Como vão vocês, meus amigos?




Esta semana está excepcionalmente calma por aqui. No bairro onde moro, muita gente foi viajar, e desde o dia 24 há uma calmaria no ar, um torpor, uma modorra que, por um lado, não deixa de se traduzir inquietante e estranha para um paulistano adotivo de boa cepa, como eu...

Tirei estas duas semanas, a do Natal e a do Ano Novo, de folga do trabalho, para descansar um pouco. 2009 foi um ano bastante corrido para mim, principalmente os dois últimos meses. Mas esses dias que a gente tira de folga no final do ano acabam se revelando mais cansativos que os dias de trabalho normal, isso é o que eu sempre descubro. Compras sem fim, arrumação da casa para receber visitas, - e visitar e receber visitas que não acabam, - obrigações sociais inesgotáveis (que eu deteeeeeesto!)... O ser humano é mesmo esquisito: tentamos fugir da correria e do cansaço de um ano inteiro de obrigações e chateação, e o que fazemos? Arranjamos obrigações e chateação em dobro.

Mas ano que vem, no Natal, prometi a mim mesmo que vou encontrar um bom retiro espiritual e escapar de toda essa amolação.

E agora há pouco saí a pé para devolver um DVD na locadora, que fica três quadras acima da minha, e foi uma experiência até exótica. Fui, voltei, e, em todo o trajeto, não mais que um ou dois carros passaram por mim. – E olha que vivo num bairro bem movimentado. Tudo parecia entorpecido, a não ser por aquela casa na esquina da minha rua, em cujo quintal estão promovendo um churrasco épico, infinito, que atravessa dias e noites sem parar, incólume, desde a última quinta-feira... Putz! Vai gostar de cerveja morna e carne assada, assim, lá não sei aonde!

Mas, tirando essa casa em particular, todo o resto é quietude, dormência, tranquilidade. E fui eu, a pé pelo caminho, sozinho, aproveitando para relaxar um pouco, refletir sobre a vida... O filme que assisti, e que levava de volta para a locadora, em parte, foi o responsável por esses instantes de reflexão: não era exatamente um filme, mas uma animação, que de tanto ouvir falar bem, resolvi assistir: estou falando de “Up” , que como manda o costume, recebeu no Brasil um subtítulo ridículo: “Altas aventuras”. – É uma animação já meio antiguinha, se não me engano foi lançada em maio, mas eu ainda não tinha visto, e depois de ouvir muita gente elogiar, fiquei curioso para saber do que se tratava. E gostei. Se alguém ainda não viu, recomendo.

Bem, mas o interessante da história, ao menos para mim, é que leva a essa reflexão muito interessante a respeito da finitude da vida. Trata-se da saga de um velhinho que viveu toda uma vida muito feliz ao lado de sua amada esposa, até... Ficar viúvo (não estragando a surpresa de quem não viu, porque isso acontece logo no começo e a ação só vai começar, exatamente, a partir daí). Bom, e daí que algumas cenas me levaram a pensar profundamente sobre a ilusão desta vida, dos nossos sonhos, dos planos que fazemos na juventude... Como a nossa passagem por este mundo é rápida, meu Deus! Como as coisas acontecem de repente, e como tudo muda sem que possamos perceber. Sem que sequer notemos, uma outra fase de nossas vidas se encerrou, e já começa uma nova etapa diferente. Às vezes me lembro de coisas que tive e já não tenho, do jeito totalmente diferente que fui, de amigos que se foram, do meu filho quando era um bebê... E aí bate um certo saudosismo, uma ligeira saudade das coisas que eu quis ser e não fui. Essa animação fala um pouco disso, dos planos não cumpridos, dos sonhos não realizados, da futilidade de tudo isso e da impermanência da vida.

Aí fiquei um pouco pensativo e saí à rua, sozinho, para devolver o filme na locadora. – É, eu me incluo entre os últimos dinossauros que ainda alugam filme e depois tem que encarar a chatice de precisar sair para devolver. Claro que eu sempre me esqueço da devolução, e só me lembro (e preciso sair correndo) no último minuto. – E hoje, agora há pouco, na rua, em meio a toda incomum tranquilidade, ampliada em grande parte pelo contraste com a bagunça que reina em minha casa nos últimos dois dias (duas crianças de, 9 e 11 anos, ambas hiperativas, estão lá hospedadas), pensando em muitas coisas e em nenhuma em especial, me lembrei dos primeiros tempos deste blog: lembrei da minha empolgação inicial, das primeiras visitas, do prazer em escrever sem compromisso, como quem vai a um bar bater papo com um velho amigo. E aí lembrei do prazer de me permitir escrever bobagens sobre minha vida pessoal, o que às vezes fazia quando comecei a contar a saga da minha vida por aqui, e também respondendo às perguntas e jogando conversa fora nos comentários, com meus primeiros visitantes, que chegavam e já se apresentavam como amigos.

