Em busca da Libertação Final - 9 (epílogo)

Santo Agostinho e a Filosofia


Estudamos um conceito essencial presente em praticamente todas as religiões monoteístas e universais. Trata-se de um verdadeiro esteio das doutrinas chamadas semítico-proféticas, - judaísmo, cristianismo e islamismo, - e é fundamento de uma infinidade de seitas menores: afirma que Deus é Uno, Bom, Transcendente e Criador Onipotente de tudo o que existe. É por isso que o mal, ao contrário do que ocorria no politeísmo pagão, configura-se um obstáculo que a razão não é capaz de transpor. O grande problema, que consiste na contradição da coexistência de Deus e do mal, se apresenta exclusivamente no âmbito do monoteísmo, em face dos dogmas mais básicos da sua metafísica. Conforme veremos, o sofrimento, a finitude e a crueldade, - paradigmas respectivamente físico, metafísico e moral de qualquer possível manifestação do mal, - não são passíveis de se integrar na lógica do sistema monoteísta, senão por intermédio de algum artifício moral.

O conceito de revelação divina pretendido pelas religiões monoteístas implica na afirmação de que o próprio Deus, apesar de sua transcendência, se dá a conhecer aos homens, no tempo e no espaço, manifestando-lhes verdades que de outro modo não lhes seriam acessíveis.

Agostinho examinou a hipótese da revelação monoteísta, - isto é, a de que o próprio Deus teria revelado algumas de suas verdades essenciais à humanidade, por intermédio de seus profetas, - juntamente com a grande questão do “escândalo do mal”, e o fez de uma perspectiva estritamente filosófica, reputada como teodicéica, ou seja, uma tentativa de justificação racional da bondade e onipotência divina em face da evidência do mal. Por 'perspectiva estritamente filosófica', me refiro a uma compreensão fundada exclusivamente na racionalidade ocidental, sistemática, ávida por distinguir as normas gerais do mundo e da vida, fiel à coerência lógica, zelosa por nunca violar o princípio da não-contradição.

Nesse sentido não seria possível conciliar fé e razão, pois, para tanto, seria necessário que se respondesse de maneira satisfatória ao problema do mal e assim se aderisse por meio da razão ao conteúdo da fé. O elemento do sistema teológico que pretende elucidar o problema do mal e do sofrimento é a chamada Doutrina da Retribuição, que vimos aqui. Segundo esta, o infortúnio é castigo infligido por Deus a quem viola seus mandamentos. Embora essa visão seja especialmente veterotestamentária (do Antigo Testamento), o cristianismo nunca se desvencilhou dela por completo, como veremos. A harmonia da criação implica a lógica da causalidade: nenhum ato é sem efeito. Todos os eventos decorrem de alguma causa, ainda que conhecida apenas de Deus. Não há, pois, no sistema metafísico monoteísta, absolutamente nenhum espaço para o absurdo. Há o incompreensível, sim, o secreto, o misterioso e o sagrado, mas nunca o absurdo. O que ainda não foi manifestado, o que ainda não foi compreendido, certamente o será no futuro, pois a Revelação é um processo lento e contínuo, que aguarda a consumação dos tempos e o fim da História para ser concluída.

Santo Agostinho diz que, porque Deus é bom e providente, tudo o que criou é perfeito e todo seu agir é justo. Ele deu aos homens a liberdade, sua mais alta Graça, que os faz semelhantes ao Criador. Em contrapartida, a sua justiça não pode deixar sem punição as transgressões da justiça, princípio fundamental da harmonia, e o pecado introduz o caos na Criação. A pena, portanto, tem em vista a restituição da ordem. Ela se configura numa espécie de satisfação por um delito que se volta não simplesmente contra seu autor, mas contra toda a Criação, um insulto ao próprio Criador. Todo pecado seria ofensivo ao próprio Deus.


O enigma do sofrimento injustificado

Ora, no contexto que acabamos de descrever, o absurdo por excelência seria a existência de um inocente sofredor. Mas é evidente que ele existe! Como explicar a dor que atinge o justo? Ela infringe o princípio de causalidade, pois não decorre de algum motivo. Ela fere de morte a lógica da retribuição.

Desde os tempos da religião hebraica mais primitiva se tentou elucidar essa questão pelo viés da doutrina da retribuição coletiva: o inocente paga solidariamente pela culpa dos pecadores de sua família ou tribo. Esse fato pode ser ilustrado por diversos episódios do AT, tais como a intercessão de Abraão pelos justos de Sodoma e Gomorra ou a morte do filho ilegítimo de Davi.

Porém, com o suposto progresso da Revelação, Israel se teria dado conta de que Deus não pune nos filhos os pecados dos pais nem nos indivíduos os pecados da nação. A retribuição, portanto, não é coletiva, mas individual. Mas se a retribuição é individual, simplesmente não há explicação plausível para o problema do sofrimento inocente. Além de não ser resolvida, a questão recrudesce.

O livro de Jó (como vimos aqui) e o de Eclesiastes (ou Qohelet) são os que melhor ilustram esse impasse. É surpreendente que esses livros tenham sido integrados ao cânone da Bíblia: eles denunciam que, se Deus existe, é absolutamente impossível dizer alguma coisa acerca de sua Natureza. A sua Essência e os seus desígnios são completamente inacessíveis aos homens. E o destino que dispõe para cada pessoa, além de se enquadrar no que chamamos de arbitrário, é inexorável.

Jó instaura a perplexidade com a qual pouquíssimos são capazes de viver. E conhecemos a solução que foi proposta para resolver o impasse: a assustadora culpa universal, perpetrada pela doutrina do pecado original, já latente na doutrina paulina, sistematizada por Agostinho e radicalizada por Lutero.

E se o problema do justo sofredor se configura num aparente absurdo que a racionalidade do monoteísmo não é capaz de dissolver, o Cristianismo é, por excelência, a religião do absurdo, porquanto a sua doutrina se baseia no sacrifício de um inocente (o único inocente) pela salvação dos pecadores; no suplício do Santo pela libertação dos perversos. A razão é incapaz de reconhecer tal justiça. Tampouco pode a razão sequer auxiliar a fé na compreensão de um Mistério que a ultrapassa de maneira tão radical. A razão precisa de lógica e de ordem. O Cristianismo de Agostinho, juntamente com o sacrifício do seu Cristo, contituem um absurdo, um completo escândalo para a razão.


A fé monoteísta é absolutamente irracional

Se o pensamento tivesse encontrado a Verdade, cessaria de se questionar. Porém, não é o que constatamos ao nos debruçarmos sobre o monoteísmo; nem sobre os seus fundamentos, quanto menos sobre as variações doutrinais.

