esse poder, esse fluir, esse ser?

_______Olhe para dentro de si mesmo agora. Olhe dentro da sua mente, dentro dos seus pensamentos: quem é você? De onde você veio? Qual a sua origem? Quem é você, no sentido mais profundo que puder conceber?

_______Você é capaz de encontrar uma resposta para estas questões fundamentais da vida? São questões complexas, e por pura preguiça passamos toda a nossa vida deixando essas coisas para depois. "Depois eu descubro quem sou. Um dia eu descubro de onde vim, para que vim, o que quero. Um dia eu paro e penso. Depois. Depois eu paro e dedico algum tempo a pensar em Deus".

_______Eu digo que o tempo é agora. Sempre afirmei isso; foi para isso que eu vim. Eu digo que a aventura começa quando você pula do trem em movimento. Quando desperta do transe e grita com toda a força dos seus pulmões e da sua alma: “Chega!”

_______Chega de viver de mentira, chega de perder tempo. Chega de ser zumbi. D’us está à porta e bate. Se você ouvir, e abrir a porta, Ele entrará, se sentará à mesa com você, e vocês comerão juntos.

_______O que você vai servir a D’us?

_______Num comentário deste blog surgiu uma pergunta: “D’us é Deus?”... Uma boa pergunta, e a reposta pode ser sim ou não. Depende do que significa “Deus” para cada um. Prefiro grafar "D’us", como fazem os judeus ortodoxos, ou "DEUS", com todas as letras em maiúsculas, como um jeito de chamar a atenção para o fato de que estou falando do Sagrado: não estou falando de uma coisa qualquer. Estou falando da “Coisa das coisas”. Estou falando da Coisa em Si, no sentido mais perfeito do termo...

_______Judeus ortodoxos usam a forma "D'us" como um ato de extremo respeito e reverência; uma espécie de reflexo do preceito bíblico de não pronunciar em vão o Nome de Deus. Reflexo porque, sem dúvida, "Deus" não é nome, é um termo genérico, um substantivo. Seria como alguém me chamar de "homem". Homem não é o meu nome, então não poderia dizer que estão usando meu nome em vão. Meu nome não foi pronunciado. Se cremos em um único Deus, dizer "Deus" não é chamá-lo pelo nome; é se referir a este único Deus sem pronunciar o Nome Sagrado.

_______Conforme a situação, eu gosto de usar "D'us" ou "DEUS". - São maneiras de tornar especial essa referência especialíssima. Isto é, falar em Deus virou algo muito banal: as pessoas repetem o tempo todo, sem pensar, coisas tipo "Deus me livre", "Só por Deus mesmo", "Vai com Deus", e muitas outras desse tipo. São frases interjetivas repetidas sem nenhuma reverência, sem nenhuma noção do Sagrado.

_______Por isso, quando estou me referindo ao Criador, num contexto realmente sagrado, às vezes acho conveniente chamar a atenção para isso, para que a ideia não passe desapercebida. Mas não faço isso sempre. Há também o risco de as pessoas pensarem que sou “metido a besta” ou que pretendo com isso me elevar usando termos diferenciados...

_______Mas, e aí? Já pensou no que você vai servir a D’us? Bem, primeiro é preciso convidá-Lo a entrar.

_______Este post é o primeiro capítulo do meu Livro Pessoal da Sabedoria. Por coincidência ou não, aconteceu na virada do ano. Um novo ano está prestes a começar. E uma nova fase da Arte das artes começa. O primeiro capítulo se fundamenta em D’us. Eu gosto de começar do começo, e tudo começa com D’us. Começa e termina. Começa, flui e termina. O primeiro capítulo só poderia ser “D’us”.




_______Quantas páginas foram escritas, quanta tinta foi gasta, quantas pedras entalhadas na tentativa inútil de explicar D’us?

_______De tão difícil, quantos não preferiram, ao longo dos milênios, deixar este assunto para depois? E, num último impulso desesperado, quantos não tentaram criar uma religião sem D’us?

_______“Deus está morto.” – Nietzsche, 1882

_______“Nietzsche está morto.” – Deus, 1900

_______KKKK KKKKK Kkkkk kkkkk kkkkkk kkkkKK KKKKK!..

_______A piada não é nova, mas eu a acho muito, muito boa. Talvez ela tenha sido contada algumas vezes por pessoas que não possuem senso de humor, com um ranço de revanchismo contra o coitado do Friedrich Nietzsche, um gênio atormentado que gravou seu nome na história e, penso eu, merece nosso respeito. Assim, contada com sentimento de revanche, a piada fica sem graça. Mas contada com o espírito aberto, é muito engraçada. Não tem como não soar patético um homenzinho inteligente decretar a morte dA Inteligência. Nietzsche era uma pulga inteligente. E atrevida. Só foi levado tão a sério porque a mediocridade do mundo era ainda maior que o seu atrevimento. Uma pulga inteligente no meio de pulgas medíocres. Mas ainda uma pulga. E penso que D'us ama os atrevidos. D'us tem um senso de humor maravilhoso e incompreensível; assim como é incompreensível tudo que vem dEle.

_______E D'us persiste, por mais que milhões de Nietzsches e Dawkins se levantem contra ele. Isto é, a "ideia D'us" persiste no mundo, desde que existe mundo, e se um dia essa ideia deixasse de existir, acho que não seríamos mais humanos. Somos seres religiosos, antes de tudo. Somos seres religiosos mais até do que somos seres sociais. A prova são os eremitas de todas as religiões ancestrais: pessoas que se retiraram do convívio em sociedade e foram viver isolados no alto de montanhas, em cavernas, casebres no meio do mato... e até no alto de colunas. Apesar de ser muito difícil, penoso e contraindicado, conseguimos viver isolados de nossos semelhantes. Mas não conseguimos viver sem D'us. Até os ateus são assim: seu passatempo preferido é atacar Deus, e seus maiores expoentes foram e são sempre aqueles que fazem da cruzada contra as religiões a sua missão de vida. De um modo ou de outro, não vivem sem D'us.

_______Mas, no fim, sábio é aquele que reconhece a inutilidade de tentar compreender o incompreensível. Ele aceita que basta saber. Ele leva a mão ao coração, ele sente a vida fluindo em suas veias. Ele aceita que a Maravilha necessita de uma Causa, e aceita suavemente que essa Origem não se dobra ao nosso entendimento, às nossas explicações ou racionalismos.

_______Conheci um sacerdote especial e muito amado. Seu nome é César. Ele me contou a experiência mais intensa que viveu em toda a sua vida: um belo dia, poucos dias antes de consagrar sua vida como sacerdote, simplesmente, sem mais nem menos, ele perdeu a fé. Sim; ele, que tinha dedicado toda a sua vida, desde a juventude, a seguir o Caminho de Cristo, simplesmente deixou de crer. Acordou, num dia comum, sem crer, sem ver sentido em nenhuma das práticas a que vinha se entregando, diariamente. Não via mais sentido na oração, na adoração, no estudo... Nada, nada.

_______Olhou o mundo e viu apenas matéria e acaso. Viu a vida como uma combinação de fórmulas matemáticas, uma coincidência física improvável, uma raríssima porém relativamente simples junção de elementos químicos, que culminam formando pensamentos, sentimentos e... fé.

_______Juntou seus livros e objetos antes sagrados e jogou tudo no lixo. Confessou-se com seu orientador espiritual, que, não sabendo orientá-lo, simplesmente o aconselhou a... Parar com tudo, por um tempo. Este homem perdido saiu para fora, ganhou os jardins do seminário, sentido vertigens, pois não é fácil para um homem que abdicou de tudo em nome da fé, de repente chegar à conclusão que simplesmente estivera enganado por toda a sua vida. Chegando no jardim, em sua tontura, procurando por um apoio simplesmente físico, já que as realidades espirituais agora lhe pareciam ilusão, encostou-se numa árvore.

_______E aquela árvore então lhe disse: “Tolo! Por que acha que eu estou aqui, pronta a apoiá-lo? De onde você acha que eu vim, para que pudesse sustentar suas mãos trêmulas? Do acaso? O acaso existe, mas não se sustenta, não permanece, não subsiste em harmonia, não pode pressupor algo maior que ele próprio. Nós não somos maiores que o acaso? E você, de onde veio? Viemos do mesmo lugar: D’us!”

_______O aspirante a sacerdote então compreendeu que não era capaz de compreender D’us e suas razões, e que era por isso que estava tão confuso e perdendo a fé. Não entendia muitas coisas, e esse não entender o fazia questionar as raízes de tudo que considerara como certo até então. Como poderia o D’us incognoscível aceitar suas orações tão toscas? Sendo D’us Todo Poderoso e Todo Suficiente, por que precisaria dos seus louvores, das suas patéticas tentativas de aproximação? A partir do momento em que começou a racionalizar assim, passou a entender D’us mais como um Motor imóvel e distante do que como o Pai Celestial anunciado por Cristo. "Deus Pai" começou a lhe soar como uma impossibilidade completa, uma piada de mau gosto. Como poderia a Energia Absoluta, Criadora e Geradora de todas as coisas, tê-lo por filho, se importar com as suas mesquinharias, suas aventuras e desventuras, seus pecados, seus conflitos e questões tão ridículas? Depois de questionar Deus como Pessoa, o próximo e rápido passo foi questionar a existência do próprio D’us.

_______Mas naquele dia, no jardim do seminário, quando ele pensava em juntar seus poucos pertences e voltar para casa, sentindo vertigens, uma árvore apoiou sua queda e lhe fez entender que é preciso que D’us Onipotente e Onisciente se manifeste como Pessoa aos homens. E que os homens abracem essa Manifestação, pois do contrário a Comunhão é perdida. E compreendeu o sentido e a razão de ser das formas e fórmulas religiosas. Compreendeu que este mundo é como uma maquete da Realidade Perene, uma imitação infinitamente reduzida do Reino de D’us. Não podemos suportar a visão da Verdade como ela é, não estamos aptos a lidar com a Coisa em Si, por isso, precisamos olhar a maquete que é o mundo, aprender com ela, decifrar o Grande Mistério através de imitações.