E aí, para matar a saudade, só de brincadeira, peguei meu lap e digitei, para desestressar, esse pequeno post que não é sobre coisa alguma nem fala sobre nada especificamente, apenas para jogar conversa fora e dizer o quanto meus amigos deste a Arte das artes são importantes para mim. Amo todos vocês, presentes e ausentes. E para não finalizar sem cair no lugar comum, desejo um felicíssimo ano novo a todo mundo!

A manjedoura está vazia




Caixas e pacotes de variados tamanhos e cores; mil e um brilhos, reflexos, luzes piscando, laços para todos os lados. Vitrines com presépios, neve de isopor cobrindo tudo, o verde metálico acena. Votos de uma vida próspera se multiplicam sem cessar. Fitas desembrulham presentes a todo o momento, caindo livres numa dança ritmada.

O espírito do consumismo reina, absoluto, sobre as mentes de uma maioria cada vez mais obcecada, acelerada e prisioneira do próprio progresso. - Acariciando desejos, exalando o aroma inventivo das ilusões fúteis. Suave e profundamente, esse espírito insaciável afaga rostos anestesiados.

Ondas sonoras/eletrônicas ecoam pelo ar: “Boas Festas”; “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”... - Mas no fundo dos corações, incômoda, inconveniente e absoluta, permanece a certeza silenciosa de que algo muito, muito importante está faltando. Mais que importante, o que falta é simplesmente o Essencial, o Fundamento, o Sentido e a Razão de tudo. Falta o motivo da festa, dos enfeites, da época de cores metalizadas, das luzes piscantes e da alegria ensaiada...

O que é que falta, afinal? Por que a sensação de vácuo? E como preencher esse vazio, angustiante e doloroso, dentro de cada coração?

Afinal, o que é o Natal? Por que tantos cartões falando em alegrias e prosperidade, sem ao menos mencionar... O Aniversariante?




Do blog O Precursor



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Aparições(?)


Vídeos postados no Youtube. Não constam maiores explicações... Para ver a página em que foram postados, clique sobre os vídeos. O que você vê nessas imagens?..














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O Jardim do Éden




Por que o homem tem que crescer? Por que tem que ser expulso do Jardim? Por que tem que desenvolver o seu Ego (no sentido junguiano)? Por que tem que criar consciência? Eis o mistério da vida.

Por que o filhote da águia tem que voar? Por que o peixinho tem que nadar? Por que a semente de carvalho tem que se transformar numa árvore imensa? O homem nasce como se dentro dele houvesse um corneteiro tocando o 'avançar!'... Como num campo de batalha, ele tem que seguir em frente, acompanhar a tropa. Se você está na porta de um estádio de futebol esperando sua abertura, com uma multidão atrás de você, quando os portões se abrem você não consegue ficar parado. Assim é também na tomada de consciência do bebê. Assim é a vida. O mistério da vida.

Uma noção geralmente aceita pelos psicólogos, principalmente os junguianos, é que na primeira metade da vida o ser humano deve fortalecer o seu Ego. Na segunda metade, a tarefa seria a Individuação, a aceleração da expansão da Consciência pela absorção de partes do Inconsciente. Porém esse processo não pode ser visto como se essas duas fases fossem completamente separadas. Uma imagem mais válida seria ver a tomada de consciência como uma jornada por uma escada espiral, que leva o ser humano para mais próximo do seu principal objetivo — maior consciência. Ao lado da espiral se encontra um eixo, que representa o Self, — o arquétipo central da psique, — que coordena o inconsciente do ser humano. Ao subir os degraus, a escada se aproxima e se afasta desse eixo. Quem sobe é o Ego; o eixo é o Self. O Self é o centro da psique, englobando o Ego, — o consciente, — e o inconsciente. O Self ordena toda a psique humana, enquanto o Ego é o centro da Consciência, a parte menor da psique. A imagem da Terra girando em torno do Sol também é uma boa metáfora para o processo de desenvolvimento dos seres humanos. A Terra, — o Ego, — se aproxima do Sol, — o Self, — no verão, e recebe mais energia solar, se afastando no inverno. As plantas que, recebendo a energia do Sol, crescem e se desenvolvem, hibernam no inverno.

O processo de conscientização do Ego é semelhante. Ao se aproximar do Self, o Ego absorve parte do conteúdo do Inconsciente, se conscientiza de um pequeno pedaço do Inconsciente. Ao seguir o seu caminho, se afastar, ele processa e entende o que absorveu.

