Um convite ao pensamento, apesar da pressa do mundo

Uma pausa na série de postagens Em busca da libertação final para um respiro e uma ótima dica...


Por Francisco Quinteiro Pires


A estreante revista Dicta&Contradicta propõe estimular a reflexão na época em que o ato de ler é considerado uma renúncia ao viver. - Ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1973, o austríaco Konrad Lorenz dizia que a mente, para estar em forma, precisa testar e rejeitar cinco hipóteses antes do café da manhã. Antes de ter uma opinião, é preciso estudar seriamente, ler bastante e refletir ainda mais. Nos dias atuais, essa parece uma convicção na contracorrente, quando fluxos de informação e produção se aceleraram de modo nunca visto. E, quando consumir na hora em que se deseja é obrigação, fica no ar a pergunta que o aceleramento da história suscita: Ler ou refletir é renunciar a viver?

A proposta da Dicta&Contradicta, que lançou em 06/2008 o seu primeiro número, apóia-se na necessidade de refletir para melhor viver. A publicação aposta em ensaios longos sobre filosofia, poesia, literatura, cinema, música e artes plásticas, sem se submeter à ditadura da novidade pela novidade. A Dicta&Contradicta (210 págs., R$ 22,50) "não pretende ensinar ao leitor o que deve pensar, mas oferecer-lhe estímulo para pensar”. Os textos não podem ser "barateados", segundo os editores. A exigência que há no ato da reflexão, no entanto, não pode ser confundida com hermetismo ou academicismo, eles alertam.

Patrocinada pelo Banco Fator e Instituto Bovespa e feita pelo Instituto de Formação e Educação, a Dicta&Contradicta traz, na seção Do Lado de Lá, dois artigos traduzidos das revistas The New Criterion e First Things. (Os editores dizem que The New Criterion é uma das inspirações de Dicta&Contradicta). No primeiro ensaio, o editor da The New Criterion, Roger Kimball, fala das relações entre Friedrich Hayek e os intelectuais, a partir das quais se discutem idéias sobre governo, liberdade individual e civilização. No segundo, o editor da First Things, Joseph Bottum, fala de política e morte.


Capa da edição n°2


A revista começa semestral, mas pretende tornar-se trimestral. Vem com uma seção dedicada a contos e poesias inéditos, tanto nacionais quanto internacionais. Nesta edição, Antonio Fernando Borges, autor de Memorial de Buenos Aires, escreve o conto Agostinho, e o ensaísta Rodrigo Duarte Garcia publica o poema Torres da Memória.

O ponto alto da estréia foi um artigo - Do Enigma ao Mistério - com a edição das últimas três aulas dadas pelo poeta Bruno Tolentino, morto em junho de 2007. As aulas foram gravadas por Guilherme Malzoni Rabello em maio do mesmo ano. Elas tratam do mistério da vida e da morte, - Bruno Tolentino parecia sentir o fim próximo, - e da necessidade de o homem ter epifanias para responder à espessura impenetrável dos enigmas que parecem compor a travessia da existência. Tolentino dá transcendência à vida. O poeta, preocupado com o esvaziamento cultural do País, empenhava-se por meio da poesia a despertar as pessoas para a realidade, sem excluir o que há de grotesco e sublime no ser humano, e de certa maneira ensinava que viver é aprender a morrer. "Se a festa está acabando, muito bem, vamos acabá-la da melhor maneira possível”.

Sua reflexão parte da visita do papa Bento XVI ao Brasil no ano passado, a qual foi um chamado ao silêncio do pensamento. Autor de O Mundo Como Ideia e A Imitação do Amanhecer, Tolentino diz que, num mundo conturbado, "temos todas as razões para buscar um cantinho, um momento de calma, mas praticamente não o fazemos nunca. Estamos sempre ocupados em ter ideias, respostas e tudo o mais”. Tolentino afirma que a vida dá lá as suas voltas, por vezes assustadoras, por vezes maravilhosas, o que não impede ninguém de levá-la a sério. Ler, pensar, sentir, tudo isso leva o homem a viver - e a morrer - melhor, não sem antes aprender a amar mais a si mesmo e ao semelhante.


Publicado em O Estado de São Paulo



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Em busca da Libertação Final - 7

A segunda de 5 tentativas: provação


Na postagem anterior, vimos como a primeira reação da humanidade diante da questão do mal e do sofrimento no mundo foi a de explicá-la como sendo a consequência do mal que fazemos, isto é, dos desagrados a Deus ou aos deuses. Parecia sensato crer que sofremos por contrariar as determinações da Divindade, e essa foi, em essência, a conclusão dos primeiros mestres espirituais da humanidade.

Mas o tempo passou (o tempo nunca para, apesar de ser estático como um rolo de filme gravado e desenrolado, segundo a física quântica); e quanto mais o tempo passava, mais ia ficando claro que alguma coisa estava errada com essa solução. A humanidade não parava de evoluir e... bem, não havia mais como ignorar: esse era um modo no mínimo incompleto de ver as coisas. - Acontece que, nos primórdios da civilização humana, por muito tempo, a grande massa foi conduzida e dominada por líderes político-religiosos que usavam de truques, armadilhas psicológicas e todo tipo de coerção para que pudessem continuar no comando da situação. Sua arma principal era o medo: 'Não desobedeçam, não se rebelem, não pensem por vocês mesmos... Façam tudo o que dissermos, senão Deus irá castigá-los sem piedade'. – Certo. Mas, se cremos em Deus, temos que reconhecer também que foi esse mesmo Deus que nos deu a todos a capacidade de pensar e analisar as coisas por nós mesmos, e não havia, como nunca houve, um jeito de encobrir a verdade, o tempo todo, das vistas de todo mundo...

E as pessoas fatalmente começaram a perceber, através da simples observação, que os bons também sofriam... e muito. Pior ainda: muitos dentre os que mais pareciam se esforçar em seguir a Vontade de Deus, não raro, eram justamente os que mais sofriam. Já os corruptos, os mentirosos, os falsos, os inescrupulosos... Estes pareciam se dar bem! Ímpios prosperavam, enquanto justos sofriam. Muitos dentre os mais honrados viviam explorados (assim como hoje) por senhores e patrões cruéis e egoístas, e as moléstias mais terríveis nunca escolheram os maus para atacar. Como era possível?

Alguma outra explicação se fazia urgentemente necessária, e foi assim que surgiu um novo conceito universal para explicar a existência do mal e do sofrimento no mundo: este dizia que todas as injustiças experimentadas pelos justos seriam, na verdade, provas divinas de nossa fé e fidelidade. Você é fiel a Deus? Pois Ele vai testá-lo. E quanto maiores as virtudes do ser humano, maiores as provas que deverá enfrentar. Afinal, que melhor maneira de testar o caráter e a fidelidade de um súdito, de um servo ou mesmo de um filho, do que colocando-o á prova? Mas que ninguém se preocupasse: ao final, a justiça triunfaria, e os bons seriam infalivelmente recompensados.

A respeito dessa teoria já falamos bastante na postagem "Em busca da Libertação Final parte 5 - O mal e o sofrimento como testes de fé". A história do Livro de Jó foi provavelmente a maneira mais criativa de apresentar aos buscadores da Verdade essa segunda explicação clássica para o mal e o sofrimento, - até por confrontar a primeira das explicações universais, a do castigo pelos pecados. - É interessante observar como a Bíblia, que foi escrita por diversos autores, de diversas épocas e escolas hebraicas diferentes, ao longo dos séculos, nos apresenta formas de pensamento bastante diferentes entre si. A explicação do autor da história de Adão e Eva não é a mesma da do autor do Livro de Jó, assim como não é a mesma do autor dos Livros do Profeta Samuel, por exemplo; que por sua vez não é a mesma explicação de quem escreveu o Livro de Eclesiastes (como veremos a seguir).


Rama, herói do Ramayana


Sou obrigado, uma vez mais, a falar do forte paralelo que existe entre a tradição espiritualista/religiosa ocidental e a oriental. - Se os autores bíblicos ilustraram magistralmente a nova explicação para o problema através da história de Jó, os hindus, por sua vez, fizeram algo muito parecido, e talvez ao mesmo tempo(!). - Um antigo conto religioso hindu narra as aventuras de um devoto do deus Rama. Para efeito de comparação, transcrevo abaixo um resumo dessa conhecida história:

Há muitos anos existiu um lavrador, que trabalhava alegremente todos os dias, entoando hinos de louvor ao seu Bem-amado Rama... Agradecia pela vida, agradecia pela oportunidade de compartilhar o Prana (energia vital presente na respiração) com todos os seres viventes, pela oportunidade de trabalhar... Agradecia por tudo que tinha e pelo que não tinha. Ao contrário de Jó, este era um homem simples, de poucas posses materiais. Mas, assim como Jó, ele vivia toda sua vida como se fosse uma prece, como um ato de adoração ao Deus Uno, - na pessoa de Rama. - Sua devoção se refletia na figura temporal de Rama, que segundo a fé hindu veio ao mundo eras atrás como um avatar de Vishnu, servir como exemplo de retidão à humanidade. E lá no mundo dos deuses, Rama também amava especialmente a esse seu devoto humilde e dedicado, que lhe prestava uma adoração assim tão pura e sincera.

Isso durou até o demônio Andhaka procurar Rama, para confrontá-lo com um desafio. Ele falou do lavrador e disse: "Este teu devoto te é dedicado, em sua vida humilde, somente porque nunca teve que passar por uma verdadeira provação. Permita que eu o teste, e verá o quão depressa se esgota toda fidelidade. Sei que o tens protegido desde o nascimento, mas o amor e a devoção dele por ti não resistiriam se postos à provação..." Rama aceitou o desafio e então firmou uma espécie de aposta com o demônio, aceitando que este fosse até seu devoto para prová-lo. - Qualquer semelhança com a história de Jó é mera coincidência(?).

