O gato que vê a morte

Quando eu digo que gatos são animais especiais, ainda tem quem discorde... Eu sei, eu sei que todos os animais tem uma certa sensibilidade, mas os gatos são simplesmente... especiais! - Não consigo achar outro adjetivo melhor. - Acho que os felinos estão entre os animais mais misteriosos da natureza, como se tivessem sido dotados por Deus de uma sensibilidade além do comum. O olhar de um gato é mistério puro. Quem discorda, geralmente, ou é porque nunca teve um gato, ou pior, teve e não percebeu isso porque esperava que ele se comportasse como um cachorro, babando em cima do dono e dependendo dele pra tudo. Um erro comum, e quem age assim não sabe o que está perdendo. Mais grave: em nosso país, muita gente confunde 'independente' com 'traiçoeiro'. "Gato é traiçoeiro e cachorro é fiel"? Então tá, mas eu nunca ouvi falar de um gato que tivesse machucado seriamente o seu dono, a não ser que estivesse se sentindo extremamente ameaçado; quanto aos cães, praticamente todas as semanas temos notícias de certas raças mordendo, e, em casos extremos, até matando seus donos, ou destroçando criancinhas pelas ruas... Estou exagerando? Que fique bem claro que não estou falando isso contra os cães (eu já tive e gosto deles), mas sim a favor dos gatos, que considero animais muito injustiçados.

Eu digo que ter um gato pode ser uma experiência espiritual; - se você tiver uma certa dose de sutileza para entendê-lo. - E for capaz de perceber que os gatos não são como os cães. Um gato é um gato, assim como um papagaio é um papagaio e um peixinho no aquário é um peixinho. Digo isso porque, sempre que se fala em gato, alguém retruca: "Prefiro cachorro!"... Se eu disser que tenho uma tartaruguinha, tudo bem, mas basta mencionar gato e lá vem a famigerada comparação. Não é óbvio que cada bicho tem a sua própria energia e suas particularidades únicas? Bom, é um fato que muitos dos maiores escritores (de Ernest Hemingway e Machado de Assis a Ferreira Goulart) e artistas plásticos do mundo (de Van Gogh a Picasso) preferiram e preferem os gatos, e eu, em meio à minha infinita insignificância, estou entre eles... Pra um cara que não tem paciência pra levar um bicho a dar voltinha no quarteirão todo dia (se é pra ter, tem que cuidar direito) e nem pra limpar fezes no quintal o dia inteiro, os gatos (que nunca fazem as suas necessidades fora do lugar próprio) são os bichos de estimação ideais. Sem contar o ABENÇOADO SILÊNCIO... Gato só faz barulho quando no cio, mas se for castrado, problema resolvido, pra sempre.

Mas este post não é sobre gatos. É sobre o dom incomum de um certo gato incomum...




Você me conhece? O meu nome é Oscar.
Sabe porque sou mundialmente famoso?


O gato Oscar (lê-se 'Óscar', porque ele é gringo) não é médico. Na verdade, não consta que tenha sequer frequentado o ensino básico oficial. Mas apesar da evidente (ou aparente?) falta de qualificações, e mesmo levando uma grande desvantagem que é não ter os nossos polegares opositores, Oscar é referência para os profissionais de saúde do Steere House Nursing and Rehabilitation Centre, em Providence, EUA, uma clínica especializada em doentes com mal de Alzheimer e Parkinson. Oscar, o gato, vem manifestando uma capacidade tão curiosa quanto impressionante: ele demonstra possuir o dom de 'ver' ou intuir qual dos pacientes está prestes a deixar esta vida.