O difícil é que, quem quer crer, levar uma vida de fé e seguimento do Caminho, - não pode questionar: quem quer que creia na Verdade revelada pelo próprio Deus, por difícil que seja, não pode de modo algum questioná-la. Ou bem se crê ou bem se questiona. Não se pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas ambas podem perfeitamente se alternar numa mesma pessoa (olha o H K Merton levantando o braço). Nesse sentido se poderia dizer que 'um crente que pensa', isto é, uma pessoa de fé que é ao mesmo tempo questionadora, é um tanto quanto esquizofrênica... No melhor dos sentidos.

Suponha-se alguém que tenha fé absoluta na bondade do Criador. Se de fato acredita que Deus é Justo e Providente, necessariamente acredita que Ele tem um motivo excelente para permitir que gente inocente sofra. Alguém que realmente creia na bondade divina, enquanto crer, não se perguntará "por que motivo um Deus Bom agiria dessa forma". E se por acaso questionar, é porque naquele instante não acredita totalmente, sua fé está balançando. Isso porque a fé se opõe à razão. Ambas parecem se odiar mortalmente. A razão não pode conduzir à fé, e nem a fé conduzir à razão. Ambas se repelem como polos idênticos de dois ímãs.

Um fiel monoteísta se perguntará porque Deus permite que crianças sejam, todos os dias, no mundo inteiro e em especial nos países mais pobres, torturadas, escravizadas, estupradas, prostituídas e mortas das maneiras mais tenebrosas? É muito provável que não, mas se algo, alguém ou alguma situação lhe suscitar esse questionamento, talvez dissesse que a culpa é do pecado da humanidade. Por tal argumento, esse monoteísta clássico pretenderá ter conseguido isentar (sua ideia de) Deus da responsabilidade pelo sofrimento de quem aparentemente é inocente. Mas essa resposta satisfaria à razão? Não. A razão se perguntaria por que Deus nos teria criado capazes de impor tanto sofrimento uns aos outros, antes de qualquer coisa. Seria um crente que se colocasse essa questão, capaz de suspender a fé no dogma de que Deus é bondoso, e assim deixar de crer? Se o fizesse, permaneceria agnóstico até encontrar na Revelação alguma resposta que o convencesse, como a de que Deus quis, exatamente por ser Bom, que o homem fosse livre.

Foi essa a explicação encontrada por Santo Agostinho. Ele diz que Deus não quis um exército de robôs pré-programados a cumprir a sua vontade automaticamente, sem escolha, para sempre. Preferiu contar com seres semelhantes a Ele, livres e capazes de tomar suas próprias decisões. Deus espera que você se aproxime dele, o ame e cumpra a sua vontade, - que é sempre o melhor para você mesmo, - por iniciativa própria. Deus nos deu a vida e, junto com ela, o maior de todos os dons: o livre-arbítrio, a liberdade de sermos o que quisermos. Isso, na prática, implicou na diversidade de escolhas que vemos: muitos optaram pelo caminho que vai na direção oposta à da Vontade Divina, que é sempre justa. É daí que provém o mal. Por isso é que a 4ª tentativa clássica de explicação para a existência do mal e do sofrimento no mundo preconiza que toda desarmonia no mundo existe como consequência inevitável do livre arbítrio, - nosso maior bem.



_____________________
Fontes e bibliografia:

BORN, E. Le Probleme du Mal. Paris: Presses Universitaires de France, 1922;
BOSC, P. J. La Foi Reformé et le Probleme du Mal, in CLAUDEL, P. Le Mal est Parmi Nous. Paris: Librairie Plon, 1948;
CADORIN, S. O Mal, Intepretação de Paul Ricoeur, Rio de Janeiro: Sotese, 2001;
MATTHEWS, Gareth B, Santo Agostinho - A Vida e as Ideias de Um Filosofo Adiante de seu Tempo. São Paulo: Jorge Zahar Editor Ltda, 1998



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Em busca da Libertação Final - 9

Santo Agostinho e a Filosofia




Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta, uma cidade da Numídia (norte da África, região conhecida como África Branca), de uma família burguesa, a 13 de novembro do ano 354. Seu pai, chamado Patrício, era pagão, mas recebeu o batismo pouco antes de morrer. Sua mãe, Mônica, pelo contrário, era uma cristã fervorosa. Mas Agostinho cresceu sob fortes influências romanas, tanto na língua quanto no aspecto cultural e também no religioso. Aos 17 anos de idade foi para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos em Direito, - se encantou, entretanto, com a Literatura, e acabou se formando na arte da palavra.

Cartago era originariamente uma colônia fenícia situada na Tunísia. Foi uma potência na Antiguidade, disputando com Roma o controle do Mar Mediterrâneo. Foi destruída depois das três Guerras Púnicas (149 aC – 146 aC), mas em aproximadamente um século antes de Cristo, Caio Júlio César e Otávio Augusto a reconstruíram como colônia de Roma. Cartago alcançou novamente uma grande prosperidade, e sua população cresceu a ponto de se tornar a quarta maior cidade do Império Romano. Foi nessa grande e pulsante metrópole multicultural que Agostinho viveu, estudou e lecionou até seus 29 anos de idade, - um longo período em que conheceu e desfrutou, sem medidas, dos prazeres da carne; - desviando-se moralmente, segundo suas próprias palavras, e caindo numa profunda sensualidade, - esta que é “uma das maiores consequências do pecado original”. - Tal sensualidade dominou-o quase por completo, fazendo-o mergulhar num turbilhão de prazeres que o entorpeceram moral e intelectualmente, e fazendo com que aderisse ao maniqueísmo.

O maniqueísmo representa uma linha de pensamento estruturalmente dualista: atribui realidade substancial tanto ao Bem quanto ao Mal. Agostinho buscava encontrar, no dualismo maniqueu, a solução do ancestral problema do mal e do sofrimento no mundo. Por consequência, buscava uma justificação para sua própria vida.

Quando terminou seus estudos, Agostinho abriu uma escola em Cartago, de onde partiu para Roma e, em seguida, para Milão. Afastou-se definitivamente do ensino aos 32 anos de idade, por razões de saúde, - mas, principalmente, por razões de ordem espiritual.

Depois de um bom espaço de tempo, – de muito estudo, questionamento, reflexão crítica e meditação, – Agostinho abandonou o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica, onde aprendeu os conceitos da espiritualidade de Deus e da negatividade do Mal. Assim ele chegou, por suas próprias forças, a uma concepção cristã da vida, isso no começo do ano 386. Entretanto sua compreensão ainda era apenas filosófica. – Fica a impressão de que a mente estivesse convencida, mas não o coração. Declara ele que, então, ainda se encontrava dominado pela luxúria.