_______Não sabemos porque é assim, mas é assim que é. Esta é uma etapa de um grandioso processo, do qual fazemos parte. Olhe para dentro de si mesmo e entenda. Foi isso que fez o aspirante a sacerdote, naquele momento. E ele disse, como de si para si mesmo: "O D’us que É há de aceitar a fé de que sou capaz, no Deus que sou capaz de conceber com o meu intelecto; e que eu O sirva com o meu trabalho, com pureza de alma. Pois ainda não sou capaz de conceber o D’us que É. Tudo que posso fazer é aceitar. Esta é a Comunhão possível, por enquanto. Espero o dia de ir além”.

_______D’us é assim. Ou se sabe ou não se sabe. Ou se reconhece ou não. Paradoxalmente, nesse dia os olhos da alma do aspirante a sacerdote se abriram. E ele compreendeu, mesmo sem poder compartilhar essa dádiva com outros. Pois cada um precisa escrever, ler e entender seu próprio Livro Sagrado.

_______Então o que podemos fazer? O que devemos fazer? Como e de que maneira seremos felizes? Tendo uma religião? Guardando a fé? Ou simplesmente nos libertando de todas as amarras que as crenças nos impõem?

_______Será que crer nos impõe amarras, isto é, limitações? Ou será que nos liberta? A resposta é que as duas alternativas podem estar corretas. Sem dúvida há crença que escraviza, e há crença que liberta. Crer no real é libertar-se. Crer no que não é real escraviza.

_______Coloque a mão em seu coração. Ouça a palpitação; ouça a vida que vibra. De onde vem essa força, esse poder, esse fluir, esse ser?

_______Olhe para dentro de si mesmo agora. Olhe dentro de sua mente, dentro dos seus pensamentos: quem é você? De onde você veio? Qual a sua origem? Quem é você, no sentido mais profundo que puder conceber?

_______Olhe seu corpo. Perceba que ele é a manifestação visível de algo invisível, que flui dentro dele e o cria e recria, diariamente. Seu corpo é uma impossibilidade científica completa. Mas ele existe, está ao seu serviço. Um milagre particular, feito só para você, renovado a cada instante. Este "algo invisível" que move seu corpo é a maior preciosidade que existe neste mundo. A maior preciosidade que existe, dentro de você. É a Assinatura Divina no seu ser. Traga esta força para fora. Faça-a crescer, tomar conta do físico, do seu pensar, do seu sentir.

_______O que você vai servir a D’us? Primeiro, é preciso convidá-Lo a entrar.

_______E então, sirva-se a si mesmo. Sirva seu espírito, sua alma, sua vida. E para convidá-Lo a entrar, claro, primeiro é preciso notar que Ele está à porta, batendo. Para notar, é preciso ouvir. Para ouvir, é preciso parar tudo o que estiver fazendo, agora, e fazer silêncio. As batidas de D’us à porta são muitíssimo suaves. Se não houver silêncio absoluto, você não poderá ouvir. Se estiver ocupado, com a mente agitada pensando em mil afazeres, você não será capaz de ouvir. Se estiver com raiva, com medo ou cheio de desejos, também não. Acalme-se. Faça silêncio. Ouça. Abra a porta.

_______Por esses dias, ganhei um cartão com uma oração, até bonita, uma "oração de ano novo", e pensei em postá-la aqui, hoje, véspera de ano novo. Comecei a digitar a oração, mas, enquanto o fazia, percebi que era mais uma oração do tipo que as pessoas lêem, acham “bonita” e descartam em seguida. Uma oração com pedidos de bençãos pelos parentes e amigos...

_______Mas hoje despertei me sentindo inundado por um Amor tão perfeito, puro e absoluto, que quase perdi o controle sobre meu corpo físico. Em êxtase, senti vertigens. Desejei abraçar o chão, beijar as paredes, acariciar as nuvens. Quis me declarar às torrentes de água que fluíam do chuveiro e da torneira.

_______Com olhos renovados olhei em volta, e achei tudo muito bom. O mal não pode me tocar, num momento como este. Degustei, deliciado, o prazer da Comunhão. E encontrei a minha oração:


_______Bendito, mil vezes bendito és, Pai das Origens. Eu te louvo e dou graças, porque és o Criador e Provedor de todas as coisas.

_______Todos os prazeres e suavidades te pertencem, e todas as dores e asperezas deste mundo são bálsamo e maravilhoso perfume se estamos em Ti.

_______Eu te louvo e dou graças, amado D’us, Senhor e Razão das razões, porque me aceitas, me consolas, me purificas, fazes de mim um filho e irmão, ainda que eu, por mim mesmo, não possua méritos. Meu mérito é a Luz Divina que puseste dentro de mim, quando me concebeste. Meu mérito é ser um Pensamento teu. Meu mérito é ser amado por Ti.

_______Concedei-me levar tua Glória infinita, a glória de viver em ti, a tantos quantos cruzarem o meu caminho, a tantos quantos ouvirem minhas palavras, ou lerem minhas letras; que sejam tuas palavras e tuas letras, hoje e sempre. Amem.



_______Dito isto, voltei a focar minha atenção no mundo ordinário dos homens, pois há uma missão a cumprir, e essa missão se dá neste plano de sonhos, mundo vazio e duro, controlado por homens violentos e cegos.

_______Sentei-me em minha escrivaninha e pensei: “chegou o momento. Já posso compartilhar as coisas que aprendi. Já posso tornar público o meu Livro Pessoal da Sabedoria”.


Da inutilidade de tentar entender D’us




D’us é

_______Vida * Pulsar * Pensar * Largar * Relaxar * Permitir-se * Alegria * Morrer Todas as Noites * Voltar a Despertar * Fugir * Achar * Renascer * Forte * Fraco * O Prazer de Ser Fraco * Flexível * Desnudar * Proteger * Entregar * Pureza * Acariciar * Receber Carinho * Olhar * Sorrir Espontaneamente * Recarregar * Lançar Fora * Mãos * Pés Descalços * Caminhar * Correr * Sol * Brisa * Vento * Aquecer * Refrescar * Frio * Agasalhar * Lua * Água * Mar * Oceano * Entrar * Estar Dentro * Sair * Respirar * Inspirar * Expirar * Destruir * Queimar * Renovar * Recomeçar * Terra * Plantar * Chuva * Florescer * Flor * Fruto * Colher * Belo * Feio-Belo * Sexo * Resistir * Escolher * Renegar * Abraçar * Acolher * Manhã * Agora * Justiça * Espírito * Aceitação * Revolta * Revolução * Noite * Nuvem * Raio * Trovão * Luz * Música * Cor * Reflexo * Cristalino * Céu * Vôo da Águia * Vôo da Coruja * Vôo do Pardal * Vôo do Beija Flor * Salto do Tigre * Salto do Gato * Salto do Cervo * Desapego * Entender * Palavra * Conhecer * Reconhecer * Conceder * Desfazer-se * Admirar-se * Deslumbrar-se * Metamorfose * Mudar * Transformar * Despertar * Maravilha * Êxtase * Asas * Prazer * Dor * Chorar * Fluir * Descansar * Invencível * Incompreensível * Inalcançável * Imenso * Ânimo * Infinito * Absoluto * Tremendo * Assustador * Humilde * Pequeno * Pedir * Pedinte * Pedir Perdão * Perdoar * Dar * Ser * Partir * Quebrar * Derrubar * Chocar * Lutar * Vencer * Desarmar-se * Alcançar * Escalar * Chegar * Ser * Eu * Você * Eu em Você * Tudo * Nada * Além * Amor * Amor * Amor * Amor * Amor * Amor...


Feliz tudo novo e renovado, hoje e sempre! Amem!


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

25 de Dezembro




Agora já estás aqui, Deus Menino!

Agora que o Verdadeiro Sol da Justiça
nasceu e brilhou para o mundo...

E eu continuo precisando ser conduzido por Ti;
precisando que meu coração seja guiado por Ti.

Precisando que minha vontade e minha fé
sejam fortalecidas por Ti, Deus Menino;
que minha alma seja purificada por Ti.

Continuamos precisando que os comandantes
deste mundo sejam mudados por Ti, Deus Menino;

Precisando de Ti para que saibamos amar
os que sofrem, os que estão presos, perdidos,
cegos para a Tua Luz, aflitos, oprimidos...

Precisando da tua Mão que cura; que ela esteja
sempre presente em nossas vidas, Deus Menino.

Precisando que nos tornes semelhantes a Ti,
Simples, Humilde e Verdadeiro Deus Menino;
para que possamos também confortar, curar e
salvar, por meio do Teu Amor.

Precisamos de Ti ontem, precisamos hoje
e esperaremos somente em Ti, sempre!
Vem reinar em nós, Deus Menino!

Henrique K Merton


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

24 de dezembro




Preciso ser conduzido por Ti, Deus Menino;
preciso que meu coração seja guiado por Ti.

Preciso que minha vontade e minha fé
sejam fortalecidas por Ti, Deus Menino;
preciso que minha alma seja purificada por Ti.

Precisamos que os comandantes deste mundo
sejam mudados por Ti, Deus Menino;

Precisamos de Ti para que saibamos amar
os que sofrem, os que estão presos, perdidos,
cegos para a Tua Luz, aflitos, oprimidos...

Precisamos da tua Mão que cura; que ela esteja
sempre presente em nossas vidas, Deus Menino.

Precisamos que nos tornes semelhantes a Ti,
Simples, Humilde e Verdadeiro Deus Menino;
para que possamos também confortar, curar e
salvar, por meio do Teu Amor.

Precisamos de Ti ontem, precisamos hoje
e esperaremos somente em Ti, sempre!
Vem reinar em nós, Deus Menino!

Henrique K Merton


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

23 de dezembro




Preciso ser conduzido por Ti, Deus Menino;
preciso que meu coração seja guiado por Ti.

Preciso que minha vontade e minha fé
sejam fortalecidas por Ti, Deus Menino;
preciso que minha alma seja purificada por Ti.

Precisamos que os comandantes deste mundo
sejam mudados por Ti, Deus Menino;

Precisamos de Ti para que saibamos amar
os que sofrem, os que estão presos, perdidos,
cegos para a Tua Luz, aflitos, oprimidos...

Precisamos da tua Mão que cura; que ela esteja
sempre presente em nossas vidas, Deus Menino.

