Em busca da Libertação Final - conclusão




Antes da conclusão desta longa série de postagens, eu fiz questão de publicar o livro do Eclesiastes na íntegra, aqui no a Arte das artes. Fiz isso porque este livro bíblico reflete, à perfeição, a quinta e última (tentativa de) explicação clássica para a existência do mal e do sofrimento no mundo. Recapitulando, as cinco teorias são as seguintes:

1) Castigo pelos pecados ou consequência de más ações;

2) Prova de fé e fidelidade;

3) Redenção, purificação ou depuração;

4) Consequência inevitável do livre arbítrio;

5) Mistério absoluto.


O Livro do Eclesiastes obviamente foi escrito bem antes do surgimento da teologia do Caminho da Cruz (redenção, purificação ou depuração) e das reflexões de Santo Agostinho (consequência inevitável do livre arbítrio), que viriam a ser aceitas quase com unanimidade pelos grandes pensadores cristãos, mas certas bases que este místico e enigmático sábio (rei Salomão?) defendeu em sua obra só vieram a se cristalizar no inconsciente coletivo do homem ocidental muito tempo depois. Portanto, tendo sido ou não escrito por Salomão (há controvérsias quanto a isso, sendo que Eclesiastes significa ‘aquele que fala diante da assembléia’) o Eclesiastes foi sem dúvida um grande sábio, alguém que enxergava muito adiante do seu tempo e falou de conceitos e princípios que só puderam ser digeridos muitos séculos depois. De qualquer modo, a exposição das doutrinas que aqui foram apresentadas não segue, necessariamente uma ordem cronológica rígida.

Quanto à quinta tentativa de explicação em si, esta, na verdade, não é uma tentativa. - Exatamente por isso é a que mais me completa: é com esta que me identifico acima de todas as outras, ou ao menos antes de todas elas. - É quase uma desistência, uma entrega, uma rendição. Soa como uma constatação de que a questão ancestral da existência da dor e do sofrimento neste mundo representam, simplesmente, um mistério absoluto, assim como tudo que diz respeito a Deus. Conclui que a resposta para essa questão está além das capacidades humanas, ao menos no estágio atual (neste corpo, nesta terra, com estas capacidades) de nossa existência. Logo de cara, ele descarta a primeira possibilidade, a do castigo pelos nossos pecados ou consequência de nossas más ações Vejamos:

“Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o falso como o que respeita seus juramentos.

Eis o que eu vi, aplicando meu espírito a tudo que se faz debaixo do sol (...): vi ímpios gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do lugar santo e eram esquecidos na cidade. (...) Há justos aos quais acontece o que conviria ao proceder de imprudentes; e há ímpios aos quais acontece o que conviria ao proceder de justos.

No decurso de minha vã existência vi tudo isso: há o justo que perece, permanecendo justo, - e o ímpio que perdura, apesar da sua malícia. (...) Os tolos ocupam os mais altos cargos, enquanto os homens de valor estão colocados em empregos inferiores. Vi servos a cavalo, e príncipes andando sobre a terra como escravos.

Apliquei então meu espírito ao esclarecimento de tudo isso: os justos, os sábios e seus atos estão na mão de Deus, e o homem ignora se isso será amor ou ódio. Tudo é possível.”



Sim, diz o Eclesiastes, o mal e o sofrimento tomam de assalto tanto ao justo quanto ao injusto, igualmente. Esqueçam a teoria de que essas coisas representam o castigo pelos nossos pecados, que são o resultado de nossa má conduta, porque ele viu e nos deixou o seu fiel testemunho, - assim como todos nós podemos ver também (basta olhar), - que as coisas não acontecem assim. Mas, então, por quê acontecem? Ele simplesmente não sabe! O grande mestre, considerado o mais sábio de todos os homens, lendário por sua sapiência, reconhece sua insignificância diante da questão. Ele diz que não sabemos e não temos como conhecer a resposta, ao menos por enquanto. E conclui:

“Nas minhas investigações debaixo do sol, vi que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte (que Deus concede a cada um).

No dia da felicidade, sê alegre; no dia da desgraça, lamenta; porque Deus fez uma e outra, de tal modo que o homem não conheça o futuro.

Tudo isso aprendi com sabedoria. Mas disse comigo mesmo, em meu coração: eu quero ser sábio. A sabedoria, porém, ficou longe de mim.

Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra (...) verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. - Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter conseguido, assim não seria.