Finalmente, como por uma fulguração dos Céus, sobreveio a conversão de Agostinho, moral, irrestrita e absoluta, em setembro do ano 386. Ele renuncia inteiramente ao mundo, à carreira e ao matrimônio; retira-se durante meses para a solidão e o recolhimento do mundo, em companhia apenas de sua mãe, do filho e de alguns pupilos. Em meditação, agastado de tudo (numa região próxima à Milão), escreveu seus magistrais Diálogos Filosóficos, e, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio, recebeu o batismo cristão, das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloquência parecem ter representado parte importante no seu processo de conversão. Tinha Agostinho, então, trinta e três anos de idade...

Depois de sua impressionante conversão, Agostinho abandonou Milão, e, falecida sua mãe, voltou para Tagasta. Ali vendeu todos os seus haveres e distribuiu o dinheiro entre os pobres; a seguir fundou um mosteiro, em uma das suas propriedades alienadas. Foi ordenado padre em 391, e consagrado bispo em 395.

Após a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo das Sagradas Escrituras, da Teologia Revelada, e da redação de suas grandes obras, entre as quais se destacam as filosóficas. As obras de Agostinho de maior interesse filosófico são, sobretudo, os Diálogos Filosóficos: ‘Contra os Acadêmicos’, ‘Da Vida Beata’, ‘Os Solilóquios’, ‘Sobre a Imortalidade da Alma’, ‘Sobre a Quantidade da Alma’, ‘Sobre o Mestre’, ‘Sobre a Música’. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: ‘Sobre os Costumes’, ‘Do Livre Arbítrio’, ‘Sobre as Duas Almas’, ‘Da Natureza do Bem’.

Dada, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreende-se que interessam à filosofia também suas obras teológicas e religiosas, especialmente ‘Da Verdadeira Religião’, ‘As Confissões’, ‘A Cidade de Deus’, ‘Da Trindade’, ‘Da Mentira’, ‘O Pensamento’, ‘A Gnosiologia’.

Agostinho governou a igreja de Hipona até sua morte, que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto de 430. Tinha setenta e cinco anos de idade.

Este brevíssimo (insípido mas necessário) resumo da vida de Santo Agostinho tem a finalidade de servir como pano de fundo para que possamos entrar com maior propriedade na matéria que mais nos interessa neste momento.


Santo Agostinho e Santa Mônica, sua mãe


Santo Agostinho afirma que há apenas uma Justiça, - aquela vinda de Deus. Um das questões mais interessantes colocadas por Agostinho, no entanto, é o porquê da injustiça. Se Deus é o Criador de todas as coisas, e se sua bondade é infinita, porque há maldade e injustiça no mundo?

Veja-se que para Agostinho existe apenas um Deus, o Sumo Bem, Criador de todas as coisas. Se tudo que existe foi criado por Deus, não há possibilidade de atribuir a origem do mal ao diabo, por exemplo.

Então, de onde vem o mal que praticamos? Esta questão é respondida por Agostinho no seu livro De Libero Arbitrio, onde ele defende a tese de que a origem do mal está no livre arbítrio da humanidade, ou seja, para Agostinho o Mal é resultado do mal uso de nossas vontades.

Deus fez o homem uma criatura superior, à qual concedeu o dom da razão. Esse privilégio permitiu ao homem conhecer a maravilhosa Ordem que o Criador instituiu no Universo. Porém, por ser racional, o homem pode escolher livremente entre aceitar a ordem divina, contribuindo para a Harmonia do Universo, ou transgredir essa ordem, cultivando a maldade e a injustiça. Para Agostinho, portanto, ser justo é agir de forma a manter a Harmonia designada por Deus.



Continua (notas e bibliografia na conclusão)...



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Em busca da Libertação Final - 9 (introdução)




Dos 5 modelos clássicos de tentativas de explicação para a existência do mal e do sofrimento no mundo, vimos até agora três, a saber:

1) O mal e o sofrimento seriam reflexos da nossa maldade, o resultado de nossas más ações. Todas as aparentes injustiças com que nos deparamos no mundo seriam consequências da desobediência à Vontade perfeita de Deus. Essa é uma das principais explicações contidas nos livros do Antigo Testamento da Bíblia. - Adão e Eva foram expulsos do Paraíso de Delícias como castigo pela sua infidelidade; mais tarde, o povo de Israel sofre nas mãos de seus inimigos pelo mesmo motivo. Já estudamos essa teoria aqui. - Pecado (infidelidade a Deus) = mal no mundo = sofrimento.

Essa parecia uma explicação bastante sensata e justa, mas não atendia à questão da grande incidência de justos sendo expostos à humilhação, à dor e ao sofrimento, e nem traduzia o sucesso e a prosperidade dos maus.

2) E foi aí que surgiu uma nova tentativa de resposta: o mal e o sofrimento no mundo poderiam ser explicados como testes de fé, provas de fidelidade impostas aos seres humanos por Deus. - Teoria, esta, brilhantemente ilustrada através da história bíblica do Livro de Jó, mas que também foi contada e recontada de maneiras diferentes por outros povos do mundo, inclusive na Tradição Oriental, como vimos aqui. E os registros históricos parecem demonstrar que essa explicação convenceu, por algum tempo. As pessoas se contentaram e passaram a se esforçar ainda mais em provar sua fidelidade e sua paciência. Muitos dentre os mais religiosos começaram a se sentir especialmente gratos quando submetidos a perseguições, humilhação e todo tipo de dor moral e física, acreditando firmemente estarem sendo submetidos à provas de fidelidade por Deus.

Mas (como vimos aqui) ainda havia um problema: se Deus nos põe à prova, - e é por isso que existe tanta dor e sofrimento no mundo, - isso não explica porque crianças inocentes também são expostas a toda espécie de agressão. Estariam seres tão puros, inocentes e, além de tudo, desprovidos de caráter e/ou de consciência moral sendo testados, também? Crianças que não adquiriram ainda o discernimento do certo e do errado poderiam ser testadas dessa maneira? Bebês que não fazem a menor ideia do significado da palavra "Deus" poderiam ter sua fidelidade a Deus posta à prova? Indo mais além, até mesmo entre os animaizinhos, percebia-se que alguns nasciam defeituosos. Estariam as ovelhas, jumentos e cabritos nascidos aleijados sendo submetidos a teste? Estariam os bichos sendo postos à prova? Não... a explicação do sofrimento como prova de fé também não poderia ser considerada definitiva.

