Em busca da Libertação Final - 3

A eterna Busca pela Verdade

Toda criança implora por respostas. Toda criança espera um pouco de bom senso. - Dos pais, dos professores, da sociedade que a cerca... - Nós já nascemos buscadores, já chegamos a este mundo com a semente do questionamento dentro de nós, e toda criança é sábia, é uma buscadora desejosa de conhecer a Verdade. Mas toda criança, nesse sentido, é solenemente ignorada...


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Porque os pais, os professores e a sociedade, muitas vezes, simplesmente não têm as respostas que essa criança procura! Eles desistiram, se decepcionaram, não conseguiram entender as coisas profundas, porque foram também ignorados quando eram crianças e fizeram as mesmas perguntas, e, assim, simplesmente deixaram de se importar... Quando uma criança faz uma pergunta profunda, a maioria enrola, despista, deixa pra lá, ou então dá uma 'resposta-padrão' totalmente insatisfatória. E assim, já crescemos desamparados, sendo ensinados a nos conformar, a deixar pra lá, a viver o tangível, o visível, o imediato...

Os gaúchos tem uma espécie de ditado, uma resposta-padrão engraçada, que repetem sempre que alguém manda uma pergunta transcendental. Eles dizem: "Vai criar bicho que dê leite, tchê!" - Quer dizer, você deve parar de perder tempo com essas coisas que não vão te trazer nenhum benefício concreto e ir cuidar da vida, garantir o seu sustento; talvez procurar uma "prenda", isto é, um(a) namorado(a), e se aquietar. Você deve apenas parar de pensar e dar continuidade ao ciclo natural da vida...

O problema é que, para alguns, 'cuidar da vida' é exatamente o oposto de viver a vidinha ordinária e comum do cotidiano, sem pensar em nada que vá além das questões do trabalho, do dinheiro, da família, da partida de futebol do próximo domingo... Eles esperam mais do que apenas estudar, trabalhar, casar e ter filhos; e depois se preparar para deixar algum conforto à sua prole, a próxima geração, antes de morrer. Alguns de nós imaginam e querem buscar uma vida menos animalesca e sem sentido do que o eterno nascer, crescer, reproduzir e morrer... Isso é possível? Existe, de verdade, algo além do visível, do palpável?

Certas evidências parecem apontar para uma resposta positiva, mas todo buscador sincero sabe que a coisa é bem mais complicada do que parece... Os 'por quês' não param de surgir, e sempre que você encontra uma resposta, tantas outras perguntas maiores e mais difíceis vão surgindo no seu lugar... Será que essa busca angustiante um dia terá fim?

Viver não pode ser só isso. A vida tem que ter algo mais, é preciso que exista um significado mais importante do que apenas nos mantermos vivos, como na teoria do "gene egoísta" proposta por Dawkins. Existem sinais claros, existem fenômenos muito especiais acontecendo agora (eles sempre aconteceram) que nos fazem admitir a possibilidade real e concreta da existência de realidades extrafísicas que interagem com esta nossa realidade comum e frustrante. Mas as soluções não se apresentam assim tão simplesmente. As respostas trazidas pelas religiões parecem contrariar toda a lógica, todo o nosso sentido de bom senso, e existem milhares de perguntas nunca satisfatoriamente respondidas:

Se aquilo que chamamos espiritualidade realmente existe, porque é tão difícil interagir com esta realidade, entendê-la, comprová-la, experimentá-la?

Se Deus existe, se há um Ser Criador e Todo-Poderoso, que a tudo rege e controla, e se esse Deus é bom, porque Ele simplesmente não se manifesta a todos?

Por que esse Deus Bom e Perfeito não nos cura, não nos livra da miséria, da velhice, da morte, das moléstias, das injustiças?

Por que precisamos passar por esse mundo frio, repleto de crueldade e injustiças, se Deus poderia nos ter criado já perfeitos e aptos a viver numa realidade mais plena?

Por que Deus espera que O busquemos, se Ele, sendo Onisciente, sabe que nem todos somos capazes disso? Por certo há pessoas que sofrem por sua própria ignorância: são elas as culpadas por serem ignorantes? Hoje sabemos que existem diferentes níveis de capacidade intelectual entre diferentes seres humanos. Alguns não aprendem, não entendem, simplesmente por não serem capazes disso. Como explicar que Deus tenha criado pessoas assim, para depois exigir delas que façam o que Ele próprio sabe que não são capazes?




Continua...



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Ode ao rei da música e da dança


'Will You be There?'




Hold me
Like the River Jordan
And I will then say to thee
You are my friend

Carry me
Like you are my brother
Love me like a mother
Will you be there?

When weary
Tell me will you hold me
When wrong, will you scold me
When lost will you find me?

But they told me
A man should be faithful
And walk when not able
And fight till the end
But I'm only human

Everyone's taking control of me
Seems that the world's got a role for me
I'm so confused will you show to me
You'll be there for me
And care enough to bear me

(Hold me)
Hold me
(Lay your head lowly)
Lowly
(Softly then boldly)
Yeah
(Carry me there)
I'm only a human

(Lead me)
Hold me
(Love me and feed me)
Yeah, yeah
(Kiss me and free me)
Yeah
(I will feel blessed)
I'm only a human

(Carry)
Carry
(Carry me boldly)
Carry
(Lift me up slowly)
Yeah
(Carry me there)
I'm only a human

(Save me)
Lead me
(Heal me and bathe me)
Lift me up, lift me up
(Softly you'll say to me)
(I will be there)
I'll be there

(Lift me)
Hold me, yeah
(Lift me up slowly)
(Carry me boldly)
Yeah
(Show me you care)
I'll be there

(Hold me)
(Lay your head lowly)
I get lonely sometimes
(Softly then boldly)
I get lonely, yeah, yeah
(Carry me there)
Carry me there

(Need me)
(Love me and feed me)
Lift me up, hold me up
(Kiss me and free me)
Lift me up sometime, up sometime
(I will feel blessed)
Yeah

In our darkest hour
In my deepest despair
Will you still care?
Will you be there?
In my trials and my tribulations
Through our doubts and frustrations
In my violence
In my turbulence
Through my fear and my confessions
In my anguish and my pain
Through my joy and my sorrow
In the promise of another tomorrow
I'll never let you part
For you're always in my heart



Tradução:

Você estará lá?
Composição: Michael Jackson

Me abrace
Como o Rio Jordão
E então eu lhe direi
Você é meu amigo

Leve-me
Como se você fosse meu irmão
Me ame como uma mãe
Você estará lá?

Quando cansado
Me diga se você vai me segurar
Quando errado você vai me dirigir
Quando perdido você vai em achar?

Mas eles me dizem
Um homem deve ter fé
E seguir mesmo quando não dá
Mas eu só um humano!

Todo mundo quer me controlar
Parece que o mundo
Tem um papel para mim
Estou tão confuso!
Você estará lá para mim
E se importar o suficiente para me suportar?

(Me abrace)
(Encoste sua cabeça devagar)
(Suave e corajosamente)
(Me leve até lá)

(Me guie)
(Me ame e me alimente)
(Me beije e me liberte)
(Me sentirei abençoado)

(Me leve)
(Me leve com coragem)
(Me levante devagar)
(Me leve até lá)

(Me salve)
(Me cure e me lave)
(Suavemente me diga)
(Eu estarei lá)

(Me levante)
(Me levante devagar)
(Me leve corajosamente)
(Me mostre que você se importa)

No nosso momento mais sombrio
No meu pior desespero
Você ainda vai se importar?
Você estará lá?
Nas minhas provações
E minhas tribulações
Pelas minhas dúvidas
E frustrações
Na minha violência
Na minha turbulência
Pelo meu medo
E minhas confissões
Na minha angústia e minha dor
Pela minha alegria e minha culpa
Na promessa de um
Outro amanhã
Nunca deixarei você partir
Pois você está no meu coração para sempre.


Descanse em paz, pequeno rei da música



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Gato salva a vida de seu dono

Aviso: eu não procuro esse tipo de postagem; aliás, tenho a impressão de que essas notícias é que me procuram. A continuar assim, vou ser obrigado a criar uma categoria só para postagens sobre gatos, por aqui. Essa foi mais uma notícia à qual eu não pude resistir. Veja porquê:


Lionel (de óculos) e Tiger...


Folha Online (em 02/2009)

Lionel Adams, 59 anos, deve sua vida a Tiger, seu gato de estimação de oito anos de idade. O felino não o salvou de nenhum perigo externo. Segundo seu dono, Tiger detectou um câncer que surgiu em seu pulmão, do qual ele próprio nem sequer desconfiava. Se não fossem os insistentes alertas do animal, ele poderia ter morrido.

Adams mora na cidade de Calgary, Canadá. O jornal Calgary Sun foi o primeiro grande veículo de mídia a divulgar a incrível notícia: Tiger, o gato, começou a passar insistentemente sua pata no lado esquerdo do tronco de Adams. Mesmo quanto retirado, ele insistia em subir ao colo de seu dono e arranhar o mesmo local. Intrigado, Adams foi procurar um médico, que descobriu o tumor maligno por meio de um exame de raio-x, no local exato onde Tiger estivera insistindo em sinalizar!