E assim, numa bela manhã, quando ia para a roça, o lavrador teve uma grande surpresa: no meio do caminho ele se deparou com ninguém menos que seu bem-amado Rama, recostado tranquilamente numa frondosa árvore, reluzindo e sorrindo para ele. Transbordando de alegria, mal podendo acreditar em sua sorte, o lavrador correu até o ser divino e se prostrou aos seus pés, debulhando-se em lágrimas e se declarando indigno. Mas Rama lhe sorriu e respondeu, dizendo que ouvia seus louvores e sentia seu amor transbordante e sincero, por isso tinha resolvido visitá-lo. Disse, ainda, que por sua fidelidade ganharia um presente: um desejo, qualquer um, seria realizado por Rama. O lavrador, exultante, não ousava sequer tocar os pés azuis e sagrados de seu mestre, era todo alegria. Logo a seguir, porém, Rama, dizendo sentir sede, pediu a seu devoto que lhe trouxesse um pouco de água fresca. Um rio cristalino passava perto dali, e o lavrador partiu na mesma hora, levando uma cuia de casca de coco, a buscar água para seu bem amado. - Pelo caminho, mal podia acreditar em sua sorte. Rama em pessoa havia surgido em seu caminho, e prometera que lhe concederia um desejo! Não poderia haver graça maior.

Nosso herói chegou rapidamente à margem do rio. Ao se curvar para encher a cuia com água fresca, porém, sua atenção foi desviada para o outro lado da margem, de onde partia um angustiante ruído de soluços. Olhou e viu uma belíssima jovem, que chorava copiosamente. Com muita dificuldade ela segurava uma pesada pedra, e esta pedra estava atada, com uma corda, a um de seus pés. O homem imediatamente percebeu que aquela moça pretendia se suicidar, lançando-se no rio. Ele gritou, mas como não obtivesse resposta, e ela parecia realmente determinada a dar fim em sua vida, lançou-se na água e atravessou o rio a nado. Chegando perto da jovem, num gesto rápido abraçou-a, e logo a seguir desfez o nó que a prendia à pesada pedra. Então conversou com ela e tentou consolá-la. Acabou por fazer com que desistisse do suicídio. Descobriu, afinal, que ela tinha acabado de perder toda a sua família num terrível incêndio... Enquanto conversavam, o rapaz se impressionava mais e mais com a estonteante beleza da jovem. E se apaixonou. Ali estava ela, tão carente, tão desesperada e perdida... e tão linda, com aquela cabeleira negra, os olhos brilhantes, a pele suave, o corpo jovem... e sem ninguém no mundo, nem para onde ir. O homem acabou por levá-la para sua casa, onde os dois se entregaram aos desejos da paixão...

A história é longa e cheia de detalhes, mas o que acontece a partir daí, resumidamente, é que o tempo passa e os dois se casam. Eles constroem juntos uma casa aconchegante às margens do mesmo rio, onde vivem felizes e acabam tendo um filho muito amado. E desde aquele dia, em que conhecera sua esposa, o herói dessa história raras vezes voltou a pensar em Rama. Com o correr dos anos, acabou por decidir que o tal presente prometido pelo deus de sua devoção não poderia ser outro, afinal, que sua linda e perfeita esposa, seu filho e a vida feliz com que fora agraciado; e assim, apenas aceitou o desenrolar das coisas, naturalmente.

Um belo dia, porém, quando o lavrador estava no campo, uma terrível tempestade se abateu sobre aquela região. O homem precisou se abrigar numa caverna até que a fúria das águas e dos trovões se aplacasse. Mas assim que pôde correu até o local de sua casa, temeroso por sua família. Mas, ao chegar à casa onde fora feliz por tantos anos , encontrou-a totalmente destruída. - A tempestade havia feito o rio transbordar e as águas avançaram sobre a construção, destroçando-a. Pior: sua esposa e seu filho haviam sido arrastados e mortos, como ele comprovou logo depois, ao encontrar seus corpos, algumas centenas de metros adiante.

Desesperado, completamente arrasado, o pobre lavrador se lança por terra, um nó terrível a crescer na garganta, uma dor insuportável a tomar conta do corpo e da alma, a impedi-lo de sequer se mover ou pensar. Nesse exato momento clama aos céus e ao seu esquecido Rama, sem obter resposta. Entende que foi ingrato, que deixou seus pensamentos se voltarem muito mais aos cuidados deste mundo do que à Realidade Divina. Há anos não mais cantava louvores, não elevava preces de gratidão nem sentia mais a presença de Rama nas coisas simples da vida, em sua respiração, no trabalho, no existir... Os corpos de sua linda esposa e de seu filho querido ainda lhe pareciam vivos, apenas dormindo, estirados entre a lama e os detritos, bem diante dele. Mas era tarde demais. Tomado de uma angústia mortal, mais pesada que o mundo inteiro, acabou pegando no sono ali mesmo, - o tipo de sono que funciona como uma resposta orgânica a um sofrimento grande demais para ser suportado. Diante dos corpos, encharcado pela água da chuva e por suas lágrimas, ao lado do rio, ele dormiu... - Curiosamente, se encontrava no exato local onde havia conhecido, anos antes, sua esposa amada.

Dormindo, ele sonha. Um sonho estranho, que lhe pareceu mais com um despertar: estava no mesmo lugar, deitado à margem do velho rio. Mas levanta a cabeça e vê o mesmo rio agora muito calmo, com múltiplos reflexos dourados a dançar na superfície, iluminado pela luz do sol de um lindo dia. Percebe que sua mão segura uma cuia. A mesma que ele, há tempos, levara para buscar água para Rama, e da qual nem se lembrava mais. Nesse momento, o próprio Rama mais uma vez aparece diante dele, porém em sua forma real e esplendorosa. O homem cai de joelhos, sem nada entender. Rama então diz:

"Achei que fosses um devoto fiel, como me juraste. Mas diante da primeira distração de Andhaka, que te fez ver uma jovem que nunca existiu, e experimentar uma vida de coisas que nunca existiram, rapidamente me esqueceste! Eu te prometi a realização de um desejo e minha glória poderia ter te concedido a revelação da Verdade Suprema, o despertar definitivo da tua consciência ou o perdão de tuas dívidas cármicas. E tudo que te pedi foi um pouco de água, mas nem isso fizestes por mim. Mesmo assim, pedi a Andhaka que esperasse: te dei muitas chances. Te dei oportunidades por anos seguidos, mas nem assim te lembraste de mim, cego estavas por teus desejos e teu egoísmo. É assim que me amas? Com que rapidez me esqueceste! Saibas que nenhum tempo se passou, desde aquele instante em que chegaste a este lugar para buscar-me um pouco de água. Estamos ainda no mesmo dia, que é um só: o mesmo dia de hoje e de sempre. Ainda te espero debaixo daquela árvore. Quando chegaste a este ponto, Andhaka te induziu a um pesado sono, e dormindo sonhaste com uma bela mulher, pela qual prontamente me trocaste. Tua casa, teu filho, tua vida de prazeres fúteis, nada disso foi real. Achava eu que serias forte e fiel para despertar deste sonho, por mim. Mas assim que viste a mulher dos teus sonhos, me esqueceste. Quantas vezes pensaste em mim, durante todos estes anos de gás estéril? Quantas vezes cantaste meu nome, quando vivias teus prazeres de mentira? Nenhuma sequer. Vejo que o teu amor nunca foi real, porque se fosse, serias livre. Te fiz despertar para que me visses novamente e compreendas a tua tolice. Mas agora terás que voltar a dormir e sonhar este mesmo sonho, chorar por mentiras e se alegrar por mentiras. Não te preocupes, porém, pois levarás algo da minha lembrança contigo, até que reúnas forças suficientes e voltes a despertar, mas por tuas próprias forças. Enquanto isso, continuarei te esperando, neste mesmo dia, que é o único dia que existe."



Fim. Essa história é contada de diferentes maneiras, com algumas variações nos detalhes aqui e ali, mas a base é a mesma e o sentido também. O devoto foi submetido a um teste pela própria Divindade. - Um homem sendo posto à prova por Deus. - Talvez, à primeira vista, o estudante ocidental desavisado entenda que esta seja uma história bem diferente da do Livro de Jó, porque nesse caso a devoção prestada era a um deus particular, enquanto Jó foi posto à prova diretamente pelo Deus Uno, o Criador do Universo. Mas aprofundando a questão, antes de tirarmos conclusões precipitadas, vemos que para os hindus Rama é um avatar de Vishnu, ou seja, uma manifestação de Vishnu, uma das formas pelas quais este se apresenta. E Vishnu é um dos componentes da Trindade Hindu, juntamente com Brahma e Shiva. - Dentro desta escola, estes três representam a personificação máxima da Divindade Una, o único Deus que é Tudo em todos. A partir dessa perspectiva, fica fácil entender que, mais uma vez, as duas tradições ancestrais estão ensinando, - cada qual segundo usos e costumes da cultura onde surgiram, - o mesmo princípio: Deus nos põe a prova. Somos testados em nossa fidelidade, e isso explicaria o sofrimento dos justos.



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Em busca da Libertação Final - 6

A primeira de 5 tentativas: castigo ou consequência




A análise anterior sobre o livro de Jó pretendia servir como preparação para o nosso máximo aprofundamento naquilo que as religiões e a filosofia nos permitiram avançar na busca por uma resposta satisfatória para a mais inquietante das questões atemporais: a existência do mal e do sofrimento. O estudo comparado demonstra que tudo que conseguimos avançar nesse campo, até o momento presente, pode ser resumido em 5 tipos essenciais de (tentativas de) solução para o problema. Todas as muitas teorias de que dispomos podem ser enquadradas numa destas opções:

1) Castigo pelos pecados ou consequência de más ações;

2) Prova de fé e fidelidade;

3) Redenção, purificação ou depuração;

4) Consequência inevitável do livre arbítrio;

5) Mistério absoluto.


A partir de agora passaremos ao estudo isolado e detalhado de cada uma dessas 5 concepções fundamentais. Começando pelo começo...