Precisamos que nos tornes semelhantes a Ti,
Simples, Humilde e Verdadeiro Deus Menino;
para que possamos também confortar, curar e
salvar, por meio do Teu Amor.

Precisamos de Ti ontem, precisamos hoje
e esperaremos somente em Ti, sempre!
Vem reinar em nós, Deus Menino!

Henrique K Merton


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Não nascemos prontos

No momento mais inesperado possível (eu diria inapropriado), entrei numa fase de "hibernação". Isso significa alguma coisa...

_______Para não deixá-los neste silêncio por mais tempo, resolvi pedir a alguém que falasse por mim. Teria que ser alguém que tivesse algo realmente útil a dizer, e então me lembrei dele. Afinal de contas, o post com a entrevista dele no Programa do Jô é um dos recorditas de views por aqui.

_______Não é material novo, mas provavelmente não é conhecido de todos, e mesmo para quem já assistiu, vale a pena ver de novo (nada a ver com reprise de novela da Globo - eca!). Espero que gostem. Até breve!


Não Nascemos Prontos, por Mário Sérgio Cortella (I a IV)













( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Esta noite escapei do Inferno

Este post foi escrito para mim, mais do que para vocês. É uma forma de registrar, para não esquecer; pois o mal do homem é esquecer.




Esta noite tive uma experiência apavorante. Me vi sendo sequestrado durante o sono, e transportado para um lugar macabro. Não me lembro de ter sentido tanto pavor em qualquer outro dia de toda a minha vida.

_______Não sei descrever meu sequestrador. Falei face a face com ele, ele me deu ordens e quis me obrigar a fazer coisas, mas eu não me lembro nada, absolutamente nada da sua aparência. Só sei que era como um homem. Um homem em trajes formais. Nada mais.

_______No começo eu não sabia exatamente o que estava acontecendo: achava que estava no interior de um grande edifício, vazio e estranho. As paredes me cercavam, eram hexagonais, com muitas portas e janelas por todos os lados. O estranho me fez entrar numa pequena sala. Ali me deu certas ordens. Para minha grande angústia, eu não me lembro exatamente o que ele queria que eu fizesse e porquê, mas basicamente eu tinha que entregar certos objetos e documentos para determinadas pessoas, que se encontravam em salas distintas, em andares diversos, espalhadas naquele grande edifício.

_______Eu podia sentir uma vibração pesadíssima de maldade exalando das paredes, espreitando nos corredores atrás de cada porta. Minha liberdade estava perdida, entregue ao controle do estranho. Tentei discutir e negar suas ordens, mas a sua ira era terrível; meus membros ficaram retorcidos ao renegá-lo. Por fim ele se mostrou tão poderoso e me fez ameaças tão horríveis que não pude mais resistir; relutante, disse que concordava em fazer o que ele queria, por puro terror. Eu sabia que ele podia me privar da minha liberdade e me infligir as dores mais atrozes, então assenti. Meus membros voltaram ao normal e ele me disse: "Assim que entregar o último pacote, você estará livre. Se você fizer o que mandei, teremos um pacto, pois você terá cumprido sua parte comigo. Você estará livre". Nesse momento ele sorriu e eu acreditei nele, isto é, acreditei que me libertaria.

_______Apesar do peso esmagador de toda a situação, talvez por estar fora do meu habitat, da realidade ordinária dos homens, eu me sentia entorpecido, e não tinha muita certeza do que estava acontecendo. Sabia que aquele ser, naquele momento, possuía completo controle sobre a minha vida. Minha cabeça pesava, e eu me encontrava num estado como que de transe. Não sabia bem o que estava fazendo, e somente aos poucos pude perceber, intuitivamente, o pior: eu havia encontrado um poderosíssimo representante do poder das trevas. No transcorrer da experiência, aos poucos passei a considerar que encontrara o príncipe dos demônios, frente a frente.

_______Não sei se poderia chamá-lo Belzebul, Satã, mas sei que era o mal personificado. O maligno recebeu muitos nomes: poderia eu dizer que aquele ser em forma de homem, diante de mim, era Satanás? Talvez fosse pior do que isso, pois Satanás é nosso acusador, e a energia com a qual me defrontei era puro mal: era todo sentimento e potência ruim que sou capaz de conceber.

_______De qualquer modo, a plena consciência de que estava sendo tentado ou posto à prova veio depois que aceitei a proposta. Tudo que eu queria era me ver livre daquela clausura angustiante, naquele prédio descorado e opressor. Coloquei os pacotes numa espécie de alforje que já carregava, e percebi que cada um deles era como uma grossa correspondência, embrulhada e selada. Não sabia o que fazer, mas aos poucos elaborei um plano: encontrar uma saída daquele lugar e fugir, antes de cumprir a minha parte no trato.

_______Claro, de maneira nenhuma eu concretizaria o pacto. Mas tomei meu caminho. De algum jeito, eu sabia que corredor tomar, que direção seguir, para realizar a nefasta missão que me fora confiada. Entrando e saindo de aposentos escuros, atravessando portas, tomei infindáveis escadarias, desci vários andares e comecei a entregar as encomendas, mesmo sabendo que estava fazendo algo muito errado. - Era em nome da liberdade que o fazia. – E principalmente porque sabia que, para que o mal fosse concretizado, era preciso que eu entregasse todos os pacotes, o que não faria.

_______Entreguei o primeiro, o segundo, o terceiro pacote. Tomava corredores que me levavam a outras partes do edifício, descia escadas, encontrava pequenas salas, todas parecidas, entregava as encomendas para pessoas sem rosto.

_______E assim prossegui. Por fim, faltava apenas um pacote. Alcancei a última sala, onde deveria entregar o último pacote. Sem saber direito o que fazer, mas decidido a não entregá-lo, entrei na sala. Se eu não o entregasse, as conseqüências seriam terríveis para mim. Se entregasse, estaria cumprindo um pacto com o demônio.

_______Então não entreguei o pacote. Abri-o e joguei seu conteúdo numa lixeira, atrás de um balcão, sem que o destinatário sem rosto, sentado ao fundo da sala, o percebesse. Depois fechei o embrulho vazio, e o entreguei sem nada dentro. O que eu queria era um jeito de entregar sem entregar, fazer sem fazer. Escapar, "agradando a Deus e ao demônio". Depois saí daquela sala, esperando ser libertado.

_______Nesse momento eu estava no nível mais baixo daquele edifício angustiante. O maligno surgiu diante de mim imediatamente, me parabenizou e me disse que eu tinha feito a minha parte: “Você está livre!” Uma porta se abriu e o demônio disse: “Vá! Você ganhou sua liberdade, porque cumpriu o pacto ainda melhor do que eu planejei. Você tentou me enganar! Você é um enganador! Todo enganador é meu servo!”

_______Fiquei apavorado. Mas me lancei em direção à porta, querendo escapar daquele lugar terrível o quanto antes. Mal atravessei a porta, estabanado, despenquei abaixo, numa escadaria em curva, ao fim da qual fui dar numa nova sala hexagonal, igual a maioria das outras naquele edifício de pesadelo, com muitas portas e janelas, mas estavam todas trancadas. Agora eu estava num nível ainda mais baixo, como que no subsolo do prédio, e o peso da angústia no ar, ali, era ainda mais tenebroso.

_______Como um animal acuado, completamente desesperado, eu me pus a tentar todas as portas e janelas, e a cada trinco que não se abria mais aumentava o meu pavor. A escadaria pela qual eu descera rolando, até ali, tinha sumido. Não havia saída. Eu, ireemediavelmente trancado. Encerrado. Enganado. Desespero absoluto...

_______Depois de várias tentativas inúteis de encontrar uma saída que não existia, passei a implorar para que o demônio me libertasse. No meu íntimo, eu sabia que não havia sido libertado por não ter cumprido o pacto. Mas não obtinha resposta. De uma maneira terrível, compreendi que minha vida estava perdida: eu estava no lugar que chamam de Inferno. Nunca, nunca mais sairia dali.

_______Então comecei a implorar por mais uma chance. Chorando, desesperado, pedia ao demônio que me desse uma nova oportunidade, em troca de liberdade. Novamente, eu não estava sendo sincero. Só tentava encontrar um jeito de sair dali; buscava desesperadamente uma nova oportunidade para tentar enganar o diabo e escapar; ganhar a liberdade...

_______Nada. Rastejei e implorei, chorei e gemi, completamente aterrorizado. No mais profundo de minha alma, entendia que minha vida estava totalmente perdida, para sempre. Compreendia que nunca mais sairia dali e que tudo estava inevitavelmente perdido para mim. Não é possível pactuar com o demônio, com vantagem. Eu passaria a eternidade trancado naquele lugar, oprimido por poderes negativos, pavorosos, arrasadores, sentindo medo. O medo mais total e absoluto que pode existir.




_______E foi então, e só então, que me lembrei. Ergui minhas mãos trêmulas e, sem nenhuma fé em meu coração, pois estava desesperado, comecei a entoar a Oração do Peregrino Russo, a Oração do Coração, que é também um versículo dos Evangelhos: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tem piedade de mim, que sou pecador!”

_______Mas não pude completar a oração. Mal pronunciei o nome de Cristo e, imediatamente, as paredes, o teto, o piso e tudo que havia ao meu redor começou a se desintegrar, como um castelo de cartas que desaba ou uma construção de areia na beira do mar, que se desfaz sob uma onda poderosa. Senti meu ânimo se recobrar enquanto, rápido como um raio, fui transportado dali para o meu leito, no escuro do meu quarto!

_______Minha recuperação psicológica, porém, não poderia ser assim tão rápida. Sentei-me na cama de um pulo, berrando e chorando muito alto, fazendo grande alarde. Hana levou um grande susto, perguntando apavorada: “O que foi? O que foi?”

_______Pulei da cama, olhei em redor. O quarto estava tenuemente iluminado pelos leds do aparelho de som. Levei alguns minutos para me certificar que estava mesmo em meu quarto, e que tudo continuava no lugar de sempre. Por fim, me senti aliviado. Foi um pesadelo? Naquele instante, eu tive a mais absoluta certeza que a resposta para essa pergunta era Não.

