O que é 'Ego'?

O nosso estudo em andamento, intitulado ‘Os Segredos da Bíblia’, a partir deste ponto passará a aludir, com frequência, a uma expressão bastante específica, cuja correta compreensão será fundamental para a assimilação de seu conteúdo: trata-se do termo ‘Ego’. Os leitores antigos de a Arte das artes estão possivelmente acostumados a entender o termo segundo a visão religiosa budista/hinduísta, - a saber, como um sinônimo de nossa identificação com nossos corpos físicos e com o mundo ilusório que nos cerca. - A série de postagens ‘Os Segredos da Bíblia’, no entanto, faz uso da expressão sob a ótica da psicologia de linha junguiana. Entender o significado desta palavra para o autor do livro que serve de inspiração ao nosso estudo será de capital importância para a compreensão desta série. Por essa razão, antes de dar continuidade às publicações, passaremos a uma explicação detalhada a respeito deste assunto particular.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender a visão orientalista a respeito do problema, e só então poderemos confrontá-la com a interpretação da psicologia junguiana. Eis um assunto que este blog já deveria ter abordado há um bom tempo. Antes tarde do que nunca, já dizia o poeta... O que significa Ego, afinal?


O Ego segundo o budismo – por Lama Gangchen Rinpoche




"Em nosso estado mental normal, viver segundo nosso ego parece normal e concreto; o ego parece ser justamente nosso melhor amigo, protetor e benfeitor. Mas na verdade, ele é o nosso pior inimigo, uma fraude que nos engana, fazendo-nos sentir que não podemos existir ou viver sem ele. Como um monstro morando em nosso coração, ele está sempre pronto para fazer coisas ruins e causar problemas a nós e aos outros. Nosso ego tem muitos truques para se manter na ativa. Por isso, devemos prestar atenção quando começarmos a nos dizer: 'Se eu não cuidar do número um (nós mesmos), não vou trabalhar e vou acabar passando fome'; 'Se eu ficar me distraindo com esses assuntos espirituais, vou acabar virando um tolo!' - O ego tem mais defesas que a OTAN. Cuidado!

Não há dúvidas de que é do nosso próprio interesse nos livrarmos desse demônio interior o mais rápido possível (a menos que sejamos masoquistas e gostemos da eterna dor física e mental). Ao recolher e responsabilizar nosso ego de apego a si mesmo por todos os nossos problemas, com certeza geraremos o desejo de cuidar de nosso mundo interno e de nos livrar desse ego o mais rápido possível. Para isso, precisamos enxergá-lo como um mentiroso, examinando se de fato existe como parece ou não.

Isso significa dizer a nós mesmos: 'Pela lógica, se eu existo tal como parece, devo ser ou um com todo meu corpo e mente, ou separado e diferente deles'. Se, quando busco o meu ego, não consigo encontrá-lo nem em minha mente nem em meu corpo, e nem tampouco como algo separado deles, não tenho outra opção senão aceitar que o que estou percebendo é o meu falso senso de individualidade. Precisamos expulsar esse fantasma da máquina.

Pensando dessa forma, começamos a caçar nosso ego aparentemente vivo, nosso verdadeiro inimigo, e isso nos força a confrontar nossas suposições nunca examinadas sobre como existimos de fato. Eis um desafio bastante significativo do ponto de vista emocional: descobrir que nossa percepção básica da realidade é uma grande bobagem. Essa é a autocura absoluta, e por isso devemos prosseguir, cheios de alegria, nesse nível grosseiro do treinamento espacial.

Se sentirmos que o nosso eu é, na verdade, nosso corpo, então algumas questões inevitavelmente se colocam:

1. Qual parte do corpo somos? A cabeça, o coração, os membros?

2. Como tenho muitas partes, devo ter muitos 'eus' e muitos 'egos'.

3. Se sou o meu corpo, então, mesmo que minha mente não esteja nele, eu continuarei existindo. Quando meu corpo morrer, deixarei de existir.

4. Se alguém corta fora nossa perna com um machado, gritamos, 'Ele cortou minha perna', mostrando assim que bem no fundo sentimos que somos proprietários de nosso corpo, mas não o corpo em si.