O processo poderia ser visto também como o encontro do professor — o Self — com o aluno — o Ego. O aluno se aproxima do professor, recebe a lição e se afasta para estudá-la em casa. Esse processo, enquanto o Ego ainda não está fortalecido — nos primeiros anos da vida —, funciona automaticamente. Ao bebê não é dada a escolha entre criar ou não seu Ego; à criança não é dada a escolha de fortalecer seu Ego. As coisas acontecem naturalmente.




Entretanto, depois que o Ego já adquiriu certa estrutura, o processo perde parte de seu automatismo. O Ego adquire força para se opor ao processo. Mesmo na entrada do estádio de futebol, com a pressão da multidão por trás, você pode se desviar, esconder-se em um canto, evitar ser empurrado para dentro do estádio. Por que fazer isso? Porque o processo de crescimento pode ser doloroso, e alguns tentam evitá-lo. Essa fuga ao crescimento acontece com mais frequência na segunda metade da vida, quando o Ego está mais fortalecido, mais acostumado e afeito a escolhas. Para evitar o crescimento, o ser humano pode, às vezes inadvertidamente, se esconder atrás de um obstáculo.

Evitar pensar na vida é uma doença que ataca muitos seres humanos, especialmente os materialistas ocidentais. O workaholic, que só pensa no trabalho e não tem tempo para pensar na vida, está com seu processo de crescimento — de individuação — interrompido. Também o ativista político, que acha que vai salvar o seu país, ou salvar o mundo, e não tem tempo de pensar na sua própria vida, não tem tempo para cuidar do seu lado espiritual.

O mito da criação do homem e sua expulsão do Jardim do Paraíso resistiu aos séculos, apesar de cientificamente inverossímil, exatamente porque nos traz uma verdade fundamental. Se fosse somente uma história boba, não teria sobrevivido por tantos milênios. Quem não quiser ouvir seus ensinamentos se arrisca a perder o trem da vida. A jornada da vida é longa e difícil. Por que perder o trem e ter que seguir a pé? Por que ficar parado, esperando a morte?


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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O que há de especial com as árvores?

ou 'Aquela velha árvore na beira do lago"...




"Nascido do ventre da minha mãe, em terra preta e fértil, às margens de um lago profundo de águas límpidas, Eu Sou aquela velha árvore sem sombra. Do alto de mim mesmo reina soberana a consciência que me pensa, e perante ela, Eu Sou silêncio e paz. Sobre vastas planícies de vegetação verde e rasteira, Eu Sou aquele que é visto ao entardecer, no horizonte, emoldurado no céu de muitas cores, ao lado do sol flamejante. Estando onde sempre estive, vejo em tudo equilíbrio e, daqui donde estou, cumpro meu papel no mundo.

As minhocas fazem cócegas nos meus pés; os pássaros, ninho nos meus braços; cupins, colônia no meu corpo e independente do reino a que pertençam, vivo na memória de todos que um dia me viram. Através das estações, o sol me aquece em dias de frio, a chuva me banha, nos de calor. Diante de secas e enchentes, a minha respiração é sempre constante e suave como a brisa que alisa meus cabelos. Da terra, da água e do ar tomo apenas o necessário, e além de tudo aquilo que ocupa o espaço e perece no tempo, eu permaneço: Eu Sou aquela velha árvore na beira do lago. Eu Sou.

Gosto do som da chuva caindo no espelho d´água, do som dos gravetos estalando no inverno rigoroso e do som da grama alta curvando-se ao vento. Mas é a ausência do som em noites de muitas estrelas que me faz verdadeiramente feliz."


Texto de Daniel Borges de Sousa (respondendo soberbamente a uma provocação feita na seção 'Imagem da semana'...)


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O Ego segundo Jung

Como visto, o conceito psicanalítico de Ego difere radicalmente da noção de ego trazida pelas religiões, em especial as orientais. Segundo o Zen-budismo, por exemplo, ‘ego’ é apenas a noção intelectual, limitada e ilusória que o ser humano tem de si mesmo e do mundo que o cerca: apenas um aspecto temporário do nosso verdadeiro Eu, que poderíamos chamar de ‘ser integral’. Segundo essa visão, o ego se confunde com o aspecto egoísta de nossa personalidade, que é insaciável e vive eternamente na busca pela realização de desejos e vaidades inúteis. A Psicanálise, porém, (um ramo especial da Psicologia/Psiquiatria desenvolvido por Sigmund Freud), trata o termo de maneira completamente diferente.