A incrível história de Lionel Adams e seu gato, Tiger,
virou notícia internacional
amplamente divulgada...


O homem passou por uma cirurgia para a retirada do tumor e se recupera bem. "Tiger subia na cama e tentava arranhar o lado esquerdo do meu corpo. Ele estava certo de que havia algo errado", declarou Adams ao jornal. "E era bem ali que o câncer estava!"...

Apesar de outros problemas como enfisema e bronquite, o homem nunca havia apresentado nenhum sintoma de câncer de pulmão. Porém, sete meses antes da cirurgia, numa conversa despreocupada ele relatou o curioso comportamento de Tiger ao médico da família. Acabou sendo encaminhado a um especialista, que diagnosticou com câncer ainda em estágio inicial. - Esse médico devia ser meio místico...

"Posso dizer que Tiger é meu herói", diz Adams, não sem razão.



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Hoje é dia de São João Batista


João Batista Jovem - pintura de William Adolphe Bouguereau


Mateus
3,1: E naqueles dias, apareceu João, o Batista...

Mateus
11,11: Jesus Cristo fala:
"Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não apareceu alguém maior do que João Batista."

Mateus
14,1-2: Por aquela mesma época, o tetrarca Herodes ouviu falar de Jesus. E disse aos seus criados: "Este é João o Batista! Ressuscitou dos mortos; é por isso que essas maravilhas operam nele."

Mateus
16,13-14: Chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: "Quem dizem os homens ser o Filho do homem?" E eles disseram: "Uns, que é João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas."

Mateus
17,13: Jesus Cristo fala: "Digo-vos, porém, que Elias já veio, e não o reconheceram; mas fizeram com ele tudo o que quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer às mãos deles". Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista.

Marcos
1,4: Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para a remissão dos pecados.

Marcos
6,24-25: E, saindo ela, perguntou a sua mãe, Herodíades: "Que pedirei?" E ela respondeu: "A cabeça de João Batista". E, entrando logo, apressadamente, pediu ao rei, dizendo: "Quero que imediatamente me dês, num prato, a cabeça de João o Batista".

Lucas
7,20: E, quando aqueles homens chegaram junto de Jesus, disseram a ele: "João, o Batista, enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?"

João
1,15-18: João falou dele, Jesus, e clamou, dizendo:

"Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim É antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e Graça por Graça. Porque a lei foi dada por Moisés; mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou."

João
1,22-23: Disseram pois a João Batista: "Quem és? para que demos resposta àqueles que nos enviaram; que dizes de ti mesmo?"

E João disse: "Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor!.."

João
1,25-28: E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: "Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?"

João respondeu-lhes, dizendo: "Eu batizo com água; mas no meio de vós já está um a quem vós não conheceis. Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca".


Estas coisas aconteceram em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.

João
1,35-38: No dia seguinte João estava outra vez ali, junto a dois dos seus discípulos; e, vendo passar a Jesus, disse:

"Eis o Cordeiro de Deus. Eis aquele que tira o pecado do mundo."

Seus dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus.

E Jesus, voltando-se e vendo que eles o seguiam, disse-lhes: "Que buscais?" E eles disseram: "Mestre, onde moras?"



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Mito, Filosofia Perene, logos e evolução

vimos que os seres humanos sempre foram criadores de mitos. Arqueólogos escavaram túmulos do homem de Neandertal que continham armas, ferramentas e ossadas de animais sacrificados. Isso sugere a crença num mundo futuro similar àquele em que viviam. Esses mitos, cujo significado está inscrito nos túmulos dos neandertais, retém aspectos muito importantes: os túmulos dos homens de Neandertal nos revelam cinco aspectos básicos do mito:

Primeiro, ele se baseia sempre na experiência da morte e no medo da extinção.

Segundo, os ossos de animais indicam que o sepultamento foi acompanhado de um sacrifício. A mitologia em geral é inseparável do ritual. Muitos mitos não fazem sentido separados de uma representação litúrgica que lhes dá a vida, sendo incompreensíveis num cenário profano.

Terceiro, o mito dos Neandertais foi invocado ao lado de um túmulo, no limite da vida humana.

Quarto, o mito não é uma história que nos contam por contar. Ele nos mostra como devemos nos comportar.

Quinto, toda a mitologia fala de um outro plano, que existe paralelamente ao nosso mundo, e em certo sentido o ampara. A crença nessa realidade invisível, porém mais poderosa que a nossa, por vezes chamada de 'mundo dos deuses', é um tema básico da mitologia. A estruturação mental de um grupo, baseada nesse sistema de crenças, tem sido chamada de ‘Filosofia Perene’, pois alimentou a organização mitológica, social e ritual de todas as sociedades até o advento da modernidade científica, e ainda continua a influenciar todas as sociedades humanas da atualidade.

Melhor dizendo, apenas pela participação na realidade divina os frágeis homens mortais podem realizar inteiramente seu potencial. Infelizmente, atualmente à palavra 'mito' é sempre associada a uma convenção negativa ('mito' sendo equiparado a 'mentira'), quando o correto é que o mito só é eficaz quando verdadeiro ou quando representa aspectos fundamentais da verdade. Um mito, portanto, é verdadeiro por ser eficaz, correspondente à verdade e/ou símbolo da verdade, e não por fornecer, necessariamente, dados factuais. Contudo, se não permitir uma nova visão do significado mais profundo da vida, o mito fracassa. Se funciona, ou seja, se nos força a mudar nossos orações e mentes, nos dá novas esperanças e nos impele a viver de modo mais completo, é um mito válido.

O período em que a humanidade criou seus primeiros mitos foi o paleolítico (de 20.000 a 80.000 aC), no qual foi completada a evolução biológica da raça humana. Ainda não havia a agricultura e os povos eram coletores/caçadores, que julgavam que qualquer coisa, por mais inferior que fosse, seria capaz de personificar o Sagrado, ao qual desejavam se unir completamente. Algo difícil para os modernos, para quem um símbolo está essencialmente separado da realidade invisível para a qual chama nossa atenção. O termo grego ‘symballein’, no entanto, significa ‘colocar junto’: dois objetos até então distintos se tornam inseparáveis.

Essas primeiras mitologias ensinaram as pessoas a enxergar algo além, uma realidade invisível descrita nos termos do que se convencionou chamar 'Filosofia Perene'. Os mitos mais primitivos estavam associados ao céu, que dava aos homens uma noção do divino, do remoto, a realidade superior, separada da insignificância de suas vidas. A maior parte dos panteões daquele período contava com a sua própria versão de 'Deus do Céu', que ainda é encontrado, até hoje, entre os pigmeus australianos e os pigmeus da Terra do Fogo, jamais representado por imagens e dispensando sacerdotes. Era um Deus sempre ausente das decisões diárias das pessoas, e por isso 'fracassou' relativamente, ao não cumprir todos os quesitos para o sucesso do mito (na Mesopotâmia, novos deuses como Enlil e Baal se impuseram, e na Grécia, Uranos, o Céu, foi castrado pelo filho Cronos).

Já nesta longínqua Era, paralelamente ao desenvolvimento do mito irracional, os coletores/caçadores formaram o embrião da idéia do logos, que viria a assumir importância capital milênios depois. Os seres humanos superaram suas desvantagens físicas desenvolvendo o raciocínio e o cérebro e, mesmo nesse estágio inicial, o homo sapiens já desenvolvia o que os gregos chamariam de logos, o modo de pensar lógico, pragmático e científico que lhe permitiria atuar com sucesso no mundo. Ou seja: desde o princípio, o homo sapiens compreendeu instintivamente que o mito e o logos tinham tarefas diferentes a desempenhar, mas que ambas eram necessárias . Usou o logos para aprimorar equipamentos, e o mito, com seus consequentes rituais, para se reconciliar com os fatos trágicos da vida que ameaçavam sufocá-lo e o impediam de agir com eficiência.


Quem não é o maior, nem o mais forte e nem mais rápido,
tem que ser muito melhor com o cérebro!


Com o período neolítico e a inovação da agricultura (8.000 a 4.000 aC), mudou o foco principal do mito. Não obstante tenha resultado do logos, ao contrário do que seria de se esperar, assim como parece ocorrer hoje, as grandes revoluções tecnológicas (nos métodos de cultivo da terra) levaram a uma maior consciência espiritual, e os seres humanos tornaram-se tão sacramentais quanto os dos períodos anteriores.

A colheita era uma epifania, uma demonstração da Energia Divina, e quando os agricultores cultivavam a terra e produziam comida para a comunidade, sentiam que haviam penetrado no Reino Sagrado e participado de sua milagrosa abundância. A terra sustentava todas as criaturas – plantas, animais e humanos – como se fosse um útero vivo.