Não, este post não trata de uma fraude e nem é um trote, e também não estamos falando de alguma notícia sensacionalista de tablóide. - Foi num artigo publicado no prestigiado New England Journal of Medicine, que o geriatra e professor universitário Dr. David Sosa veiculou a espantosa notícia ao mundo: Oscar é capaz de anunciar a morte iminente dos doentes. Todos os dias, o fofucho se levanta de sua cadeira favorita e dá início a um passeio pelo 3º piso do centro de saúde. Quarto após quarto, ele rodeia as camas, cheira os doentes e, vez em quando, demonstra sua inexplicável capacidade de perceber a proximidade da morte. Quando ele sobe numa cama, a equipe médica se prepara: chegou a hora da morte daquele paciente. Oscar enrosca-se no corpo do doente e pacientemente fica ao seu lado, como se quisesse confortá-lo, até o último suspiro. O detalhe é que ele só faz isso nos casos terminais, e em todas as vezes, o paciente realmente faleceu, após cerca de duas horas. Esse gato tem o poder de enxergar ou sentir a chegada da morte??

Essa história não é nova, e provavelmente muitos já a conheçam; desde o ano de 2007 a notícia vem sendo divulgada internacionalmente, figurando nos principais jornais, revistas e noticiários do mundo. O comportamento do animal, que tirando essa incrível particularidade nada tem de diferente, parecendo-se apenas com mais um pacato e simpático gatinho, já foi verificado e registrado mais de 25 vezes, segundo o professor da Universidade Brown, num testemunho corroborado pela Dra. Joan Teno. Em declarações à Associated Press, essa especialista em tratamento de doentes terminais da Brown University diz que Oscar não falha na tarefa de predizer a morte de um paciente.

A Dra. Joan Teno conta que ficou convencida quando presenciou o 13º caso do mensageiro da morte de quatro patas. Numa das suas incursões aos quartos do hospital, Oscar não subiu para a cama de uma doente que os médicos sabiam que estava nas suas últimas horas. Quando Joan esperava que Oscar fizesse aquilo que todos já sabiam, o gatinho simplestmente retirou-se do quarto, deixando a especialista convicta de que tudo, afinal, não passava de uma série de coincidências. Mas somente dez horas mais tarde é que aquela paciente exalou o seu último suspiro, já sem a presença da Dra. Teno. O que a médica só veio a saber mais tarde é que Oscar tinha regressado ao quarto da doente, cerca de duas horas antes da sua morte. Subiu para a cama, enroscou-se e ficou ao seu lado até o último instante. A médica é que tinha errado o seu prognóstico, em algumas horas, mas o gato não: ele estivera lá no último momento!


Você quer viver para sempre?



Sem explicação

Como não poderia deixar de ser, e como sempre acontece nesses casos, tentativas de explicação 'lógicas' não faltaram. A própria médica Joan Teno chegou a sugerir que talvez o gato sentisse algum cheiro diferente, ou então que interpretasse algo a partir do comportamento das enfermeiras, que o criaram desde filhote. - Hipóteses que não convenceram seus pares. - Já o especialista em comportamento animal Nicholas Dodman, do hospital veterinário da Universidade de Tufts, Massachusetts, 'chutou' que a chave poderia estar no cobertor aquecido com que as enfermeiras costumam cobrir as pessoas que estão prestes a morrer. Outro palpite insuficiente, pois, como visto, nos casos em que os pacientes não morreram, mesmo com o cobertor pronto, Oscar não se aproximou deles...

Importante: antes que alguém diga que o gato é 'agourento', por pressagiar a morte dos pobres velhinhos, saiba que ele não provoca as mortes, apenas tem a capacidade de percebê-las antes que aconteçam. - E os médicos e enfermeiras do Steere House consideram a sua 'colaboração' inestimável, já que muitos dos moribundos se sentem reconfortados com a presença do carinhoso animal, e alguns sorriem para ele em seus últimos minutos de vida. Além disso, o comportamento do peludo ainda permite aos profissionais de saúde que telefonem aos familiares dos doentes, para que estes não passem sozinhos os seus últimos momentos(!). Nesse centro médico, ninguém tira dos moribundos o prazer final de ter uma macia bola de pêlo cinzento e branco a aquecê-los. Uma bola (literalmente, já que o bicho é bem gordo) que faz 'miau'. - Ou 'meow', em seu idioma natal.