3) Foi assim que chegamos a noção do Sofrimento Redentor, a mais cristã de todas. Através da dor e do sofrimento, nos aproximaríamos mais de Deus. As dificuldades num mundo de maldades e dores representariam uma espécie de processo depurativo, através do qual somos dilapidados. O Cristo sofreu por todos, e através do seu sofrimento redimiu o mundo. A humanidade também precisa sofrer para alçar condições espirituais mais elevadas e mais perfeitas. Nas palavras do Padre Faus (que lemos aqui): "Deus sempre nos faz bem por meio da Cruz, seja qual for, quando nós o 'deixamos' fazer. Assim como nos salvou pela Cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da Cruz. Não exclusivamente mediante a Cruz – também nos santificam as muitas alegrias, os trabalhos que amamos, os carinhos que nos enriquecem… – Mas certamente não sem ela, a Cruz. A Cruz, o sofrimento, purifica-nos. O sofrimento abre-nos os olhos para panoramas de vida maiores, mais verdadeiros e mais belos. O sofrimento ajuda-nos a escalar os cumes do Amor a Deus e do Amor ao próximo. (...) Homens e mulheres sacudidos pelo sofrimento acordaram: adquiriram uma nova visão – que antes era impedida pela vaidade, a cobiça e as futilidades - e perceberam, com olhos mais puros, que o que vale a pena de verdade na vida é Deus, que nunca morre, nem trai, nem quebra; descobriram que nEle se acha o verdadeiro Amor pelo qual todos ansiamos e que nenhuma outra coisa consegue satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça rói nem os ladrões levam."

Essa explicação primordial do cristianismo, presente desde as suas origens (Paulo já dizia e repetia exatamente a mesma coisa em suas cartas) calou fundo na alma dos povos. Toda a História foi e continua sendo profundamente influenciada por essa doutrina. Nenhum homem ou mulher de bom senso contestaria que as experiências mais difíceis que enfrentamos nesta vida são justamente aquelas que mais nos fazem crescer. Os melhores guerreiros sempre foram aqueles submetidos ao mais duro treinamento. Os líderes de origem humilde, os que precisaram enfrentar maiores provações e dificuldades em suas vidas, para vencer, sempre foram os mais populares. Ninguém contesta que sem dor não há ganho.

Mas... nem todos estavam satisfeitos, ainda. Mesmo com toda a lógica, todo o envolvimento emocional e amoroso e toda a coerência envolvidas nessa terceira tentativa de explicação, ela ainda não respondia aquela perguntinha básica, feita lá no começo da história: Se Deus é bom e perfeito, por que existem o mal e as imperfeições? Se Deus é Amor, por que permite que soframos? Como podemos ser maus, se Deus, sendo infinitamente bom, nos criou à sua imagem e semelhança? Se Deus é de uma vez bom, onipotente e onipresente, como podem existir o mal e o sofrimento? - Isto é, ainda que o sofrimento tivesse uma função depurativa, restaria entender por que Deus já não nos criou perfeitos e fiéis, não sujeitos a tantas fraquezas e tentações, não tão inclinados aos sentimentos baixos e aos vícios, para que pudéssemos ser fiéis como Ele quer. Se Deus não quer que pequemos, mas que sejamos perfeitos, por que nos fez de carne? Por que precisamos conhecer o mal, passar pela dor e pelo sofrimento para nos depurarmos, se Deus poderia ter nos criado já perfeitos, bem acabados? - E, no rastro de Epicuro, não faltaram pensadores a reformular as questões de sua Teodicéia. Para estes, o simples fato de existir o mal no mundo, por si só, já seria prova suficiente de que não existe o Deus Bom e Onipotente das religiões. O raciocínio é simples e direto: "O mal existe. Portanto, ou Deus não é bom, ou não é onipotente. Se fosse bom e onipotente, não haveria o mal. Se Deus tudo pode, e nada faz para acabar com o mal, então não é bom. Mas se é Todo-Bom, e nada faz para acabar com o mal, então é porque não pode. Se não pode, não é onipotente".

E assim caminhava a humanidade, entre santos apaixonados, que de um lado abraçavam toda a dor do mundo sem hesitar e sem demonstrar vestígio de medo, encarando e aceitando tudo como presente inestimável de Deus (e, diga-se de passagem, deixando um belíssimo rastro de luz por onde passavam - assunto vasto, que veremos em momento oportuno), e os eternos questionadores, racionais e inconformados. Assim caminhou a humanidade, - confusa, - até a chegada de um pensador muito especial... Tão especial que conseguiu unir e harmonizar, em si mesmo, essas duas polaridades opostas e essenciais: foi, a um só tempo, santo e filósofo, questionador e adorador, pensador e místico. Se entregou de corpo e alma e lutou a batalha interna com todas as suas forças, em todas as suas frentes: vivendo os extremos, descobriu, por si mesmo, o Caminho do Meio, que reinventou... Em 354 dC nasceu aquele que viria a reconciliar, pela primeira vez, os aparentemente irreconciliáveis opostos: Fé e Razão. Aurélio Agostinho era o seu nome, mas ele entrou para a história como simplesmente Santo Agostinho.

Não é exagero dizer que esse filho de pagão, ex-burguês, ex-imoral, ex-maniqueísta, filósofo até o último fio de cabelo, gênio metafísico, estudante de Aristóteles e do neoplatonismo, renunciante, professor e teólogo brilhante (etc, etc, etc...) mudou o maneira de pensar da humanidade. A maravilhosa jornada e o processo de renascimento de Agostinho, ao mesmo tempo pela profundidade do sentir e pela genialidade do intelecto, fundiu em si o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. Os problemas que fundamentalmente o preocuparam foram sempre os problemas práticos e morais: o Mal, a Liberdade, a Graça, a Predestinação... Agostinho foi 'a cara' de todos os buscadores, uma alma predestinada que foi fundo nas questões que nos reunimos para debater neste ou em outros espaços parecidos. No próximo post, Agostinho fala. E diz.



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Em busca da Libertação Final - 8 (conclusão)

Não por acaso, a respeito do assunto abordado nesta postagem - em duas partes, - li há alguns dias o excelente artigo de um conhecido sacerdote e escritor espanhol, o Pe. Francisco Faus. Trata-se de uma defesa magistral (brilhante, apesar de longa) dessa doutrina tão singular, e percebi que seria um acréscimo precioso e bastante oportuno ao nosso estudo. Todos os conceitos da ideia cristã do Sofrimento Redentor estão aí expostos e apreciados. Leia até o final e entenda perfeitamente a terceira explicação que a humanidade encontrou para a existência do mal e do sofrimento no mundo:


Pe. Francisco Faus


O sofrimento e o amor - Dois modos de encarar a mesma dor*

Por Pe. Francisco Faus



Faz alguns anos, no espaço de um mês, tomei conhecimento de dois casos muito parecidos, porém totalmente diferentes em seus efeitos: dois casos de pais que haviam perdido um filho adolescente de maneira repentina e trágica. Conversei longamente com o primeiro e, uns trinta dias mais tarde, com o outro. O primeiro afundara-se numa dor insuportável, que lhe abalou os alicerces da vida e lhe asfixiou a fé. Repetia depois, ao longo dos anos, num desabafo amargo e cheio de rancor, que a sua vida tinha perdido o sentido, que não sabia se Deus existia ou não, mas que não se importava, porque já o tinha apagado dos pensamentos e não queria saber mais dEle. Fechado na sua solidão desesperada, definhava e tornava difícil a existência dos que conviviam com ele. Sem a luz da fé, o homem fica abandonado ao turbilhão da vida, é como um cego golpeado por um mundo cruel e incompreensível, sem outra alternativa a não ser a revolta, a frieza, a resignação ou o desespero.