Apesar do tom extremamente ‘azedo’ e até chocante presente em todo o corpo de seu texto, o Eclesiastes não duvida em momento algum da existência de Deus, nem tampouco da ação divina sobre as vidas dos homens que caminham “sobre a terra e debaixo do sol”. Obviamente, quando fala em estarmos “à mercê das circunstâncias da ‘sorte’”, não está se referindo ao tipo de sorte que se atrai com o uso de amuletos ou talismãs. A palavra sorte, nesta tradução, se refere ao destino que foi reservado a cada um de nós antes mesmo do nosso nascimento. Uma vida de alegrias ou de sofrimentos não depende, - ao menos não necessariamente, - de sermos ‘bonzinhos’ ou ‘mauzinhos’. Não depende da nossa honestidade, dos nossos esforços, de nossa sabedoria, de cumprirmos nossas obrigações espirituais ou qualquer coisa desse tipo. O que tivermos que enfrentar, neste estágio de nossas existências, enfrentaremos. E não nos cabe questionar. Vivamos, portanto, e aproveitemos as coisas boas desta vida, tanto quanto possível. Mas com bom senso, moderação e, acima de tudo, respeito a Deus, afinal a insensatez é condenada em todo o discurso, assim como o valor da sabedoria é enaltecido:

“Alegra-te, jovem, na tua adolescência; e, enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria. Anda pelos caminhos do teu coração e segundo os olhares de teus olhos. - Mas fica sabendo que de tudo isso Deus te fará prestar conta. Por todas as coisas te trará Deus a juízo.

Afasta, pois, a ira do teu coração, e remove da tua carne o mal, porque a adolescência e a juventude são vaidade.

As palavras dos sábios são como aguilhões, como pregos, bem fixados pelos mestres das assembléias: reunidas em coleção, são parecidas a estacas plantadas, que nos foram dadas pelo Único Pastor.

De tudo o que se tem ouvido, o fim é: teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; este é o dever de todo o homem. - Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto e encoberto, todo ato, seja bom ou mau.



Sofrer ou exultar não depende de nossos atos, mas não é por isso que devemos abrir mão de buscar o caminho do bem, fazer o que é certo, viver a Vontade de Deus em nossas vidas. Por tudo que fizermos seremos levados a juízo diante do Criador. - E esta é uma linha de pensamento que contrasta radicalmente com as doutrinas defendidas pelos mestres e doutores da Lei contemporâneos do Eclesiastes; - ele exige que se ame e busque a Deus porque é Bom, e não visando recompensas imediatas. Faça o que é certo por Amor ao que é certo, e não para se beneficiar disso. Ninguém pode barganhar com Deus.

Concordando ou não com o que foi exposto, mantendo reservas ou não a respeito de tudo isso, não há como se negar que essa desistência assumida de encontrar uma solução perfeita e definitiva para um problema assim tão imenso é a atitude mais honesta que podemos ter. Qualquer um pode se esforçar, procurar e procurar, e encontrar sim a sua solução particular para essas questões fundamentais. Podemos escolher uma entre as muitas alternativas disponíveis no “mercado religioso”: seja entre as 5 principais, abordadas neste nosso estudo, ou não. E fora delas também há versões interessantes, sem dúvida. – Isto é, eu poderia, apelando para lógica e a objetividade, conseguir convencer um bom número de pessoas que uma determinada explicação é a melhor, que é a verdadeira. Também poderia fazer a mesma coisa apelando para a mística e para a pura subjetividade das minhas sensações, intuições e vivências interiores e pessoais. E também poderia fazê-lo apelando para a autoridade religiosa.

Então eu posso dizer “Sei porque estudei, pesquisei, comprovei e aprendi”, ou “Sei porque ‘entendi’ além do compreensível, porque ‘vi’ além do visível, porque tive uma revelação transcendental”, ou ainda “Sei porque a tradição que eu sigo, que é a única verdadeira, me diz que é assim”. Escolha a sua. Mas o Eclesiastes é, absurdamente, explicitamente, quase desrespeitosamente... honesto. E diz simplesmente: “Não sei a resposta. Sei que o problema existe, não posso negá-lo, mas não sei explicar por quê. Só digo que Deus, sendo justo e perfeito, tem um motivo justo e perfeito para fazer as coisas como são”.