Quando Oscar visita um residente do Centro de Reabilitação de Providence,
a equipe entra em ação, já sabendo que alguém morrerá nas próximas horas!


Após a publicação científica sobre a história do 'gato com sexto sentido', o médico que revelou o caso ao mundo reiterou acreditar que o animal leve conforto aos moribundos. "Na maioria das vezes, ele aparece em uma área de estágio final da unidade de problemas mentais. Boa parte dos pacientes perderam a capacidade de entender o que acontece. Ainda assim, eu acredito que eles sintam um grande conforto pelo fato de haver um animal por lá", declarou David Dosa em entrevista ao HealthDay News.

Como visto, Oscar foi adotado pelo hospital ainda filhote, e ganhou esse nome em homenagem a um personagem da famosa série de TV 'Sesame Street', conhecida por aqui como Vila Sésamo. O gato tem, hoje, 4 anos de idade. Quanto à Dra. Joan Teno, ela afastou de vez o ceticismo. "O gato sempre aparece nas últimas duas horas de vida dos pacientes", garantiu.


Segundo os médicos, Oscar é meigo, carinhoso e gordo (aprox. 7 quilos).
E pelo visto também é muito folgado, como todo gato que se preza...



Fontes:
G1 São Paulo (Daniel Santini);
Jornal 'Público';
Agência Efe.



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Argumentações céticas




Argumento cético: 'Eu não sei nada'. Ora, se nada sei, não sei coisa nenhuma. Eu não posso afirmar que nada se pode afirmar. A não ser que afirmar tenha duplo sentido. Por exemplo, 'Não se pode afirmar nenhuma regra geral sobre nada'. Mas então, isto é um regra geral. Mas, e se colocarmos da seguinte forma: 'Não se pode proferir nenhuma regra geral sobre nada, exceto esta regra'? Sabemos que há alguma regra geral que é uma exceção à regra geral, segundo a qual, não há regra geral. A pergunta seria: 'De qual das duas regras ela seria a exceção? Ela é exceção da regra geral, ou é exceção da inexistência de regra geral?' No primeiro caso, sendo ela uma exceção, nega a generalidade de regra. No segundo caso, ela nega a si mesma. Seria a negação da negação.

Assim, os argumentos céticos representam algo como o pré-Mobral. Os argumentos céticos são jogos de palavras, e justamente por isso, exercem um certo fascínio. Principalmente para quem não sabe que eles existem há séculos, e acredita que alguém acabou de inventar isso. O adolescente está numa fase de ampliar o vocabulário, dominar a terminologia e aprender a dominar as palavras. Então ele é facilmente encantado pela arte de argumentar.

Muita gente diz que existe uma instância superior, que seria a própria Física ou talvez a Matemática, que pode fazer uma crítica geral dos sentidos, e estabelecer a jurisdição de que isso é uma impossibilidade lógica, ou seja, que daqui não dá para passar. Isso é um erro. A idéia de que o homem possa estabelecer limites para a sua própria memória é um absurdo completo. É, mais ou menos, como a história do Barão de Munchausen, que contou que “se puxou pelo cabelo para sair da água”. Achar que as faculdades superiores da inteligência ou da razão podem retroagir sobre a memória, verificar que ela tem uma falha essencial e corrigi-la, é impossível, porque a razão se sustenta na própria memória.

O homem não tem outro remédio senão confiar na sua memória. Mesmo que ela falhe. Mesmo sabendo que ela vai falhar nesse ou naquele caso. Também não há outro remédio senão confiar nos sentidos, mesmo sabendo que eles irão falhar em vários casos.