Nesse contexto, os rituais visavam a abastecer a força da natureza, evitando que se exaurisse. Mesmo a sexualidade humana chegou a ser considerada similar à energia de origem divina que proporcionava frutos à terra, e as pessoas eram vistas como pertencentes a ela. Assim como no paleolítico o Céu era venerado e personificado como 'Deus Céu', no neolítico a terra nutriz e maternal se tornou a Deusa Mãe.

Com o advento das primeiras civilizações, entre 4.000 a 800 aC, mais uma vez a visão do divino iria se alterar, agora com outra novidade: a invenção da cidade. As primeiras cidades surgiram na Mesopotâmia; depois no Egito, em seguida na China, depois na Índia e em Creta. O ritmo da mudança se acelerava e a sequência lógica de causa e efeito era mais evidente para as pessoas. O homem finalmente tinha uma sensação de domínio do ambiente, e mitos como o da Torre de Babel (que muito provavelmente se referia ao grande Zigurate da Babilônia) bem ilustram o quão arrogantes aquelas nações se tornaram em sua nova condição.

Assim como seus ancestrais haviam considerado a caça e a agricultura atividades sacramentais e sagradas, os primeiros urbanos viam suas conquistas culturais como essencialmente divinas. Na Mesopotâmia, os deuses haviam ensinado aos homens construir os zigurates, e Enki, deus da sabedoria, era patrono dos coureiros, ferreiros, barbeiros, pedreiros, oleiros, técnicos em irrigação, médicos, músicos e escritores. Eles compartilhavam a criatividade divina dos deuses, que haviam levado ordem para onde, antes, só havia a confusão e o caos.

Permanecia a adesão dos cidadãos à Filosofia Perene, e aquelas sociedades conservavam a crença de que tudo o que ocorria na Terra era uma réplica da realidade celestial. Assim como sua cultura urbana evoluíra a partir de diminutas comunidades agrícolas, os deuses haviam atravessado uma evolução análoga, concepção que penetra a fundo os mitos da criação babilônicos descritos no 'Enuma Elish' (segundo milênio AC), cuja teogonia mostra como a partir de Apsu, o rio, Tiamat, o mar e Mummu, a nuvem opaca, surgiram os outros deuses, aos pares.

O mito examina o processo humano de mudança, que reproduz o desenvolvimento dos deuses. Ele reflete a evolução da cidade-Estado Mesopotâmia, que havia dado as costas para a sociedade agrária anterior (agora tida como lenta e primitiva) e se estabelecera pela força militar. Segundo o mito, após sua vitória, Marduk fundou a Babilônia. A cidade era chamada ‘Bab-ilani’ ('o portão dos Deuses'), o lugar onde o divino entrava no mundo dos homens. A cidade, portanto, poderia substituir o antigo axis mundi, o modo de pensar segundo o qual o mundo era ligado ao Céu, na Idade do Ouro.

Após o período paleolítico despontou a Era Axial (800 a 200 aC), termo cunhado pelo filósofo Karl Jaspers que designa o desenvolvimento espiritual que caracterizou esse período. São séculos misteriosos, em que nasceram as grandes religiões e filosofias que orientaram e continuam orientando milhões de pessoas durante milênios. Não se sabe porque envolveu chineses, indianos, gregos e judeus, e por que outros povos permaneceram de fora (como a Mesopotâmia e o Egito). O ponto central desta Era consistiu na interpretação de natureza ética e intimista dos velhos mitos: o homem e seu ser adquirem renovada dimensão e o Sagrado volta à sua transcendência original.

As pessoas nos países axiais ainda ansiavam pela transcendência, mas o Sagrado parecia agora mais remoto, estranho até. Um golfo passou a separar os mortais dos deuses. Eles não compartilhavam mais da mesma natureza; não era possível acreditar que os deuses e os homens se originaram da mesma substância divina.

Os primeiros a partir rumo ao 'etos axial' foram os chineses, com a chamada 'Regra de Ouro' ('não fazer aos outros o que queremos que nos façam') tendo sido formulada, pela primeira vez, por Confúcio. No fulcro do novo pensamento axial, via de regra, estava a concepção de que não bastava realizar os rituais, mas adotar um comportamento ético correto. Haviam diferenciações na maneira de vislumbrar a herança do passado, mas entre os mais radicais inimigos dos mitos antigos – os israelitas – brotou a primeira religião essencialmente monoteísta, firmada pelo Segundo Isaías na Babilônia.

Na Grécia, as idéias da Era Axial foram alimentadas pelo logos (razão), estabelecendo-se a Verdade por meio da indagação permanente e da consciência crítica aguçada. Sócrates firma seu método (a maiêutica) e o apelo à dialética contribui para ampliar o fosso entre o racional (o logos) e o imanente, o mito.


Ruínas do zigurate da cidade de Borsipa:
ideia aproximada da construção da Torre de Babel


Após a Era Axial, assumiram posição de destaque – sobretudo no Ocidente – as fés monoteístas, no período chamado de Pós Axial (200 aC a 1500 dC) por autores importantes como Karem Armstrong. Nesse momento, as três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), inspiradas pelos sábios, filósofos e profetas axiais, reivindicavam se basearem na história e não mais no mito. O judaísmo, em particular, possui relação conflituosa e paradoxal com a mitologia de outros povos, às vezes antagonizando-os, outras apropriando-se de histórias estrangeiras para ilustrar sua própria visão. Mas, sem dúvida, inspirou muitos outros mitos. Em todas esta tradições (monoteístas) o mito continuava exercendo seu papel.

Em virtude da dimensão mítica dessas religiões históricas, judeus, cristãos e muçulmanos continuaram a usar a mitologia para explicar suas visões ou reagir a uma crise. Todos os seus místicos recorreram ao mito. As palavras misticismo e mistério se vinculam a um verbo grego que significa ‘fechar os olhos ou a boca’. Ambas se referem a experiências obscuras e indescritíveis, pois estão além da palavra e se relacionam com o mundo interior, em vez do exterior. Como a mitologia oculta essa dimensão interior, profunda, é natural que os místicos descrevam suas experiências em mitos que podem parecer, à primeira vista, inimigos da ortodoxia e sua tradição, o que está especialmente claro na Cabala, a tradição mística judaica.

Mas no século XVI de nossa própria Era, transformações sem precedentes na organização econômica – a revolução mercantil e capitalista – levaram a uma nova configuração das sociedades; primeiramente na Europa Ocidental, e, aos poucos, no resto do mundo. Simultaneamente, ocorreram modificações na estrutura religiosa. Esta modernidade ocidental era filha direta do logos, afirmando o triunfo do espírito científico pragmático e baseando-se na 'eficiência'. Os novos heróis não eram homens de espírito, mas inventores. A sensação de domínio do ambiente era maior e aumentava a percepção da incompatibilidade entre mito e logos. Em suma, o logos científico e o mito se tornavam incompatíveis. Até então a ciência fora praticada dentro de uma mitologia abrangente que explicava sua importância. O matemático francês Blaise Pascal (1623-62), um homem profundamente religioso, enchia-se de horror ao contemplar o ‘silêncio eterno’ do Universo infinito, aberto pela ciência moderna.

Tão brusca separação entre logos e mito é problemática, no entanto. A crença em algo superior e a prática mística auxiliaram homens e mulheres a suportar a dor do mundo e encarar a realidade da extinção com menor desespero. Nosso mundo, sem o mito, não tem sido melhor para todos os povos, ao contrário (como nos países chamados do Terceiro Mundo), e está longe do prometido pelos iluministas do passado. Contrariamente ao previsto, as piores e mais dramáticas degradações da condição humana ocorreram no século XX, e a irracionalidade se revestiu das formas mais sombrias. Por isso, o que nos reservará o futuro? A reconstrução do mito em bases mais sólidas, promovendo sua reconciliação com o logos? Só podemos aguardar para ver.


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Fonte:
ARMSTRONG, Karen. Breve História do Mito, São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



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Discutindo o significado de autoestima

Olha eu ali no canto, de pé com o livro na mão...

A primeira coisa que eu faço questão de esclarecer é que não tenho formação em psicologia. Não estou abalizado e nem autorizado a explicar os seus conceitos e princípios. Tenho, porém, duas ótimas amigas psicólogas e psicoterapeutas, sendo que ambas dirigem um grupo de terapia comunitária do qual participei, e uma delas é também psiquiatra e diretora da 'Clínica Bresser', à rua Ipanema, 434, na Mooca, São Paulo (ela merece a publicidade gratuita). Esta última se encontra em vias de entrar, junto comigo, num projeto que talvez envolva este blog (assunto para uma outra oportunidade). - Em minha busca, tive uma fase de me interessar, e muito, por psicologia. Do modo como eu vejo, essa ciência da mente tem tudo a ver com as coisas do espírito. - Mas o que nos interessa, neste momento, é avaliar o surpreendente desdobramento do post anterior, uma entrevista com o Dr. Flávio Gikovate a respeito do tema autoestima. Posto que o meu conhecimento em psicologia vem daquilo que aprendi nos livros, como autodidata, da assessoria das citadas amigas e das terapias que fiz ao longo da minha vida, passemos à nossa análise...