Castigo pelos pecados ou consequência de nossas más ações

Ao contrário do que muitos imaginam, a ideia do mal e do sofrimento como consequência da desobediência à Vontade Divina, - que é perfeita e espera que também sejamos perfeitos (Mateus 5,48), - do declínio moral da humanidade, do pecado ou das más ações cometidas, não é uma exclusividade da tradição judaico/cristã. Todas as religiões ancestrais o afirmaram, de maneiras diferentes (ou nem tanto), assim como também as religiões mais 'recentes'. Poderíamos afirmar que todas as religiões, sem exceção, quer o reconheçam ou não, ensinam ou em algum momento ensinaram que o mal e o sofrimento tem como causa os pecados ou más ações da humanidade.

É também um fato que certos representantes de algumas religiões relutam em reconhecer esta realidade, que no entanto está muito clara para os pesquisadores acadêmicos; - que nesse caso se encontram um passo além em conhecimento, justamente por possuírem uma visão mais global do problema. - Tal imparcialidade não pode ser atribuída à maioria dos religiosos, que conhecem bem, apenas, cada qual a sua própria doutrina. Assim sendo, todo julgamento que fazem é a partir de suas próprias convicções (e não poderia ser diferente). Partindo desta premissa, e para que a nossa análise se torne completa, uma apreciação mais refinada do hinduísmo (ou brahmanismo) se faz necessária. O hinduísmo é um ponto-chave em nossa apreciação da matéria por razões que veremos adiante. É comum que o estudante das religiões, ao adquirir um conhecimento superficial a respeito do hinduísmo, entenda que essa antiga tradição represente uma filosofia de vida completamente diferente e até mesmo contrária aos conceitos de pecado e castigo da tradição judaico-cristã. Uma apreciação mais próxima, no entanto, demonstra o contrário: mudam as formas e os nomes, mas não a matéria em si, e a ideia permanece a mesma. Senão, vejamos:

Conceitos do hinduísmo - O hinduísmo ensina que o homem está unido à Natureza e ao Universo, sendo que nesta concepção o Universo é Deus. Estando o homem (isto é, a humanidade) unido ao Universo infinito (como parte dele), todos são deuses. Tudo é Deus e Deus é tudo. Mas este Deus absoluto é impessoal, assim como uma Energia Cósmica, e tal Realidade assim infinita e ilimitada não pode se envolver em nossos problemas humanos, ilusórios e insignificantes. Acontece, porém, que os seres humanos sempre precisaram de um contato íntimo com a Divindade, e isso só seria possível com um Deus pessoal. Foi assim que surgiu o imenso panteão de deuses hindus, uma matéria complexa, como já vimos aqui. Além da trindade absoluta, formada por Brahma (criador), Vishnu (preservador) e Shiva (destruidor), com o passar dos tempos começaram a pulular deuses hindus de todos os tipos e cores: deuses que vivem no leito dos rios e nas copas das árvores; deuses especializados em cada pequeno e corriqueiro problema de família e deuses generalistas, deuses guerreiros e deuses de paz, deuses materialistas e deuses especializados em questões espirituais. E entre os muitos deuses adorados pelos hindus, alguns são bons, outros maus, e outros são as duas coisas, simultaneamente.

É exatamente a partir daqui que a coisa começa a ficar interessante, porque a pergunta que não quer calar é exatamente a mesma: se o homem é Deus e Deus é tudo, e se tudo que existe é harmonia e perfeição, como explicar a existência do mal e do sofrimento no mundo? Ainda que para os hindus esta seja uma dimensão ilusória, como veremos, nesta dimensão o mal existe, o que seria por si só inadmissível. E porque haveria esta dimensão de sombras e ilusões, pra começo de conversa, se o Criador é Verdade e Perfeição? Se a pergunta é a mesma, chegamos aqui a uma encruzilhada, porque a resposta encontrada também é a mesma, embora possa não parecer à primeira vista. Observe: para o hinduísmo, a dor e o sofrimento só existem, para nós, porque acreditamos neles. É uma concepção bastante elaborada, e as interpretações dos Vedas (livros sagrados que compõem as bases do hinduísmo) são diversas. Basicamente, porém, afirmam que o mundo físico em que vivemos é uma emanação de Brahma; - mas uma ilusão, designada como um Véu de Maya. - Assim, a existência desta vida passageira, juntamente com a nossa personalidade, não passam de sonho. A única maneira de o ser humano se libertar do mal e do sofrimento é vencer a ilusão da sua existência pessoal e física. Como fazer isso? Transcendendo sua própria condição humana, indo além das fraquezas dos desejos e das aparências, através dos seis sistemas ortodoxos, que também já vimos aqui.

É exatamente por isso que o ascetismo é tão valorizado no hinduísmo. Ocidentais veem na TV, sem entender, homens magérrimos e estranhos perambulando pelas ruas da Índia com seus corpos cobertos de cinzas. Alguns deles perfuram seus corpos com objetos pontiagudos, outros contorcem seus membros como se fossem feitos de borracha, outros ainda se deitam sobre cacos de vidro ou penduram grandes pesos em seus órgãos. A autoflagelação dos sadhus é um sinal de sua busca pela superação das limitações físicas. Se cobrir de cinzas e perfurar o corpo são maneiras de tentar demonstrar que superaram a ilusão da existência física, - que seus espíritos já alcançaram a dimensão divina além do corpo e das limitações aparentes.

Como dito antes, achar que o sistema de crenças hindu tenha pouco ou nada a ver com a concepção judaico-cristã do pecado original é um engano comum. - Vejamos o que o hinduísmo tem a dizer, claramente, a respeito da incômoda pergunta sobre o mal e o sofrimento:

"A razão do mal e do sofrimento em nosso mundo, segundo o hinduísmo, é acreditarmos neles, isto é, acreditarmos numa mentira, já que o mal e o sofrimento não possuem existência real. Estamos, porém, presos a esta realidade por determinação divina, já que o Criador quis que alguns nascessem como Brâmanes (saídos dos lábios de Brahma), outros como nobres e guerreiros privilegiados, os Xátrias (originários dos braços ou do peito de Brahma), outros como comerciantes e agricultores abastados; os Vaisyas (oriundos do ventre ou das pernas de Brahma), e outros ainda como lavradores, servos e artesãos, os Sudras (saídos dos pés de Brahma). Além destes (como sabemos) existem os Párias, que não pertencem a nenhuma casta, que não podem viver nas cidades, ler os livros sagrados e nem se banhar no Rio Ganges. Apesar disso, a realidade da existência é completamente diferente daquilo que vemos e experimentamos no mundo das ilusões (Véu de Maya), o mundo físico. O homem é parte do Universo, consequentemente parte de Deus. Em última análise, o homem é Deus, já que Deus é tudo e tudo é Deus. O mal e o sofrimento só existem para o homem porque ele acredita nas falsas aparências deste mundo de sombras. Atingir a liberação do mundo de sofrimentos é possível para aquele que vence a ilusão da existência pessoal e física, transcendendo a condição humana, indo além das fraquezas, dos desejos e das aparências..." [1]




Para os hindus, porém, uma só vida não seria suficiente para que se pudesse atingir tal grau de perfeição. Seriam necessárias muitas e muitas vidas pra isso, - na verdade, milhões delas. Mas, ora, os habitantes do Vale do Indo sempre tinham acreditado na imortalidade da alma, e se a existência física e o tempo não passam de ilusão... A solução estava próxima, e foi encontrada numa época entre 1.000 e 600 aC. Enquanto o Rei Davi e seus descendentes, não tão longe dali, governavam a terra de Israel, os sábios do norte da Índia criaram a doutrina da reencarnação. Agora as pessoas já podíam se sentir consoladas quanto às dores e injustiças deste mundo. Com a gradual elaboração e desenvolvimento de seu corpo doutrinário, o hinduísmo passou a ensinar que uma vida de boas ações determinaria uma nova encarnação de riqueza e prazeres, numa casta mais elevada. Mas uma vida de faltas graves infalivelmente acarretaria uma reencarnação ruim, fosse como um pária (dalit), como um animal ou mesmo como vegetal. Para entender porque isso não é diferente do conceito de pecado e castigo, analisemos com atenção este breve resumo:

"Os ensinamentos do hinduísmo, segundo os Vedas, revelam-nos que estamos separados de Deus ou da Realidade Divina, presos num mundo de ilusão, por acreditarmos em mentiras. A única maneira de nos libertarmos é por meio da fé, ou seja, a aceitação da verdade, da autopurificação e da prática das boas ações. Seremos recompensados de acordo com as nossas escolhas e segundo o nosso modo de vida. Ações boas ou corretas implicam em honra, felicidade e paz futuras. Ações más implicam em humilhação e sofrimento futuros. Esta é a lei suprema, da qual ninguém escapa."[2]


Agora compare a essência dos ensinamentos hinduístas, expostos acima, com o resumo da doutrina judaico-cristã segundo a Torá ou o Antigo Testamento da Bíblia, abaixo:

"No princípio, o homem era um com Deus. Satanás, o pai da mentira, desviou o homem, fazendo com que se extraviasse do Paraíso divino. O homem, por acreditar numa mentira, perdeu a sua privilegiada condição inicial, de Comunhão com Deus, e assim foi banido e condenado a viver num mundo de dores, isolado da realidade divina, ficando sujeito ao sofrimento, velhice e morte. A partir desse momento e até hoje, a única maneira de reconquistar a Comunhão perdida é viver uma vida de obediência e virtudes. Com base no Antigo Testamento da Bíblia, a Torá, isto é, antes do advento do Cristo, que trouxe uma revisão radical dos antigos conceitos, fazer o bem implica recompensa, e fazer o mal implica castigo."[3]


Observe como está clara a relação, - direta e explícita, - entre as duas abordagens doutrinais clássicas. – Essas tradições ancestrais podem ser realmente diferentes ou mesmo opostas em outros aspectos, mas não neste particular. – Ambas ensinam exatamente o mesmo princípio: a) O mal e o sofrimento são consequência das nossas escolhas e atos. b) A única maneira de nos libertarmos deste ciclo é através da mudança de atitudes, da fé, da aceitação da Verdade, da autopurificação espiritual, dos esforços pessoais.