O segundo pai sofreu tanto como o primeiro. Perder um filho é uma das maiores dores da vida. Mas não permitiu que o sofrimento lhe vendasse os olhos nem se encapsulou na sua dor. No meio das lágrimas, fixou com força o olhar da alma em Cristo crucificado e, unido a Ele, rezou: “Pai, seja feita a vossa vontade!” Dentro do seu coração ele dizia: “Não entendo essa Tua vontade, Pai, mas eu creio em Ti, eu espero em Ti, eu Te amo acima de todas as coisas”.

No velório, ver esse pai – e a mãe igualmente, com o mesmo espírito - a rezar junto do corpo do filho, não causava constrangimento, mas comunicava uma serenidade superior a qualquer paz que se possa experimentar nesta terra, e elevava a todos para Deus, cuja presença era palpável. Era uma serenidade estranha e poderosa, misturada com uma dor muito forte, que ficava sendo um enigma para os frios e os descrentes. Era mesmo um lampejo da Sabedoria da Cruz, de que fala São Paulo (Cf. 1 Cor 1,18-25).


Entender e saber

Como este segundo pai, nós também muitas vezes não entendemos o sofrimento, e é natural. É difícil compreender a doença incurável, a incapacitação física, a ruína psicológica dos que amamos, o desastre econômico… Não entendemos, mas… Sabemos, – com a certeza indestrutível da fé, - que Deus é Pai, que Deus é Amor (I Jo 4,8) e, portanto – como diz com cálido otimismo São Paulo, - nós sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rom 8,28). Faz concorrer também, e muito especialmente, os sofrimentos que Ele mesmo nos envia, ou os que Ele permite, ainda que os não queira, porque causados pela maldade dos homens.

Então, essa nossa fé – Dom precioso de Deus que não queremos extinguir, – nos permite o paradoxo inefável de sofrer e ter paz, de sofrer e manter no íntimo da alma uma misteriosa e fortíssima serenidade, uma imorredoura esperança. Assim sofreu Cristo na Cruz e assim sofreram os santos. Os que se entregam nas mãos de Deus Pai sentem que a Cruz se lhes torna doce; – uma Cruz sem Cruz, - e os inunda de uma suavidade amável. Eles escutam e escutarão sempre as palavras de Cristo, que nos diz, na hora da dor: "Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mat 11,28-30).

E chegarão a exclamar, como Santa Teresa de Ávila: “Ó Senhor, o Caminho da Cruz é o que reservais aos vossos amados!”



A dor que faz amadurecer

Num conto intitulado O Espelho, João Guimarães Rosa descreve, simbolicamente, uma experiência que os místicos cristãos conhecem em profundidade. O protagonista da estória empreende a aventura de descobrir o seu verdadeiro rosto – o seu autêntico eu – num espelho-símbolo. Tenta olhar de tal modo que depure da sua figura tudo o que é superficial, animal, passional e espúrio, e acaba não vendo nada: “Eu não tinha formas, rosto?” Prosseguindo na experiência, só “mais tarde, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes”, quando “já amava – já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria”, é que começou a ver-se como o esboço inicial de um menino, que emergia do vazio, isto é, viu o seu rosto verdadeiro, que começava a nascer. No final da estória, o protagonista pergunta-se: “Você chegou a existir?”...

O escritor lembra-nos, com isso, que a pessoa que não sofreu não aprendeu a amar de verdade; e que a pessoa que não aprendeu a amar, não amadureceu; pode-se dizer que ainda não está “feita”, ainda não “existe”.

Nós…, existimos? Somos aquele que deveríamos ser, aquele que Deus espera de nós? A resposta – sim ou não - dependerá quase sempre de como sabemos sofrer. Tem muita razão o poeta que diz: “As pessoas que não conhecem a dor são como igrejas sem benzer”.

Deus nos faz com o sofrimento, modela-nos como um escultor, dá-nos a qualidade de um verdadeiro homem ou mulher, de um verdadeiro filho de Deus. A Cruz – poderíamos dizer - é a grande ferramenta formativa de Deus.

Três meses antes de morrer, São Josemaria Escrivá fazia um rápido balanço da sua vida, e resumia: “Um olhar para trás… Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora tudo alegrias, tudo alegrias… Porque temos a experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, um Cristo, o alter Christus [o outro Cristo] que temos de ser”

Essa visão essencialmente cristã é a que lhe inspirou sempre a pregação sobre a dor, baseada na sua própria experiência de alma enamorada de Deus: “Não te queixes, se sofres" – escrevia ele -. "Lapida-se a pedra que se estima, que tem valor. Dói-te? –Deixa-te lapidar, com agradecimento, porque Deus te tomou nas suas mãos como um diamante… Não se trabalha assim um pedregulho vulgar”.

Deus sempre nos faz bem por meio da Cruz, seja qual for, quando nós o “deixamos” fazer. Assim como nos salvou pela Cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da Cruz. Não exclusivamente mediante a Cruz – também nos santificam as muitas alegrias, os trabalhos que amamos, os carinhos que nos enriquecem…– mas certamente não sem ela, a Cruz.



A dor que nos purifica - Sofrimento redentor

A Cruz, o sofrimento, purifica-nos. O sofrimento abre-nos os olhos para panoramas de vida maiores, mais verdadeiros e mais belos. O sofrimento ajuda-nos a escalar os cumes do Amor a Deus e do Amor ao próximo.

São inúmeras as histórias de homens e de mulheres que, sacudidos pelo sofrimento, acordaram: adquiriram uma nova visão – que antes era impedida pela vaidade, a cobiça e as futilidades - e perceberam, com olhos mais puros, que o que vale a pena de verdade na vida é Deus que nunca morre, nem trai, nem quebra; descobriram que nEle se acha o verdadeiro Amor pelo qual todos ansiamos e que nenhuma outra coisa consegue satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça rói nem os ladrões levam (Mat 6,20). E perceberam, enfim, que os outros também sofrem, e por isso decidiram esquecer-se de si mesmos e dedicar-se a aliviá-los e ajudá-los a bem sofrer.