Seguindo esse raciocínio podemos também dizer que os sentidos falham às vezes, ou que os sentidos falham muito, mas não podemos dizer que eles falham na maioria ou na minoria das vezes. Nós não podemos quantificar o erro geral dos sentidos. Se eu disser que os sentidos falham quase sempre, eu já entrei em non-sense, porque estou supondo que existe uma maneira de conhecer os objetos sensíveis, a qual é melhor que os cinco sentidos. Assim, eu conheceria qualidades sensíveis melhor que os meus próprios cinco sentidos, através da razão. Acontece que a razão não conhece qualidades sensíveis. Isto significa que as faculdades superiores se assentam nas faculdades inferiores e as pressupõe, às vezes. Não teria jeito de se sair delas.

Até que ponto pode ser absurdo as pessoas acharem que o homem geralmente erra? Que a espécie humana é falha, que ela não consegue conhecer a realidade? Isto é um pensamento comum em certos círculos brasileiros, que está muito em moda, que é o ceticismo: que a espécie humana não é capaz de conhecer quase nada. Ora, só se medir o restante que ela não conhece. Se você conhece efetivamente tudo que ela desconhece, então, você tem uma idéia da ignorância dela. Só que, para isso, você se coloca numa posição sobre-humana.

Colocar-se, hipoteticamente, numa posição sobre-humana, só lhe permitiria emitir um juízo hipotético sobre o conhecimento humano. Ou seja, se eu fosse Deus, eu saberia tudo aquilo que a humanidade não sabe, e eu saberia como ela é ignorante. Mas, esse juízo também seria hipotético: supondo que eu fosse Deus, e eu emitisse os seguinte parecer categórico: “A humanidade nada pode conhecer”. Isso seria a negação de uma evidência, porque hipótese é hipótese. E isso quer dizer que qualquer tipo de ceticismo é absurdo! Qualquer filosofia que negue a possibilidade de se conhecer o que quer que seja é absurda, auto-contraditória, demente. A única coisa certa a dizer é “existem limites reais, efetivos e empíricos ao conhecimento humano”. Isso porque eu sei que não conheço tudo, e eu sei que a humanidade não conhece tudo. Porém, não existe nenhuma possibilidade de se fixar limites do que ela pode vir a conhecer.


Extraído de Edmund Husserl Contra o Psicologismo: preleções informais em torno de uma leitura da Introdução às Investigações Lógicas. Olavo de Carvalho, 1996.


Otto Hahn


No ano de 1945, o físico alemão Otto Hahn, inventor da fissão do átomo de urânio, encontrava-se internado num campo de concentração inglês, junto com outros eminentes cientistas. Quando, em agosto, recebeu a notícia de que Hiroshima tinha sido arrasada por uma bomba atômica, experimentou um insuportável sentimento de culpa. As suas pesquisas sobre a fissão do urânio haviam acabado por ser utilizadas para produzir um massacre terrível. Foi tão grande a sua angústia que tentou abrir as veias dos braços nos arames farpados que cercavam o campo.

Seus companheiros, porém, conseguiram dissuadi-lo, enquanto o velho professor lhes fazia, desolado, a seguinte confissão: “Acabo de perceber que a minha vida não tem mais sentido. Pesquisei pelo puro desejo de revelar a verdade das coisas, mas todo o meu conhecimento científico acaba de se converter num enorme poder assassino”.

A experiência pessoal de Otto Hahn foi, na realidade, a experiência amarga de toda uma época. Uma aflitiva impressão de fracasso invadiu os espíritos de muitos dos grandes gênios do século XX, que tanto tinham lutado por levar o conhecimento científico à máxima altura possível, convencidos de fazer com isso um grande bem à humanidade. Tinham trabalhado penosamente, com a profunda convicção de que o aumento do saber teórico e o incremento da felicidade humana eram duas coisas intrinsecamente vinculadas. Acreditavam que fomentar o conhecimento científico teria sempre um valor positivo, que significaria automaticamente a conquista de cotas mais elevadas de felicidade e de dignidade para todos os povos. Pensaram que se aprimorar a ciência humana só poderia resultar num bem geral inquestionável, que se traduziria em bem-estar e, no futuro, em perfeição para a humanidade.