Interessa saber que o hinduísmo original não demonstra nenhum pudor para falar de castigo e punição; a sensibilidade atual é que tende a refutar esses conceitos primordiais. Assim também algumas religiões modernas, surgidas a partir do século XXIII, adotaram princípios hinduístas, mas procuraram moldá-lo ao gosto ocidental da era do cavalheirismo: seus fundadores não gostavam de palavras como ‘pecado’, ‘punição’ e ‘castigo’; - destaque para o espiritismo e a teosofia. - Basta uma breve análise, porém, para percebermos que ensinam os mesmíssimos conceitos, apenas fazendo uso de outras palavras. Senão, observemos os principais supostos pontos de discordância:

“Deus não castiga”. Não. Mas obriga aqueles que falham a renascer em condições de sofrimento, para depurar seus erros. Eles vão ter que reencarnar e sofrer indefinidamente, num longo e penoso processo de purificação espiritual (a palavra 'purgar' também está proibida, embora tenha exatamente o mesmo significado), até que estejam amansados evoluídos e se tornem dignos de alçar algum plano de existência mais elevado. - O que mudou? Os nomes dados às mesmas coisas. Antes se falava em castigo, agora se fala em consequência, mas continuamos falando de causa e efeito;

Uma observação irresistível: não deixa de ser irônico ver tanto pudor para se falar em castigo nos dias de hoje, uma época em que os nossos melhores educadores comprovam a cada dia que a melhor maneira de educar os filhos é justamente através do sistema castigo e recompensa... “Não bata, não ameace, não grite nem perca a calma. Castigue quando ele (seu filho) errar e recompense quando acertar.” - Dr. Içami Tiba (Quem Ama Educa - Integrare Editora).

“Não existe pecado”. Não. O que existem são transgressões às Leis de Deus, ou seja, às leis naturais, cometidas por ignorância ou medo, por espíritos que ainda não evoluíram o bastante. - O que mudou? Mais uma vez, apenas os nomes. O sentido continua o mesmo. Quando a Bíblia fala em pecado, sem dúvida se refere à transgressão das leis divinas, e sendo Deus o Criador, contrariar suas leis é ir contra os princípios naturais universais. Absolutamente nada de novo está sendo dito;

“Não existe 'punição'”. Não. Só existe um lugar chamado “Umbral”, onde vivem espíritos que se encontram num grau de evolução inferior, apegados à matéria ou a sentimentos ruins, onde sofrem com dores carnais (pois ali a alma vive temporariamente com um corpo semelhante ao físico, o ‘perispírito’, que tem as mesmas necessidades que temos aqui na terra), remoendo rancores e mágoas. Ficam lá até que sofram o suficiente para se arrependerem... - Pergunta: o que mudou? Resposta: as palavras. Opinião deste autor: a crueldade nessa visão me parece até mais requintada...

Fica claro que o conceito de mal e sofrimento como castigo, punição ou consequência pelas nossas ações, embora não seja a única explicação disponível, é universal e atemporal. Mudam os nomes que damos às ideias, mas as ideias em si permanecem exatamente as mesmas. Autores recentes enfeitaram e criaram termos ‘modernos’, mas a velha lógica permaneceu: faça o bem e se dê bem, faça o mal e se dê mal. Ponto. É um fato que a maioria dos problemas inter-religiosos com relação ao tema do mal e do sofrimento estão muito mais na interpretação de certas palavras do que no significado das palavras em si. - Castigo pelos pecados ou consequência de más ações. - Esta foi (e continua sendo) a primeira das explicações universais para a existência do mal e do sofrimento no mundo. Uma explicação que acabou por se revelar imperfeita, para dizer o mínimo. Como veremos na próxima postagem.

Concluindo este tópico, importa dizer que a comparação entre o hinduísmo e a tradição judaico-cristã foi necessária, logo no começo deste estudo, porque desse modo englobamos a totalidade absoluta dos sistemas de crenças existentes no mundo. Cada uma das doutrinas existentes hoje, sem exceção, tem suas raízes numa ou noutra destas tradições-mães. - A tradição ocidental seguiu pelo caminho do Gênesis, da história de Adão e Eva e da pregação dos Profetas do Antigo Testamento, que proclamavam os sofrimentos do povo de Israel como consequência dos seus pecados e da sua infidelidade. Já a tradição oriental seguiu os passos dos primeiros rishis hindus, que ensinaram que todo o mal e sofrimento surgiram em consequência da nossa identificação com nossos desejos e paixões, sendo que todo ato de egoísmo e ignorância faz reforçar os grilhões que nos prendem a esta dimensão ilusória.


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Notas:

1. PEIRANO, Mariza G. S. A Índia das Aldeias e a India das Castas: Reflexões Sobre um Debate, Brasília: Instituto de Ciencias Humanas, 1987;
2. Idem;
3. PAIVA, R. Catecismo Católico Bíblico, São Paulo: Loyola, 2004.


Fontes e bibliografia:

PEIRANO, Mariza G. S. Dados - Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/ Sociedade Brasiliera de Instrução, 1987, p. 359;
PAIVA, R. Catecismo Católico Bíblico, São Paulo: Loyola, 2004;
BOWKER, John. Para Entender as Religiões, São Paulo: Editora Ática, 1997.




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Propósito da série

Em busca da Libertação Final


As postagens da série Em busca da Libertação Final vêm causando reações um pouco intempestivas em alguns leitores. Reações essas que eu não poderia chamar de surpreendentes. Me surpreenderia, isso sim, se ninguém manifestasse surpresa, dúvidas, indignação... Se o conteúdo dessas postagens não causasse nenhuma reação calorosa eu ficaria surpreso. É que sei o quanto dói tocar na ferida, o quanto é difícil olhar para dentro de si, o quanto pode ser duro falar da Verdade, de verdade. E, puxa, incrível como não é óbvio para todo mundo que buscar a Verdade implica encarar todas as expressões da verdade, sem medo. - Bem, a sabedoria popular já descobriu, há tempos, que "a verdade dói". - Por tudo isso resolvi reproduzir em forma de post a minha resposta a essas indagações, porque sei que nem todos lêem os comentários (embora a maioria o faça). Acho importante esclarecer as coisas, afinal, em momentos como este, é fácil passar a impressão errada. Lá vamos nós...

O que estou fazendo é levar a minha busca espiritual a todos que queiram, possam ou se identifiquem com ela. O meu tipo de busca espiritual. Foi assim que eu sempre busquei a Deus. Indo até às últimas consequências. É bem extremo, sim, mas vale à pena.

É fácil mostrar só o lado bonito, o lado fácil e óbvio de uma história. A grande maioria faz isso. Para os que desejam ler sobre defesa da fé, existem muitos sites excelentes com material desse tipo; basta uma pesquisa rápida para encontrar dezenas deles. Mas aqui é um espaço dedicado à busca interior, - intensa, profunda, verdadeira, - do tipo que não se detêm diante de nada, a não ser da Verdade. Não posso basear minhas certezas na certeza de outras pessoas. As coisas não funcionam assim para os que se aventuram na Grande Jornada.

Se as coisas que eu estou mostrando nessas postagens não existem, se são mentiras e eu estou equivocado, desde já me desculpo. Mas se são verdadeiras, encará-las de frente e com coragem só poderá levar a um de dois resultados: a perda da fé ou... O fortalecimento absoluto da fé. Mais que isso: à transformação de fé em certeza. Se nós não discutirmos sobre as coisas difíceis num espaço como este, se eu pintar um mundo lindo e cor-de-rosa (porém de mentira) por aqui, você vai se alegrar. Mas depois vai sair, olhar o mundo lá fora e ver o feio e o cinza, e nada vai fazer sentido. Agora, se você tiver coragem para falar dessas coisas num espaço como este, olhar para o lado tenebroso da vida bem de frente, encarar os olhos da fera e dizer: "Me mostre tudo o que você tem, quero saber o que você é de verdade!", aí, então, talvez você consiga se libertar de uma vez para sempre.

Nesse processo, há o risco de se perder a fé? Sim, talvez (embora eu não acredite que isso seja possível para aqueles predestinados a encontrar a Luz desde antes do princípio dos tempos, - o que já é uma outra longa conversa). Por outro lado, se os riscos existem, também é verdade que a possibilidade de encontrar a si mesmo (e por conseguinte encontrar DEUS) de um modo único, definitivo, transformador e profundamente benéfico, também existe.

Para mim, o risco sempre valeu e continua valendo a pena. Quem não tiver coragem é livre para voltar para casa e voltar a se aninhar naquele sofá confortável, que fica na sala das falsas certezas e sempre será uma opção. O que estou propondo por aqui, - desde o começo, aliás, - é que não nos conformemos com nada menor que a certeza; verdadeira, definitiva e final.



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Em busca da Libertação Final - 5

O mal e o sofrimento como testes de fé


Com a proposta de enriquecer a reflexão sobre o mal e o sofrimento no mundo, trago um trecho do livro 'God's Problem: How the Bible Fails to Answer Our Most Important Question', de Bart Ehrman. - Só para corajosos. - Este autor é presidente do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, conhecido por suas várias publicações sobre o início do Cristianismo, e é considerado um dos maiores especialistas internacionais da atualidade sobre temas bíblicos. Segue:


Se há no mundo (a atuação de) um Deus todo-poderoso e amoroso, por que há tanta dor excruciante e tanto sofrimento indizível? O problema do sofrimento me atormentou durante muito tempo. Foi o que me levou a pensar na religião quando jovem, e foi o que me fez questionar minha fé quando mais velho. Por fim, foi a razão pela qual eu perdi minha fé. Este livro tenta estudar alguns aspectos do problema, especialmente do modo como ele é refletido na Bíblia, cujos autores também lidaram com a dor e os infortúnios do mundo.