Os meus queridos leitores e já 'antigos' participantes deste blog, nicknames 'Cris' e 'Mizi' (Ad Infinitum), trouxeram alguns questionamentos bastante fortes e até radicais às declarações do Dr. Gikovate: Cris falou em "salada de conceitos", e Mizi chegou a usar palavras como cilada, forçado, superficial... Outros participantes, inclusive eu próprio, não concordamos e replicamos, mas os dois responderam e a conversa cresceu. Achei isso bastante curioso: na minha cabeça, o que foi dito naquela postagem foi tão claro, simples e direto que eu nunca poderia imaginar que poderia gerar qualquer polêmica. Mas, bem, como todos sabem, o meu sobrenome é questionamento: gosto de questionamentos e sempre achei que é por meio deles que crescemos, evoluímos, saímos do lugar comum e chegamos cada vez mais perto da Verdade. Sendo assim, lá vamos nós:

Ao meu ver, o que aconteceu foi uma confusão de conceitos, e as argumentações trazidas estão completamente desvinculadas daquilo que foi dito no post. Vamos analisar juntos essas argumentações, por partes.


Mizi diz: "...o texto da entrevista ficou confuso justamente por misturar esses conceitos, como se a causa do egoísmo e do ciúme fosse a baixa autoestima, o que nem sempre é verdade. Se pessoas com boa autoestima não são egoístas, então pessoas com baixa autoestima são egoístas, sim? É isso que o texto diz. E é isso que ficou confuso. Afinal, onde é que existe essa relação entre egoísmo e autoestima? (...) 'A baixa autoestima torna as pessoas ciumentas e dominadoras' (...) Ele usou a palavra determinista 'torna', excluindo outras possibilidades. Então, não ficaria melhor a locução 'pode tornar'?"


É importante notar que o texto não afirma que a baixa autoestima é a única e exclusiva causa do egoísmo e do ciúme. Ele diz apenas que baixa autoestima gera egoísmo e ciúme. - O que é a mais pura verdade. - Vejam bem que essa conclusão está partindo de um reconhecido pesquisador da psique humana, que já tratou mais de 7 mil pacientes e que tem 'apenas' 38 anos de carreira. Creio que não há nenhuma dúvida quanto ao fato de que o egoísta e o ciumento são, antes de tudo, pessoas que não gostam de si mesmas. O indivíduo que se ama e 'se garante' dificilmente será uma pessoa ciumenta; ao menos não será ciumento além da medida do saudável. Acho que, até aí, ninguém discorda.

Segundo ponto: o texto nunca disse que todas as pessoas que sofrem de baixa autoetima são egoístas. - Dizer que "a baixa autoestima torna as pessoas ciumentas e dominadoras" não é o mesmo que dizer que sempre, em todos os casos, isso acontece. Por exemplo, se eu disser que beber cachaça provoca cirrose alcoólica, não estou com isso dizendo que todo aquele que consome cachaça será vítima de cirrose, certo? Se eu disser que o cigarro gera dependência psicológica, isso não é a mesma coisa que dizer que todos os que puserem um cigarro na boca se tornarão psicologicamente dependentes. Da mesma maneira, poderíamos citar milhares de exemplos, mas é sempre o mesmo caso. Em afirmações como essas, fica subentendido que se está referindo a um resultado potencial, não absoluto. A obviedade pressupõe que não há necessidade da explicação detalhada.


Continua: "Pessoas com boa autoestima tb se descontrolam, podem ser agressivas e tb sentem ciúmes, podem ser egocêntricas e egoístas."


A mesma relação inexistente. Podemos ler e reler o texto várias vezes: ele não contém nenhuma afirmação no sentido de que pessoas com boa autoestima são perfeitas, que nunca erram, que jamais sentem ciúmes e/ou não podem ser egocêntricas/egoístas. O que ele faz subentender é que um indivíduo que tem boa autoestima dificilmente será ciumento ou egocêntrico. E a razão é muito simples: quando eu estou feliz comigo mesmo, quando eu gosto e acredito em mim, tenho muito mais segurança para poder conviver bem com o meu próximo. Simples assim!


Continua: "Aliás, muito mais provável uma pessoa cheia de si mesmo se tornar insensível ao outro do que o contrário. A entrevista ficou muito crua. Se ter boa autoestima não significa ser egoísta, então é o contrário do que ele está afirmando, olha lá (está em vermelho). Não fui que disse isso. Está no texto. Eu não estou afirmando isso ou aquilo."


Aqui ficou claríssima a confusão: alguém "cheio de si mesmo" não tem absolutamente nada a ver com alguém que tem uma boa autoestima! Percebo nitidamente que está se confundindo egoísmo, soberba, prepotência e arrogância com autoestima. São sentimentos completamente diferentes, eu diria até antagônicos. Mesmo o mais humilde dos homens, o servidor de todos, precisa de autoestima, isto é, precisa gostar de si, precisa acreditar que está fazendo o certo, o melhor que pode, que é digno. Se não for assim, haverão problemas psicológicos graves.


Continua: "Não tenho a palavra autoestima como sinônima de confiança em si mesmo, mas sim como sentimento de 'rejeição' ou 'ostracismo' por parte da sociedade."


Nesse caso, vou falar do modo mais direto possível (como convém aos amigos e como espero ser tratado também): você está completamente enganado! O seu conceito de autoestima, - isto é, aquilo que você chama de autoestima, - não é o que a psicologia chama de autoestima. Aí, você pode até dizer: "dane-se a psicologia!", e eu diria que tudo bem, é seu direito descartar o que é aceito 'oficialmente' e criar os seus próprios conceitos para as coisas. Mas veja, isso seria o mesmo que começar a chamar macaco de banana e vice versa. Um passarinho passa voando sobre a sua cabeça e você diz: "Lá vai um avião!". Alguém que está ao lado retruca: "Não, é um passarinho", e você: "Para mim, a palavra avião tem um outro significado"... Percebe o que estou dizendo? O significado real da palavra autoestima não tem a ver com rejeição ou aceitação pela sociedade. Claro, você pode até dizer que pra você o significado é esse, mas isso seria como chamar o azul de vermelho. O significado real simplesmente não é esse. Só para colocar uma pedra definitiva sobre essa questão, vejamos o que diz o dicionário Michaelis:


"au.to-es.ti.ma (auto+estima): sf A aceitação que o indivíduo tem de si mesmo."


É muito interessante notar que, se apenas esse ponto tão simples ficar claro, todas as dificuldades em entender aquela postagem acabam!


Continua: "Não me sinto infeliz por ter baixa autoestima. Sinto-me chateado e frustrado algumas vezes. Mas nunca fui agressivo, nem ciumento, nem possessivo. Consigo ser exatamente o contrário de tudo isso, mas ainda assim me sinto rejeitado. O que tenho? Baixa ou boa autoestima? É o conceito de egoísmo que vai dizer? Pq se for, eu terei muito boa autoestima. No entanto, esse sentimento de rejeição se chama o que? Boa autoestima?"


Essa parte é bem interessante. Admiro a humildade e a confiança que você, querido e já 'velho' amigo, deposita em mim e nas pessoas que frequentam este blog. Como você está se abrindo e fazendo essas perguntas, vou arriscar um palpite: você, sem dúvida, tem uma baixa autoestima! Qualquer pessoa que dependa de aprovação externa para se sentir bem consigo mesma, demonstra baixa autoestima. E mais uma vez você fala em "egoísmo"... Digo que, para começar a entender (e no caso, se entender), é preciso esquecer, colocar de lado esse conceito de egoísmo. Egoísta é aquele que só pensa em si mesmo, que se acha o centro do Universo, que quer tudo apenas para si sem se preocupar com o bem-estar do próximo. Já autoestima significa simplesmente gostar de si, estar feliz consigo, satisfeito com o que é, com o que recebeu de Deus ou da natureza. De novo, perceba bem como uma coisa não tem nada a ver com a outra.


Continua: "Como posso pensar numa relação comigo mesmo se não penso nos reflexos que isso repercute no outro?"


Você, assim como qualquer pessoa, não só pode como deve buscar e cultivar uma boa relação consigo mesmo, antes de se preocupar com a maneira como isso vai repercutir nas mentes alheias! Isso é egoísmo? Não! Veja, eu sei que você é um cristão devotado, então vou usar um exemplo bem prático: imagine se Jesus e todos os santos se importassem primeiro com o que os outros iriam achar, antes de fazer aquilo que sabiam que era certo. Se tivessem feito isso, o cristianismo não existiria!

São Paulo, inicialmente, foi uma pessoa muito bem quista pela sociedade a que pertencia. Mas depois que ele mudou radicalmente os seus conceitos, tudo se transformou. Ele, como cidadão romano, passou a ser odiado pelos romanos. Como judeu e discípulo destacado do venerado rabino Gamaliel, se tornou odiado pelos judeus. Isso o deteve? Não. E ele mesmo repete, em suas cartas, que se sentia realizado, dá a entender que estava muito feliz consigo mesmo, diz até que "se gloriava" na Cruz de Cristo. Em outras palavras, sua autoestima era ótima, e sabe porque? Ele estava bem com Deus e com ele mesmo. Ele se propôs uma (grande) missão e a cumpriu. Não importava o que a sociedade pensava dele, o que a família pensava, e nem mesmo o que o bispo pensava (literalmente, pois ele brigou até com São Pedro!): ele sabia que estava fazendo o que devia fazer. Ele estava em paz com a sua consciência, ele estava em paz consigo mesmo. - Sua autoestima estava em dia.