_______Sim. O nome de Jesus livra e liberta de todo o mal. Já o havia comprovado antes, mas jamais assim, tão literalmente na prática. Me coloquei de joelhos e agradeci. Respirei fundo. Voltei a deitar, e prometendo explicar tudo para Hana somente no dia seguinte, voltei a dormir, tranquilamente. Não me lembro de ter sonhado depois disso.

_______Por quê, nessa experiência, demorei tanto para recorrer a Deus? Por que tentei "dar o meu jeito" antes de pedir ajuda? Um dos aspectos mais estranhos da situação toda é que eu não me sentia eu mesmo. Todo o tempo era como se eu estivesse "no corpo" de alguma outra pessoa, vivendo a experiência de alguém, e não a minha própria. Ou como se a minha memória, a minha consciência tivesse sido completamente anestesiada. Porque o "eu" que conheço, se é que me conheço, em primeiro lugar e antes de qualquer coisa, pediria a ajuda de DEUS. O que essa experiência me mostra? Uma série de coisas importantes, que foram muito bem aprendidas, pois ficaram impressas, definitivamente, em meu coração e em meu espírito.


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

A arte da sinceridade



A arte mais difícil é a arte da confiança. - Que é a arte da fé. Quando você é jogado no olho da tempestade, não importam mais as suas elaborações, nem as suas teorias ou convicções bem estruturadas. Só vale o que você é, onde você está e em que se transformou até aqui.

_______Todos viemos ao mundo munidos de talentos próprios e muito especiais. Com esses talentos é que nos construímos, nos formamos, física, mental e espiritualmente.

_______Quando raios poderosos e fulminantes despencam ao seu redor, destelhando casas e derrubando árvores com estrondo ensurdecedor; quando você se sente sozinho, abandonado à própria sorte, e vê o quanto a sua permanência neste corpo físico é frágil; quando a expectativa de sofrimento iminente é real e próxima demais para ser ignorada... Nesse momento só resta o verdadeiro você. Ou o verdadeiro tu, como diriam os meus irmãos (de sangue) portugueses.

_______Agora é você mesmo. E Deus. Deus? Será? E se foi tudo paranóia, uma coleção de delírios e alucinações sem nenhuma relação com a verdade objetiva dos fatos???

_______Mas o mais complicado de tudo, sem dúvida nenhuma, é que eu sempre acreditei num Deus exigente, que me cobraria duramente por meus erros e fraquezas... Que será de mim se eu morrer agora, aqui, atingido por um raio? E se o raio não me matar, mas me deixar no chão, agonizante por um longo e tenebroso tempo, esticado no chão, sem poder me mover, sem poder me comunicar, apenas sentindo... Dor?

_______Nunca tive muito medo da dor. Mas não existe nada mais temível do que ela. Nada. Não existe nem pode existir nada pior do que a dor, nada mete mais medo. A não ser a agonia da perda da liberdade, ou a agonia do isolamento, talvez.

_______E eu ficaria sozinho, isolado, sem poder me comunicar, no chão, jogado, corpo queimado, sentindo a dor mais pavorosa que um homem é capaz de sentir, se um raio me atingisse de raspão.

_______De raspão, porque se me atingisse em cheio, a probabilidade de eu morrer instantaneamente seria maior...

_______Mas será que existe essa coisa de probabilidade? Eu não acredito em probabilidade. Mas quando há uma centena de raios explodindo ao seu redor, cortando o vento e a chuva gelada, quase fazendo estourar os seus tímpanos... A probabilidade de haver probabilidade é assustadoramente viável.

_______Pense nisso. A arte da fé é a arte da sinceridade - meditar sobre isso dia e noite.


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

O Livro Pessoal da Sabedoria




Introdução

Todos temos um Livro Pessoal da Sabedoria, que para algumas pessoas pode funcionar como uma espécie de manual para o Livro Sagrado, que por sua vez é como um manual para o Grande Livro da Sabedoria. - Que não é bem um livro, é mais como uma realidade transcendente, uma Energia ou Vida que permeia tudo o que existe.

_______Os livros sagrados variam conforme o lugar e a história, de acordo com as diferentes culturas, tradições e costumes de cada nação. Estão todos certos, todos esses livros sagrados, mesmo se contradizendo uns aos outros? São mesmo sagrados? Qual deles está mais próximo da Verdade? Isso eu não posso responder, porque, se o fizesse, já estaria sendo incoerente. Pretendo abordar essa questão nos primeiros capítulos.

_______Usar o termo “livro” para falar do Grande Livro da Sabedoria é um jeito de tentar formatar, tornar palatável à nossa razão humana algo totalmente incognoscível, inescrutável e indefinível; portanto, inclassificável. É preciso formatar ideias para que possamos aprendê-las.

_______Todos temos um livro pessoal, mas são bem poucos os que se dispõem a escrevê-lo. Quando lemos alguma coisa em palavras, - algo que foi entendido, racionalizado, pensado e escrito por outra pessoa, - imediata e automaticamente “escrevemos” uma versão do que estamos lendo em nossa própria memória, e também em nossa consciência. E mais conteúdo vai sendo acrescentado ao nosso Livro Pessoal de Sabedoria.

_______Um “livro pessoal” também é criado, revisado, ampliado e corrigido incessantemente, a cada nova experiência que vivemos. Isto é mais do que apenas a interpretação pessoal de cada um a respeito de tudo. É como um programa de computador dentro de nós, que vai sendo atualizado de acordo com os efeitos causados por nossas experiências e vivências cotidianas.

_______O Livro Pessoal não é uma cópia do Livro Sagrado, mas em certos casos, em certo sentido, pode ser considerado a versão adaptada do Livro Sagrado ao indivíduo que o produz. Por razões a serem ainda compreendidas, os seres humanos têm uma inclinação compulsiva para a autodestruição. Por isso mesmo, o Livro Pessoal é muitas vezes deformado e imperfeitamente adaptado, para servir a um único fim: a destruição completa do seu autor. Estas são versões corrompidas do Livro Sagrado, e por consequência o são também do Grande Livro da Sabedoria.

_______Livros que levam à destruição via de regra são versões falsas e corrompidas, pois o objetivo da Vida é a vida, e o Grande Livro da Sabedoria é como um produto da Vida. Por isso mesmo ele também pode ser chamado de Livro da Vida. Por um grande infortúnio, muitos corruptores do Livro da Vida se tornam líderes neste mundo. Eles se tornam líderes porque existem milhões de seres humanos procurando consolo, refúgido e conforto, e aceitam essas coisas aonde quer que as encontrem. Não questionam muito, pois pensam que questionar a mão que supre as necessidades - irreais, que eles criaram para si mesmos, - seria auto-sabotagem. Caminham para longe da Verdade. Chafurdam na lama. Tais líderes conduzem muitos ao erro, como cegos guiando cegos.

_______O Livro Sagrado não traz respostas particulares. É no Livro Pessoal que as encontramos. O Livro Pessoal tem todas as respostas, a respeito de todos os assuntos. É capaz de aplacar todas as nossas dúvidas, e tem todos os conselhos perfeitos no momento certo. Porém, justamente por ser pessoal, o Livro Pessoal nem sempre é infalível. E assim, precaução é uma condição imprescindível na sua confecção e leitura.


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Renovação




Sinto que o movimento começou. Sinto isso profundamente. Sinto, porque estou aprendendo a sentir, enquanto desaprendo a calcular.

_______Bertrand Russel empregou preciosos anos de sua vida para provar que um mais um é igual a dois. Ele produziu um grosso tomo apenas para esse fim! Depois da obra concluída, chegou à triste conclusão: foi uma perda de tempo... Já o seu ídolo Ludwig Wittgenstein só foi capaz de escrever sua obra magna, o Tractatus Logico-Philosophicus, depois de vivenciar, na guerra, uma experiência extrema e totalmente subjetiva, que mudou a sua vida para sempre.

_______Depois de compreender que realmente preciso (e porque preciso) escrever meu próprio livro, eu deixei de tentar provar coisas. Aponto, partilho, e não espero nada além de cumprir o que me foi confiado, que é apontar e partilhar. Se as pessoas apenas olharem para o que estou apontando, minha missão estará cumprida. Se elas serão capazes de ver, isso é algo que foge totalmente ao meu alcance. Por isso, preciso preservar a minha paz.

_______Então, eu sinto que o movimento já foi iniciado, e um som incômodo está se fazendo ouvir. É um som alto, estridente, que não pode ser ignorado, e não há mais como voltar atrás. Alguns ouvirão este barulho, e voltarão seus rostos em direção a ele, para ver do que se trata. Rezo para que tenham luz para saber compreender, e decidir se vale à pena considerar o que está sendo mostrado.

_______Jamais, nem em meus sonhos mais loucos, imaginei que meu papel seria grande assim. Hoje não tenho orgulho, nem vestígio disso; mas se tudo isso ocorresse há algum tempo, eu me sentiria orgulhoso, sim: me sentiria importante. E é por isso que está acontecendo exatamente agora. - Porque estou pronto. - Hoje eu tremo em pensar na responsabilidade, e é só. Isto e a alegria indescritível de, afinal, encontrar o Caminho de volta para casa. Ou talvez seria melhor dizer que encontrei a maneira correta (para mim) de seguir este Caminho. E o único modo é envolvendo meus próximos. Não há vida isolada em si mesma, porque a separação é uma ilusão. Ninguém será feliz enquanto não fizer aquilo que veio fazer, e a solução tem a ver com ser para os outros.

_______O outro é seu Salvador. O outro é oração e meditação. O outro é Deus. O outro é você. É difícil de entender, não é, meu velho amigo? Sei que não parece, mas eu também tenho essa dificuldade. Por mim, ficaria meditando o dia inteiro, lendo minhas coisas, aperfeiçoando meu intelecto, acariciando meu ego, acreditando firmemente que estou aperfeiçoando o meu espírito. E estaria me enganando, caminhando na direção contrária.

_______Estou vendo as coisas, aprendendo coisas, com tanta clareza e tão rápido que mal posso suportar. É difícil acompanhar a velocidade com que minha consciência está se expandindo, desde que comecei a escrever o livro.