Esse entusiasmo, porém, ruiu estrepitosamente com os horrores da Segunda Guerra Mundial. O temível poder destruidor das armas nucleares, os constantes bombardeios da população civil, o extermínio sistemático e inacreditavelmente cruel e racista que resultou num saldo de cinquenta milhões de mortos(!), tudo isso demonstrou, tragicamente, que o saber técnico pode resultar, sim, num amplo poder sobre a realidade, mas, por desgraça, todo esse domínio não leva automaticamente a uma maior felicidade dos homens, se aqueles que detêm esse poder não possuem uma consciência ética proporcional à sua responsabilidade.

Após séculos de obsessivo incremento do saber científico, a ideia de que o progresso humano é sempre contínuo e não pode haver retrocesso revelou-se uma tola farsa. O ideal do domínio científico como forma de humanismo desfez-se em pedaços ao entrar em colisão com a pura e simples realidade da História. Era patente que o futuro não devia caracterizar-se por essa ingênua crença no progresso como princípio motor de uma civilização, mas que era preciso alicerçá-lo em valores mais elevados e seguros.


A fé desaparecerá quando a sociedade amadurecer?


A magnífica Catedral de Notre Dame, Paris
(clique sobre a imagem para ampliar).


Num de seus livros, López Quintás conta que um dia, ao entardecer, depois de visitar a belíssima Catedral de Notre Dame, enquanto vagueava pela velha Paris, deparou-se, sem querer, com um pequeno edifício abandonado, com as suas velhas janelas cruzadas por sarrafos de madeira. Aquela construção quase em ruínas era o famoso “Templo da Nova Religião da Ciência” que o filósofo francês Augusto Comte havia erigido um século e meio antes.

O contraste foi tão brusco como expressivo. O templo com o qual se pretendera dar culto ao progresso científico estava em ruínas. A velha Catedral, pelo contrário, irradiava viçosamente sua beleza atemporal, tal como na época de sua inauguração, eras antes. A música combinava nela com a harmonia das linhas arquitetônicas, com as belas palavras dos oradores, com o magnífico esplendor litúrgico em meio ao qual, num dia de Natal, anos antes, o grande poeta ateu Paul Claudel encontrou sua conversão.

Os antigos ilustrados se erguiam com o sonho de “despojar o homem dos grilhões irracionais das crenças e conhecimentos supersticiosos baseados na autoridade e nos costumes”. O pensamento ilustrado considerava os conhecimentos religiosos como “simples e ingênuas explicações sobre a vida dadas pelo homem não-científico”. Na sua aversão à fé, uma multidão de pensadores deleitava-se em atribuir origens as mais baixas possíveis ao sentimento religioso. Viam a Deus como um simples “produto do medo das civilizações primitivas, num tempo em que esses espíritos atrasados ainda acreditavam em fábulas”. Sentiam-se chamados a “libertar toda a humanidade daquele lamentável estado de ignorância”. Acreditavam que a fé acabaria por desaparecer, à medida que a sociedade fosse amadurecendo. “A deusa Razão encostaria num canto essa ignorância, iluminaria o caminho e dirigiria com mão segura os destinos da humanidade”. Pensavam que a tendência que levava a buscar nos deuses uma razão de existir pertencia a um estágio primitivo da vida humana, destinado a dar passagem ao pensamento filosófico e, mais adiante, a ceder o lugar ao conhecimento científico, que conferiria ao homem a primazia absoluta no Universo e o situaria na maioridade.

A teoria de Comte sobre a evolução humana evoluindo através dos três estados: - religiosidade, pensamento filosófico e conhecimento científico, – gozou na sua época de grande aceitação e em sua honra foi erigido aquele templo dedicado à “Nova Religião da Ciência”. E não é curioso que a ciência adquirisse essa faceta religiosa?