Quanto a este autor que vos fala, depois de muito estudo, muita alegria e muito enfado, depois de muito trabalho e muito ‘me deixar levar’... Depois de receber grandes presentes da vida e de muito apanhar dela também, acabei por adotar uma postura muito parecida com a do Eclesiastes. Hoje, não consigo deixar de me divertir quando vejo surgir uma nova doutrina, um novo “mestre”, com uma “grande novidade” que vai fazer com que todos despertem das trevas para a Luz, definitivamente. Me divirto particularmente quando ouço explicações detalhadas sobre os porquês de tudo, elucidações minuciosas sobre a origem das coisas, sobre como alcançar o conhecimento divino e perfeito sobre todas as coisas, descrições de como será a vida depois desta, etc, etc... Será que não entendem que certas coisas devem permanecer como mistério, e que isso faz parte da Grande Jornada, ao menos por enquanto? Prefiro a sabedoria inapelável do Eclesiastes:

“Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra (...), verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. - Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter conseguido, assim não seria.”




Tudo o que foi dito até aqui é uma coisa. Mas gostaria muito de esclarecer que isso não implica dizer que o conhecimento das verdades inefáveis, ou ao menos o seu entendimento, não seja possível. A Verdade está nos paradoxos, e a coisa se torna interessante justamente quando entendemos que o que ocorre, de fato, é justamente o contrário. O conhecimento da Verdade se torna possível somente quando eu desisto, olho para dentro de mim mesmo e reconheço “Não sei, e sou humanamente incapaz de entender”.

Por estranho e incompreensível que pareça, para entender é preciso abrir mão do próprio entendimento que se acreditava possuir. Somente quando eu desisto de tentar explicar as coisas por minhas próprias forças, ou só quando eu deixo para trás as explicações prontas dos muitos “mestres” e “gurus” à minha disposição, é que o entendimento possível se manifesta. “A verdade está lá fora”, rezava o bordão daquela antiga e popular série de TV. – Mas o que acontece realmente é o exato oposto: a Verdade está aqui dentro. Dentro de mim, dentro de você.

E, ainda que o desperto possa ajudar aos seus próximos, adormecidos em seus sonhos de brumas, - através do seu testemunho, do seu falar, de indicações e, principalmente, através do seu exemplo de vida, - em última análise cada um deve encontrar o Caminho do despertar por si próprio. E isso só é possível quando você reconhece que é incapaz, que todas as tentativas humanas são insuficientes e imperfeitas, que tudo que já se ouviu sobre a terra e debaixo do sol não foi capaz de esclarecer as questões fundamentais, que gritam dentro de cada um de nós desde que o mundo é mundo.

Quanto às outras tentativas de explicação clássicas, sem dúvida que cada uma delas contêm, sim, grandes verdades próprias: ninguém pode negar que as nossas ações, boas ou más, geram consequências boas ou más; - que as dificuldades e sofrimentos que enfrentamos muitas vez funcionam como provas de nossa fé e fidelidade; - que podem ser (maravilhosos) instrumentos de redenção, purificação ou depuração; - e que muitas vezes são consequência inevitável do maior presente que recebemos: nosso livre arbítrio. Então, talvez a resposta definitiva passe por todas elas, afinal de contas. Ou talvez cada momento difícil, em particular, possa ser entendido sob o prisma de cada uma dessas visões, em particular.

Eu quis chocar, fiz questão de ir fundo desde a primeira destas postagens, para que o entendimento mais profundo pudese ser apreendido. Espero ter obtido bom êxito. Boa sorte. Deus lhe sorria, e boa jornada de volta pra casa!






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Em busca da Libertação Final - 13

A última solução clássica para o problema da existência do mal e do sofrimento no mundo - conclusão




Conclusão das palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém


X


Assim como uma mosca morta infecta e corrompe o azeite perfumado; assim também um pouco de loucura é suficiente para corromper a sabedoria.

O coração do sábio está à sua direita, mas o coração do tolo está à sua esquerda.

No meio da estrada, quando caminha o tolo, falta-lhe o bom senso, e todos dizem: 'É um louco'.

Se a ira do príncipe se inflama contra ti, não abandones teu lugar, porque a calma previne grandes erros.

Ainda há um mal que vi debaixo do sol, uma falha que procede do soberano:

Os tolos ocupam os mais altos cargos, enquanto os homens de valor estão colocados em empregos inferiores.

Vi os servos a cavalo, e os príncipes andando sobre a terra como escravos.

Quem abrir uma cova, nela cairá, e quem romper um muro será picado por uma serpente.

Aquele que transporta pedras será machucado por elas, e o que rachar lenha está arriscado a se ferir.