Para explicar por que o problema tem tanta importância para mim, preciso fornecer um breve histórico pessoal. Durante a maior parte da vida eu fui um cristão devoto e praticante. Fui batizado em uma igreja congregacionalista e criado como episcopaliano, tornando-me coroinha aos 12 anos e assim permanecendo até o curso secundário. Nos primeiros dias como secundarista, comecei a frequentar um clube de 'Jovens em Cristo', e tive uma experiência de “renascimento” - que retrospectivamente soa um pouco estranho: eu tinha estado envolvido com a Igreja, acreditado em Cristo, orado a Deus, confessado meus pecados, e assim por diante ao longo de anos. Do que exatamente eu tinha que me converter? Achava que estava me convertendo do inferno - eu não queria experimentar o sofrimento eterno junto com as pobres almas que não tinham sido “salvas”; eu preferia muito mais a opção do paraíso. Seja como for, quando "renasci", era como se estivesse subindo um grau em minha religião. Eu passei a levar muito a sério minha fé, e decidi ingressar em um seminário fundamentalista — o Moody Bible Institute, em Chicago, — onde comecei a me preparar para me tornar pastor.

Eu me esforcei muito para aprender a Bíblia - decorei diversas partes dela. Até hoje posso citar livros inteiros do Novo Testamento, versículo a versículo, de memória. Depois que me me formei no Moody, com um diploma em Bíblia e Teologia (na época o Moody não oferecia bacharelado), prossegui meus estudos em Wheaton. Não me considero um ateu e não acho que estou fazendo a mesma coisa que autores como Dawkins, Harris, e outros. Eles estão atacando a religião sem conhecer muito. Quando eu escrevo, faço isso como alguém que já esteve profundamente envolvido com a Cristandade, mas que agora a rejeitou. Por isso, a minha perspectiva é completamente diferente. Fui criado na Igreja Protestante e fui um cristão muito ativo por vários anos. Mas eu deixei a cristandade não por conta dos meus estudos históricos sobre a Bíblia, mas por não conseguir mais acreditar que poderia haver um Deus no comando deste mundo cheio de dor e sofrimento.

Um dos meus livros traz o título Jesus, Interrupted (Jesus, interrompido) significa que há inúmeras vozes diferentes falando no Novo Testamento. São autores diferentes, que possuem pontos de vista diferentes e que, muitas vezes, são conflitantes entre si. Com tantas vozes falando no mesmo livro, muitas vezes é impossível escutar a voz do Jesus histórico, porque ele foi interrompido por outras pessoas.

Todos já experimentaram o sofrimento, e irão experimentar ainda mais antes de morrer. De unhas quebradas a ossos fraturados, de arteriosclerose a câncer e falência de órgãos; doenças curáveis ou incuráveis. Meu pai foi levado pelo câncer há 18 anos com a bela idade de 65 anos. Em agosto daquele ano estávamos em uma viagem de pesca, e ele parecia bem. Seis semanas depois estava em seu leito de morte no hospital. A sua aparência tinha mudado de modo inacreditável. Seis semanas depois, após uma dor excruciante, - um médico disse que não queria aumentar a dose de morfina para que ele não se tornasse viciado, - ele estava morto.

Exatamente agora, muitos anos depois, eu estava esboçando este capítulo no aeroporto da Pensilvânia, voltando de uma palestra que tinha feito na universidade da Pensilvânia em homenagem a um velho amigo e colega, Bill Petersen, um brilhante linguista e historiador especializado em primórdios do Cristianismo, morto de câncer no auge da carreira. O câncer pode atingir qualquer um de nós a qualquer momento. E mesmo a doença mais prosaica pode levar à morte. De fato, muitas pessoas morrem de gripe. A pior epidemia da história americana foi a epidemia de gripe de 1918, colocada às sombras da História pela I Guerra Mundial, mas muito mais mortal que a própria guerra para os soldados americanos, sem falar nos civis. De fato, ela matou mais americanos que todas as guerras do século XX juntas. Ela surgiu num quartel do exército em Fort Riley, Kansas, em março de 1918: os médicos pensaram que era um novo tipo de pneumonia. Então pareceu desaparecer. Mas voltou com fúria, tanto entre civis quanto militares, que acabaram levando-as à Europa quando transferidos para a linha de frente da guerra, de modo que soldados de outros países a contraíam e levavam pra casa. Virou uma epidemia mundial de proporções apocalípticas. Os sintomas eram diferentes de tudo que se conhecia. Parecia afetar mais os jovens e saudáveis - aqueles entre 21 e 29 anos de idade eram o principal grupo de risco - que os muito jovens, muito velhos ou muito fracos. Os sintomas apareciam sem aviso, e pioravam rapidamente. Os pulmões se enchiam de fluido, dificultando a respiração; a temperatura do corpo aumentava tanto que o cabelo começava a cair. As pessoas ficavam azuis e depois pretas; acabavam morrendo afogadas no líquido acumulado nos pulmões. Tudo isso podia acontecer em 12 horas. Alguém que você tinha visto bem no café-da-manhã poderia estar morto na hora do jantar. E o número de pessoas infectadas foi impressionante.

Em setembro de 1918, 12 mil pessoas morreram nos Estados Unidos - e depois piorou. Certas unidades do exército na guerra perderam 80% de seus soldados; Woodrow Wilson teve de decidir se enviava reforços, sabendo que o vírus poderia matar a maioria daqueles nos navios antes que eles chegassem ao teatro de operações, com a impossibilidade de uma quarentena e sem nenhuma vacina. No plano doméstico, lugares como a cidade de Nova York e Filadélfia estavam em crise: em outubro de 1918, Nova York registrava mais de oitocentas mortes por dia; na Filadélfia, 11 mil morreram em um mês. Eles ficaram sem caixões, e sem conseguir enterrar os caixões que eram usados.

Apesar de esforços intensos, os cientistas não conseguiram produzir uma vacina (parte do problema: eles supunham que a doença era causada por uma bactéria, quando na verdade era um vírus). Mas a doença acabou seguindo seu curso normal e parou de matar, misteriosamente, por conta própria. Mas não antes que a maioria da espécie humana tivesse sido infectada. Nos dez meses de epidemia, a gripe matou 550 mil americanos, e assustadores 50 milhões de pessoas em todo o mundo(!!).


*Nota: O autor, a partir da visão norte-americana, está se referindo a terrível epidemia que por aqui ficou conhecida como 'gripe espanhola'. Descrita como uma peste que rivalizava com as epidemias de cólera e febre amarela em seus horrores, a gripe espanhola chegou ao Brasil entre 1916 e 1917. Só em 1917 matou 21 milhões de pessoas. Na época a epidemia foi chamada de influenza (hoje é o nome dado à gripe comum). Há relatos da população se trancando em casa, apavorada com a moléstia mortal; em algumas cidades, através do vidro das janelas era possível ver passar filas de caminhões cheios de cadáveres amontoados em direção aos cemitérios. Coveiros chegaram a abandonar o seu trabalho, temerosos do contágio. Os médicos negavam-se a ir à casa dos pacientes contaminados pela terrível moléstia. O pavor era geral.

Em 1918, quando a Europa ainda chorava seus milhões de mortos vítimas da Primeira Guerra Mundial, os primeiros casos da desconhecida enfermidade surgiam na Espanha. Em números gerais, o conflito, que durou seis anos, matou 50 milhões de pessoas, entre militares e civis. Os sintomas da misteriosa gripe eram idênticos aos uma pneumonia, era muito contagiosa, e o vírus se propagava pelo ar. Não existiam antibióticos e quem pegava a doença dificilmente conseguia sobreviver. Segundo se soube, o vírus espalhou-se pelo mundo principalmente através dos navios de carga e de passageiros espanhóis. - Daí o nome. - Em 1920, tal como surgiu, a gripe espanhola desapareceu. Misteriosamente. A partir daí, os mais competentes virologistas do mundo passaram a trabalhar intensamente na tentativa de descobrir o que causara a pandemia. Os recursos, porém, eram escassos. Não existiam microscópios capazes de localizar o vírus nem enfermos que pudessem fornecer os germes causadores da enfermidade.

Somente em 1997 a causa da gripe foi finalmente descoberta por médicos dos Estados Unidos e anunciada pelo Instituto de Patologia das Forças Armadas americanas. Especialistas liderados pelo Dr. Jeffery Taubenberger estudaram as vísceras preservadas em formol de 43 mil soldados mortos pela gripe espanhola e autopsiados em 1918. Nos pulmões de um deles os virologistas encontraram 30 espécimes do vírus mortal, que foi isolado teve seu material genético estudado. Descobriram, assombrados, que era bem semelhante ao vírus da gripe suína, que normalmente não ataca humanos. Os Estados Unidos foram invadidos pelo vírus da gripe espanhola em 1918, trazido pelos soldados que regressavam da Primeira Guerra Mundial. Constam de registros históricos que um em cada quatro americanos adoeceu.

No Brasil, só no Rio de Janeiro e São Paulo morreram 20 mil enfermos em apenas dois meses, entre eles o presidente Rodrigues Alves (1832-1919). - Em 1918 fora eleito para um segundo mandato, mas não chegou a tomar posse. - Na verdade nunca se soube ao certo quantos brasileiros foram vítimas da gripe espanhola.

Fonte: Fonte: portal Jornal da Cidade, seção Caderno C / Mário Moraes, 2008 em http://www.jornaldacidade.net/2008/noticia.php?id=17949#, acesso em 28/03/2009.



Como explicar um surto como esses? Devemos buscar uma resposta bíblica? Na época, em todo o Hemisfério Ocidental, muitas pessoas o fizeram. Será que Deus estava punindo o mundo? Algumas pessoas acharam que sim, e rezaram pedindo trégua. Seria uma tragédia infligida aos humanos? Havia também o boato de que os alemães tinham iniciado a epidemia utilizando uma arma química secreta. Havia algo de redentor no sofrimento? Algumas pessoas o viram como um apelo ao arrependimento antes do Armagedom, que estava se aproximando com o conflito europeu.