A confusão pode surgir, principalmente, porque tanto Freud quanto Jung, - dois dos maiores expoentes no estudo da mente humana em todos os tempos, - Ego significa, simplesmente, EU, (significado etimológico da palavra, do latim). Para a Psicanálise, Ego é um nível natural intermediário da Consciência.

Para o nosso estudo ‘Segredos da Bíblia’, em particular, interessa conhecer o conceito de Ego segundo Jung. Vamos agora estudá-lo, da maneira mais simplificada possível.


A definição de Ego por C. G. Jung (nas palavras do próprio):




"Entendo o ‘Eu’ (Ego) como um complexo de representações que constitui para mim (indivíduo), o centro do meu campo de Consciência e que me parece ter grande continuidade e identidade comigo mesmo. Por isso, falo também do complexo do Eu ou complexo do Ego. O complexo do Eu é tanto conteúdo quanto condição da Consciência, pois um elemento psíquico me é consciente enquanto estiver relacionado com o complexo do Eu. Enquanto o ‘Eu’ for apenas o centro do meu campo consciente, não é idêntico ao todo de minha psique, mas apenas um complexo entre outros complexos.

Por isso distingo entre Eu (Ego) e Si-mesmo (Self). O Eu é o sujeito apenas da minha Consciência, mas o Si-mesmo é o sujeito do meu todo, também da psique inconsciente. Dentro dele está o Eu.

O Si-mesmo ‘gosta’ de aparecer na fantasia inconsciente de 'personalidade superior' ou 'ideal', assim como, por exemplo, o Fausto de Goethe e o Zaratustra de Nietzsche. Neste sentido, o Si-mesmo seria a grandeza ideal que encerraria personalidade superior ou ideal (...) Por amor à idealidade, os traços arcaicos do Si-mesmo foram apresentados como distintos do Si-mesmo ‘superior’: em Goethe,na forma de Mefisto; em Spitteler na forma de Epimeteu; na psicologia, como o demônio ou o anticristo; em Nietzsche, Zaratustra descobre sua Sombra no ‘mais feio dos homens’."

Tipos Psicológicos, C.G. Jung, p. 406


Ego ou Eu é o centro da Consciência, é a soma total dos pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais. É a parte mais superficial do indivíduo, a qual, modificada e tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do indivíduo. É importante salientar que a função do Ego é ignorada e, portanto, o termo muitas vezes é utilizado de forma exacerbada, errônea e inconsequente. O Ego, para Jung, é antes de tudo uma função na composição mental do indivíduo.

Resumindo: o Ego (ou Eu) representa o sujeito da Consciência. – ‘Ele’ é apenas uma parte da psique total. Jung percebeu o Ego como o centro da Consciência, porém sublinhou também as suas limitações, e o definiu como menor do que a personalidade inteira. Embora o Ego tenha a ver com assuntos tais como identidade pessoal, manutenção da personalidade, continuidade além do tempo, mediação entre os campos conscientes e a Inconsciência, conhecimento e testes da realidade e etc, também deve ser considerado como uma instância que responde às necessidades de uma outra, que lhe é superior. Esta é o Self, o princípio ordenador da personalidade inteira. A relação do Self com o Ego é comparada àquela d”o que move com o que é movido”.

Inicialmente o Ego está fundido com o Self, mas deve se diferenciar dele. Jung descreve uma interdependência dos dois: o Self, que possui uma visão mais holista, é supremo. A função do Ego, porém, é confrontar ou satisfazer, conforme o caso, às exigências dessa supremacia. O confronto entre o Ego e o Self foi identificado por Jung como característico da segunda metade da vida.

O Ego também é visto por Jung como resultante do choque entre as limitações físicas e corporais da criança e a realidade ambiente. A frustração ajuda a formar ‘ilhotas’ de consciência que se juntam ao Ego. O Ego, assevera Jung, adquire sua plena existência durante o terceiro ou quarto ano. Psicanalistas e psicólogos analíticos hoje concordam em que ao menos um elemento de organização perceptiva está presente desde o nascimento, e em que, antes do final do primeiro ano de vida, uma estrutura de Ego relativamente sofisticada já se encontra atuando.

"Ego é ‘alguém’ que começa a dar início a sua jornada heróica em busca da totalidade do Self, em busca da meta do Processo de Individuação. Isto é tornar-se Indivíduo."

A tendência de Jung de equiparar o Ego à Consciência torna difícil conceituar os aspectos inconscientes da estrutura do Ego. A Consciência é a característica distintiva do Ego, porém isso é proporcional à inconsciência. Quanto maior for o grau de consciência do Ego, maior a possibilidade de se sentir o que não é conhecido. A tarefa do Ego com relação à Sombra é reconhecê-la e integrá-la, mais que dividi-la, subjugá-la ou negá-la, como propõem as religiões orientais.