Continua: "Mas até agora ninguém me respondeu quem é que é egoísta? Quem tem boa autoestima ou quem tem baixa autoestima?


Como acho que já ficou bem claro, tanto um quanto outro podem ser ou não egoístas, porque uma coisa não está necessariamente atrelada a outra; ao contrário. A entrevista indicou, apenas, que o indivíduo com baixa autoestima tende a se tornar egoísta, o que é um fato mais do que comprovado em consultório. E isso pode representar uma tentativa de compensar um sentimento de inferioridade: você sabia que uma pesquisa (infelizmente não tenho a fonte original - mas saiu no site do Geraldo Freire) demonstrou que a maior parte dos homens proprietários de cães pitbull - e outras raças potencialmente perigosas e/ou que provocam medo - sofrem de algum grau de disfunção erétil ou possuem pênis de tamanho abaixo da média? Isto é, ele tenta compensar o que (acha que) lhe falta em masculinidade carregando uma fera assustadora na coleira. Como você acha que é a autoestima de um cara desses?

Voltando ao ponto, vou dizer mais uma vez, para que fique bem claro: corte essa conexão (inexistente) que você criou entre autoestima e egoísmo, e tudo ficará claro.


Continua: "...há pessoas com baixo autoestima (insegurança) que não são agressivas, são tímidas, possuem valores morais, são felizes, mas que simplesmente se sentem rejeitadas e depressivas por não terem lugar na coletividade (como Jesus)? Pois Jesus dizia: 'os pássaros têm ninhos, as raposas têm suas tocas, mas o Filho do homem não tem onde encostar sua cabeça'. Percebe que Jesus não tinha lugar naquela sociedade e se sentia rejeitado? Mas nem por isso era infeliz ou era agressivo ou ciumento ou possessivo ou deixava de saber se relacionar com o outro. Pois ele se sentia rejeitado, e queria sim ser aceito e reconhecido. É só ler os evangelhos."


Ser verdadeiramente feliz com baixa autoestima me parece impossível. Mais uma vez, fica evidente uma troca de conceitos: associar 'ser aceito' com autoestima. Curiosamente, você usou o mesmo exemplo que eu, só que com base numa interpretação desvinculada do contexto. Você acha que Jesus, por ser rejeitado, tinha baixa autoestima? Ora, eu diria que ele tinha a melhor autoestima de todos os tempos, independente de ser aceito ou não! E, já que se insistiu tanto nessa tecla, acho muito importante esclarecer, também, que raramente alguém será total e completamente rejeitado por todos. Jesus foi rejeitado pelos fariseus, sacerdotes e doutores do seu tempo, mas ele era amado e seguido por multidões, que se acotovelavam para ao menos ter a oportunidade de tocar na orla de suas vestes!

Todo indivíduo que prioriza a Verdade passa por isso. Buda abandonou sua família e seus amigos, se aventurou solitário na floresta, mas logo encontrou muitos e muitos seguidores, discípulos e amigos, inclusive reis e príncipes. O mesmo aconteceu com São Francisco. Quando iniciou a sua vida religiosa, era desprezado como louco, mas depois de algum tempo passou a ser admirado, amado, seguido, e até o Papa lhe beijou os pés! Nossos amigos poderão nos rejeitar por causa das nossas ideias, mas se formos corajosos e fiéis a essas ideias, em breve estaremos cercados de novos (e verdadeiros) amigos. Falo por experiência própria. Então, mais uma vez, não há nenhuma relação entre o conceito de autoestima e a aceitação ou não por parte da sociedade. Qualquer pessoa que se sinta abatida por não ser 'reconhecida' pelos outros, sofre de baixa autoestima.


Continua: "O conceito de 'autoestima' é que ficou muito superficial e não atinge a riqueza espiritual que possui um ser humano. Só isso. Tentar engessar isso vai gerar uma salada. Ou cilada..."


Com toda humildade e carinho, eu diria que aqui se faz necessário um adendo: seria importante especificar que para você o conceito ficou superficial e digno de ser comparado a uma "salada" (sei que quem fez essa relação primeiro foi a Cris) ou "cilada". Para mim, a entrevista foi profunda e muito esclarecedora. Aliás, foi por isso que fiz questão de publicar aqui no a Arte das artes. Achei a explanação reveladora! Outros, como '
Chad Crusemire', 'Fiat Lux', 'J. Laércio Egídio', 'Tato Anderson' e até o cético 'Helder' parecem ter entendido assim, também. Então, talvez seja o caso de parar um pouco e analisar se o texto está realmente confuso, forçado, suicida, superficial (todas expressões usadas nos seus comentários), ou se o seu real significado é que não está sendo captado. - Porque essa é sempre uma possibilidade, para qualquer um de nós. - Digo isso porque acho complicado chegar e já ir classificando alguma coisa assim, com tanta pressa. Mas não me entenda mal: que fique bem claro que eu aprecio os questionamentos e me sinto sempre gratificado quando eles acontecem. Este post é fruto de um questionamento, e como seria chato se todo mundo concordasse com tudo, sempre...


Continua: "...eu acredito que vcs, por serem pessoas com muito boa autoestima, não estejam se preocupando se eu penso ou não diferente de vcs, certo?"


De minha parte, errado! Autoestima não é sinônimo de apatia nem de "tenho a minha verdade e quero que os outros se danem"...




Chega Cris e diz: "Talvez eu tenha uma autoestima baixa, mas mesmo assim acho confuso o conceito, porque não o vejo como um sentimento interior, isolado.


Engraçado como a Cris teve uma impressão parecida com a do Mizi. Cris, se você não vê autoestima como um "sentimento interior", você está vendo errado! Simples assim, porque é exatamente isso que a palavra significa. Trata-se de um sentimento, e todo sentimento humano é algo que só acontece e só existe em nosso interior. Altruísmo, egoísmo, Amor, ódio, compaixão, angústia, serenidade, medo... Qualquer sentimento nosso é nosso, algo interior, e nem haveria como ser diferente. Não consigo entender a dificuldade em ver isso! "Ah, mas o que eu sinto se reflete no outro", você pode dizer. E aí eu respondo: "Claro que sim, porque nós somos seres sociáveis, vivemos em sociedade e, num certo sentido, dependemos um do outro". Mas o seu sentimento nunca deixa de ser só seu. Sempre será assim.

Ter autoestima não é ser apático. Eu amo minha esposa, e o que ela pensa ao meu respeito é importante pra mim. Amo minha família, quero estar bem com todos eles. Mas o que eles pensam ou deixam de pensar ao meu respeito não interfere na minha autoestima. Não quer dizer que não me importo, que não estou nem aí, mas eles não têm o poder de abalar a minha autoestima, que é uma questão só minha. Agora imaginemos que, de repente, pessoas que eu amo briguem comigo, me rejeitem, me excluam do seu convívio. O que vai acontecer comigo? Eu vou ficar arrasado, é claro! Vou me sentir deprimido e triste. Estar triste, porém, não é sinônimo de autoestima baixa.

Para esclarecer melhor: é possível estar de mal com o mundo e manter uma boa autoestima? Essa pergunta, em si mesma, encerra dois aspectos interessantes: primeiro, não existe ninguém que consiga brigar com o mundo inteiro. Cada um de nós acaba encontrando a 'sua turma', principalmente se for honesto e coerente com os seus princípios. Entre os seres humanos, ocorre o contrário que na física: os iguais se atraem, e isso é muito bom.

O segundo aspecto da questão é o seguinte: por um lado, sim, o desprezo e a exclusão radical dos meios sociais poderiam abalar a nossa autoestima. Mas isso, no que se refere ao conceito de autoestima, aconteceria mais pelo inconformismo com a nossa própria incompetência, - por não nos acharmos 'bons o suficiente' para participar daquele grupo (segundo nossos próprios conceitos), - do que propriamente em razão do que nos fazem. Isso me lembra uma história:

Quando eu era um aluno de karatê, conheci um rapazinho que era excluído do grupo dos aprendizes de samurai machões. Isso acontecia porque suas características não pareciam muito compatíveis com as de um guerreiro bushidô: era um garoto um pouco... diferente. Efeminado, pra ser direto. Mas ele gostava de karatê, e eu percebia o quanto tentava se integrar, sendo sempre rejeitado. Eu era muito jovem na época, imaturo e machista, e confesso que também não queria muito papo com esse jovem. Até o dia em que o vi chorando no vestiário, um pouco depois de ter sido alvo de piadinhas maldosas na hora do treino. Nesse exato instante, meu coração amoleceu. - Homem, há vinte anos, não chorava à toa, como hoje. Se você visse um homem chorando, - mesmo um que fosse efeminado, - a coisa era séria. Vê-lo chorar foi chocante; eu me aproximei e quis saber o que havia, pensando em reconfortá-lo, e sabe o que ele respondeu? "Estou com raiva de mim mesmo porque não consigo ser igual a vocês"!