Foi efetivamente um curioso fenômeno de substituição. Fascinado pela ciência, o homem elevou-a até que passasse a ocupar o lugar do sagrado. Mas não era um simples conflito entre a ciência e a fé. Com efeito, entronizar uma bonita mocinha parisiense na catedral de Notre Dame, – como fizeram durante a Revolução Francesa, – dando-lhe o título de “Deusa da Razão”, não se parecia com algo que fizesse parte das ciências experimentais. Por trás de tudo aquilo latejava o empenho ateu de proclamar a salvação da humanidade por si mesma, o advento de uma sociedade iluminada unicamente pela razão humana.

Passado um século e meio, o estado de abandono em que se encontra hoje aquele templo laico é talvez um reflexo do abandono de uma concepção: aquela ilusão segundo a qual o advento da era científica permitiria eliminar o mal do mundo, por si só. As suas hipóteses acabaram por estar mais impregnadas de ingenuidade do que a que eles atribuíam aos espiritualistas das épocas anteriores.

A história da ciência adverte: poucas teorias científicas conseguem se manter em pé, mesmo que por poucos séculos; muitas vezes, só por alguns anos, e em alguns casos, menos ainda. As afirmações ditas científicas, em sua maioria, vão sendo substituídas, uma atrás da outra, pouco a pouco, por outras explicações mais complexas e mais fundamentadas dessa mesma realidade. Hipóteses são tidas como certas durante algumas décadas, até que um dia se descobre que eram enganos. Algumas vezes são englobadas dentro de teorias mais completas. Outras, ficam obsoletas e desapareceram por completo do âmbito científico. A postura própria da ciência experimental deve ser, portanto, extremamente cautelosa em suas próprias afirmações, e são os próprios homens da ciência que dizem isso, mas infelizmente nem sempre a prática é coerente com o discurso.


“O cientista não deve pensar que possui um conhecimento certo de toda a verdade. O máximo que nós, os cientistas, podemos fazer, é chegar mais perto de um entendimento verdadeiro dos fenômenos naturais mediante a eliminação de erros em nossas hipóteses. É da maior importância para os cientistas que apareçam perante o público como o que realmente são: humildes buscadores da Verdade.

Karl Popper (1902-1994)



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Boas Novas: é tudo entre você e Deus



Matheus
, capítulo 6, versos 1 a 18:

"Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles; de outra sorte não tereis recompensa junto de vosso Pai, que está nos Céus.

Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.

Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.

Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.

Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.

Portanto, orai vós deste modo: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome;

Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu;

O pão nosso de cada dia nos dá hoje;

E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores;

E não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal (Porque teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre, Amém).

Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós;

Se, porém, não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas.

Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque eles desfiguram os seus rostos, para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.

Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto,

Para não mostrar aos homens que estás jejuando, mas a teu Pai, que está em secredo; e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará."



Não tenho nada a comentar sobre o que já é perfeito. Se quiser ler uma reflexão que fiz, há mais de dois anos, sobre a oração conhecida como 'Pai Nosso', clique aqui.



A tradução da Bíblia usada neste post é a Almeida Revisada Imprensa Bíblica



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O viajante


Segundo certas ordens herméticas, Winderlieb era o nome pelo qual ficou conhecido o filho de um rico proprietário de terras da antiga Gália, que viajou o mundo inteiro em busca do sentido da vida, e após muitas aventuras encontrou a suprema Verdade, tornando-se um grande sábio e 'mestre de si mesmo'.

Bem nascido, ele viveu uma curta vida de prazeres e futilidades até a sua juventude; depois de presenciar o violento assassinato de sua mãe, porém, à época da invasão romana, perdeu a vontade de continuar com o seu modo de vida materialista, abandonou tudo e saiu a percorrer o mundo em busca da Verdade.

Conta-se que numa de suas primeiras excursões como peregrino, pela primeira vez longe de sua vila e ainda inexperiente, nas terras da antiga Germânia ouviu falar de Bart Wanderer, considerado um grande mestre de sabedoria. Ansioso por aprender grandes verdades, Winderlieb descobriu onde ele morava e foi vê-lo. Mas ao chegar às remotas paragens onde, segundo as indicações, se localizava a morada do famoso mestre, para sua surpresa, Winderlieb encontrou apenas uma modestíssima choupana...