É uma lição encorajadora verificar que, na vida de São Paulo, as tribulações se encadeavam umas às outras, sem parar, mas nunca o abatiam. É que ele não as via como um empecilho, mas como Graças de Deus e garantia de fecundidade, de modo que podia dizer de todo o coração: "Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo" (2 Cor 4,10). E ainda: "Sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo; porque quando me sinto fraco, então é que sou forte!" (2 Cor 12,10). E até mesmo, com entusiasmo: "Nós nos gloriamos das tribulações, pois sabemos que a tribulação produz a paciência; a paciência a virtude comprovada; a virtude comprovada, a esperança. E a esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado". (Rom 5,3-5). É o retrato perfeito da alma que se agiganta no sofrimento, que se deixa abençoar pela Cruz.

Outro exemplo muito significativo: uma perseguição injusta por parte de seus próprios confrades arrastou São João da Cruz a um cárcere imundo. Todos os dias era chicoteado e insultado. Mal comia. Suportava frios e calores estarrecedores. Para ler um livro de orações, tinha que erguer-se nas pontas dos pés sobre um banquinho e apanhar um filete de luz que se filtrava por um buraco do teto. Pois bem, foi nesses meses de prisão, num cubículo infecto, que ganhou o perfeito desprendimento, alcançou um grau indescritível de União com Deus e compôs, inundado de paz, a Noite escura da Alma e o Cântico Espiritual, obras que são consideradas dois dos cumes mais altos da Mística Cristã. E, uma vez acabada a terrível provação, quando se referia aos seus torturadores, chamava-os, com sincero agradecimento, “os meus benfeitores”.
- Nota minha (H K Merton): esse episódio é sem dúvida maravilhoso...

As histórias de mulheres e de homens santos que se elevaram na dor poderiam multiplicar-se até o infinito: mães heróicas, mártires da caridade… Daria para encher uma biblioteca só a vida dos mártires do século XX, como São Maximiliano Kolbe, que na sua Cruz – na injustiça do campo de concentração nazista, nos tormentos e na morte – achou e soube dar o Amor e a vida com alegria.

Essas almas santas estão a escrever, no dizer de João Paulo II, “um grande capítulo do Evangelho do sofrimento, que se vai desenrolando ao longo da história. Escrevem-no todos aqueles que sofrem com Cristo, unindo os próprios sofrimentos humanos ao seu sofrimento salvífico…”

"No decorrer dos séculos e das gerações, tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular, que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma Graça particular. A esta ficaram a dever a sua profunda conversão muitos santos como São Francisco de Assis e Santo Inácio de Loyola. O fruto de semelhante conversão é não apenas o fato de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. Encontra como que uma maneira nova para avaliar toda a sua vida e a própria vocação. Esta descoberta constitui uma confirmação particular da grandeza espiritual que, no homem, supera o corpo de uma maneira totalmente incomparável. Quando este corpo está gravemente doente, ou mesmo completamente inutilizado, e o homem se sente como que incapaz de viver e agir, é então que se põem mais em evidência a sua maturidade interior e grandeza espiritual; e estas constituem uma lição comovedora para as pessoas sãs e normais” (Papa João Paulo II em Salvifici Doloris, n. 26).


A dor que nos chama

Mas estamos falando dos mártires, dos grandes sofrimentos de alguns santos, e não devemos esquecer que também é a Cruz, a santa Cruz, cada uma das contrariedades, dores, doenças, injustiças e mil outros padecimentos menores, que Deus envia ou permite na nossa vida diária, para nos santificar.

Vai-nos ajudar a pensar nisso uma frase incisiva de São Josemaria, comentando a passagem da Paixão de Cristo em que os soldados obrigaram Simão Cireneu a carregar a Cruz de Jesus: “Às vezes, a Cruz aparece sem a procurarmos: é Cristo que pergunta por nós”.

A maior parte das “cruzes” aparece-nos sem as termos procurado. São as moléstias físicas ou psíquicas; são os aborrecimentos que surgem no mundo do nosso trabalho; são as dificuldades e aflições econômicas, o desemprego, a insegurança… Ou então os sofrimentos que surgem no convívio habitual com a família: asperezas de caráter do marido ou da mulher, desgostos com os filhos, parentes desabusados ou intrometidos, indelicadezas, ofensas…

Todo tipo de sofrimento nos interpela. Que resposta lhe damos? Não poucas vezes, a nossa reação espontânea é a irritação, o protesto, a aflição, a tristeza, o desânimo, a queixa. Há corações que não sabem sofrer, ficam perdidos diante dos sofrimentos cotidianos, e sucumbem esmagados por “cruzes” que sentem como se fossem uma laje que os asfixia, quando Deus lhas oferece como asas para voar.

Deveriam lembrar-se do mau ladrão. Junto de Jesus crucificado, deixou-se arrastar pelo ódio à Cruz. Morreu contorcendo-se e espumando de raiva na sua cruz inútil. Pelo contrário, o bom ladrão soube descobrir na sua cruz uma escada que lhe serviu para chegar a Cristo e subir ao Céu (Cfr. Luc 23,39-43).

Não vale a pena contorcer-se e protestar. Assim, Deus não nos poderá lapidar. Sofreremos mais e inutilmente, e nenhum proveito tiraremos da dor. Qualquer sofrimento nos interpela, diremos. Também Cristo foi interpelado, na Cruz, por todo tipo de sofrimento, por cada um daqueles padecimentos com que o feriram os nossos pecados. E como respondeu? De cada ferida que recebia, brotava um ato de Amor e uma virtude. Esse é o exemplo para o qual devemos olhar.

Acusado com mentiras revoltantes, responde com mansidão. Provocado maldosamente, responde com o silêncio. A cada chicotada, a cada espinho que lhe fere a cabeça, a cada prego que lhe atravessa as mãos e os pés, responde com a paciência; a cada ofensa, responde com o perdão; a cada escarro, a cada bofetada, responde com a humildade; a cada bem que lhe tiram (sangue, pele, honra, roupas) responde dando Amor; à rejeição dos homens, responde entregando-se totalmente por eles.


A cruz que ensina a amar

Perante cada pequeno desaforo, Deus nos diz: "Por que não respondes com um silêncio paciente e humilde como o meu, sem ódio nem discussões? Se te custa aguentar o caráter daquela pessoa, por que não te esforças por viver melhor a compreensão e a desculpa amável? Quando alguém te ofende, por que - sem deixares de defender serenamente o que é justo - não te esforças por perdoar, como Deus te perdoa?”

E, assim, quando as dores físicas ou morais – os desgostos, as decepções, os fracassos, os fastios, o tédio, a solidão, a depressão…- nos acabrunham, a voz cálida de Cristo crucificado convida-nos a ser generosos e a subir um degrau na escada do Amor; a crescer na mansidão, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos, bem-estar e posses materiais; sobretudo, a meter-nos mais decididamente na fogueira de Amor que é o coração de Cristo, com desejos inflamados de corresponder, de desagravá-lo, de imitá-lo, de unirmo-nos ao seu Sacrifício Redentor. Todos esses sentimentos fazem grande bem à alma cristã.