Se o ferro estiver gasto, e não se afiar o corte, então a força deve ser redobrada; mas afiá-lo é uma vantagem que a sabedoria proporciona.

Se a serpente morde por erro de encantamento, não vale a pena ser encantador.

Nas palavras da boca do sábio há favor, porém os lábios do tolo o devoram: o começo de suas palavras é tolice, e o fim do seu falar um perigoso desvario.

O tolo multiplica as suas palavras, porém, o homem não conhece o futuro; quem lhe fará saber o que será depois dele?

O trabalho do insensato é fadiga; ele não sabe como ir à cidade.

Ai de ti, ó terra, quando seu rei é uma criança, e cujos príncipes comem desde a manhã.

Bem-aventurada tu, ó terra, quando seu rei é filho dos nobres, e seus príncipes comem à hora conveniente, não por devassidão, mas para se fortalecerem.

Por desleixo se enfraquece o teto, e quando as mãos são inativas, choverá dentro da casa.

Para rir se fazem banquetes, o vinho alegra esta vida, e por tudo o dinheiro responde.

Nem ainda no teu pensamento amaldiçoes ao rei, nem tampouco no mais interior da tua recâmara amaldiçoes ao rico; porque uma ave dos céu levaria a tua voz, e os que têm asas dariam notícia do assunto.





XI


Lança o teu pão sobre as águas; depois de muito tempo o acharás novamente.

Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra.

Quando as nuvens estiverem carregadas, derramarão chuvas sobre a terra. Caindo a árvore para o sul, ou para o norte, no lugar em que cair, ali ficará.

Quem observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará.

Assim como tu não sabes qual o caminho do vento da vida, nem como se formam os ossos no ventre da mãe, assim também não sabes sobre as obras de Deus, que faz todas as coisas.

Pela manhã semeia a tua semente, e não deixes de usar tuas mãos para semear também à tarde, até a noite, porque não sabes onde terás êxito, se nesta manhã, se nesta tarde, ou se ambas serão igualmente boas.

Certamente suave é a luz, e agradável é aos olhos ver o sol.

Porém, se o homem viver muitos anos, e em todos eles se alegrar, também se deve lembrar dos dias das trevas, porque hão de ser muitos. Tudo o que ocorre é vaidade.

Alegra-te, jovem, na tua adolescência, e enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria. Anda pelos caminhos do teu coração e segundo os olhares de teus olhos. - MAS fica sabendo que de tudo isso Deus te fará prestar conta. Por todas as coisas te trará Deus a juízo.

Afasta, pois, a ira do teu coração, e remove da tua carne o mal, porque a adolescência e a juventude são vaidade.



Salomão Rei, o Eclesiastes, filho de Davi. O mais sábio
entre os soberanos, e seu símbolo de glória


XII - Epílogo


Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade e juventude, antes que venham os maus dias e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: não sinto prazer neles;

Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;

No dia em que tremerem os guardas da casa, e se encurvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas;

E as portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as filhas da música se abaterem.

Como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite... Porque o homem se encaminha à morada eterna, e os pranteadores andarão pelas praças;

Antes que se rompa o cordão de prata e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro na fonte, e se quebre a roldana junto ao poço,

Antes que o pó volte à terra, como era antes, e o sopro de vida volte a Deus, que o deu.

Vaidade de vaidades, diz o Eclesiastes, tudo é vaidade.

Foi sábio o Eclesiastes, ensinou ao povo sabedoria; pesou, perscrutou, dispôs muitos provérbios.

Procurava o Eclesiastes achar sentenças agradáveis; redigir com exatidão palavras da verdade.

As palavras dos sábios são como aguilhões, como pregos, bem fixados pelos mestres das assembléias: reunidas em coleção, são parecidas a estacas plantadas, que nos foram dadas pelo único Pastor.

De resto, filho meu, escuta: quanto a um maior número de palavras, além estas, fica sabendo que se podem multiplicar os livros, sem limite. O muito estudar é enfado da carne.

De tudo o que se tem ouvido, o fim é: teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; este é o dever de todo o homem.

Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto e encoberto, todo ato, seja bom ou mau.


_______________________________
Traduções da Bíblia utilizadas:
Almeida Corrigida e Revisada Fiel;
Almeida Revisada Imprensa Bíblica;
Bíblia Sagrada Editora Ave Maria.