_______Vejo... Entendo... Estou sereno e tranquilo, como nunca fui. Meus passos são ampliados. Cada passo meu, agora, equivale a mil passos de antes. Subo vários degraus de uma vez. Estou maravilhado, mas calmo e sem afobação, sem deslumbramentos. Porque eu já não existo mais.

_______Vejo uma leitora deste blog um pouco perdida, embora ela possua o mapa e a bússola, que recebeu ao vir para cá... Ela tem uma chave dentro do peito que a mantém incólume, por mais que caminhe em vales de trevas. Infelizmente ela foi seduzida, porque sua própria natureza benigna a leva a errar por todos os caminhos. Ela se fez quase 100% criança, por medo de sofrer, por odiar o conflito, e isto é uma desgraça. Ninguém pode ser 100% criança, como não podemos ser 100% pombos. Precisamos de uma parte serpente para sobreviver, para sabermos diferenciar o que é Salvação e o que é armadilha. Isto poupará muito sofrimento, muita dor, decepção, amargura... que em última análise podem trazer consequências catastróficas. Estou falando de dor grande, e é dor que se escolhe, ainda que sem saber. A dor, ainda que depurativa, deveria ser evitada, pois pode provocar sequelas muito difíceis de superar.

_______Então, esta leitora precisa aprender a ser serpente, a diferenciar coisas, a encarar seus amigos e inimigos e dizer: “Isto serve, isto não. Você vem comigo; você, para longe de mim!”. Isto é amadurecer espiritualmente. Aprender a dizer NÃO.

_______Me perdoem por não falar as coisas claramente, mas é assim que deve ser.

_______Há um outro amigo deste espaço que vem flertando com as trevas por um longo tempo. Mas a sua alma é pura e não se contamina, assim como a água não se deixa contaminar pelo óleo, ao menos não definitivamente. Um pouco de coragem e (verdadeiro) desapego, - desapego total, - e ele será livre e grande, com grandes capacidades a serviço da Verdade.

_______Estou muito, muito forte, e vejo muitas coisas ao mesmo tempo, e tudo tão claramente que não consigo acompanhar o que meu espírito aprende, com a velocidade de que sou capaz para registrar tudo em palavras. Ainda não sei como farei, mas terei que me dedicar integralmente a este maravilhoso exercício. Não posso mais realizar a missão da minha vida apenas em minhas horas vagas. Não sei como ficarão as questões práticas da minha vida, se elas serão relegadas a segundo plano e eu me tornarei um pedinte, ou se alguma outra solução surgirá para que eu continue me dedicando ao que realmente importa. Meu ego (no sentido budista) nunca esteve tão débil, e eu não me importo tanto com o que será do meu corpo, da minha carreira, das minhas posses, do meu estilo de vida... Essas coisas são tão fúteis, e tudo isso passa tão rápido! Mas sei que tudo irá bem, e no devido momento tudo se resolverá. E será breve.

_______Logo começarei a publicar o livro por aqui, em capítulos. E logo vocês terão explicações sobre tudo. Quem era a nova, quem era o velho, por que e por que e por que e por que...

_______Fiquem em paz; fiquem no Amor divino. Peçam por este Amor, e abandonem tudo por ele. É só o que importa. Acima de tudo, não tenham medo. As coisas não precisam ser tão radicais: cada um dê seus passos conforme a capacidade de suas pernas.

_______Em Amor fraterno


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Encontro

Continuação de "Conexão"




Alguma coisa chamou a minha atenção; uma mancha clara a se insinuar em meio ao escuro. Alguma coisa que se parecia com um homem. Olhei e vi uma figura elegante acomodada no banco de concreto que havia bem ao lado do casebre. Eu não me lembrava daquele banco ali, e pensei nisso, mesmo assustado como estava.

_______Fixei o olhar: era um ancião de aparência robusta, sentado com as costas bem eretas, pernas cruzadas e um jeito calmo. Usava uma camisa branquíssima de mangas curtas, que lhe caía muito bem, contrastando harmoniosamente com a pele bronzeada. Cabelos grisalhos muito lisos, fios semi longos cuidadosamente penteados para trás emolduravam uma face de contornos bem marcados, porém sóbrios, sobre um pescoço sólido.

_______Havia muito de ameríndio em suas feições, com vestígios caucasianos e talvez um quê de asiático. A fronte larga lhe conferia um ar de sabedoria, e um nariz largo acima de um sorriso sereno transmitia confiança. – Um homem grande com uma atitude amiga, que se tornou acolhedora quando ele se reclinou em minha direção.

_______De imediato ele me inspirou confiança. Fiquei olhando para ele sem saber o que fazer, me aproximar ou me afastar, esquecido de que tudo não passava de sonho. Mas o meu impasse não durou. O homem fez um gesto com a sua grande mão, convidando a me acomodar ao seu lado, no banco. Aquilo soou um pouco intimidante, e eu titubeei para aceitar o convite, antes de me deixar levar pela curiosidade e por alguma outra coisa.

_______Me aproximei devagar, sem saber o que fazer, pois eram um homem e uma situação bastante estranhas. Talvez estender a mão e me apresentar, como seria de bom tom. Mas ele não se moveu, somente moveu o olhar, e a expressão em seu rosto me acalmou. A mãozona suspensa em minha direção, aberta, convidando-me a me aproximar...

_______E sem saber como me opor ou protestar, caminhei até o ancião grande ameríndio elegante sereno. Com curiosidade, mas com calma.

_______Ao me aproximar, ele se chegou um pouco para o lado, para a sua esquerda no banco, não propriamente para liberar espaço para que eu me sentasse, pois ele já estava acomodado no canto, e já havia espaço de sobra para eu me acomodar. Era muito mais uma maneira de dizer que eu era bem-vindo.

_______Eu ainda fiquei olhando para ele, que tinha uma expressão ao mesmo tempo sábia e amiga, mas não o suficiente para dissolver minha desconfiança. Então o sorriso se desvaneceu em seu rosto, e me fitando com olhos negros muito profundos, ele falou:

_______“Não se preocupe. Não vou pedir a sua confiança, e não espero isso. Eu procuro o mesmo que você, e sirvo ao mesmo Senhor. Me fiz escravo por vontade própria, e renego tudo que renegue o Sacrifício do Cordeiro. Sendo escravo, sou livre, e somente por isso o nosso encontro foi possível. Por estar pronto, você precisa da confirmação. Eu a dou: há um só Deus e um só Caminho.”

_______Sua voz é grave e poderosa. Ecoa como vento de tempestade sobre o campo gramado; reverbera nos troncos, nas copas das árvores. A última frase é pronunciada de maneira mais acentuada, e os gestos se tornam elaborados. Ao dizê-lo, esconde a mão sob a gola da camisa por um segundo, e logo em seguida, para o meu espanto, retira um crucifixo de prata que trazia pendurado numa corrente, em volta do pescoço largo. É exatamente igual ao meu crucifixo abençoado, que levo sempre junto ao peito, preso à corrente de prata que ganhei de minha filha! Imediatamente levo a mão ao peito, e percebo que estou usando também o meu crucifixo.

_______Aquele gesto e aqueles dizeres me acalmaram, e a voz do ancião, perfeitamente compatível com seus gestos, reconfortantes e amigos, me animaram a aceitar o convite. Acomodei-me no banco, ao lado do ancião, e então me senti curioso e empolgado...

_______Sentado, fiquei de frente para o casebre, e experimentei uma sensação gélida no fundo do estômago: A porta estava aberta! Não estava aberta há um segundo, pois eu havia acabado de rodear a estrutura toda, duas vezes, e com toda a certeza teria reparado se estivesse. Ou não?

_______Por um instante meu olhar se concentrou na escuridão profunda atrás da porta aberta. Senti um princípio de enjôo e retomei a consciência de que aquilo tudo era parte de um sonho. Mesmo assim, num instante completamente ilógico, vi matas, águas e prados luxuriantes se manifestarem diante de meus olhos não físicos. O silêncio era absoluto, mas eu tinha a incrível sensação de que os sons de todo o Universo estavam contidos naquele Silêncio. Minha visão viajava a uma velocidade estonteante, longe do parque, do casebre, de todo o contexto, e vivi a indescritível experiência de sonhar dentro do sonho. Ou algo assim.

_______“É preciso avançar. Não só a sua, mas outras vidas precisam dos seus passos decididos, da sua coragem. É preciso ir além. É preciso descer do Livro.”

_______A voz do ancião ressoou novamente, através do vácuo de minhas visões insólitas, de revoadas de borboletas, das libélulas pairando como bailarinas sobre a superfície espelhada de lagos repletos de luz, dos cardumes de peixes multicoloridos em apoteose, do nado gracioso de baleias, do dançar de pássaros...

_______“É preciso instalar o fato no lugar da interpretação, o modelo original no lugar da representação, a alma no lugar da casca...”

_______Uma coruja parda, de plumagem ricamente desenhada em tons de claro e escuro, planou diante de mim, surgindo de grandes alturas, e pousou graciosa sobre um tronco retorcido, tombado e coberto de limo, entre mim e o casebre que tantas expectativas me trouxera. Com a coruja, minha consciência retornou ao ambiente do parque, e tudo se tornou sólido novamente. - Tanto quanto é possível num sonho.

_______Olhei para o lado buscando o ancião, e levei um susto: ele não estava mais elegantemente sentado ao meu lado; estava a dois ou três passos distante do banco, deitado sobre a grama.

_______Por um segundo pensei que sentia alguma vertigem, ou que tivesse caído, tropeçado numa pedra ou algo assim. Mas logo percebi que ele, de costas para mim, parecia entretido com algo ali no solo. Me aproximei, curioso, contornando o corpanzil ali deitado, passo ante passo, e vi que o ancião tinha um sorriso angelical. Estava observando formigas, que carregavam grandes pétalas amarelas numa fileira longa e impecável, passando sob raízes da grama e folhas soltas, escalando torrões de terra e gravetos como se fossem obstáculos titânicos.

_______Depois de longos minutos naquela situação estranha, eu de pé, encurvado, e ele deitado, olhando formigas, ele finalmente elevou os olhos em minha direção e disse: “Só as crianças têm o privilégio de ver o outro mundo. E é um mundo muitíssimo mais vasto...”.