5. Mas se sentimos que nosso ego é a nossa mente, precisamos examinar o que nossa mente é. Segundo o budismo, temos muitos fatores ou aspectos maiores ou menores da mente: seis sentidos e consciências mentais e cinquenta e um(!) fatores composicionais (todos os aspectos misturados de clareza e escuridão em nossa mente). Ora, se tenho tantas mentes diferentes, devo ter muitos 'eus' diferentes (uma personalidade múltipla esquizofrênica com cinquenta e sete identidades!).

6. Quando alguém nos insulta, pensamos, 'Ele machucou meus sentimentos', mostrando assim que nos sentimos os proprietários de nossa mente, e não a mente em si.

7. 'Penso, logo existo'. — Então, se sou minha mente, posso viver sem meu corpo?

8. Se sentimos que somos a combinação de nosso corpo e mente, devemos tentar seguir o seguinte raciocínio:

Não sou meu corpo.

Não sou minha mente.

Mesmo assim, quando eles estão juntos, chamo-os de 'eu'. Mas como é possível que dois 'não sou' tornem-se um 'eu sou'? Pense nisso! Esse é um enigma profundo e cheio de sentido.

9. Se sentimos que nosso eu é diferente de nosso corpo e mente, deveríamos tentar imaginar então que nosso corpo foi totalmente destruído (por uma explosão atômica, por exemplo), e que nossa mente foi, de alguma forma, desligada, totalmente aniquilada. Onde estaríamos então?

10. Portanto: Certamente não sou meu corpo, não sou minha mente, nem a combinação de meu corpo e mente; Então, onde estou? A resposta é: em 'lugar nenhum'. O que percebemos nesse momento, se tivermos feito o exercício da forma adequada, é a perfeita liberdade e o espaço absoluto.

Esse nada NÃO é o frio vácuo morto do espaço exterior ou a completa negação da vida que nos ensinaram certos 'mestres' e filósofos. A experiência da vacuidade, ou do espaço absoluto, é preenchida por uma sensação de extrema bem-aventurança e uma profunda paz. Segundo os nossos sentidos, não há 'nada' lá, mas de alguma forma encontramos a sensação de arrebatadora alegria de tocar a essência da Vida e o tecido fundamental da Realidade.

Ainda assim, não há 'nada' lá. - Mas 'Tudo' não está no 'Nada'? E não foi do 'Nada' que 'Tudo' surgiu? Bem, isso é o que dizem as religiões.

É uma concepção fascinante e maravilhosa. Então, compreendemos de verdade o mal que é capaz de causar o nosso ego, pois nos impede de ter essa arrebatadora experiência. O aspecto do eu que o budismo chama 'ego', nesse sentido, é realmente a fonte de todo egoísmo, vaidade, inveja, sentimento de separação...

Todas as vezes que tentamos neutralizar o ego, devemos tentar manter a mente ingênua como a mente de uma criança. Não é bom começar o exercício pensando, 'já sei a resposta' ou 'que tédio!', pois assim não poderemos ter o impacto emocional do inacreditável fato de que de repente nosso ego desapareceu, fugiu envergonhado.

Anular o ego é um processo difícil e demorado. Mas é absolutamente necessário e benéfico. Por isso, devemos persistir com alegria. Nossa porcentagem de vitória crescerá passo a passo."



Finda a exposição do Lama Ganchen, completo esta explanação com a esposição do problema segundo o Revmo. Imai, meu antigo mestre budista do Templo Higashi Honganji:


Templo Higashi Honganji


"Tendo exposto nosso ego usando a luz da sabedoria, tudo que nos resta é um vasto espaço ou vacuidade que nos torna livres para retornar à 'Casa do Pai':

'Se alguém quiser me seguir, NEGUE-SE A SI MESMO, tome sua cruz e me siga.'

Esse negar-se a si mesmo não significa negar ao seu eu real, isto é óbvio, pois isso só poderia ser feito através do suicídio! Como eu poderia recusar ou renegar a mim mesmo, se eu só posso ser eu mesmo? Claro que a afirmativa se refere à negação do eu lusório, o eu EGO-ÍSTA, que só pensa em si mesmo, em satisfazer seus desejos, realizar seus sonhos, atingir sucesso em tudo que faz... Aquele que vive construindo e reconstruindo castelinhos de areia, sempre renovados, - ele não para nunca.