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Em busca da Libertação Final - 12

A última solução clássica para o problema da existência do mal e do sofrimento no mundo - parte 3




Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém


VII


A boa fama vale mais que o melhor perfume; mais vale o dia da morte que o dia do nascimento.

Melhor é ir para a casa onde há luto que para a casa onde há banquete. Porque aí está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.

Melhor é a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do semblante se faz melhor o coração.

O coração dos sábios está na casa do luto, o coração dos insensatos na casa da alegria.

É melhor ouvir a reprimenda de um sábio que a canção de um tolo, porque, qual o crepitar dos espinhos ao fogo, tal é o riso do insensato. E isso é ainda vaidade.

A opressão torna um sábio insensato; os presentes corrompem o coração.

Mais vale o fim de uma coisa que seu começo. Um espírito paciente vale mais que um espírito orgulhoso.

Não cedas prontamente ao espírito de irritação; é no coração dos insensatos que reside a irritação.

Não digas jamais: 'Por que foram os dias dos passado do que estes de agora?' - Porque não é a sabedoria que te inspira esta pergunta'.

A sabedoria é tão boa como uma herança, e é de proveito aos que vêem o sol.

Porque a sabedoria serve de defesa, como de defesa serve o dinheiro; mas a excelência da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor.

Considera a obra de Deus: quem poderá endireitar o que ele fez torto?

No dia da felicidade, sê alegre; no dia da desgraça, lamenta; porque Deus fez uma e outra, de tal modo que o homem não conheça o futuro.

No decurso de minha vã existência, vi tudo isso: há o justo que morre, permanecendo justo, - e o ímpio que dura, apesar da sua malícia.

Não sejas justo excessivamente, nem sábio além da medida. Por que te destruirias a ti mesmo?

Não sejas excessivamente mau, e não sejas insensato. Por que haverias de morrer antes de tua hora?

É bom que guardes isto, e que não negligencies aquilo: porque aquele que teme a Deus, realizará uma e outra coisa.

A sabedoria dá ao sábio mais força que dez chefes de guerra reunidos numa cidade.

Não há homem justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar. Não prestes atenção em todas as palavras que se dizem, para que não ouças dizer que teu servo fala mal de ti; porque teu coração bem sabe que tu mesmo, muitas vezes, também falaste mal dos outros.

Tudo isso aprendi com sabedoria. Mas disse comigo mesmo, em meu coração: eu quero ser sábio. Mas a sabedoria ficou longe de mim.

Aquilo que já se foi é longínquo, profundíssimo: quem o poderá sondar?

Eu me apliquei de todo coração a perscrutar, a sondar a sabedoria e a razão das coisas, a reconhecer que a maldade é uma loucura e a falta de razão uma demência.

E descobri que a mulher é coisa mais amarga que a morte, porque ela é um laço, e seu coração uma rede; suas mãos, cadeias. Aquele que é agradável a Deus lhe escapa, mas o pecador será preso por ela.

Eis o que encontrei, diz o Eclesiastes, procurando descobrir a razão de uma coisa depois de outra.

Eis o que eu procuro continuamente sem descobrir: encontrei um homem entre mil, mas nenhuma mulher entre todas.

Somente encontrei isto: Deus criou o homem reto, mas ele procura por extravios.




VIII


Quem é comparável ao sábio, que conhece a razão das coisas? A sabedoria de um homem ilumina-lhe o semblante, e a severidade de seus traços é modificada por ela.

Observa a ordem do rei e, por causa do juramento feito a Deus, não te apresses a fugir de sua presença. Não te comprometas com um mau negócio, porque o rei faz tudo que lhe apraz.

Com efeito, sua palavra é soberana; e quem ousaria dizer-lhe: 'Que fazes tu?'

Aquele que observa o preceito não provará mal algum, e o coração de um sábio conhece o tempo e o julgamento.

Porque para tudo há um tempo e um julgamento, e a desgraça pesa forte sobre o homem.

Ele não conhece o futuro; quem lhe poderia dizer como as coisas se passarão?

O homem não é senhor do sopro de sua vida (ou sua alma), nem é capaz de o conservar. Ninguém tem poder sobre o dia de sua morte, nem a faculdade de afastar esse combate; o crime não pode salvar o criminoso.

Eis o que eu vi, aplicando meu espírito a tudo que se faz debaixo do sol, quando um homem domina sobre outro homem para a desgraça deste último: vi ímpios receberem sepultura e gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do lugar santo e eram esquecidos na cidade. Isto ainda é vaidade.