Ou talvez não fosse nada demais. Talvez o que aconteceu não tivesse nada a ver com um ato divino que intervém em prol de seu povo ou contra seus inimigos. Afinal, haviam muitos precedentes na história humana. A chamada Peste de Justiniano, no século VI, foi ainda pior que a epidemia de gripe de 1918, destruindo algo como 40% dos habitantes de Constantinopla, capital do Império Bizantino, e até um quarto da população de todo o Mediterrâneo oriental. E houve a famosa Peste Negra, a peste bubônica de meados do século XIV que pode ter matado até um terço da população da Europa. Nós mesmos não estamos livres, como bem sabemos. Apesar de alguma evolução nos tratamentos, a crise de Aids continua a ser um pesadelo para milhões.

Os números da Alert, uma instituição internacional de caridade dedicada ao HIV e à Aids com sede no Reino Unido, são chocantes. Desde 1981, mais de 25 milhões de pessoas em todo o mundo morreram de Aids. Em 2005, cerca de 40 milhões de pessoas viviam com HIV/Aids (aproximadamente metade delas, mulheres). Três milhões de pessoas morreram apenas naquele ano. Mais de 4 milhões foram infectados. Ainda hoje, com toda a conscientização, cerca de 6 mil jovens (com menos de 25 anos de idade) são infectados com o HIV todos os dias. Atualmente, a África tem 12 milhões de órfãos da Aids. - Apenas na África do Sul, mais de mil pessoas morrem de Aids todos os dias, um após o outro.

É um fato que práticas inseguras podem disseminar a doença - mas, para começar, por que a doença existe? Aqueles que sofrem a terrível agonia emocional e física da Aids são mais pecadores e merecedores de punição que o resto de nós? Deus escolheu punir todos aqueles órfãos da Aids? Francamente, não vejo como as respostas bíblicas ao sofrimento podem ser úteis para compreender seus apuros - ou as mortes daqueles ceifados pela gripe de 1918 ou pela peste bubônica em 1330. Não é Deus que está criando dor excruciante e infelicidade. Certamente também não é algo que seres humanos fizeram contra outros seres humanos; e não vejo nada de redentor nas crianças inocentes que contraem Aids, sem terem absolutamente culpa alguma, e que nada podem esperar a não ser os tormentos assombrosos produzidos pela doença. Há outras explicações para o sofrimento no mundo? Há, e algumas delas estão na Bíblia. A mais conhecida abordagem do problema do sofrimento está no livro de Jó.


O livro de Jó: uma panorâmica

A maioria das pessoas que lê Jó não se dá conta de que na forma que chegou a nós o livro é obra de pelo menos dois autores diferentes, e que esses autores tinham compreensões diferentes, - e contraditórias, - de por que as pessoas sofrem. Mais importante ainda, o modo como a história começa e termina, com a prosa narrativa do sofrimento do justo Jó, cuja resistência paciente à provação é recompensada por Deus - está em contradição com os diálogos poéticos que compõem a maior parte do livro, no qual Jó não é paciente, mas desafiador, e nos quais Deus não recompensa aquele que fez sofrer, mas se impõe a ele e o obriga a se submeter.




São duas visões diferentes do sofrimento, e para compreender o livro temos de compreender suas duas mensagens distintas. Na forma que tem, com a prosa narrativa e os diálogos poéticos somados em um longo relato, o livro pode ser resumido assim: começa com uma descrição em prosa de Jó, um homem rico e devoto, o homem mais rico do Oriente. A ação então é transferida para o Céu, onde Deus fala com Satanás - a palavra hebraica para “o adversário” - e faz elogios a Jó. Satanás diz que Jó só é devoto a Deus por causa das recompensas que tem por sua devoção. Deus permite que Satanás tire tudo aquilo que Jó tem: seus bens, seus servos e seus filhos - e depois, em uma segunda rodada de ataques, sua saúde. Jó se recusa a amaldiçoar Deus pelo que aconteceu a ele. Três amigos vão visitá-lo e confortá-lo. Mas é pouco o consolo. Em seus discursos, dizem a Jó que ele está sendo punido por seus pecados (ou seja, eles assumem a visão clássica do sofrimento, a de que os pecadores recebem o que merecem). Jó continua a insistir em sua inocência, e pede a Deus que permita que ele apresente sua defesa. Ao final dos diálogos com os amigos (que tomam a maior parte do livro), Deus se manifesta e esmaga Jó com sua grandeza, atacando-o violentamente por pensar que ele, Deus, tem algo a explicar a um mero mortal. Jó se arrepende de seu desejo de defender seu caso perante Deus. No epílogo, que retoma a narrativa em prosa, Deus elogia Jó por seu comportamento justo e condena os amigos pelo que disseram. Ele devolve a Jó toda a sua antiga riqueza, e ainda dá a ele mais um punhado de outros filhos; e Jó leva uma vida próspera, morrendo com idade avançada.

Algumas das discrepâncias básicas entre a narrativa em prosa com a qual o livro começa e termina (em apenas três capítulos) e os diálogos poéticos (quase podem ser percebidas já nesse rápido resumo. As duas fontes que foram aglutinadas para criar o produto final são escritas em diferentes gêneros: uma narrativa popular em prosa e um conjunto de diálogos poéticos. Os estilos de escrita são diferentes entre esses dois gêneros. Uma análise mais detalhada mostra que os nomes do ser divino são diferentes na prosa (quando é usado o nome SENHOR) e na poesia (em que a divindade é chamada de El, Elói e Shaddai). Ainda mais marcante, o perfi l de Jó é distinto nas duas partes do livro: na prosa, é um sofredor paciente; na poesia, completamente desafiador e impaciente. Coerentemente, na prosa ele é elogiado; e na poesia, atacado. A narrativa popular em prosa indica que Deus lida com seu povo de acordo com seu mérito; na poesia ele não faz isso — e não está disposto a fazê-lo. Finalmente, e o mais importante: a visão de por que o inocente sofre difere nas duas partes do livro: na narrativa em prosa, o sofrimento é um teste para a fé; na poesia, o sofrimento permanece um mistério que não pode ser compreendido ou explicado. Portanto, para lidar adequadamente com o livro de Jó, precisamos estudar as duas partes do livro separadamente e investigar as duas explicações para o sofrimento do inocente.

A narrativa popular: o sofrimento de Jó como um teste para a fé - A ação da narrativa popular em prosa alterna cenas na Terra e no Céu. A história começa com o narrador indicando que Jó vivia na terra de Uz; normalmente ocalizada em Edom, a sudeste de Israel. Jó, em outras palavras, não é israelita. Sendo um livro sapiencial, este relato não está preocupado com tradições especificamente israelitas, mas em compreender o mundo de modos que fizessem sentido para todos seus habitantes. Seja como for, Jó é descrito como “íntegro e reto, que temia Deus e se afastava do mal” (Jó 1:1). Em outros livros sapienciais, como Provérbios, a riqueza e a prosperidade são dadas aos justos perante Deus. Aqui o ditado é confirmado. Jó é definido como estupendamente rico, com 7 mil ovelhas, 3 mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentos jumentos e muitos servos. Sua religiosidade se manifesta na devoção diária a Deus; toda manhã cedo ele faz uma oferenda a Deus por todos os seus filhos, - sete filhos e três fi lhas, - para o caso de eles terem cometido algum pecado.

O narrador então se transfere para um cenário celestial em que os “seres celestiais” (literalmente: os filhos de Deus) se apresentam perante o Senhor. Satanás está entre eles. É importante perceber que aqui Satanás não é o anjo caído que foi expulso do paraíso, o inimigo cósmico de Deus. Aqui ele é retratado como um dos membros do conselho divino de Deus, um grupo de seres divinos, habitantes do Céu que regularmente se reportam a Deus e, que percorrem o mundo fazendo a sua Vontade.

Apenas em um estágio posterior da religião israelita (como veremos numa postagen subsequente) Satanás se torna “o Diabo”, inimigo mortal de Deus. O termo Satanás em Jó não parece ser tanto um nome quanto uma descrição de sua função: literalmente, significa o Adversário ou o Acusador. Mas ele não é adversário de Deus: Deus é o detentor do Poder Absoluto, e nenhuma força no Universo, que tivesse sido crida por ele mesmo, seria capaz de desafiá-lo. Satanás pode impor barreiras aos seres humanos, mas o faz com um propósito divino, sempre cumprindo a Vontade do Criador. Satanás é um entre outros seres celestiais que se reportam a Deus. É um "adversário", no sentido de que faz o papel de acusador da humanidade.

Naquele momento exato da narrativa, seu desafi o tem a ver com Jó. O Senhor fala a Satanás da vida impecável de Jó, e Satanás desafia Deus: Jó é probo apenas porque em troca é altamente abençoado. Se Deus tirar o que Jó tem, Jó “te lançará maldições em rosto” (Jó 1:11). Deus não concorda, para provar que Satanás está errado, o autoriza a tirar tudo de Jó. Em outras palavras, este é um teste para a justeza de Jó: teria ele uma devoção desinteressada ou sua devoção a Deus depende inteiramente do que consegue ganhar com o acordo?

Satanás ataca violentamente a casa de Jó. Em um dia os bois são roubados, as ovelhas são queimadas pelo fogo dos céus, os camelos são atacados e levados, todos os servos são mortos e até mesmo os filhos e filhas são desapiedadamente destruídos por uma tempestade que arrasa sua casa. A reação de Jó? Como Deus previra, ele não pragueja por seu azar; fica de luto: "Então Jó se levantou, rasgou seu manto, raspou sua cabeça, caiu por terra, inclinou-se no chão e disse: 'Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor o deu, o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor'.” (Jó 1:20)

O narrador nos assegura de que nem mesmo com tudo isso, “Jó não cometeu pecado nem imputou nada de indigno contra Deus” (Jó 1:22). Nesta história, o fato de Jó preservar sua justeza signifi ca continuar a confiar em Deus, seja lá o que Deus faça a ele. A narrativa então se transfere para uma cena celestial de Deus e seu conselho divino. Satanás aparece perante o Senhor, que mais uma vez engrandece seu servo Jó. Satanás retruca que é claro que Jó não amaldiçoou Deus - ele mesmo não sofreu dor física. Mas, diz Satanás a Deus, “estende a mão, fere-o na carne e nos ossos; eu garanto que te lançarás maldições em rosto” (Jó 2:5). Deus permite então que Satanás faça isso, prevenindo, contudo, que não tire a vida de Jó. Satanás feriu Jó com “chagas malignas desde a planta do pé até o cume da cabeça” (Jó 2:7). Jó se senta em um monte de cinzas e esfrega suas feridas com um caco de cerâmica. Sua esposa o estimula a seguir o caminho natural: “Persistes ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre duma vez!” Mas Jó se recusa: “Se recebemos de Deus os bens, não deveríamos receber também os males?” (Jó 2:10). Apesar de tudo, Jó não peca contra Deus. Três amigos de Jó vão até ele - Elifaz de Tema, Baldad de Suás e Sofar de Naamat. E fazem a única coisa que amigos de verdade podem fazer nesse tipo de situação: choram com ele, compartilham sua dor e se sentam com ele, sem dizer uma palavra. Sofredores não precisam de conselhos, mas de presença humana reconfortante.