As pessoas comuns, em geral, necessitam de muito espaço individual e sempre se sentem desconfortáveis tanto em espaços pequenos quanto em multidões. O antídoto para essa sensação é familiarizar a mente com o vasto espaço interior do não-ego, não-eu, não-meu... A autocura não é desenvolver o ego, mas dissolvê-lo! Assim, sempre nos sentiremos muito confortáveis e relaxados, mesmo se estivermos rodeados por trinta pessoas gritando todas ao mesmo tempo. Claro que falar é muito mais fácil do que fazer...

O fato é que algumas pessoas sentem medo quando entram em contato com esse imenso espaço interior, sentindo que fizeram desaparecer a si mesmas. Mas não há motivo para se preocupar: apenas fizemos desaparecer temporariamente nossa alucinação ou fantasia do ego. Quando chegar o momento de você entrar em contato com o espaço interior, não se preocupe, seu corpo e mente, seu verdadeiro eu, surgidos interdependentemente, ainda estarão aqui."



Espero que a visão budista (que representa magistralmente a visão da tradição oriental como um todo) a respeito do termo ego tenha ficado clara. Se não ficou, clicando aqui com certeza você será capaz de dirimir todas as suas dúvidas a respeito do assunto. Me comprometo a responder a todas as dúvidas de leitores que surgirem, nos comentários deste post. Próxima postagem: ‘O Ego segundo Jung’.


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Fontes:
Portal 'IGPT' / Lama Gangchen Rimpoche Peace Voices, seção 'Peace Times', 2008: em http://www.lgpt.net/bios/rinpoche.htm, acesso em 17/02/2009.




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Dia da consciência... humana




Eu sou humano, essa é a minha raça!



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Deixando o Jardim do Éden


Entre o primeiro e o segundo século após o surgimento da era cristã, existiu um grupo gnóstico denomindo naaseno. E recentemente resgatado evangelho de apócrifo de Judas demonstra claras influências deste grupo independente dos apóstolos e primeiros seguidores de Jesus Cristo. Eles pregavam ser Javé uma expécie de semideus mau, que pretendia manter o homem na ignorância: o Deus Maior, o Deus da Luz, se encarnou na serpente para salvar o homem da ignorância(!!)e de uma vida inconsciente. Esse grupo deriva seu nome da raiz naas, - palavra latina que significa serpente, animal adorado por eles.

Conta um antigo mito grego, que pode ter influenciado os naasenos, que os deuses criaram os animais, dando a cada um dom. Ao cavalo, a velocidade; ao leão, a força; aos pássaros, o poder de voar, e assim por diante. Chegando a vez do homem, o último a ser criado, nada mais havia para lhe ser dado. O homem era fraco e lento, por isso seria uma presa fácil dos animais predadores, mas os deuses pouco se importaram com isso. O titã Prometeu, no entanto, ficou com pena do homem e roubou o fogo, - prerrogativa exclusiva dos deuses, - para dá-lo ao homem, e foi por esse ato cruelmente punido. De posse do fogo, o homem pôde sobreviver e dominar sobre os animais. O fogo, a luz, poderia ser entendido como uma metáfora para a Consciência, exatamente a qualidade que Adão e Eva ganharam ao comer a maçã.

Seria Javé, assim como os deuses do panteão grego, indiferente ao homem? Os mitos gregos nos mostram deuses muito pouco preocupados com a humanidade, e somente quando um ser humano entra em seu caminho é que eles voltam suas atenções para ele. - Geralmente para puni-lo.

Ou será que Javé queria que o homem desenvolvesse sua consciência, e a expulsão do jardim foi o meio por ele usado para acelerar esse processo? Minha resposta é sim. A pergunta seguinte é como. De que maneira, tendo deixado o Jardim do Éden, o ser humano deve prosseguir em sua busca pela Consciência? Ele não pode voltar ao estado anterior de beatífica inconsciência, porque Deus colocou querubins com espadas chamejantes às entradas do jardim, para garantir a impossibilidade desse retorno.

Poderiam os seres humanos serem eternamente felizes vivendo no Jardim do Éden? Um pescador vivia miseravelmente em uma cabana no meio do mato. Sua vida era dura e nem sempre ele conseguia pescar para alimentar a mulher e os três filhos, e eles frequentemente passavam fome e necessidades. O pescador não sabia que, enterrado debaixo de sua casa, existia um imenso tesouro em ouro e pedras preciosas. Esse tesouro pertencia a ele, um legado deixado por um longínquo ancestral. Pergunta: era o pescador rico ou pobre?