_______Voltou a olhar apaixonadamente para as formigas, e depois de algum tempo, transparecendo muito pesar por ter que deixá-las para voltar a prestar atenção em mim, se levantou com grande agilidade, e me olhando nos olhos completou a frase: “...mas as serpentes são astutas, e é bom ser astuto no seu mundo. Este é um exemplo perfeito de paradoxo da Sabedoria Divina para a vida”.

_______Aquela fala mexeu comigo. Considerar a pureza e a astúcia não como forças antagônicas, mas energias irmãs e complementares, virtudes igualmente importantes para um buscador, abriu minhas perspectivas da Verdade, ela que quase sempre nos chega por trás das pequenas verdades que nossos orientadores espirituais conseguem nos transmitir. Na maioria das vezes precariamente.

_______Digo que apenas essa abertura de consciência já teria feito valer a pena a experiência toda, desde que encontrei a menina no parque (na verdade ela me encontrou). Mas eu senti, naquele exato instante, uma curiosidade irresistível: o que eu haveria de aprender ainda com aquela estranha figura? Pensei isso porque, mesmo tendo me entregado uma grande chave a ser usada na Arte das artes que é a vida, ele ainda continuava ao meu lado, e me encarava. Algo grande ainda estava por vir, eu sentia, e possivelmente o principal.

_______Depois de uma longa pausa fitando aqueles olhos de imensa profundidade, baixei o olhar por um instante e notei que a camisa bem passada que ele usava não era totalmente branca, como eu imaginara em princípio: o tecido tinha finas linhas num tom cinza claro sobre o fundo branco, formando um xadrez suave.

_______“Sua estrutura espiritual é poderosa, incomum; mas não está bem fundamentada. A magnitude de todos os talentos que lhe foram concedidos é grande demais para ser sustentada por um só pilar.”

_______Ao pronunciar a palavra “pilar”, sua voz mudou de tom, e ele sorriu de um jeito maroto, dando-me a sensação de que iria piscar um olho, mas acho que não o fez.

_______“Você diz que se apóia em pilares, mas você sabe que vem tentando se equilibrar sobre um único pilar. E é um pilar com muitas imperfeições, irregular e incerto. Só o Livro não basta.”

_______Então compreendi o que ele estava dizendo, e senti medo. Estaria eu sendo tentado? E, finalmente, perguntei a ele quem era. “Quem é você?” Esta era a maior e única pergunta naquele momento, a questão que ocupava todo o espaço no meu entendimento. Sem uma resposta, eu sairia dali imediatamente, correndo, sem olhar para trás. E ele disse:

_______“Isso você terá que descobrir por si mesmo. E você saberá quando começar a escrever seu próprio livro; é isto que importa agora. Escreva o seu livro. Este será o novo e necessário pilar que vai lhe restituir o equilibro. Equilibrado, você será um gigante; vai mudar contornos nos mapas e o relevo da Terra por onde passar. Vai entrar nas mentes e realizar o propósito que lhe foi confiado: salvar vidas.”

_______Ao dizer isso, ele empertigou o corpo, e eu fiquei assombrado. Naquele momento, o homem parecia ter mais de dois majestosos metros de altura! E era belo. Seus olhos faiscavam em minha direção, do topo de sua magnífica estatura, e seus contornos pareciam emoldurados por um halo prateado, formado talvez pela luz da Lua atrás de sua silhueta grandiosa. Impressão ou ele aumentava, ainda, de tamanho?

_______Pisquei ou me distraí, e já não havia mais ancião, não havia mais voz de trovão e nem olhos incandescentes a me encarar. Só o banco de concreto, o verde do parque iluminado pela Lua. Virei-me e vi o casebre. A porta agora estava fechada.

_______Havia acabado de acontecer, afinal, o encontro sobre o qual eu tinha fantasiado, no lugar indicado pela menina estranha, naquela minha tarde de folga no parque? Num admirável lampejo de racionalidade, pensei: “preciso acordar e registrar tudo o que houve, e principalmente o que ele me disse, para que amanhã não me esqueça”.

_______Concentrei-me e tentei acordar, me abstrair daquele ambiente de sonho e sentir o meu corpo acomodado na cama. Lapso. Treva. Sinto-me deitado, o edredom enrolado em minhas pernas, o travesseiro dobrado sob meu pescoço. Tento mexer o dedão do pé direito, minha tática para quando fico nesse angustiante estado meio dormindo meio acordado, o que é comum para mim. Depois de algum esforço, costuma funcionar, mas dessa vez estava muito difícil. Não consigo mover o dedão.

_______Começo a ficar ansioso, mas não me deixo levar, e por fim relaxo. Lapso. Treva. Ouço gritinhos histéricos de criança. Vejo vultos e manchas tênues de luz. Cores. Estou de volta no parque. Sentado no banco. Gritinhos e risos de criança. Olho por sobre meu ombro direito e vejo, no campo gramado abaixo, duas crianças brincando.

_______Então me levanto e desço as mesmas escadas que, durante o dia, tinha subido, para chegar ao platô do casebre, quando acordado. Ao final da descida, reconheço as crianças: são a menina de olhos claros aberrantes e o menino rechonchudo! Ela corre e rodopia, executando “estrelas” muito corretas sobre o solo, e pede insistentemente ao menino: “Segura ‘meus pé?’” – Mas ele a ignora, e ela: “Eu quero ‘plantá’ bananeira”...

_______Eu percebo que a roupinha da menina é a mesma de quando a encontrara naquela tarde incomum. Ela se joga no chão. Me olha. Agora seus olhos não são mais como lamparinas azuis: são negros e profundos. Ela aponta o dedinho indicador em minha direção, num gesto que diz: “Lembre-se de tudo!”...

_______E eu acordei, imediatamente.

_______Hana não está ao meu lado. Não sei como não acordei quando ela se levantou para ir trabalhar, pois eu sempre acordo quando ela se levanta, e sempre acordo quando ela me dá um beijo e me diz "te amo" antes de sair, às 6h20...

_______E a primeira coisa que pensei, ao acordar, foi: “afinal encontrei a Verdade, no lugar que a menina me indicou?” - Levantei de um só impulso e, abrindo portas e gavetas no meu quarto, comecei a procurar algum dos meus cadernos de anotações, que tivesse algumas folhas em branco... Achei. E escrevi.




( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Mantra cristão

Especialmente para cristãos: por que chamar à palavra-prece de “mantra”?


"Levando-nos ao momento presente para além do eu, o mantra atravessa a estreita porta que nos leva à Cidade de Deus."
(John Main, Word Made Flesh)



A Tradição da prece-palavra (a fiel recitação continuada de uma palavra sagrada na mente e no coração) é uma venerável tradição do cristianismo. É possível que tenha se iniciado com a reverência pelo nome de Jesus (ao qual "todo joelho se dobrará", conforme Fl 2, 10). Mais tarde, essa utilização do Santo Nome também se estabeleceu nas várias formas do hesicasmo e na Prece de Jesus da Igreja Ortodoxa. Dessa prece, o primeiro mestre da Igreja no Ocidente foi João Cassiano (leia textos aqui).

_______Encontramos a primeira descrição detalhada dessa forma de prece na tradição do Deserto, na conferência número 10 de Cassiano. Ali ele recomenda o verso (Salmo 69, 2) “Vinde, ó Deus em meu auxílio! Socorrei-me sem demora!”... Mil anos depois, na Inglaterra, o anônimo autor da obra mística "Nuvem do Não Saber" recomenda a mesma forma de prece, sugerindo porém, o uso de uma única palavra monossilábica, tal como “Deus”.

_______No século vinte, John Main herdou e transmitiu a mesma tradição, recomendando a oração cristã aramaica primitiva “Maranatha”. Trata-se de uma frase da Escritura que signica “Vinde Senhor” (1Cor 16, 22), na língua empregada por Jesus, o Aramaico, e que é uma frase sagrada das primeiras Liturgias cristãs. Existem muitos outros exemplos de sugestões de palavras-prece na história das orações cristãs, que refletem a especificidade das épocas ou da personalidade dos mestres de prece que conduziam outras pessoas para o silêncio contemplativo e a quietude (hesychia) do coração. Um ponto comum dessa tradição é a ênfase na repetição continuada da palavra, com aprofundamento da fé e da fidelidade a uma mesma palavra, à medida que ela lança raízes no coração e se abre para a Graça da contemplação.

_______Aqueles que se utilizavam do nome Jesus, se referiam à palavra simplesmente como “o Nome”, ou o “Santo Nome”. Cassiano, não recomenda o nome e se refere ao verso que ele sugere como uma “fórmula”. Esse têrmo significava “regra ou princípio”. Ou seja, a “fórmula” não possuía um significado especificamente sagrado, mas se referia a um modelo, ou a utilização padrão da mesma palavra ou frase, recitada fielmente, em toda e qualquer condição da mente, conduzindo a pessoa que ora à pobreza espiritual (estado de total desapego às posses materiais em nível espiritual profundíssimo).

_______John Main se refere à palavra-prece como “a palavra” ou o “mantra”. Por que é que ele se utiliza do termo “mantra”, sendo que esse termo, por força do hábito, está profundamente associado às formas orientais de meditação?

_______Para entendermos, precisamos relembrar o ambiente religioso que cercava John Main quando ele pessoalmente recuperou e começou a ensinar Meditação Cristã. Antes de abraçar a vida monástica, John Main havia feito um primeiro contato com essa prática no Oriente, ainda que ele sempre a tivesse praticado como uma forma de contemplação cristã. Foi ali que ele fez seu primeiro contato com o termo “mantra”, que carregava o sentido de uma “palavra ou fórmula, recitada ou cantada como um encantamento da alma ou oração”. Vinte anos depois, ao fazer uma releitura de Cassiano e encontrar essa mesma forma de prece na Tradição Cristã, ele retomou sua própria prática, sendo levado a vislumbrar a sua reallidade e a sua importância para a espiritualidade cristã contemporânea universal.