Tocou na porta e esta se abriu. Já pensando em ir embora, - não poderia ser aquele o lugar certo, - resolveu chamar; ouviu a voz de um velho, mandando que entrasse. Entrou. No tosco aposento não haviam móveis, nem cortinas ou tapetes, apenas uma velha mesa e uma cadeira a um canto, e na parede oposta algumas prateleiras malfeitas, abarrotadas de rolos de papiro. Ao seu lado, sentado no chão, um ancião de longos e dessarrumados cabelos e barba grisalha, vestido com farrapos, como um mendigo. Estava rodeado de papéis amarelados, que folheava calmamente. Achando que se tratava de alguma brincadeira ou engano, Winderlieb pensou mais uma vez em ir embora, mas antes perguntou ao velho:

"O senhor é o chamado Bart Wanderer?" - O velho levantou a cabeça, afastou os cabelos brancos amarfanhados que caíam pelo rosto e respondeu calmamente: "Me chamam desse jeito, sim". Incrédulo, Winderlieb complementou a pergunta: "Ouvi dizer que o senhor é um grande sábio, que encontrou as chaves da vida e da morte"... Winderlieb falou rispidamente, pois estava ficando irritado com a situação. "Acho que dizem isso ao meu respeito, também", respondeu o velho, erguendo-se de modo surpreendentemente ágil para a sua aparente idade avançada.

"Isso é verdade?" - prosseguiu Winderlieb, incrédulo. O velho ajeitou os cabelos atrás da nuca e o encarou, curioso: "Bom, a minha sabedoria depende muito mais das suas perguntas do que das minhas respostas, meu jovem. E se está procurando respostas que o ajudem na sua jornada, você não começou muito bem..." - Isso deixou Winderlieb mesmo irritado. Ele respondeu, então, com uma provocação: "Talvez seja porque eu não posso acreditar que o senhor seja um grande sábio. Se o senhor possui tanto conhecimento, como pode viver neste lugar, desse jeito, sem nada? Onde está a sua mobília, onde estão seus criados, suas armas, seus tesouros?"

E Winderlieb já ia dando às costas ao velho, quando ouviu sua réplica: "Bem, e onde estão as suas próprias coisas?" - Winderlieb, ainda mais irritado, se voltou. O velho o encarava, tranquilo. O jovem então respondeu, grosseiramente: "Ora, eu não estou carregando nada comigo, porque estou em pereginação pelo mundo. Como poderia carregar tanta coisa? Eu estou aqui só de passagem!" - Ao ouvir isso, o velho Bart Wanderer sorriu, parecendo satisfeito. Coçando a cabeça, sem conter uma expressão divertida, concluiu: "Eu também, meu jovem. Eu também".



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Post sem título

Essa noite eu tive um sonho bem inquietante. Resolvi escrever sobre isso enquanto as lembranças ainda estão frescas...
O sonho começa meio sem pé nem cabeça, como costumam ser os sonhos. Estou andando pelas ruas, num lugar que não conheço, passando por cenários idílicos e sossegados. Estou levando um pequeno carrinho de mão feito de madeira clara e polida, cheio de maçãs, até em cima.

Normalmente, não tenho grande atração por maçãs. Numa lista de minhas frutas preferidas, elas sem dúvida não apareceriam. Acho-as um pouco sem graça, talvez. Mas aquelas maçãs, que eu levava no carrinho, eram especialmente apetitosas: as cascas eram muito vermelhas, de um tom bem escuro e vivo, beirando o vinho, quase púrpura, de casca brilhante e com aspecto de frescor agradabilíssimo. O suave perfume que essas maçãs emanavam me assaltava os sentidos e me transportava. Sentia uma vontade quase irresistível de escolher uma daquelas maçãs para nela cravar os meus dentes, sem dó nem piedade. Mas, no sonho, eu sabia que não podia fazer isso, porque eu estava ali para vendê-las; eu precisava vender aquelas maçãs. Sem entender bem o motivo, como costuma acontecer no reino dos sonhos, eu sabia que era muito importante vender as maçãs.