Era o homem, vivendo no Jardim do Éden, feliz ou infeliz? Sem consciência, não podia ser nem uma coisa nem outra. Como poderia saber se era feliz? Como o pescador poderia saber que possuía um tesouro, que era rico? O máximo que poderíamos dizer seria que, mesmo com o seu tesouro enterrado, o pescador era pobre, ainda que potencialmente rico. O homem também poderia ser potencialmente feliz. Mas o ser humano tem que buscar a Consciência, tem que comer a Fruta do Conhecimento do Bem e do Mal, sair do Jardim do Éden da letargia: buscar a Consciência seguindo sua jornada de individuação. Por esse motivo, Javé colocou a cobra no jardim.




Existem vários relatos de indivíduos que trabalham com doentes terminais, atestando haverem estes atingido, nos dias que antecederam suas mortes, estados de iluminação que os tornavam pessoas melhores, mais completas. E isso ocorre independentemente da idade, tendo sido observado mesmo em jovens. Porém não podemos afirmar que isso ocorra com todas as pessoas. Nosso lado racional sugere que uma pessoa, com uma vida de grandes crimes e maldades, não deveria atingir o mesmo estágio de individuação que outra, com um desenvolvimento espiritual elevado Mas, em assuntos que envolvem o lado espiritual, o racional pouco conta. Como explicar o ladrão crucificado ao lado de Jesus, que apenas por reconhecer a inocência do Mestre foi instataneamene perdoado e subiu aos Céus?

Jung conceitua a individuação como um processo de conscientização. Assim sendo, não acabaria nunca. O homem pode progredir na jornada de individuação, como também pode regredir, mas nunca chegaria a um estado final, pronto e acabado — um ser completamente individuado, completamente consciente, um ser, na terminologia oriental, iluminado. Os hinduistas acreditam que o indivíduo precisa de milhares de existências para se iluminar, e que seu objetivo de vida — de muitas vidas — deve ser se aperfeiçoar para atingir a iluminação, o que evitaria futuras encarnações. Já no conceito junguiano de individuação isso nunca ocorre, pois se define individuação como um processo, uma jornada que, a despeito de ter uma meta, permite que nos aproximemos cada vez mais dela, sem nunca atingi-la. Dentro da perspectiva junguiana, o homem nunca poderia se conscientizar de todo o material arquivado em seu lado inconsciente. O conceito junguiano se afina melhor com os ensinamentos da Bíblia.

Que verdade maior nos propicia o mito do Éden, inverossímil sob a ótica da ciência? O que podemos apreender com ele? Esse mito vem nos dizer que o homem tem que buscar a Consciência, conhecer o Bem e o Mal. Adão e Eva, no início da história, nem mesmo sabiam que estavam nus. Foi preciso que comessem o fruto para perceberem isso. Nosso casal ancestral estava no estágio do bebê, que nasce sem noção do eu e do meu. Mas o fluir da vida força o bebê a se desenvolver, e em poucos meses ele desenvolve a noção eu/meu. Nasce seu Ego. Ele, que vivia inconsciente, sentindo-se como parte inseparável da mãe (e/ou do Universo), percebe agora, ainda que de maneira tênue, que é um indivíduo separado. Começa a ser expulso do jardim.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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Mito bíblico da Criação




A Bíblia oferece duas histórias diferentes da criação do mundo. A chamada Versão P, que no livro sagrado é apresentada no primeiro capítulo, teria sido escrita no século VI aC. Nessa versão, homem e mulher são criados simultaneamente, à imagem de seu Criador, e o Senhor é denominado Eloin. - A Versão J, que o livro sagrado apresenta depois da versão P, no segundo capítulo, é chamada assim porque nela o Senhor é chamado de Javé ou Jeová. Estima-se que essa versão tenha sido escrita no século X aC, muito antes do aparecimento da versão P. Ambientada no Jardim do Éden, ela descreve um homem, Adão, feito a partir do barro, recebendo sua alma de um sopro de Deus, sendo a mulher, Eva, criada posteriormente a partir de uma costela de Adão. Essa versão pode nos induzir a ver o masculino como superior ao feminino. Uma visão que, embora coerente com o patriarcado que prevalecia no Oriente Médio ao tempo em que esse episódio foi escrito, mostra-se incoerente com dados antropológicos que colocam o matriarcado, não o patriarcado, como organização característica dos primórdios do desenvolvimento humano.