Porque a sentença contra os maus atos não é executada imediatamente, o coração dos homens se enche de desejo de fazer o mal; - porque o pecador culpado de cem crimes vê a sua vida prolongada. Eu sei, no entanto, que a felicidade é para os que temem a Deus, que sua Presença enche de respeito, e que não haverá nenhuma felicidade para o ímpio, o qual, como a sombra, não prolongará sua vida, porque não tem temor a Deus.

Há outra vaidade que aparece sobre a terra: há justos aos quais acontece o que conviria ao proceder de imprudentes; e há ímpios aos quais acontece o que conviria ao proceder de justos. Digo que isso é também vaidade.

Por isso louvei a alegria, porque não há nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e se divertir; possa isto acompanhá-lo no seu trabalho, ao longo dos dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol.

Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra - porque nem de dia, nem de noite os olhos dos homens encontram repouso, - verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. - Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter conseguido, isso não aconteceria.


IX


Apliquei então meu espírito ao esclarecimento de tudo isso: os justos, os sábios e seus atos estão na mão de Deus. O homem ignora se isso será amor ou ódio. Tudo é possível.

Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o perjuro como o que respeita seu juramento.

Entre tudo que se faz debaixo do sol, é uma desgraça só existir para todos um mesmo destino: por isso o espírito dos homens transborda de malícia, a loucura ocupa o coração deles durante a vida, depois da qual vão para a mansão dos mortos.

Porque, enquanto um homem permanece entre os vivos, há esperança; mais vale um cão vivo que um leão morto.

Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada; para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança está esquecida.

Amor, ódio, ciúme... Tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol.

Ora, pois, come alegremente teu pão e bebe contente teu vinho, porque Deus já apreciou teus trabalhos.

Traja sempre vestes brancas e haja sempre azeite perfumado em tua cabeça.

Desfruta da vida com a mulher que amas, durante todos os dias da fugidia e vã existência que Deus te concede debaixo do sol. Esta é tua parte na vida, o prêmio do labor a que te entregas debaixo do sol.

Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria.

Nas minhas investigações debaixo do sol, vi ainda que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte.

O homem não conhece sua própria hora: semelhantes aos peixes apanhados pela rede fatal, ou os passarinhos presos no laço, os homens são enlaçados na hora da calamidade, que se arremessa sobre eles de súbito.

Vi também, debaixo do sol, este exemplo de uma sabedoria que me pareceu grande: havia uma pequena cidade, pouco populosa, contra a qual veio um poderoso rei que a sitiou e construiu contra ela fortes trincheiras.

Ora, aí se encontrava um pobre homem, prudente, cuja sabedoria salvou a cidade; e ninguém se lembrou desse pobre homem.

Por isso eu disse: a sabedoria vale mais que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e às suas palavras não se dão ouvidos.

As palavras calmas dos sábios são mais bem ouvidas que os gritos de um chefe entre insensatos.

Mais vale a sabedoria que as armas e máquinas de guerra; mas um só pecador pode causar grande dano ao bem.





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Em busca da Libertação Final - 11




A última solução clássica para o problema da existência do mal e do sofrimento no mundo - parte 2


Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém


IV


Pus-me a considerar todas as opressões que se exercem debaixo do sol. Eis aqui as lágrimas dos oprimidos, e não há ninguém para consolá-los. Seus opressores lhes impoem a violência, e não há ninguém para consolá-los.

E julguei os mortos, os que estão mortos, mais felizes que os vivos, que ainda estão em vida; e reputei mais feliz que uns e outros aquele que não nasceu, que não chegou à existência: o que não viu o mal que se comete debaixo do sol.

Vi que todo o trabalho, toda a habilidade e destreza humana em suas obras, provém da inveja que o homem tem diante do seu próximo. Isto é também vaidade e vento que passa.

O insensato cruza as mãos e devora sua própria carne.

Mais vale uma mão cheia de tranquilidade, que as duas mãos cheias de trabalho e de vento que passa.

Vi ainda outra vaidade debaixo do sol: eis um homem sozinho, sem alguém junto de si: nem filho, nem irmão (parentes); trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um trabalho ingrato.

Dois homens juntos são mais felizes que um isolado, porque obterão um bom salário do seu trabalho.

Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para o levantar.

Da mesma forma, se dormem dois juntos, aquecem-se; mas um homem só, como se há de aquecer?

Se é possível dominar o homem que está sozinho, dois podem resistir ao agressor, e um cordel quando triplicado não se rompe facilmente.