Precisa dizer mais alguma coisa? Este é um exemplo clássico de indivíduo com baixa autoestima. O problema não era a reação do grupo. Na cabeça do rapaz, o problema era ele mesmo. Se, numa outra situação hipotética, ele estivesse chorando de raiva por causa das grosserias, aí não seria uma questão de baixa autoestima, mas apenas de indignação e mágoa, pura e simplesmente. Óbvio que, mesmo tendo uma ótima autoestima, eu posso me sentir magoado, indignado, triste, deprimido... No entanto, segundo a minha assessoria (Clínica Bresser - tel.: 11 2693 8120), é raro que um indivíduo com uma boa autoestima sofra com depressão. Já o contrário é comum e frequente.


Continua: "...essas pessoas que vc menciona, que foram desencorajadas pela família, pela sociedade, mas foram atrás do sonho e se tornaram vencedores (...) elas não deram ouvidos aos desencorajamentos iniciais e foram atrás. Mas são consideradas vencedores pois a própria sociedade as reconheceu como tal, após terem realizado um grande feito. (...) Embora tenha existido um desencorajamento incial, a pessoa bateu o pé e conseguiu o reconhecimento depois. Não interno, mas o aplauso da sociedade. Não um sentimento de 'eu posso', mas chegaram a um resultado concreto que as fez serem consideradas vencedores. O termo 'vencedor' fala por si só. (...) Quando a gente fala que uma pessoa é vencedora, o que vc, Merton, entende por vencedor?"


Essa parte é muito importante, me dá abertura para uma série de esclarecimentos essenciais. Em primeiro lugar, eu gostaria que você me respondesse com o máximo de sinceridade: do que adianta conquistar "o aplauso da sociedade" se você não está bem consigo mesmo(a)? Quantas pessoas conhecemos, em especial artistas, amados e admirados pela sociedade, mas que demonstram possuir péssima autoestima, são completamente infelizes, estão eternamente deprimidos? Quantos se suicidaram no auge da carreira? Quantos tombaram, vítimas de overdoses fatais? Preciso citar nomes? Acho que não. De nada adianta a sociedade aplaudir, de nada adianta o reconhecimento dos outros, se a sua autoestima não está em dia.

Uma outra pergunta: o que é um "resultado concreto" pra você? Ser popular? Ser famoso? Ter um cargo importante numa grande empresa, ganhar muito dinheiro, um bom carro na garagem, uma casa luxuosa?.. Perceba como isso tem a ver com o que eu lhe disse num outro comentário: o seu bem-estar pode não ser uma coisa muito clara para os outros, mas é algo que está sempre muito claro para você mesma! De nada adianta você sorrir o dia inteiro, ser popular, se vestir bem, manter um belo corpo, parecer estar feliz e resolvida... se à noite, sozinha na cama, você tem medo, se sente insegura, frustrada, chora... É só você mesma que sabe quem você é de verdade, a sua real situação. Quando você está bem consigo mesma, sua autoestima está bem.

Um terceiro e importantíssimo ponto: esse conceito do "vencedor" e do "perdedor" foi uma das piores contribuições que os EUA legaram ao mundo! - Não sou antiamericano, longe disso; acho que essa grande nação contribuiu com muita coisa boa para o mundo, incluindo o aperfeiçoamento da democracia e o rock'n roll (=p~), mas essa coisa de classificar e rotular seres humanos entre winners e loosers foi uma verdadeira maldição! Acreditar nesses conceitos infantis é algo muito, mas muito nocivo para a alma humana. Milhares de pessoas se suicidam todos os anos, por causa dessa estupidez tremenda que incutiram nas nossas cabeças. Me 'inclua fora' dessa! Perante o mundo, com certeza sou um perdedor: não tenho casa própria, não tenho um bom emprego, não tenho posses, vivo (muito) simplesmente... Mas sou feliz, estou satisfeito com o que sou e o que faço. Sou um perdedor para o mundo, mas sou um grande e magnífico vencedor para mim mesmo, e no fim, essa é a única coisa que realmente importa! O que a sociedade pensa não me interessa a mínima! E, paradoxo dos paradoxos, é só por pensar assim que eu posso ser útil de fato para essa mesma sociedade, de um jeito que me realiza.


Continua: "...conheço o trabalho do Dr. Flávio faz tempo, de ler livros dele, assistir entrevistas, artigos e na TV. (...) Mas eu posso respeitar e admirar o trabalho de alguém, e ainda assim discordar de alguma posição dele."


Amém. Continue assim, porque ninguém é perfeito. Só acho interessante a gente levar seriamente em consideração a opinião de alguém que possui uma experiência tão grande no assunto, antes de descartar como salada, confusão, viagem na maionese ou coisa do gênero (risos...).


Continua: "Todo ciumento carrega em si a possessividade, a possessividade é um de seus componentes. Mas a possessividade pode se apresentar de outras formas que não o ciúme, não são sinônimos, ao menos não no dicionário."


Eu diria que a possessividade e a insegurança (outro sintoma da baixa autoestima) são os principais e mais básicos componentes do ciúme. Aliás, não sei quais seriam os outros componentes. - Amor com certeza não é um deles; ao menos não o amor verdadeiro. - Então, se você tirar o sentimento de posse e a insegurança, que são frutos da baixa autoestima, o ciúme já não existe mais. Por isso, possessividade e ciúme podem até não aparecer como sinônimos no dicionário, mas penso que estão tão intimamente ligados que mal dá pra separar um do outro.


Mizi volta à carga: "...tem a questão de se separar o individual do coletivo. Como eu disse, acho que no fundo o que todo ser humano almeja é ser aceito pela sociedade. É por isso que ele se esforça por se inserir em um padrão de comportamento. O pior é quando a própria sociedade possui valores frívolos, como é o caso da nossa. Pessoas como eu e a Cris, que temos valores diferentes, sempre nos sentiremos rejeitados. Nossos valores não batem com os da sociedade."


Se é assim, eu não sou humano! Estou 'andando' para o que a sociedade espera de mim. Já disse e repito que não me considero uma ilha, não sou egoísta e preciso da convivência com os meus semelhantes para me sentir completo. Mas os meus iguais me bastam! Você, Mizi, diz: "Eu e a Cris somos diferentes, então somos rejeitados"... Ora, mas vocês se encontraram, então não estão mais sozinhos! Se você parar de tentar ser igual aos outros (não estou dizendo que faça isso, falo genericamente) e firmar posição nas coisas em que acredita, fatalmente vai encontrar outras pessoas que pensam como você, que têm os mesmos valores e acreditam nas mesmas coisas... e aí, sim, surgem as verdadeiras amizades. O erro está em ceder, fingir ser o que não é, só para se sentir fazendo parte de algo. Isso é ilusão!

Posso dizer que tenho pouquíssimos amigos, além da grande graça que é ter uma esposa que se parece comigo, que cultiva os mesmos valores que eu... E sabe como a descobri e 'conquistei'? Selecionando! Não me deixei encantar só pela beleza, nem por afinidades apenas sexuais ou qualquer outra coisa desse tipo. Se era pra começar uma relação séria, ela tinha que ter valores e princípios parecidos com os meus. Casamento não é loteria. É afinidade! E ter (poucas) amizades verdadeiras e uma esposa que busca as mesmas coisas que eu é mais do que suficiente para mim. Minha autoestima não pode depender - e não depende, jamais - do que a sociedade pensa!


Para encerrar (com chave de ouro), volta Cris: "O Merton dá abertura pra gente conversar. Eu gosto e acho válido ler posições, mesmo contrárias as minhas. (...) Se a gente pode conversar e ouvir opiniões diferentes, por que não? (...) Mizi, pra mim não foi desnecessário o que vc disse. Me ajudou. Se for pra fingir que concorda, ou então pensar diferente e não falar, não somos buscadores."


Amém, amém, amém! Aqui vai o meu muito obrigado aos dois, um obrigado muito sincero e satisfeito. Obrigado e obrigado! Tenho orgulho de ter pessoas como vocês participando deste blog. Desejo um fim de semana de Luz a todos os questionadores.





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O que é autoestima? E como anda a sua?


"Só é feliz quem tem uma boa autoestima...”


Certo... Autoestima. E o que vem a ser isso, mesmo? Nos merchands dos programas femininos, matutinos ou vespertinos, aparece sempre uma bonitinha ou um bonitinho falando em 'autoestima'. Faça um clareamento dentário na clínica xis e recupere a sua autoestima! Realize o sonho da cirurgia plástica: com 300 ml de silicone em cada peito, aumente em 100% a sua autoestima! Elimine seus indesejáveis 'pneuzinhos', com a dieta infalível da semana, e veja a sua autoestima decolarrrr!.. - Agora falando sério, que tal perguntar sobre o assunto pra alguém que realmente entende do negócio?