A cruz que faz “co-redimir”

Há algumas palavras de São Paulo que encerram um grande mistério, que encerram uma Verdade sobrenatural muito profunda sobre a vida nova do cristão. São as seguintes: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja" (Coloss 1, 24).

A rigor, nada falta à Paixão de Cristo, pois o Sacrifício de Jesus mereceu infinitamente a Redenção de todos os crimes e pecados do mundo. Mas o Senhor quis que os cristãos, membros do seu Corpo Místico, “outros Cristos”, pudessem associar-se ao seu Sofrimento Redentor, unindo a Ele os seus próprios padecimentos.

Na Carta Apostólica já antes citada sobre o sentido cristão do sofrimento, o Papa João Paulo II desenvolve uma bela reflexão sobre esta verdade: “O Redentor sofreu em lugar do homem e em favor do homem. Todo homem tem a sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar daquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar daquele sofrimento por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo” (n. 19).

E, mais adiante, glosando a frase de São Paulo que agora meditamos, o Papa complementa essa reflexão: “O sofrimento de Cristo criou o bem da Redenção do mundo. Este bem é em si mesmo inexaurível e infinito. Ninguém lhe pode acrescentar coisa alguma. Ao mesmo tempo, porém, Cristo, no mistério da Igreja, que é o seu Corpo, em certo sentido abriu o próprio Sofrimento Redentor a todo o sofrimento humano. Na medida em que o homem se torna participante dos sofrimentos de Cristo –em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história—tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento, mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo” (n. 24).

Neste mundo em que, ao lado de tantas bênçãos de Deus, tantas almas sentem com força os ventos e tempestades do pecado, as almas generosas que sofrem com Amor, unidas ao Senhor, são como que “outros Cristos”, que contrabalançam com a sua “Cruz” o peso dos crimes do mundo. Tornados eles próprios uma só coisa com Cristo sofredor, são esses homens e mulheres bons – os santos, os mártires, os inocentes, os doentes, as crianças, os “humilhados e ofendidos”…- os que mantêm no mundo, como uma tocha acesa, a esperança da Salvação. Uma só mulher humilde que oferece, em sua cama de hospital, seus sofrimentos a Deus, faz mais pelo bem do mundo do que muitos dos que o governam.

É paradigmática a cena de São Francisco de Assis no Monte Alverne. Era a manhã de 14 de setembro de 1224, festa da Exaltação da Santa Cruz. Retirado nas solidões dos Apeninos, ele rezava ajoelhado diante de sua cela, antes de que raiasse a alva. Tinha as mãos elevadas e os braços estendidos, e pedia: “Ó Senhor Jesus, há duas graças que eu te pediria conceder-me antes de morrer. A primeira é esta: que na minha alma e no meu corpo, tanto quanto possível, eu possa sentir os sofrimentos que tu, meu doce Jesus, tiveste que sofrer na tua cruel Paixão! E o segundo favor que desejaria receber é o seguinte: que, tanto quanto possível, possa sentir em meu corpo esse amor desmedido em que tu ardias, tu, o Filho de Deus, e que te levou a querer sofrer tantas penas por nós, miseráveis pecadores”.

A oração foi ouvida. Um serafim, que trazia em si a imagem de um crucificado, imprimiu-lhe as chagas de Cristo nas mãos, nos pés e no lado. Francisco, até no corpo, tornou-se visivelmente um “outro Cristo”.




* O texto do Pe. Francisco Faus é baseado no conteúdo do livro A Sabedoria da Cruz, de sua autoria (Editora Quadrante - 2001).



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários

Em busca da Libertação Final - 8




A terceira de 5 tentativas: A noção do Sofrimento Redentor


Além dos mestres das principais tradições religiosas, foi o sábio grego Epicuro (341 aC - 270 aC) quem lançou pela primeira vez, ao menos oficialmente, a questão teodicéica, que como vemos no estudo dos livros sagrados já estava presente na cabeça dos pensadores desde que o mundo é mundo: "Se existe um Deus bom, e Ele criou o mundo, como é possível haver o mal no mundo?".. E com o desenrolar da História inúmeros outros grandes pensadores se detiveram sobre o tema: de Platão a Fichte, passando por Sto. Agostinho, Kant, Hegel, etc, etc, etc... Veremos algumas dessas teses no decorrer desta série, mas por ora vamos nos ater a terceira das 5 soluções universais básicas, que como vimos são: castigo pelos pecados ou consequência de nossas más ações; prova de fé e fidelidade; redenção, purificação ou depuração; consequência inevitável do livre arbítrio ou simplesmente um completo e absoluto mistério. Com esta postagem, chegamos ao estudo da terceira opção...


“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, nem te desanimes quando por ele és repreendido; pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho. É para disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a quem o pai não corrija? Mas se estais sem disciplina, da qual todos se têm tornado participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além disto, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e os olhávamos com respeito; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? Pois aqueles por pouco tempo nos corrigiam como bem lhes parecia, mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados. Portanto levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes, e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que é manco não se desvie, antes seja curado. Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem.”

(Carta aos Hebreus 12, 6-8)


Todo pai sempre quer ver crescer seu filho, levá-lo à plena maturidade, e nesse processo muitas vezes é preciso ser duro. No primeiro dia de aula muitas crianças choram, esperneiam, se agarram às pernas dos pais... Eles não querem a separação, não querem deixar seus brinquedos e muito menos o conforto psicológico do ambiente familiar. Enfrentar o primeiro dia de aula sozinho, longe da barra da saia da mamãe, é um dos mais importantes rituais de passagem da sociedade contemporânea. Um ritual muitas vezes penoso, mas necessário em nosso processo de amadurecimento. Agora imagine o que aconteceria se cada criança que chorasse na hora de ir para a escola conquistasse o direito de não estudar... Um pai e uma mãe 'bonzinhos', - na mentalidade da criança, - não obrigaria seus filhos a ir para a escola, ficar longe deles, obrigá-los a assistir aulas "chatas".