A ivergência entre os dois mitos, que versões mais modernas da Bíblia tentam minimizar com pequenas mudanças de alguns termos, não chega a prejudicar o nosso entendimento. Como já mencionado em postagem anterior, o mito não precisa da realidade física, não precisa espelhar um fato do mundo real para ser fundalmentalmente verdadeiro, instrutivo e útil. Podemos tirar lições importantes das duas versões, a despeito das contradições que apresentam entre si.

Usando a ordem cronológica de sua produção e desobedecendo a ordem convencional de organização da Bíblia, vamos começar a nossa apreciação pela Versão J, do Jardim do Éden, que se inicia no capítulo 2, versículo 4, do Gênesis. Depois de relatar a criação do Éden, do homem e da mulher, e colocar naquele jardim a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a Árvore da Vida, Javé proibiu o homem de comer os frutos da primeira. Logo em seguida, no capítulo 3, defrontamo-nos com o episódio da tentação da serpente.


Gênesis — capítulo 3

1 A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que Javé Deus havia feito. Ela disse para a mulher: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?” 2 A mulher respondeu para a serpente: “Nós podemos comer dos frutos das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Vocês não comerão dele, nem o tocarão, do contrário vocês vão morrer.’” 4 Então a serpente disse para a mulher: “De modo nenhum vocês morrerão. 5 Mas Deus sabe que, no dia em que vocês comerem o fruto, os olhos de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal.” 6 Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas. 8 Em seguida, eles ouviram Javé Deus passeando no jardim à brisa do dia. Então o homem e a mulher se esconderam da presença de Javé Deus, entre as árvores do jardim. 9 Javé Deus chamou o homem: “Onde está você?” 10 O homem respondeu: “Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi.” 11 Javé Deus continuou: “E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?” 12 O homem respondeu: “A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto, e eu comi.” 13 Javé Deus disse para a mulher: “O que foi que você fez?” A mulher respondeu: “A serpente me enganou, e eu comi.” 14 Então Javé Deus disse para a serpente: “Por ter feito isso, você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todas as feras. Você se arrastará sobre o ventre e comerá pó todos os dias de sua vida. 15 Eu porei inimizade entre você e a mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela. Estes vão lhe esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles.” 16 Javé Deus disse então para a mulher: “Vou fazê-la sofrer muito em sua gravidez: entre dores, você dará à luz seus filhos; a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará.” 17 Javé Deus disse para o homem: “Já que você deu ouvidos à sua mulher e comeu da árvore cujo fruto eu lhe tinha proibido comer, maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, você dela se alimentará com fadiga. 18 A terra produzirá para você espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva dos campos. 19 Você comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó, e ao pó voltará.” 20 O homem deu à sua mulher o nome de Eva, por ser ela a mãe de todos os que vivem. 21 Javé Deus fez túnicas de pele para o homem e sua mulher, e os vestiu. 22 Depois Javé Deus disse: “O homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Que ele, agora, não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma, e viva para sempre.” 23 Então Javé Deus expulsou o homem do Jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. 24 Ele expulsou o homem e colocou diante do Jardim do Éden os querubins e a espada chamejante, para guardar o caminho da árvore da vida.


Os mitos podem ser lidos como mapas para a jornada da vida. O mito do Jardim do Éden é um com o qual me digladio desde meus 7 anos. Quantas vezes falei mal dos nossos dois ancestrais, culpando-os pela besteira que fizeram ao comerem a fruta proibida, perdendo assim o Paraíso? Nosso Paraíso. Isso acontecia sempre que tinha que tomar uma injeção, coisa comum quando uma gripe me pegava. O pavor da picada — mais do que a dor, a expectativa da dor — me levava a vituperar contra esses avós dos avós dos avós, que me haviam tirado do Paraíso onde, sem dúvida, as injeções não existiriam, não doeriam ou não seriam necessárias. Naquela época, não me ocorria — ou me faltava coragem para — reclamar contra Javé. Preferia direcionar minha revolta para Adão e Eva. Anos depois, pensando bem, cheguei ao grande questionamento: Por que Deus deveria proibir Adão e Eva de comer o fruto da Árvore do Conhecimento, afinal?