Disciplina, ética e a certeza de que se está agindo de acordo com os seus valores pessoais. Estas são atitudes essenciais para se desenvolver o amor-próprio, ou a tão invocada autoestima, segundo o psicanalista e pseicoterapeuta Flávio Gikovate. Adepto da terapia breve, Gikovate atendeu pelo menos 7 mil pacientes em 38 anos de carreira (é...). Além do trabalho em consultório, sempre difundiu a Psicologia participando de programas de TV e escrevendo artigos para alguns dos jornais e revistas mais importantes do nosso país. É autor de 16 livros de grande sucesso, entre os quais A Arte de Viver Bem e O Instinto do Amor. Casado e pai de três filhos já adultos, ele fala sobre a importância da autoestima, que na sua opinião depende principalmente de duas coisas: primeiro, ter princípios, e, segundo, viver de acordo com esses valores éticos. - Definitivamente, eu gosto desse cara... - Leia agora a entrevista que o fera concedeu a Rose Delfino, do portal Comunicação & Comportamento:


O que é autoestima?

Gikovate - É um juízo, um julgamento que eu faço a meu respeito. É quando acho que sou uma pessoal legal, quando estou satisfeito com a minha conduta. A autoestima ficará em baixa se eu agir em desacordo com os meus próprios valores.


O senhor pode dar um exemplo?

Gikovate - Se eu me propuser, por exemplo, a parar de fumar e não parar, isso baixa minha autoestima. Se decidir fazer ginástica todos os dias e honrar o que combinei comigo mesmo, isso me deixa com boa autoestima. Quando minha razão se opõe às vontades e a disciplina ganha, minha autoestima cresce.


Então autoestima não tem nada a ver com beleza, vaidade, espelho?..

Gikovate - Nem com se embelezar nem com cirurgia plástica. Uma mulher pode ficar envaidecida por estar mais bonita, mas efeito de cirurgia plástica não melhora a autoestima, porque a pessoa não se empenhou, não se sacrificou para ter aquilo, não é mérito dela. A autoestima tem a ver com mérito próprio.


A opinião de outra pessoa sobre mim não influencia minha autoestima?

Gikovate - Se a opinião das pessoas a meu favor no trabalho, por exemplo, vierem de realizações que atribui a mim, embora tenham sido obtidas por assessores meus, vou me sentir envaidecido. Mas, como sei que a conquista não é minha, a autoestima não será reforçada. Não existe mutreta nesse jogo interno.


Como os pais podem fazer com que os filhos tenham boa autoestima?

Gikovate - Não adianta aplaudir tudo o que o filho faz; isso é subestimar a inteligência dele. Elogiar sem que haja merecimento leva a criança a achar que tem algum problema e que precisa ser aplaudido mesmo quando não merece.


Mas os pais sempre influenciam...

Gikovate - A família deve transmitir valores. Se a pessoa não tem nenhum sistema de valores, não tem autoestima. É comum não seguir os valores, mas todo mundo sabe muito bem que ser honesto é um valor mais digno do que ser ladrão.


Quais são os valores fundamentais?

Gikovate - Você executar as tarefas às quais se dispôs, ter disciplina, capacidade de se colocar no lugar do outro, ser justo nas trocas com as pessoas, não ser egoísta nem querer mais do que dá. Ser esforçado comedido nas pretensões individuais, não ser exageradamente ambicioso nem preguiçoso. E aí depende da cultura – a nossa anda ambígua, estimula mais a competitividade que a lealdade (infelizmente...).


O senhor tem algum exemplo?

Gikovate - Certa vez, Diego Maradona fez um gol com a mão em uma final de Copa e todo mundo achou o máximo. É um exemplo bem negativo. Ser rico, por exemplo, é valor na nossa cultura. Às vezes, nem importam os meios que a pessoa usou para chegar a essa condição. Os valores deveriam ser tratados de uma maneira mais clara pelas famílias que querem ter suas crianças felizes, porque quem tem boa autoestima é feliz.


Como melhorar a autoestima?

Gikovate - Primeiro, construindo um sistema de valores, depois, agindo de acordo com esses valores e desenvolvendo a disciplina. É preciso que a razão vença as vontades, a preguiça, a gula, o vício, a agressividade. É o controle racional acionado sobre si mesmo que equilibra a autoestima, e está ligado à disciplina.


Como desenvolver a disciplina?

Gikovate - A disciplina é o fruto de toda uma evolução. A pessoa deve fazer acordos possíveis consigo mesma e ter humildade de reconhecer que não está pronta para mudar. Nesse caso, é melhor se propor metas que possam ser atingidas.


Valores são importantes na educação...

Gikovate - Os pais não educam com palavras, e sim com exemplos. A questão da disciplina é assim também. A criança vê que os pais são trabalhadores, levam a sério o respeito com o outro e com os compromissos assumidos, são pontuais. Tudo isso define um estilo de pensar.


E quem não aprendeu muitos valores?

Gikovate - Quem cresce sem essa disciplina tem que tomar a consciência e colocá-la como meta. Devagar, num longo e humilde processo de crescimento, sem se propor coisas demais, subindo degrau por degrau até chegar lá. Nada que é radical dá certo. O equilíbrio está no caminho do meio. E é preciso também dar tempo para que as coisas aconteçam.


“A baixa autoestima torna as pessoas ciumentas e dominadoras, atitudes que associamos a quem nos parece egoísta. Elas gostam de 'botar banca', mostrar que estão ótimas, que se adoram e são superfelizes. Mas essas pessoas toleram mal as frustrações e as inevitáveis dores da vida."


Dr. Flavio Gikovate



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Mysticus Corpus Christi




"Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a Vida Eterna.

Eu sou o Pão da Vida.

Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram.

Este é o Pão que desce do Céu, para que o que dele comer não morra.

Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu; se alguém comer deste Pão, viverá para sempre; e o Pão que eu darei, pela vida do mundo, é a minha Carne."



Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: "Como pode este dar-nos a sua carne a comer?"

E Jesus disse a eles:



"Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a Carne do Filho do homem, e não beberdes o seu Sangue, não tereis Vida em vós mesmos.

Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a Vida Eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.

Porque a minha Carne verdadeiramente é Comida, e o meu Sangue verdadeiramente é Bebida.

Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em mim e eu nele.

Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.

Este é o Pão que desceu do Céu; não é como o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este Pão viverá para sempre."



Estas coisas falou Jesus quando ensinava na sinagoga em Cafarnaum.

Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: "
Duro é este discurso! Quem pode ouvir isto?"

Mas, sabendo Jesus em si mesmo que murmuravam disto, disse-lhes:


"Isto vos escandaliza?

Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?

O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são Espírito e são Vida."



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História do Cristianismo - 7

A Palestina no tempo de Jesus


No século I, - época de Jesus, - a Palestina tinha uma superfície de 34 mil Km2 e 650 mil habitantes. Fazia já muito tempo que havia perdido sua independência política. Durante o domínio romano, no ano 37 aC, Herodes, um aventureiro sem escrúpulos, foi proclamado rei da Judéia pelo senado Imperial. Com extraordinária astúcia, o apoio de mercenários e a aprovação de Roma, ele se tornou um monarca poderoso, impondo sua realeza sobre um território que se estendia da Síria ao Egito. Seu cognome, - ‘o Grande’, - deveu-se principalmente ao fabuloso programa de obras urbanísticas e arquitetônicas promovido por ele. A História nos mostra que Herodes, além de um tirano cruel e astucioso, era também um gênio criativo e grande empreendedor.


'Herodes Atticus', Museu do Louvre


Após a menção do nome Herodes, a pergunta que deveria imediatamente se seguir é: ‘qual deles?’. A história dessa malfadada família percorre todo o relato dos Evangelhos e chega ao livro de Atos. Segue a árvore genealógica resumida:

Herodes, ‘o Grande’: segundo a Bíblia, assassinou as crianças de Belém, numa tentativa de encontrar e matar o Messias prometido, aquele que viria a se tornar o novo 'Rei dos Judeus' (Mateus 2,1-16).

Herodes Arquelau - Herodes Antipas - Herodes Filipe: todos estes eram filhos de Herodes o Grande. Arquelau assumiu o trono quando seu pai morreu. Foi a respeito deste que, segundo a Bíblia, José foi avisado, em sonho, que o evitasse: assim, mudou-se com Maria e o pequeno Jesus para a Galiléia, ao retornarem do Egito (Mateus 2, 19-23). Arquelau foi mais tarde banido pelos romanos e substituído por supervisores nomeados (um dos quais foi Pilatos). Herodes Antipas e Herodes Filipe não receberam territórios menores (Lucas 3,1). Herodes Antipas era o tetrarca da Galiléia, aquele que tomou parte no julgamento de Jesus.

Herodes Agripa I - Herodes Agripa II: Neto e bisneto de Herodes o Grande, respectivamente. Agripa I matou o Apóstolo Tiago e aprisionou S. Pedro, nas primeiras perseguições à Igreja. Ele foi "ferido com vermes" e morreu (Atos 12,1-23). Agripa II ouviu o Apóstolo Paulo se defender e "quase foi persuadido" a se tornar um cristão (Atos 25,13 e 26,32).