A busca pela Individuação

Para que ocorra o processo de Individuação, é necessário que o Ego se confronte com os aspectos contidos na Sombra. O confronto de Ego x Sombra se faz importante pelo fato de que diante desta confrontação é que o Ego tomará consciência de seus medos, fraquezas e negligências em relação a forma como se relaciona com o Inconsciente e em relação a como se relaciona com o mundo externo. A partir deste momento se torna fundamental, tanto quanto conhecer o sentido do termo Ego, saber o que significa esta Individuação, base da psicanálise junguiana

"A Individuação, em geral, é o processo de formação do Ser Individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do Conjunto Humano, da Psicologia Coletiva. É portanto um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural, e uma coibição dela traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo. A individualidade já é dada física e fisiologicamente, e daí recorre sua manifestação psicológica correspondente. Colocar-lhe sérios obstáculos significa uma deformação artificial.

É óbvio que um grupo social constituído de indivíduos deformados não pode ser uma instituição saudável e capaz de sobreviver por muito tempo, pois só a sociedade que consegue preservar sua coesão interna e seus valores coletivos, num máximo de liberdade do indivíduo, tem direito à vitalidade duradoura. Uma vez que o indivíduo não é um ser único mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de Individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente.

O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado à assim chamada Função Transcendente, porque ela traça as linhas de desenvolvimento individual que não poderiam ser adquiridas pelos caminhos prescritos pelas normas coletivas.

Em hipótese alguma pode a Individuação ser o único objetivo da educação psicológica. Antes de tomá-la como objetivo, é preciso que tenha sido alcançada a finalidade educativa de adaptação ao mínimo necessário de normas coletivas: a planta que deve atingir o máximo desenvolvimento de sua natureza específica deve, em primeiro lugar, poder crescer no chão em que foi plantada.

A Individuação está sempre em maior ou menor oposição à norma coletiva, pois é separação e diferenciação do geral e formação do peculiar, não uma peculiaridade procurada, mas que já se encontra fundamentada a priori na disposição natural do sujeito. Esta oposição, no entanto, é aparente; exame mais acurado mostra que o ponto de vista individual não está orientado contra a norma coletiva, mas apenas de outro modo. Também o caminho individual não pode ser propriamente uma oposição à norma coletiva pois, em última análise, a oposição só poderia ser uma norma antagônica. E o caminho individual jamais é uma norma.

A norma surge da totalidade de caminhos individuais, só tendo direito a existir e atuar em prol da vida se houver caminhos individuais que, de tempos em tempos, queiram orientar-se por ela. A norma nada serve se tiver valor absoluto. Só acontece um verdadeiroSó acontece um verdadeiro conflito com a norma coletiva quando um caminho individual é elevado à norma, o que é a intenção última do individualismo extremo. Consequentemente, nada tem a ver com individuação que, sem dúvida, toma seu próprio caminho lateral, mas que, por isso mesmo, precisa da norma para sua orientação perante a sociedade e para estabelecer o necessário relacionamento dos indivíduos na sociedade.

A individuação leva, pois, a uma valorização natural das normas coletivas; mas se a orientação vital for exclusivamente coletiva, a norma é supérflua, acabando-se a própria moralidade. Quanto maior a regulamentação coletiva do homem, maior sua imoralidade individual. A individuação coincide com o desenvolvimento da consciência que sai de um estado primitivo de identidade(v). Significa um alargamento da esfera da consciência e da vida psicológica consciente."

Tipos Psicológicos, C.G.Jung, pp. 426 a 428


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Fonte bibliográfica:
Dicionário Crítico de Análise Junguiana, em http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/..%5C..%5Cdicjung%5Cverbetes%5CEgo.htm ;
CHEVALIER, J & GHEERBRANT, Dicionário de Símbolos . 14ª ed. Rio de Janeiro . José Olympio . 1999;
JUNG, C.G., Memórias, Sonhos e Reflexões . 22ª ed. Rio de Janeiro . Nova Fronteira . 2002;
JUNG, C.G., O Eu e o Inconsciente . 13ª ed. Petrópolis . Vozes . 2000;
JUNG, C.G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo . 3ª ed. Petrópolis . Vozes . 2003;
JUNG, C.G., Psicologia do Inconsciente . 15ª ed. Petrópolis . Vozes . 2004;
JUNG, C.G., Tipos Psicológicos . Petrópolis . Vozes . 1991.




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