Isso não fazia sentido para o menino de 7 anos que eu era. Encontrei uma explicação fácil em um livro infantil sobre a Bíblia. Dizia que os frutos da árvore representam o conhecimento da felicidade e do infortúnio, e que Deus proibiu que fossem comidos porque não queria que o homem se tornasse infeliz. Simplista... Esta explicação não satisfez nem mesmo à criança de 7 anos. O tempo passou, eu cresci, tomei conhecimento dos ensinamentos de Jung, e hoje o Jardim do Éden é o meu mito favorito. Minha escolha para darmos partida em nossa jornada pelos segredos da Bíblia, pelas sendas do nosso mundo interior. Esse mito é um dos mais conhecidos e menos compreendidos.

Por que Deus não haveria de querer que o homem comesse do fruto da Árvore do Conhecimento? Por que Deus não haveria de querer que o ser humano fosse capaz de distinguir entre o bem e o mal? Sem esse conhecimento, o homem seria mais um animal sobre a Terra. No máximo, o rei dos animais. E, inconsciente, nem mesmo saberia que era rei.

Seria este o objetivo de Deus para o homem? Duvido. Um Deus onisciente, que não quisesse que o homem comesse o fruto proibido, não criaria ou não poria no jardim, nem a macieira nem a cobra. Se Deus é onisciente, somos levados a crer que colocou a cobra no jardim para levar a maçã ao homem. O homem tinha que comer a maçã, o fruto do conhecimento. Deus queria que isso acontecesse. Mas por que, então, o homem foi expulso do jardim? Como entender os atos do Senhor Javé?


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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A água que elimina a gordura do corpo

imaginou poder emagrecer e eliminar toxinas do corpo apenas tomando um copo de água gelada com limão? Pois você pode! Parece mentira, mas não é. O primeiro a me dizer isso foi meu sensei, quando eu praticava karatê num dojô japonês tradicional. Todos os sempais (instrutores veteranos) bebiam água com limão antes e depois dos treinos, e todos ostentavam abdominais ‘trincados’ (popular 'tanquinho'). – Sensei me orientou a beber água com limão para diminuir a gordura do corpo e auxiliar no condicionamento físico, e eu o fiz. Resultado? Em pouco tempo eu também adquiri meu belíssimo abdominal ‘tanquinho’ para exibir na praia!.. Embora o meu objetivo não fosse esse, eu, - que era muito jovem na época, - confesso que parava diante do espelho para admirar os músculos bem definidos em minha barriga, iguaizinhos aos do Bruce Lee no poster do meu quarto, meu ídolo das artes marciais na época.

Isso foi há mais de 20 anos, e hoje a ciência veio a comprovar que a água com limão é um poderosíssimo auxiliar no processo de eliminação da gordura do corpo. - Que tomar bastante água faz bem todo mundo já sabe... Mas há um detalhe que nem todos conhecem: ou você sabia que basta adicionar o sumo de um limão a um copo de água gelada para produzir uma verdadeira arma contra seus quilos extras e a gordura localizada? Segundo a nutricionista Andreia Carrara, “pessoas que se encontram muito acima do peso podem perder até 8 kg num mês”(!!).


A 'limonada suíça' pode ser ainda melhor
(liquidificar água e limão com casca e coar)


Os benefícios do limão - Por que esta fruta emagrece?

Porque desintoxica - "O limão deixa o ph do sangue mais alcalino, o que favorece o trabalho das enzimas responsaveis pela eliminação de toxinas", diz a nutricionista Daniela Jobst.

Diminui o armazenamento de gordura - A casca é rica em monoterpenos, moléculas dos oléos cítricos que penetram com facilidade em tecidos e células do corpo, ajudando a regular a absorção de açúcares e o armazenamento de gordura.

É diurética - O potássio contido na fruta auxilia na eliminação de sódio, o que facilita a produção de urina e eliminação de líquidos.

Acelera a digestão - A acidez do limão ajuda na quebra das molécula de proteína, facilitando o processo de digestão dos alimentos ingeridos.