_______Por volta de 1975, variadas formas de meditação oriental haviam se tornado populares no Ocidente, particularmente a Meditação Transcendental. Desse modo, a palavra “mantra” já estava enraizada no linguajar popular. Atualmente a palavra se encontra no Dicionário Oxford da língua inglesa, ali definida como “texto ou passagem sagrada”, tendo sido pela primeira vez utilizada em inglês no já longínquo ano de 1801. Atualmente, essa palavra há vem sendo frequentemente utilizada num contexto secular, para se referir às repetidas promessas dos políticos!..



II

Algumas pessoas podem se sentir confusas com relação à palavra “mantra” num contexto cristão, em função da associação com a Tradição Oriental. Entretanto, desde 1975, quando John Main usou-a como um termo cristão, ela se tornou familiar para muitos cristãos. Podemos hoje dizer que ela se tornou parte, também, do vocabulário da espiritualidade cristã, assim como muitos conceitos antes exclusivamente cristãos foram adotados por religiões orientais. Graças a Deus pelo universalismo, que aproxima culturas, corações e almas!

_______Da mesma maneira, a mais completa importância da palavra “meditação” que, é claro, remonta às raízes da tradição cristã, também precisa ser recuperada para ser entendida em seu sentido original, contemplativo. A meditação, para muitos cristãos, se tornou restrita à oração mental, com o emprego do pensamento e da imaginação, especialmente na reflexão sobre as Escrituras. Esta é uma forma de oração de muito valor, que também é, algumas vezes, melhor descrita como “Lectio”. Em seu sentido original de conduzir à prece não discursiva, silenciosa e sem imagens, a meditação também se popularizou no Ocidente através de métodos e espiritualidades orientais. O desafio ao qual John Main se propôs foi o de restaurar e reafirmar o mais completo significado da “meditação” no mundo cristão.

_______Há, então, dois motivos que justificam o uso do termo “mantra”. Primeiramente, por ele ter adquirido uma utilização universal, sendo largamente compreendido também no contexto cristão. Em segundo lugar, porque para que algumas pessoas aprendam a dimensão contemplativa da prece pela primeira vez, isso pode demandar uma determinada discussão e reflexão cuidadosa. O incentivo para se pensar acerca do significado de “mantra” e “meditação”, pode ser um estímulo para que o cristão moderno entenda e recupere a dimensão contemplativa de sua fé e de sua vivência da prece. O caminho para a Comunhão Universal passa pela orientalização dos ocidentais e a ocidentalização dos orientais, até onde isto seja benéfico para todos.

_______Um público mais tradicional poderá demandar o auxílio sensível da pessoa que esteja apresentando a Meditação Cristã. Assim, a palavra mantra pode demandar explicação quando for utilizada pela primeira vez em uma aula introdutória. Por exemplo, ao apresentar a Meditação Cristã para um público novo, será de bom alvitre utilizar antes o termo palavra-prece. Então, ao ponto em que a apresentação recomenda uma palavra específica, por exemplo, Jesus, ou Abba ou Maranatha, o conferencista poderá se referir a elas como sendo “palavras sagradas" ou "mantras cristãos primitivos”, que é o que de fato são.

_______A atenção a essas sensibilidades e a esse pano de fundo, tem sido a experiência da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, hoje presente em mais de cem países, a de que o termo “mantra” não é de modo algum impedimento para a transmissão desse ensinamento. O maior desafio é o de auxiliar as pessoas, que já oram de maneiras sacramentais ou devocionais, a compreender, por experiência própria, o mais completo significado da contemplação e da prece do coração. Ainda que, para algumas pessoas, o termo “mantra” possa causar uma confusão inicial, ao receberem o auxílio para a compreensão de seu significado, isso as ajudará a captar melhor o que a própria meditação significa, como um caminho que vai além das palavras, pensamentos e imagens, na direção do Silêncio de Cristo. Isto está expresso na prece de abertura que John Main compôs para a Meditação Cristã:


"Pai Celeste, abre meu coração para a silenciosa Presença do Espírito de teu Filho. Conduze-me àquele Silêncio Misterioso no qual se revela teu Amor por todos os que clamam Maranatha; vinde Senhor Jesus."


Laurence Freeman OSB


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Conexão

Continuação de "Interlúdio"

Sim, meus queridos amigos. O que aconteceu depois foi muito mais importante do que o que aconteceu durante a experiência em si. Se bem que eu não saberia explicar exatamente onde termina e onde começa a experiência toda. Quando vi a menina estranha, tive um choque. Depois que ela se aproximou de mim e me disse que eu estava pronto, e que a Verdade estava a minha espera(!), minhas expectativas foram às alturas. E eu fui muito rápido em imaginar que a menina era algum anjo, que eu estava prestes a travar um contato imediato de altíssimo grau com as Realidades Celestes.

_______E não foi bem assim. Ao menos não como eu imaginava. Aliás, aí se encerra um segredo da vida. As coisas não são como imaginamos, e às vezes (ou sempre) é muito difícil aceitar isso.

_______Infelizmente, a continuação deste post demorou mais do que eu estava imaginando em princípio, e os detalhes destes acontecimentos estão começando a ficar um pouco mais difusos em minhas lembranças. O que sei com certeza é que naquele dia voltei meio transtornado para casa. Hana chegou mais tarde e conversamos a respeito de tudo. Ela é muito mais simples do que eu para questões transcendentais, chegando a parecer pragmática de um jeito tipicamente feminino. Para ela, se de repente as paredes começarem a falar, ela simplesmente vai bater um papo com as paredes, sem questionar como ou por quê. E tudo que ela me disse foi: “Que interessante... Algum motivo isso teve para acontecer”...

_______E depois de um jantarzinho romântico tipicamente paulistano na pizzaria próxima de casa, a história toda já não me parecia tão importante assim...

_______Voltei para casa meio “alto” depois de duas cervejas e alguns goles na taça de Saint Remy de Hana. E depois de uns quinze sonolentos minutos de TV na sala, fui dormir sem nenhum vestígio dos estranhos acontecimentos daquela tarde na memória.

_______Deitado em minha cama, coberto até o pescoço, olhando para o teto, meu último lampejo de consciência, antes de me desligar totalmente deste mundo de confusões, foi: “fim do meu dia de folga”...

_______E estava novamente no parque. Em sonhos.

_______Era como se tivesse me levantado da cama e caminhado até lá, pois não me sentia como em sonho, mas como se estivesse acordado. Sentia cansaço, respirava pesadamente, sentia os espinhos do gramado sob a planta dos meus pés, já que estava descalço.

_______Noite, o parque vazio, mas a lua nova iluminava a grama, as pedras, as árvores... e o casebre.

_______Sim, lá estava eu no mesmo lugar, no alto do platô gramado, diante do casebre. Mas agora tudo estava mais calmo e silencioso. Apesar de todo o realismo, no entanto, eu sabia que não estava ali, fisicamente presente, e sabia que toda aquela situação era de sonho. Por isso, achei que era essa a explicação para uma sensação extremamente agradável que eu experimentava.

_______Era muito bom estar ali. Um prazer imenso afogava qualquer vestígio de outros sentimentos, e assim me deixei cair de costas sobre a grama, que me acolheu morna e macia. Ali permaneci deitado, completamente relaxado, olhando o céu limpo e a Lua clara, a me sorrir e perguntar: “Por que vocês complicam tanto a vida?”

_______As copas das árvores se moviam como que em câmera lenta, os ramos das pontas dançando graciosamente ao som da brisa que os acariciava gentilmente. Como é doce a noite. E suave...

_______Me absorvi em devaneios sem razão e sem sentido, até a sombra do casebre ali ao lado fazer com que eu me movesse. E a mesma coisa que fizera algumas horas antes, acordado, repeti ali em sonho. Caminhei em volta do casebre, rodeei-o completamente duas vezes, antes de perceber que, então, não havia nenhum buraco na parede. Não havia espaço aberto pela falta de dois tijolos: toda a singela construção estava íntegra, e não seria possível espiar o que havia dentro dela.

_______Num instante me lembrei do sentimento de frustração que experimentara ao olhar para dentro daquele aposento e ver, em meio ao escuro, uma máquina desengonçada, algumas latas de lubrificantes e nada mais.

_______Eu nunca tentei interpretar o que acontecera. Em nenhum momento quis encontrar algum significado mais profundo para uma máquina e algumas latas dentro de um velho casebre, no meio de um parque público. Não busquei pela “moral da história” nem quis ler uma mensagem dos Céus naquela situação tão banal. Apenas aceitei que tudo, por mais incomum que parecesse, não passara de... uma sequência de acontecimentos um pouco... bizarros.

_______Bizarros, porém totalmente naturais, isto é, comuns, ordinários, sem nada de místico ou mensagem sobrenatural envolvida. Uma criança de aparência um pouco incomum me dissera uma frase sem sentido, que por uma incrível coincidência fazia um sentido muito especial para mim. O resto foi um delírio, uma sucessão de expectativas grandiosas porém vazias, criadas pela mente imaginativa de alguém que queria acreditar.

_______Mas lá estava eu, em sonho, diante do casebre, e era um sonho bem vívido. Eu já contei aqui que costumo ter sonhos lúcidos, isto é, saber que estou sonhando enquanto o sonho acontece? Acho que sim, acho que não... O fato é que ali, no sonho, mais uma vez desisti de encontrar alguma coisa especial no casebre que a menina esquisita me indicara. E me preparava para ganhar novos cenários oníricos, curioso em saber o que viria a seguir, quando algo muito importante aconteceu. Algo que viria, finalmente, a dar sentido para a minha estranha experiência no parque...

Ler a continuação...


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Skellig

Por Dom Laurence Freeman OSB - Agosto de 2010 (tradução: Roldano Giuntoli)




Às vezes, é melhor não saber tudo. À medida que nosso pequeno barco abria um sulco nas ondas, em direção a Skellig, uma peregrina inglesa, incerta quanto ao significado da peregrinação, perguntou: “Que raios é que os levou a vir até aqui?” Ela se referia aos monges celtas que, entre os séculos sexto e décimo terceiro, rezavam no alto dessa ilha rochosa, fustigada pelas ondas, que se eleva a 250m, pairando acima do mar a cerca de 50 km da costa de Kerry. Se havia uma resposta, ela estava perdida em meio ao vento e à espuma.