'No pain no gain', diz o conhecido ditado, que em português seria algo como 'sem dor, sem ganho'. Isto é, sem experimentar um pouco de dor, nada de bom se consegue nesta vida. Casualmente, nestes últimos dias estou passando por um processo de intensificação nos meus treinamentos físicos (depois dos 40, não existe atividade física mais completa que a musculação), e posso dizer que meu corpo inteiro dói. Não é agradável acordar cedo nesses dias de frio para ir à academia, levantar pesos cada vez maiores, com um treinador que 'pega no pé' a todo momento, exigindo sempre mais de você. Não é agradável acordar dolorido, não é agradável seguir uma dieta balanceada, ter que deixar de comer as coisas que gosta sem censura, controlando quantidades e horários. Mas, apesar do sacrifício, é muito boa a sensação após os treinos, e os resultados de todo o esforço, a médio/longo prazo, são simplesmente fantásticos. É bom perceber, nas pequenas tarefas do dia-a-dia, que a sua força está aumentando, que a sua disposição está muito melhor do que antes... E, vá lá, também é bom ganhar elogios (da esposa, no meu caso), olhar no espelho e ver seus braços cada vez mais grossos e rígidos e sua cintura cada vez mais enxuta. Mas para isso é preciso penar, suar muito, ter disciplina e uma determinação de ferro, além de fazer alguns sacrifícios extras, também, como espremer ainda mais os horários da sua agenda diária. Então, no fim, é sempre uma questão de escolha: decidir se, para mim, é compensador o sacrifício para me manter em forma. Um bom exemplo (como tantos e tantos outros que poderia citar) para ilustrar a validade do velho ditado: No pain, no gain.

O que isso tem a ver com o assunto? Bem, é exatamente este o princípio da terceira explicação clássica para o mal e o sofrimento no mundo. - Uma teoria que começou a ser formulada logo depois de os grandes pensadores perceberem a fragilidade da explicação que vimos na postagem anterior (a da provação), que coloca tudo de ruim que acontece no mundo como obras da Divindade aplicando testes de fidelidade à humanidade.

Mas por que a visão do mal e do sofrimento como provação acabou por redundar em mais uma tentativa de explicação que não convenceu? Vejamos... Cris, minha leitora das antigas, recentemente nos deixou um comentário muitíssimo pertinente: "Ninguém vai matar um filho (...) ou arrancar um braço para testar a fé. (...) Concordo que seja um teste para nós mesmos, porque é muito fácil confiar em Deus quando estamos bem e felizes. Mas mesmo assim, tem algo (nessa explicação) que não fecha.

Fico muito lisonjeado e satisfeito ao perceber que as reflexões que venho trazendo para este espaço acabam gerando, por aqui, os mesmos argumentos e contraargumentos a que chegaram os maiores pensadores da humanidade, desde muitos milênios até hoje. Sim, foi exatamente esse tipo de raciocínio que levou a humanidade a questionar a teoria da provação. - Ora, Jó foi posto à prova por Deus, logo, todo o seu sofrimento era uma espécie de teste, certo? Certo, mas isso não explica tudo, longe disso. - Acontece que os filhos de Jó simplesmente morreram nesse processo. Eram crianças e jovens inocentes, que não tinham nada a ver com a história, e pagaram com a vida! Como explicar isso? É muito importante notar que, certamente, a história de Jó foi desenvolvida com base na observação daquilo que acontecia no mundo. Era comum naquela época (assim como hoje), ver crianças inocentes padecendo e morrendo, acometidas por moléstias terríveis ou vitimadas por catástrofes naturais, entre outras coisas. Como se explica? Se Jó estava sendo posto à prova, porque seus pobres filhos morreram? E a história também nos conta que seus empregados e pastores foram assassinados. Por que? Para atingir Jó? Diversos inocentes tiveram que padecer, somente para que um homem fosse testado?? * E bem neste ponto cabe uma observação primordial: no período histórico em que o Livro de Jó foi escrito, a sociedade hebraica ainda não acreditava em ressurreição (e muito menos tinha ouvido falar em reencarnação - só vieram a travar contato com essa doutrina muitos séculos depois). Portanto, não podemos apelar para nenhuma explicação do tipo "essas pessoas teriam a sua compensação numa outra vida". A ideia do autor era simplesmente explicar o mal no mundo e o sofrimento humano como provações de nossa fé e caráter, impostas por Deus.

Espero que esteja muito claro que não estamos agora discutindo o Livro de Jó em si, mas sim a ideia por trás da história que ele conta. Se Deus nos põe à prova, - e é por isso que existe tanta dor e sofrimento no mundo, - isso não explica porque crianças inocentes também são expostas a todo tipo de mal e sofrimento. Estariam elas sendo testadas, também? Crianças que não adquiriram ainda discernimento e nem consciência de certo e errado, poderiam ser testadas? Se o seu caráter ainda não foi desenvolvido, como poderia ser provado? Bebês que não fazem a menor ideia do significado da palavra "Deus" poderiam ter a sua fidelidade a Deus posta à prova??

Na época em que os primeiros livros do Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica) foram escritos, os povos daquela região do Oriente Médio e circunvizinhanças viviam em constante conflito (ainda pior do que é hoje) e não existia a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Quando o exército de uma civilização mais poderosa conquistava uma cidade inimiga, o destino das mulheres e das crianças era muito cruel. Os bebês, em especial, eram considerados inúteis e dispendiosos. Eram prontamente sacrificados, e das maneiras mais tenebrosas: uma das favoritas (relatada na Bíblia) era atirá-los contra as rochas, despedaçando-os, na frente de suas mães. - Que por sua vez eram levadas (ao menos as mais formosas) para servirem como escravas sexuais, até que seus novos 'donos' se enjoassem delas. Mas nos concentremos nas crianças, porque é nelas que a dor se faz mais aguda: por que terrores tão pavorosos acontecendo para seres puros e inocentes? E além de tudo, por que tantas crianças nascendo doentes, aleijadas ou mesmo mortas? Ora, até mesmo entre os animaizinhos, alguns nasciam defeituosos. Estariam as ovelhas, jumentos e cabritos nascendo aleijados como uma forma de teste? Estariam os bichos sendo postos à prova?

Perguntas difíceis, muito difíceis, mas que existia um Deus (ou alguns, ou muitos deuses), assistindo à humanidade confusa, isso era inquestionável. Nenhuma civilização antiga, nenhuma sequer, jamais questionou isso. A religião sempre foi o mais presente e mais forte ponto em comum entre todos os povos que já existiram em nosso planeta. Então, como explicar essas questões urgentes? Como visto no começo, embora a pergunta primordial tenha sido pela primeira vez formulada, oficialmente e com todas as letras, por Epicuro, 300 anos antes de Cristo, ela já vinha incomodando as melhores cabeças muito antes do filósofo grego nascer. E continuou sendo feita muito tempo depois dele. Os sábios dos sábios não desistiram; e acabaram por chegar a uma nova conclusão: a noção do Sofrimento Redentor, adotada, absorvida e aperfeiçoada principal e especialmente pelo Cristianismo. - Como veremos na próxima postagem.


Ler a conclusão desta postagem...



( Comentar este post __ Ver os últimos comentários