É nesse ponto que começa o diálogo poético, no qual os amigos não se comportam como amigos, muito menos reconfortam, insistindo em que Jó simplesmente teve o que merecia. Falarei sobre esses diálogos depois, já que são de um autor diferente. A narrativa popular só é retomada na conclusão do livro, ao final do capítulo 42. É óbvio que um pouco da narrativa popular se perdeu no processo de somá-la aos diálogos poéticos, pois quando ela reinicia Deus dá sinais de que está com raiva dos três amigos pelo que eles disseram, em oposição ao que Jó tinha dito. Isso não pode ser uma referência ao que os amigos e Jó disseram nos diálogos poéticos, porque neles são os amigos que defendem Deus, e Jó que o acusa. Assim, uma parte da narrativa popular deve ter sido eliminada quando os diálogos poéticos foram adicionados. Não há como saber o que os amigos disseram que ofendeu Deus.

O que fica claro, porém, é que Deus recompensa Jó por passar no teste: ele não o amaldiçoou. Jó recebe a ordem de fazer um sacrifício e orar por seus amigos, e obedece. Deus então devolve a Jó tudo o que tinha sido perdido, e ainda mais: 14 mil ovelhas, 6 mil camelos, mil juntas de bois, mil jumentos. E dá a ele mais sete filhos e três filhas. Jó vive seus dias em paz e prosperidade, cercado dos fi lhos e netos.

A visão do sofrimento nessa narrativa popular é bem nítida: algumas vezes o sofrimento se abate sobre o inocente de modo a revelar se sua devoção a Deus é genuína e desinteressada. As pessoas são fiéis apenas quando as coisas vão bem ou são fiéis independentemente das circunstâncias? Para o autor é óbvio: não importa como as coisas estejam ruins, Deus ainda merece devoção e louvor. Mas é possível apresentar sérias objeções quanto a essa perspectiva, questões levantadas pela própria narrativa popular. Para começar, muitos leitores ao longo dos anos sentiram que Deus não está envolvido no sofrimento de Jó; afi nal, é Satanás que o causa. Mas uma leitura mais atenta do texto mostra que não é assim tão simples. É exatamente Deus que autoriza Satanás a fazer o que faz; ele não poderia fazer nada sem a ordem de Deus. Além disso, em dois pontos o texto indica que Deus é, em última instância, o responsável. Após a primeira rodada de sofrimento para Jó, Deus diz a Satanás que Jó “persevera em sua integridade, e foi por nada que me instigaste contra ele para aniquilá-lo” (Jó 2:3). Nesse ponto, Deus é o responsável pelo sofrimento do inocente Jó. Deus também destaca que não havia nada pelo que Jó tivesse de sofrer. Isso coincide com o que acontece no final da história, quando a família de Jó o consola depois que a provação termina, mostrando simpatia por ele “pela desgraça que o Senhor lhe tinha enviado” (Jó 43:11).

O próprio Deus tinha provocado a infelicidade, a dor, a agonia e a perda que Jó experimentara. Não é possível culpar apenas o Adversário. E é importante lembrar o que essa perda implica: não apenas perda de propriedade, o que já seria bastante ruim, mas uma devastação do corpo e a morte violenta dos dez filhos de Jó. E para quê? Nada a não ser provar a Satanás que Jó não iria amaldiçoar Deus mesmo que tivesse todo o direito de fazê-lo. Ele tinha o direito de fazê-lo? Lembrem-se, Jó não fi zera nada para merecer tal tratamento. De fato era inocente, como o próprio Deus declara. Deus fez isso a ele para vencer uma aposta com Satanás. Esse obviamente é um Deus acima, além e em nada submetido aos padrões humanos. Qualquer outro que destruísse todos os seus bens, o ferisse fisicamente e assassinasse seus filhos - simplesmente por uma aposta - estaria sujeito à punição mais severa que a justiça pudesse impor. Mas Deus obviamente está acima da justiça e pode fazer o que quiser para provar uma tese.


Outros testes na Bíblia

A idéia de que o sofrimento é um teste de Deus apenas para descobrir se seus seguidores irão obedecer também pode ser encontrada em outros pontos da Bíblia. Poucas histórias exemplificam essa visão mais nítidamente que o episódio do Sacrifício de Isaque, contado em Gênesis 22. O contexto da história é a seguinte: o pai dos judeus, Abraão, havia muito recebera de Deus a promessa de um filho, que depois se tornaria o ancestral de um grande e poderoso povo. Mas apenas quando ele e sua esposa estavam em idade muito avançada a promessa foi cumprida.




Abraão era um homem maduro, e obviamente fértil, de cem anos de idade quando Isaque nasceu (Gn 21:1-7). Mas quando Isaque, a promessa cumprida de Deus, ainda era um jovem, ou possivelmente um menino, Deus dá uma ordem horrível a Abraão: ele deve levar seu filho único e oferecê-lo em holocausto a Deus. O Deus que prometera a ele um filho queria então que ele destruísse aquele filho; o Deus que ordena que seu povo não mate ordenava então que o pai dos judeus sacrificasse seu próprio filho.

Abraão pega o filho Isaque e parte para o deserto com dois servos e um jumento carregado de lenha para o holocausto (ou seja, a pira no qual ele deve sacrificar o corpo de seu filho). Enquanto seguem para o local determinado, Isaque pensa no que estava acontecendo: ele vê a madeira e o fogo, mas onde está o animal a ser sacrificado? Abraão diz a ele que Deus proverá, não deixando o filho saber o que estava para acontecer. Mas então pega o filho, amarra-o, coloca-o sobre a madeira e se prepara para matá-lo com uma faca. No último instante, Deus intervém mandando um anjo deter a faca antes do golpe. O anjo diz a Abraão: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único filho” (Gn 22:12)... Abraão nesse momento ergue os olhos e vê um cordeiro preso em um arbusto; ele captura o cordeiro e o oferece em holocausto, no lugar de Isaque (Gn 22:13-14).

Tudo tinha sido um teste, um horrível teste para descobrir se Abraão faria o que Deus pedia, mesmo que fosse matar o próprio filho.


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Observação: o texto deste post foi retirado do 6° capítulo da obra de Bart Ehrman, com excertos da entrevista concedida por ele à Revista Época em maio de 2009.


Fonte bibliográfica:
EHRMAN, Bart. O Problema com Deus - as Respostas que a Bíblia Não Dá ao Sofrimento, São Paulo: Ed. Agir, 2008, C 6.




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Em busca da Libertação Final - 4

Pessoalmente, já encontrei as respostas para as questões apresentadas neste post. O que vem a seguir é um convite à reflexão profunda e destemida sobre o inevitável e maior problema da fé. Um passo difícil mas necessário para todo buscador da Verdade.


Sendo este um espaço que pretende tratar de espiritualidade, filosofia, religião e fé, - e principalmente de busca pela Verdade, - seria inevitável que este momento chegasse. O momento para abordar a pergunta mais difícil de todas as perguntas. Não há buscador da Verdade que não tenha se perdido nesse deserto terrível, e não uma vez, mas muitas. Um deserto de trevas que parece infinito, inescapável. Não há buscador que não tenha se sentido profundamente frustrado por não conseguir encontrar essa resposta. Nenhuma questão perturbou tantos, durante tanto tempo. Nenhum mistério suscitou tanta angústia. Nenhum outro pesadelo atormentou o sono de tantos, por tanto tempo. Nenhuma lacuna tão incômoda perturbou as consciências dos santos de maneira tão avassaladora. Foram (e continuam sendo) inúmeras tentativas de resposta. As maiores e mais brilhantes mentes de todos os tempos tentaram, fizeram o seu melhor, e não tiveram sucesso. A filosofia não foi capaz de resolver este enigma. Nem os livros sagrados (estou falando de todos os livros sagrados) e nem mesmo a santidade mais luminosa foi capaz de fornecer à humanidade inquieta uma resposta definitiva, - direta e reconfortante, - à pergunta mais difícil de todas as perguntas.

Por que existe o sofrimento? Se Deus é bom e perfeito, por que criou um mundo mau e imperfeito? Se Deus é Amor, por que permite que soframos? Por que existe o mal? Como podemos ser maus, se Deus, sendo infinitamente bom, nos criou à sua imagem e semelhança? Se Deus é bom, onipotente e onipresente, como podem existir o mal e o sofrimento?

Entre as inúmeras tentativas de resposta que os inúmeros sábios, religiões e filosofias trouxeram, - todas imperfeitas, - uma em particular me vem à mente, principalmente por ser sempre defendida por um leitor deste blog que eu considero um amigo. Essa resposta-padrão, adotada entre outros pela filosofia Seicho-No-Ie, seria mais ou menos a seguinte: “O mal e o sofrimento não existem. São apenas ilusões da mente, apegada à ilusão do mundo fenomênico. Se despertarmos da ilusão dos sentidos para a realidade maravilhosa do Mundo Verdadeiro, isto é, o Reino de Deus, veremos que tudo que realmente existe é perfeição e plenitude. Assim, não precisamos 'buscar' absolutamente nada. Tudo já é perfeito e divino do jeito que é. O mal, a dor, o sofrimento, as injustiças... Tudo isso não existe realmente. A Verdade é uma só, e a Verdade apenas É. Em última análise, portanto, não é preciso buscar explicações para o mal e o sofrimento, porque essas coisas simplesmente não existem”.