Um vizinho irlandês tinha aspecto menos ingênuo, mas não disse nada. Ainda que ele tivesse substituído a magia branca do catolicismo irlandês pelos encantos da nova era, parecia haver sobrevivido nele uma compreensão mais inalienável acerca do extraordinário local que visitávamos.

As preces mais bem atendidas são aquelas que nunca pedimos. Assim, nos pareceu pura graça, logo que, por capricho, o sol espantou as nuvens. Chegamos à ilha monástica na mais pura e lúcida glória do dia, o vasto céu azul, o mar suavemente ondulado e as duas ilhas Skellig: uma um santuário para os pássaros, a outra um santuário para a alma.

Costumamos filtrar a cegante luz do Sagrado com coisas mundanas. Assim, conversamos sobre os dois turistas que morreram em Skellig no ano anterior, e ouvimos os repetidos avisos dos curadores do universo insular quanto à segurança e à saúde. O farol do outro lado da ilha hoje é automático, mas no passado três mantenedores, e suas famílias, ali viviam por semanas a fio, aprovisionados e transportados por heróicos marinheiros dos barcos dos faróis irlandeses, sendo que o capitão de um deles foi meu avô, Mike Sullivan. Faziam-se necessários três mantenedores, para o caso de um deles enlouquecer; os outros dois poderem controlá-lo. Talvez pela mesma razão, eles ainda tenham três curadores. Eles são arqueólogos, mas, secretamente movidos pela mesma paixão pela solidão, tal como os mantenedores e seu predecessores monásticos.

Panorâmica das Ilhas Skellig

Acerca da história de Skellig, quase nada se pode afirmar com certeza. Todavia, tal como os sítios históricos da Terra Santa, ou o aspecto "o que realmente aconteceu" das histórias dos Evangelhos, isso na verdade não importa. O que importa é o quanto estamos presentes para aquilo que o local ou a Palavra nos diz no momento. Galgar os 500 degraus é um trabalho árduo, e uma pétrea alegoria da ascese da alma.

Assim como na vida, há alguns patamares de descanso, mas não há como voltar. Senti minha primeira manifestação do ego, de possessividade sobre a ilha, quando outros visitantes se intrometiam no curso de meus pensamentos, ou interrompiam a cadência de minha subida ao bloquear os degraus para tirar fotografias. Os monges que escolheram vir para cá devem ter se familiarizado muito com seus egos, para poder sobreviver.

Eles viviam em um recinto murado compacto, de seis cabanas em formato de colméia, em pedra, uma delas a cozinha, e a área comum, e dois oratórios, numa curva abrigada do cume. Uma das muitas lendas, que data de 1400 dC, diz que Daire Domhain, um "rei do mundo", aqui veio para recuperar suas forças antes de uma batalha épica. Se o seu título pode parecer exagerado, talvez seja apenas, e compreensivelmente, porque ele se sentia estar realmente no topo do mundo, quando olhava a seu redor do alto do cume de Skellig.

O que mais nos impressiona aqui é o paradoxo de que este local remoto, e muitas vezes inacessível, tanto era um local de solitude quanto de comunidade. Se você quisesse fugir de tudo e de todos, por quê vir com um grupo de doze pessoas, e compartilhar sua cabana com duas outras pessoas? Há ruínas de um eremitério individual no topo do cume sul, porém, este era um local para preces e vida solitária em grupo. Havia uma vida comunitária de refeições e de preces, e deve ter havido tarefas que precisavam ser feitas. Havia jazigos no pequeno cemitério, plantio em um não muito maior canteiro de vegetais, a coleta da água da chuva das cisternas ou de ovos de gaivotas. Não se trata da ‘solitude’ das moradias de solteiros no individualismo urbano, a kitinette ou o apartamento de solteiro. É extraordinário o quanto a vida deles aqui deve ter sido comum.

Sim, de fato: “Que raios é que os levou a vir até aqui?” Se você puder deixar de lado a sua câmera, por alguns momentos, e se você ficar meia hora no interior de uma das cabanas, você sentirá em você mesmo um tipo de resposta: repulsa ou alegria. Ou eles sofriam de fobia social, ou então, eles haviam encontrado algo que os levou a vir para cá de modo a poderem vivenciar este algo mais plenamente.

Muito provavelmente eles já haviam se apaixonado por aquele único Amor do qual você nunca mais se distancia. Na verdade, quando os monges deixaram o local, Skellig se tornou um local de peregrinação e penitência. Havia uma rude atração por sua dura beleza. No entanto, a princípio, foi um santuário de intimidade, paz e puro Amor.

Dom Laurence Freeman OSB


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

"Interlúdio"

Continuação de "Ansiedade"



Respiro fundo e me convenço que é inútil tentar me enganar: eu vou olhar, e sei que vou encontrar, lá dentro, algo que me fará completamente diferente daquilo que eu era ao chegar naquele parque, naquela tarde de inverno atipicamente quente...

_______O ar parece denso, os piados dos pássaros ecoam lentos, anormais. A situação tem um quê de assustadora, intimidante. Tento evitar a tensão, mas sinto meu corpo inteiro retesado, e a transpiração fria já é mais do que uma hipótese.

_______Em passos lentos e calculados, me aproximo da parede branca esverdeada pela ação da umidade. Acho que não queria estar ali. Preferiria sair correndo e voltar para o conforto da minha casa, das minhas convicções prontinhas e familiares...

_______Mas não posso fazer isso; eu não fui feito assim. Me aconchegar em minhas certezas seria uma vergonha para qualquer membro da minha família espiritual, e eu não suporto me sentir envergonhado. Acho que meu velho sensei cumpriu bem o seu papel, na tarefa de me dar vergonha e me fazer optar sempre pelo caminho dos bravos. Por mais que se trema. É o que eu sempre faço.

_______Sempre a escolha dos bravos. E olhar naquele buraco exigia uma dose generosa de bravura. Definitivamente a situação toda era muito estranha, e as circunstâncias que haviam me levado a estar frente a frente com aquela parede branca meio esverdeada, com portas azuis trancadas e um buraco na parede bem acima da minha cabeça, eram extremamente intimidantes.

_______Também tenho um lado prático predominante: se não há outro jeito, encarar de uma vez. Inspirei fundo, desliguei a máquina de pensar por um segundo e me ergui na ponta dos pés, posicionando meus olhos à altura da abertura, me esforçando para não fechar os olhos. E olhei.

_______Olhei dentro do buraco. Mas com minha cabeça diante da abertura, eu mesmo impedia a fraca luminosidade de penetrar o ambiente, e apenas escassos filetes de luz avançavam, tímidos, no meio da treva, fazendo cintilar algumas partículas de poeira esvoaçantes.

_______Depois que se dá o primeiro passo, ignorando o medo, a coragem se manifesta. O que poderia me aguardar dentro do casebre? Num primeiro momento, o escuro só me deixou perceber, lá dentro, uma mancha escura e informe junto ao piso.

_____Apertei meus olhos, tentando acurar a visão, mas por longos segundos não pude ver nenhum detalhe. Só depois do que me pareceu uma longa eternidade, meus olhos começaram a se adaptar ao escuro, e enfim consegui enxergar o que me aguardava dentro da casinha rodeada de vegetação, no alto do aclive gramado, no meio do parque...

_____Duas semanas depois do ocorrido voltei ao parque, fui ao mesmo lugar, subi o mesmo aclive, levando uma máquina fotográfica. Pensei em fotografar o lugar para ilustrar estes posts. Na ocasião fotografei o que eu vi no interior da casinha. O que havia lá dentro? Isto.

_______O que é isto? Não sei dizer com certeza, mas faço ideia. E posso garantir que não tem nada a ver com o que eu esperava encontrar ali. Absolutamente nada que pudesse ter alguma relação com a experiência toda, a menina estranha, sua fala imensamente mais estranha, e todo o rico universo de expectativas gerado em mim a partir dali.

_______Fiquei ali por longos minutos, me esticando na ponta dos pés, olhando para dentro do buraco, até as articulações dos meus calcanhares começarem a doer, e até a dor se tornar insuportável. Desci à altura ordinária dos homens comuns, absurdamente frustrado, decepcionado, confuso e atordoado... Voltei a alinhar meus olhos ao buraco várias vezes, e repeti o mesmo exercício de frustração, decepção...

_______Depois de inúmeras tentativas de enxergar alguma coisa que só existiu nas minhas fantasias, sem sucesso, me apoiei de costas contra a parede e deixei meu corpo escorregar até o solo. Sentado na relva, percebi que a noite começava a se pronunciar. Meus olhos ficaram, por outra eternidade, olhando o verde que começava a se tornar acinzentado, naquele parque agradável, logo abaixo. Depois olhei para o céu azul-veludo e vi a velha Lua a rir de mim.

_______O quê? Por quê?.. Louco, eu? Mais do que já imaginava? Esquizofrenia? Coincidência? Delírio?..

_______Delírio... Talvez aquilo que a menina esquisita havia me dito não tivesse nada de transcendental, e eu tivesse o tempo todo fantasiado uma situação que nunca existiu. Claro, seria uma coincidência titânica uma menina de aparência angélica (ou fantasmagórica) aparecer e me dizer que eu estava pronto, e que a verdade me esperava num determinado lugar, nada mais nada menos que um casebre ao melhor estilo Willian P. Young...

_______E depois... O que acontece depois? Nada. Nenhuma visão maravilhosa, nenhuma epifania, nenhum contato com o além, nenhuma revelação sobrenatural de verdades supremas...

_______Então tudo fora apenas o resultado da soma de uma tolice comum de criança e as minhas tendências megalomaníacas? Tenho que confessar que aceitar isso me soava tão incrível quanto a menina ter sido a portadora de alguma mensagem dos reinos espirituais endereçada especialmente.

_______Mas, bem, meus queridos amigos, se tiverem um pouco de perspicácia, vocês certamente poderão imaginar que, se a história toda terminasse aí, eu não teria me dedicado ao trabalho e ao prazer de voltar a escrever neste blog. Não. Tudo que contei até aqui representa apenas o começo de uma história que trouxe consequências concretas importantíssimas em minha vida, mudando o meu modo de pensar e de ser. E me fez voltar a escrever no a Arte das artes...

Ler a continuação


( Comentar este post __ Ver os últimos comentários