Mais vale um adolescente pobre e sábio, que um rei velho e insensato, que já não aceita conselhos; porque ele sai da prisão para reinar, se bem que pobre de nascimento no seu reino.

Vi todos os viventes, que se acham debaixo do sol, apressarem-se junto do adolescente que sucederia ao rei; era interminável o cortejo dessa multidão, à testa da qual ele caminhava. Contudo, a geração seguinte não se rejubilará por sua causa. Tudo isso é ainda vaidade e vento que passa.

Vê onde pões teu pé, quando entras no Templo do Senhor. Mais vale a obediência que os sacrifícios dos insensatos; estes não sabem que fazem o mal.



V


Não te apresses em abrir a boca; que teu coração não se apresse em proferir palavras diante de Deus, porque Deus está no Céu e tu na Terra; que sejam, portanto, poucas as tuas palavras.

Porque muitas ocupações geram sonhos, e a torrente de palavras faz nascer resoluções insensatas.

Quando fizeres um voto a Deus, realiza-o rápido, porque aos insensatos Deus não é favorável. Cumpre, portanto, teu voto.

Mais vale não fazer um voto, que prometer e não ser fiel à promessa.

Não permitas à tua boca fazer pecar a tua carne, nem digas na presença dos anjos que isso foi apenas uma inadvertência; por que razão Deus se iraria contra a tua voz, e destruiria a obra das tuas mãos?

Porque muitos cuidados geram sonhos, e a torrente de palavras, despropósitos. Assim, pois, teme a Deus.

Se vires próximo a ti a opressão do pobre, ou a violação do direito e da justiça, não te admires, porque o grande é observado por outro maior, e ambos por outros ainda maiores.

O proveito da Terra é para todos; até o rei se serve do campo.

Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza não tira dela proveito. Também isso é vaidade.

Quando abundam os bens, numerosos são os que comem, e que vantagem há para os seus possuidores, senão ver como se comportam?

Doce é o sono dos trabalhador, tenha ele pouco ou muito para comer; mas a abundância do rico o impede de dormir.

Vi uma dolorosa miséria debaixo do sol: as riquezas que um possuidor guarda para sua desgraça.

Caso essas riquezas venham a se perder em consequência de algum desagradável acontecimento, se ele tiver um filho, nada lhe restará na mão.

Nu saiu ele do ventre de sua mãe, e tão nu como veio sairá desta vida, e, pelo seu trabalho, nada receberá que possa levar em suas mãos.

Sim, é uma dolorosa miséria que ele se vá assim como veio; e que vantagem terá ele por ter trabalhado para o vento?

Todos os seus dias foram consumidos numa sombria dor, em extrema amargura, no sofrimento e na irritação.

Eis o que eu reconheci ser bom: que é conveniente ao homem comer, beber, gozar de bem-estar em todo o trabalho ao qual ele se dedica debaixo do sol, durante todos os dias de vida que Deus lhe der. Esta é a sua parte.

Se Deus dá ao homem bens e riquezas, e lhe concede delas comer e delas tomar sua parte, e se alegrar no seu trabalho, isso é um dom de Deus.

Ele não pensa no número dos dias de sua vida, quando Deus derrama em seu coração a alegria.





VI


Vi um mal debaixo do sol, que calca pesadamente o homem.

Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras; nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o prazer, reservando-o a um estranho. Isso é vaidade e dor.

Um homem, embora crie cem filhos, viva numerosos anos e numerosos dias, se não pôde fartar-se de felicidade e se não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele.

Porque o abortado veio, mas em trevas se foi, e de trevas se cobre o seu nome. Seu nome permanecerá na obscuridade, e não terá visto nem conhecido o sol. Ainda assim, melhor é a sua sorte que a deste homem.

E, mesmo que alguém vivesse duas vezes mil anos, sem provar a felicidade, - não vão todos para o mesmo lugar?

Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e, entretanto, seus desejos não são satisfeitos.

Que superioridade tem o sábio sobre o louco? Que vantagem há para o pobre saber se comportar na vida?

Melhor é o que vêem os olhos do que a agitação dos desejos. Isso é ainda vaidade e vento que passa.

A tudo que existe, desde há muito foi dado um nome: sabe-se o que é um homem, e ele não pode disputar com um mais forte do que ele.

Muitas palavras, muita vaidade. De tudo isso, qual é o proveito para o homem?