Sabemos um pouco a respeito de como Herodes Antipas era antes de participar do julgamento de Jesus. Sua perversidade era conhecida, e o próprio Cristo advertiu quanto à sua influência: "Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes" (Marcos 8,15). João Batista o condenou quanto ao modo com que se conduziu no caso de Herodias, que era esposa de Filipe, irmão de Antipas, mas este a seduziu e desposou (Marcos 6, 17-18). Em consequência, foi João aprisionado. Herodias queria vê-lo morto, mas Herodes "temia a João, sabendo que era homem justo e santo". Mais tarde, porém, devido a um juramento feito à filha de Herodias, ordenou a decapitação do grande Profeta. (Mateus 14,8).

Assim como várias outras cidades judaicas, Jerusalém, a cidade santa, havia sido reurbanizada ao estilo romano, cortada por grandes avenidas e embelezada com palácios, anfiteatros, hipódromos, piscinas e jardins. O preço desse ambiciosos empreendimentos foi uma opressão ilimitadas sobre o povo já sofrido. Por ocasião da morte de Herodes o Grande, no ano 4 aC, o reino foi dividido entre os filhos Arquelau, Filipe e Herodes Antipas, que, apesar de não possuírem nem o poder e nem a genialidade do pai, seguiram sua carreira de crueldades.

A submissão política e a extorsão econômica, por meio de pesados impostos, geraram uma forte oposição ao domínio romano, que culminaria em revolta generalizada: em consequência, no ano 70 dC a população judaica foi dispersa, e Jerusalém, destruída pelas legiões comandadas por Tito, futuro imperador de Roma. - Conforme predito pelos Profetas e pelo próprio Cristo.

Jesus viveu, portanto, em um contexto extremamente conturbado. As principais forças político-religiosas de seu tempo estavam reunidas nos seguintes partidos e seitas:


Saduceus - Representavam o poder, a nobreza e a riqueza. Grandes proprietários de terras e membros da elite sacerdotal, controlavam o Sinédrio, o conselho supremo de Israel. Em matéria religiosa, negavam a imortalidade da alma e aceitavam apenas o texto escrito da Lei (Torá), e não as suas interpretações orais, feitas pelos rabinos. Foram os principais responsáveis pela condenação de Jesus.


Escribas - Sem ligação com uma atividade econômica ou partido específico, gozavam, no entanto, de enorme autoridade, por terem entre seus membros os intérpretes abalizados das Escrituras. Detinham forte influência no Sinédrio, nas Sinagogas e nas escolas rabínicas.


Fariseus - Separavam-se do resto da comunidade judaica pelo cumprimento rigoroso das numerosas regras de pureza prescritas na Torá. Reuniam representantes de todas as classes sociais, principalmente as dos artesãos e comerciantes. Foram criticados por Jesus por desprezarem a essência e sentido da Lei, dando maior importância e ênfase às suas minúcias formais e deixando de lado o real significado por trás de todas regras e prescrições formais. A sua crença na imortalidade da alma e na ressurreição, porém, era um ponto em comum entre os membros deste grupo e os seguidores de Jesus.


Zelotes ou Zelotas - Dissidentes radicais da seita dos fariseus, expressavam os sentimentos dos pequenos camponeses e dos pobres em geral. Religiosos e ultranacionalistas radicais, resistiam aos dominadores pagãos e contavam com a iminente chegada do Messias para desencadear uma guerra contra os romanos. Por isso, eram duramente perseguidos pelo invasor.


Essênios - Compostos por sacerdotes dissidentes e leigos exilados, viviam em comunidades ultra fechadas, como as que foram descobertas nas cavernas de Qumran. Consideravam-se os únicos puros de Israel e levavam uma vida em comunidade extremamente austera. Praticavam rituais como o batismo e dedicavam-se aos trabalhos na lavoura. Combatiam tanto aos romanos quanto ao poder do Templo de Jerusalém, e propunham uma guerra santa para instaurar o que chamavam de “Reino dos Justos”.


Representação artística do magnífico Templo de Jerusalém, cujos átrios
podiam comportar um milhão(!) de peregrinos (clique para ampliar).


Muito mais que um local de culto, o Templo de Jerusalém era o centro econômico, político e religioso de Israel. Lucrava com a arrecadação de impostos, tendo em seu cadastro cerca de 1 milhão de contribuintes, dentro e fora da Palestina. Além disso, auferia somas fabulosas com o sacrifício de animais (bois, carneiros e pombos), criados por grandes proprietários de terras ligados às famílias sacerdotais. Calcula-se que, na época de Jesus, por ocasião da Páscoa, foram imolados, em suas dependências, mais de 250 mil cordeiros(!).

Para pagar pelos animais a serem sacrificados, os fiéis eram obrigados a trocar o dinheiro corrente, altamente inflacionado, pela tetradracma tíria, uma moeda forte, cunhada na Fenícia, que não sofreu nenhuma desvalorização num período de 300 anos. Os cambistas cobravam ágio de 8% pela operação e formavam uma máfia poderosa, mancomunada com a elite sacerdotal. Quando expulsou os vendedores de animais e cambistas do Templo, Jesus golpeou de frente essa poderosa rede econômica. Provavelmente tenha sido esse confronto, mais do que quaisquer outros, que tenha provocado a sua condenação.



Este post foi baseado num artigo do historiador Prof° José Tadeu Arantes para 'Arquivos - História Viva' n°4, acervo Ed. Duetto.


Fontes e bibliografia:
THOMPSON, John A. A Bíblia e a Arqueologia, São Paulo: Arte Editorial, 2000;
COUTO, Sérgio Pereira. A Incrível História da Bíblia, São Paulo: Universo dos Livros, 2004;
SCHARBERT, Josef. O Mundo da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1974.



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A inveja e o progresso


"A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes as trevas serão!"

Mateus 6, 22-23

A inveja (do latim invidere) é precisamente isto: uma doença dos olhos, que faz com que eles contemplem coisas boas apenas naquilo que o outro tem. Esses olhos, ao voltar da sua viagem pela abundância alheia, destroem com desprezo todas as boas coisas que lhes foram dadas. Ficam incapazes de ver com prazer aquilo que possuem.


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Mas os "especialistas" sabem que, se não tivermos inveja, se encontrarmos felicidade nas coisas que já possuímos, seremos mais felizes e, assim, trabalharemos menos e compraremos menos. - O que é muito mau para o "progresso". - Por isso, é preciso que os nossos olhos fiquem doentes, que eles dancem a dança terrível que vai do que o outro tem àquilo que não temos (mesmo que já tenhamos bem mais do que necessário). É preciso que sejamos infelizes. Porque quem tem inveja trabalha mais.



Baseado num trecho da obra de Rubem Alves, 'Mundo num Grão de Areia'



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O Dhammapada - conversando com Buda 3




Capítulo III

Citta Vagga


"Mente"



1. Da mesma maneira que o armeiro precisa fabricar flechas que sejam retas, o sábio corrige sua mente instável e vacilante, difícil de vigiar e dirigir.

2. Como um peixe fora d’água ofega e se agita incessantemente, assim se esforça e luta nossa mente nas redes das tentações de Mara.

3. A mente é instável e caprichosa, difícil de ser vigiada; é veloz, corre sempre para onde lhe apraz. Dominá-la é um grande bem. Dominada, ela se torna uma fonte da alegria.

4. A mente é invisível e sutil, difícil de ser vigiada. A mente corre sempre para onde lhe apraz. Que o sábio a vigie: a mente vigiada é uma fonte de felicidade.

5. Errando ao longe, solitário, inconsistente, oculto, o pensamento habita os recessos do coração; assim é a mente.

6. As mentes instáveis, que ignoram o caminho da Verdade e carecem de confiança e paz, não chegam à plenitude da Sabedoria.

7. As mentes calmas e controladas, livres dos grilhões dos desejos, que se elevaram acima do bem e do mal, despertas, desconhecem o temor.

8. Considerando este corpo frágil como uma jarra de argila, façamos da mente uma fortaleza, subjugando Mara com a espada da Sabedoria. Depois da vitória, a conquista é mantida pela constante vigilância.

9. Não tardará muito e este corpo jazerá por terra, abandonado, sem vida, inconsciente, insensível, semelhante a um inútil galho seco. Mas não perecerão as consequências de seus pensamentos; os bons engendrarão boas ações e os maus engendrarão más ações.

10. Qualquer que seja o mal que alguém faça a quem odeie, ou que entre si se façam dois inimigos, maior mal é o causado pela mente mal dirigida.

11. Nem pai nem mãe e nem parente algum nos poderá fazer tanto bem quanto a mente bem dirigida.



Fontes e Bibliografia:

SILVA, Georges da. Dhammapada Atthaka, 4ª edição. São Paulo: Ed. Pensamento, 1989;

FRONSDAL, Gil. The Dhammapada: A New Translation of the Buddhist Classic with Annotations‎, Boston: Shambhala Publications, 2006.




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