Aumenta a sensação de saciedade - Efeito alcançado graças grande concentração de pectina - uma fibra solúvel que aumenta a sensação de saciedade.

Possui grandes quantidades de vitamina C - É antioxidante (combate os radicais livres responsáveis pelo envelhecimento), fortalece o sistema imunológico (impede que os radicais livres ataquem as células imunológicas do corpo), auxilia na tonicidade dos músculos e elasticidade da pele (porque compõe a base da molécula do colágeno), melhora o funcionamento mental (ajudando na absorção de ferro pelo corpo, que mantém os neurônios funcionando bem) e mantém a estrutura do organismo (é vital no processo de assimilação do cálcio, que atua principalmente na firmeza dos ossos e dentes)...


Tá bom procê? E gelada é ainda melhor! "A água gelada é termogênica, ou seja, faz o nosso organismo gerar calor e, consequentemente, perder calorias", diz o cardiologista e médico ortomelecular Sérgio Puppin. Para absorvê-la, nossa corpo faz uma grande esforço, pois precisa elevar sua temperatura até os 39° C. Aliás, bebendo de seis e oito copos de água gelada (em torno de 5°C) todos os dias - fora das refeições - você gasta 200 calorias(!). Mas lembre-se: não acrescente açúcar! Se você é do tipo que adora beber o seu suco muito doce, - isto é, sentir mais o gosto do açúcar que o da fruta, - e acha que não vai aguentar o sabor azedo, use adoçante. Mais uma dica de saúde gratuita do nosso a Arte das artes...

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Fonte: revista
Viva Mais (Editora Abril)


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Mais do mesmo

Por Thomas Merton



A chuva cessa, e o canto puro de um pássaro anuncia, de repente, a diferença entre o Céu e o Inferno.

Deus, nosso Criador, deu-nos uma linguagem em que Ele pode ser anunciado, pois a fé nos vêm pelo ouvido, e a nossa língua é a chave que abre o Céu aos outros.

Mas, quando o Senhor vem como um Esposo, nada fica por dizer, exceto que Ele vem e que devemos ir ao seu encontro: “Eis que vem o Esposo. Saí ao seu encontro!...” (Mt 25,6)

Saímos, então, a encontrá-lo na solidão. Aí nos comunicamos com Ele só, sem palavras, sem pensamentos discursivos, no silêncio integral de todo nosso ser.

Quando o que dizemos se destina só a Ele, é difícil poder dizê-lo em palavras. O que não se dirige à comunicação, nem sequer é objeto de experiência num nível que pode ser claramente analisado. Sabemos que isso não deve ser dito, - simplesmente porque não pode.

Mas, antes de chegarmos a esse inefável e impensável, o espírito ronda as fronteiras da linguagem, indeciso em ficar ou não nos seus próprios limites, a fim de ter alguma coisa a trazer aos homens. Essa é a prova daqueles que desejam cruzar as fronteiras. Se eles não estão prontos a deixar atrás suas próprias idéias e palavras, não podem ir além.



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A importância do Mito



A
importância do mito não se mede pelo fato de retratar ou não uma história real, mesmo que romanceada, ou uma história criada na mente de quem primeiro a relatou. O mito tem que ser avaliado por sua capacidade de conexão com a psique humana.

Os deuses gregos, por exemplo, poderiam ser considerados arquétipos que moram no nosso inconsciente. E o que seriam tais arquétipos? Este é um conceito complexo, mas que pode ser explicado por uma metáfora simples (Jung mesmo dizia que o arquétipo se expressa principalmente através de metáforas): o leito de um rio seco não é o rio, mas está preparado para, na estação das chuvas, organizar as águas, permitir a existência de um rio. Quando elas vierem, aquele leito gera a condição para que o rio exista naquele lugar. Assim também são os arquétipos dentro psique humana, preparados para canalizar os estímulos que chovem em sua "bacia".

O arquétipo é como a fundação de uma casa. Ela não define a casa, que pode ser construída em diferentes estilos, mas define o número máximo de andares que a casa pode ter, por sua capacidade de suportar peso; define também o limite das paredes externas da casa, e, portanto a sua área de projeção. A fundação da casa, portanto, seria o arquétipo, e a casa, a sua imagem arquetípica. Sobre essa mesmo fundação podem ser construídas casas diferentes, com diferentes estilos.