Embora eu tenha combatido essa visão das coisas por aqui, por mais contraditório que possa parecer, num nível profundamente íntimo e inexplicável, eu sempre acreditei nisso tudo. Difícil entender? Bem, eu sempre acreditei no Reino de Deus como uma Realidade separada do nosso mundo ordinário; obviamente sempre acreditei que nessa realidade não existem o mal e o sofrimento, e que essa realidade, mesmo separada deste mundo de dores, deve ser vivida , imediatamente, a partir daqui e de agora.

Mas de modo algum eu poderia dizer que ‘o mal não existe’ num sentido absoluto, porque o mal é evidente na realidade que me cerca, a realidade em que eu vivo, e que para todos os efeitos é a única em que posso concretizar meu existir e meus ideais. Se estou neste mundo, partilhando desta realidade palpável e visível, dura e cruel, junto com toda a humanidade, e é somente aqui que posso interagir com o meu próximo, não posso simplesmente fechar meus olhos e tentar me convencer de que 'nada disto é real'. Nesta realidade, o mal e o sofrimento são muito reais, evidentes, estão bem diante dos meus olhos a cada momento, e é nesta realidade que eu vivo.

Olho para baixo e vejo que o teclado do meu computador está sujo. Meu filho derrubou sorvete nas teclas, e as letras ‘R’, e ‘T’ estão grudentas. Outras teclas por onde os dedinhos dele deslizaram também estão manchadas. Percebo que vou ter que desmontar este teclado para limpar. Também o monitor do meu computador não está bom. Tem alguns anos de uso e começa a apresentar defeitos: a imagem treme e há variação de cores, o que atrapalha a visualização. Além disso, por algum desses motivos que técnico algum consegue explicar, a navegação na internet anda bastante lenta nestes últimos dias, o que dificulta o meu trabalho. Penso que num mundo divino, perfeito e maravilhoso, tais dificuldades não existiriam. Mas eu vejo o meu próximo sofrendo, todos os dias, e não posso e não quero me tornar insensível a esse sofrimento, pois vejo a mim próprio (e a Deus) nos meus próximos. Se tornou um clichê dizer que “somos todos um”, mas até que ponto estamos conscientes (nós, humanidade) do significado profundo dessa afirmação?

Então, percebam que não basta dizer que ‘o mal não existe’ para os que despertam da armadilha das ilusões, porque a imensa maioria de nós simplesmente não compartilha dessa percepção. Para bilhões de seres humanos ao redor deste planeta, o mal e o sofrimento não só existem como representam a única realidade que conhecem. Há algum tempo recebi um email com um filminho em slides que mostrava cenas pavorosas da fome nos países pobres da África. Havia cenas extremamente terríveis daquelas crianças famintas, com ossos visíveis por baixo da pele e moscas nos olhos. Os slides se sucediam, mostrando populações inteiras de gente faminta. Gente sem nenhum futuro. Imagens de miséria extrema, que a alguns comovem e a outros revoltam. A miséria pelo mundo, seja em Uganda, no Haiti, no sul da Ásia, no Ceará, na Índia ou em Bogotá, é massacrante. Ao final do festival de horrores daquele filme, a legenda concluía afirmando que todos nós deveríamos nos sentir muito gratos a Deus por termos o que comer, o que beber, o que vestir, quando há tantos miseráveis no mundo. Curioso, mas ver esse tipo de coisa causa um efeito completamente oposto em mim. Ver aquelas atrocidades tão cruamente expostas é uma experiência que me deixa totalmente arrasado, me afasta de Deus, me faz rever minhas certezas, questionar minhas posturas, perguntar "por que, por que, por que, por que, por que, por que..."





Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Resolver, entendem? Extinguir. Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta. Não sei como calcularam este número, mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo. Com 120 bilhões, o mundo seria um lugar socialmente justo. Não houve, no entanto, passeata, discurso político, filosófico ou foto artística (fotos de gente morrendo de fome ganham prêmios em museus, como obras de arte) que sensibilizasse os grandes líderes do mundo. Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão humanitária que resolvesse. Mas no prazo corrido de uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram 'da cartola' 2,2 TRILHÕES de dólares para “salvar” de prejuízos comerciais com a queda da Bolsa uma elite de ricos empresários e investidores que com certeza já estavam de barriga bem cheia.




A foto acima ficou famosa no mundo inteiro há alguns anos. Foi tirada por um repórter de campo norte-americano no Sudão. Ele retratou, de passagem, um garotinho que literalmente morria de fome tentando rastejar até um posto de assistência da ONU, instalado algumas centenas de metros adiante dali. Ao lado, um urubu espera até que a refeição pare de se mover. Lembrei que os urubus nem sempre esperam a vítima morrer para começar a bicar. Basta que pare de oferecer resistência. Será que alguém poderia dizer a este menininho que o sofrimento simplesmente não existe?

Ainda que considerássemos que o mal e o sofrimento não possuam existência verdadeira, que apenas façam parte de um mundo de ilusões, ainda assim seríamos forçados a admitir que o mal e o sofrimento existem, efetivamente, para bilhões de seres humanos (e animais) ao redor deste planeta, que ainda não 'despertaram' para o mundo perfeito real. O mal e o sofrimento, portanto, existem, são reais, para bilhões de pessoas. Conclusão inexorável: o mal e o sofrimento são reais. Terrivelmente reais.




Crianças suplicam pela vida nas ruas de Uganda. Outras imagens de agências internacionais mostram crianças com os rostos enfiados nos ânus de vacas, numa busca desesperada por qualquer fonte de nutrientes.


Criança morre de fome em via pública durante a II Grande Guerra, sob os pés de transeuntes preocupados demais com seus próprios problemas para ajudar.


Crianças vítimas de "experiências" genéticas nazistas em Auschwitz. A segunda menina sentada, da esquerda para a direita, apresenta extensas queimaduras por todo o corpo, provavelmente provocadas por testes químicos.


O sofrimento dessas crianças é real? Ou a culpa é delas mesmas, por não terem 'despertado' do sonho de ilusões que é esta vida? Mas, ainda que seja este o caso, de onde vieram estas ilusões, que nos desconectam do Mundo Real, do Reino de Deus, do Paraíso perfeito, para sermos submetidos a coisas assim tão horríveis? Por que uma criança precisa sofrer tanto? Crianças também nascem com defeitos congênitos todos os dias, e antes que alguém diga que isso é consequência de algum processo reencarnatório, lembrem-se que animais também nascem com defeitos congênitos, e até plantas nascem defeituosas. Basta olhar de perto para ver que vivemos num mundo imperfeito, cruel e injusto. É simples assim. O que poderia justificar isso? Por que existem pessoas com problemas mentais? Seres humanos mentalmente incapazes, estão sendo submetido a maus tratos, neste exato momento. Como um Deus bom pode permitir tal estado de coisas?

Ronald Nash, reconhecido autor e professor de Teologia e Filosofia no Reformed Theological Seminary de Orlando, Flórida, escreveu que “o mais sério desafio ao teísmo foi, é e continuará sendo a questão da existência do mal”. [1]

Thomas B. Warren consagrado autor de obras teológicas, acredita “não haver acusação mais freqüente e poderosa ao teísmo (...) do que as complicações decorrentes da existência do mal”. [2]

David Elson Trueblood, autor e filósofo, chega a sustentar que "o obstáculo representado pela existência do mal e do sofrimento no mundo é uma forte evidência em favor do ateísmo”. [3]


Eu poderia acrescentar centenas de citações a respeito deste assunto, sempre com as mesmas conclusões. Mas talvez nenhuma seria tão impactante quanto as declarações dos próprios autores bíblicos, - que também não fugiram do tema relação entre Deus e o mal. - O Profeta Habacuque queixou-se diretamente a Deus:

“Por que olhas para os que procedem traiçoeiramente e te calas enquanto o ímpio destrói aquele que é mais justo do que ele?” (Habacuque 1,13)


Gideão, o quinto Juiz e Libertador do povo de Israel, perguntou:

“Oh, Senhor meu! Se o Senhor é conosco, por que todo este sofrimento nos sobreveio?” (Juízes 6,13).


De acordo com a Bíblia é Deus, Onipotente e Bom, que decreta, - desde toda a Eternidade, - tudo o que acontece neste e em todos os mundos. A Bíblia declara que "não cai uma folha da árvore sem a permissão do Criador". É Deus que, soberana e providencialmente, controla todas as coisas. E é assim que a nossa pergunta se torna mais e mais insuportável: como se pode crer num Deus bom, um Deus que é Amor, e ao mesmo tempo admitir o mal no mundo? Como justificar as ações de Deus como causa de todo o imenso mal e sofrimento que vemos?

Ao longo da História filósofos, sábios, andarilhos e santos, místicos ou não, lutaram bravamente e nos deixaram diversas tentativas de resposta para a pergunta das perguntas, mas a verdade mais pura é que nenhum deles, - nenhum sequer, - foi bem sucedido na tarefa de nos dar uma solução que ao menos chegasse perto de ser considerada satisfatória. Vamos aprofundar esta pergunta sem resposta e sem sentido. Estou falando de ir fundo nessa viagem, por mais que doa. Um lembrete: enquanto a conclusão não chega, lembrem-se de nunca sentir medo de encontrar a Verdade.


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Notas:

1 - NASH, Ronald H. Faith and Reason, Nova York: Zondervan, 1988, p. 177.
2 - WARREN, Thomas B. Have Atheists Proved There is No God? Nova York: Gospel Advocate Co., 1972, cap. VII.
3 - TRUEBLOOD, David Elson. Philosophy of Religion, New York: Harper and Row Publishers, 1975, p. 231.




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