Pois, quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra? Que poderá dizer ao homem o que acontecerá depois dele, debaixo do sol?






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Em busca da Libertação Final - 10

A última solução clássica para o problema da existência do mal e do sofrimento no mundo




I

Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém


Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes. Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Uma geração passa, outra vem, mas a Terra subsiste.

O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta novamente.

O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos.

Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr.

Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir.

O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.

Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: "Veja: isto é novo!", a verdade é que ela já existia nos tempos passados.

Não há verdadeira memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.

Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata.

Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis o que vi: tudo vaidade, e vento que passa.

O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular.

Eu disse a mim mesmo, em meu coração: 'eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos os que me precederam em Jerusalém'. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência, e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa.

Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quanto aumenta a ciência, aumenta a dor.




II


Eu disse a mim mesmo, em meu coração: Vamos, tentemos a alegria e gozemos o prazer. Mas isso é também vaidade.

Do riso eu disse: loucura! E da alegria: para que serve?

Resolvi entregar minha carne ao vinho, enquanto meu espírito se aplicaria ainda à sabedoria; procurar a loucura até que eu visse o que é bom para os filhos dos homens fazerem durante toda a sua vida debaixo dos céus.

Empreendi grandes trabalhos, construí para mim casas e plantei vinhas; fiz jardins e pomares, onde plantei árvores frutíferas de toda espécie; cavei reservatórios de água para regar o bosque. Comprei escravos e escravas; e possuí outros nascidos em casa.

Possuí muito gado, bois e ovelhas, mais que todos os que me precederam em Jerusalém.

Amontoei prata e ouro, riquezas de reis e de províncias. Procurei cantores e cantoras, e o que faz as delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.

Fui maior que todos os que me precederam em Jerusalém; e, ainda assim, minha sabedoria permaneceu comigo.

Tudo que meus olhos desejaram, não lhes recusei; não privei meu coração de nenhuma alegria. Meu coração encontrava sua alegria no meu trabalho; este é o fruto que dele tirei.

Mas, quando me pus a considerar todas as obras de minhas mãos e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis o que encontrei: tudo é vaidade e vento que passa; não há nada de proveitoso debaixo do sol.

Passei então à meditação da sabedoria, da loucura e da tolice. (Qual é o homem, designado desde muito tempo, que virá depois do rei?)

Cheguei à conclusão de que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas.

Os olhos do sábio estão na cabeça, mas o insensato anda nas trevas. Mas eu notei que um mesmo destino espera a ambos, e disse comigo mesmo: A minha sorte será a mesma que a do insensato.

Então para que me serve toda a minha sabedoria? Por isso disse eu comigo mesmo: tudo isso é ainda vaidade.

Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, pois que, passados alguns dias, ambos serão esquecidos. Mas então? Tanto morre o sábio como morre o louco!

E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa.

Também se tornou odioso para mim todo o trabalho que produzi debaixo do sol, porque devo deixá-lo àquele que virá depois de mim.

E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo o fruto dos meus trabalhos que debaixo do sol em custaram trabalho e sabedoria. Também isso é vaidade.

E eu senti meu coração cheio de desgosto por todo o labor que suportei debaixo do sol.

Que um homem trabalhe com sabedoria, ciência e bom êxito para deixar o fruto de seu labor a outro que em nada colaborou, note-se bem, é uma vaidade e uma grande desgraça.

Com efeito, que resta ao homem de todo o seu labor, de todas as suas azáfamas a que se entregou debaixo do sol?

Todos os seus dias são apenas dores, seu trabalhos apenas tristezas; mesmo durante a noite ele não goza de descanso. Isto é ainda vaidade.

Não há nada melhor para o homem que comer, beber e gozar o bem-estar no seu trabalho. Mas eu notei que também isso vem da mão de Deus; pois, quem come e bebe, senão graças a ele? Àquele que lhe é agradável Deus dá sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador ele dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem lhe agradar. Isto é ainda vaidade e vento que passa.





III


Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir;

Tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para abraçar, e tempo para se afastar.

Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Que proveito tira o trabalhador de sua obra?

Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens: todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.

Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.

Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede desta maneira para ser temido.

Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou.

Debaixo do sol, observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça.

Então eu disse a mim mesmo, em meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda a obra.

Eu disse comigo mesmo a respeito dos homens: Deus quer prová-los e mostrar-lhes que, quanto a eles, são semelhantes aos brutos.

Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim os espera. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade.

Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do pó e para o pó voltam.

Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?

E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o passar dos anos?




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