Também um arquétipo suporta milhares de imagens arquetípicas diferentes. Cada sonho, cada mito, cada lenda, mesmo que baseado em um mesmo arquétipo, apresenta imagens arquetípicas diferentes. O arquétipo do herói, por exemplo: as histórias de heróis abundam na literatura universal, na Bíblia, nos mitos, nas lendas e nos contos de fada. Porém, como mostrou Joseph Campbell em sua obra magistral, "O Herói de Mil Faces", existem inúmeras características comuns na estrutura de todas as histórias de heróis. Cada história, - cada imagem arquetípica, - é bem diferente, mas várias características lhe são comuns, pois essa imagem tem como fundação o arquétipo do herói, e este é único.

Jung chegou ao conceito de arquétipo com base na observação reiterada de que os mitos, as lendas, os contos de fadas e as histórias da literatura universal de várias culturas e regiões geográficas diferentes carregam temas semelhantes, que reaparecem com roupagens diversas sempre e por toda parte. Encontramos esses mesmos temas mitológicos nas fantasias, nos sonhos, nas idéias delirantes e ilusões de indivíduos que vivem no mundo atual. Tais imagens – arquetípicas – são representações dos arquétipos que aparecem na psique do homem moderno.

Os mitos estão espalhados por toda a Terra, existem em todas as culturas humanas. É impressionante constatar que povos afastados um do outro, sem qualquer contato entre si, mostram motivos idênticos em sues mitos. Não seria isso suficiente para demonstrar que os mitos são verdades universais, expressam características universais da psique humana? Entretanto, essas verdades, que atuam com força em nosso inconsciente, não são óbvias para nossa mente racional, até mesmo por não corresponderem a fatos possíveis no mundo material. Foi preciso que Jung descobrisse a chave para sua interpretação, e que mitólogos como Joseph Campbell, trabalhando com as idéias do próprio Jung, nos ajudassem a descortinar um novo horizonte, permitindo-nos entender os mitos psicologicamente.

Jung entendeu que certas afirmações religiosas são confissões da psique baseadas no inconsciente do ser humano. Somente aquelas ideias que encontram eco num grande número de mentes conseguem sobreviver à passagem do tempo e se transformar em ideias religiosas, que são, em última análise, verdades psíquicas. Essas ideias se entrincheiram nas profundezas da psique humana, no que Jung chamou de inconsciente coletivo.

Existem três proposições verdadeiras em relação aos livros sagrados de todos os povos:

1. As afirmações religiosas têm suas raízes na psique; são fatos psíquicos.

2. As afirmações religiosas ajudam no processo de estruturação da psique de indivíduos, culturas e épocas.

3. As afirmações religiosas têm suas raízes em experiências transcendentais.

Estas proposições nos apontam a grande importância do entendimento psicológico da Bíblia. E esse entendimento é especialmente importante para aqueles que não acreditam nas afirmações religiosas, para aqueles que não tem fé. Mesmo os ateus vão se surpreender com as lições que podem tirar da Bíblia.

Jung disse que as neuroses devem ser entendidas, em última análise, como um sofrimento da alma que não encontrou seu significado, e que o problema do homem moderno é o da falta de sentido da vida. Dizia também que “felizes aqueles que têm fé, pois não precisam de psicoterapia”(!). Entretanto, como fé não se compra em supermercado, aqueles que não foram premiados com ela têm que trabalhar duro, correr atrás, buscar descobrir o sentido da vida. Pois bem, os mitos da Bíblia (já explicado que mito, aqui, não tem sentido pejorativo) nos ajudam a descobrir o sentido de nossa existência.




Dos mitos que mais influenciaram nossa civilização ocidental, três tiveram maior importância: os mitos da Bíblia, os mitos gregos e, bem mais recentes, os mitos arturianos. E destes três, sem dúvida, os mais relevantes para a civilização ocidental são os da Bíblia, esta série de postagens pretende discutir, usando de paralelos com os mitos gregos e arturianos, e também os de outros povos ao redor do mundo.


“Os mitos bíblicos, ao contrário do que se pensa, no que se refere ao estudo da mente humana, podem nos revelar verdades maiores que as da própria ciência.”
Roberto Lima Netto


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller,2008.




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