Caminhei mais um pouco e parei numa esquina daquela cidade que eu nunca tinha visto. Estava então numa encruzilhada de várias ruas, todas pavimentadas com pedras arredondadas e graciosamente encaixadas. A esquina onde parei dava de frente para o que parecia uma espécie de largo, com uma pequena praça no centro e rodeado de casas comerciais. Havia um grande movimento de pessoas entrando e saindo das lojas, passeando pela praça, cavalheiros com seus chapéus e senhoras com seus carrinhos de bebê, entre jovens, meninos e meninas, moços e moças... Mas o movimento era apenas moderado: bastante gente, mas não alvoroço.

Ajeitei o carrinho com as maçãs ali mesmo, na esquina, e me recostei na parede de uma casa, um pouco tímido, esperando que a beleza e o perfume das frutas atraísse uma multidão de compradores. Estranhamente, porém, todos passavam incólumes.

Minha mente começou a se dispersar, e como costuma acontecer nos sonhos, senti que dali já ia para algum outro lugar estranho, esquecendo do carrinho, das maçãs, do largo, da responsabilidade de vender aquelas lindas frutas... Mas, nesse momento, senti um leve toque em minha mão direita. Minha atenção foi imediatamente retomada, voltei para o mesmo lugar e, olhando para baixo, vi um menino meio estranho, parado diante de mim, tocando minha mão direita. Era uma criança muito séria, que me olhava bem fundo nos olhos. Pensei que naquele lugar as palavras talvez não fossem tão importantes, e até achei que aquele menino estava me dizendo alguma coisa, mesmo sem falar nada. Mas eu não pude entender o que era. Olhando para ele me sentia desarmado. Então tentei me comunicar com um sorriso, mas me pareceu inútil, pois ele não esboçou nenhuma reação. Não reagiu ao meu gesto simpático, não sorriu de volta, só me olhava com aquele olhar penetrante. Eu tentei balbuciar alguma coisa, talvez aproveitar para tentar vender uma maçã, mas ele, sempre muito sério, me disse:

“Essas maçãs não são bonitas. Vai ser difícil vendê-las.” E eu respondi: “Como assim? São as frutas mais lindas e perfumadas que eu já vi na vida”!

Mas o menino ignorou a minha observação, e balançando a cabeça negativamente, com aquela expressão grave, concluiu:

“O seu inimigo não é sincero. Ele não tem moral nenhuma”.


Eu não entendi, não fazia ideia do que ele estava falando, mas não sei porque, assenti com a cabeça. Acho que eu queria que ele fosse embora, sua presença tinha um quê de incômoda, apesar de... Não sei, apesar de que ele me transmitia algo de muito bom, também. Quando ele disse aquilo, me passou a sensação de que não queria que eu respondesse, e que se o fizesse, seria ignorado. Ele queria apenas que eu entendesse. Mas eu não entendi, ao menos não totalmente. Ele se afastou, e eu olhei para vê-lo se afastanto, porque estava curioso e queria ver o seu jeito, o modo como andava, sua roupa, sua altura, a direção que ia tomar. Mas não pude vê-lo indo embora. Alguém entrou na minha frente, impedindo a minha visão. Ou alguma coisa desse tipo.

Havia um degrau na construção em que eu estava apoiado, recostado, que aliás era toda feita de grandes tijolos vermelhos: um pequeno degrau de pedra bruta. Eu então me sentei, tentando entender o que acabara de acontecer. E aconteceu uma coisa muito interessante, que acontece muito comumente comigo, transformando meus sonhos num outro tipo de experiência, que de uma certa maneira eu aprecio: eu me conscientizei que aquilo era um sonho, que eu estava no meio de um sonho, que meu corpo físico estava bem acomodado em minha cama, naquele momento, e que tudo estava acontecendo apenas na minha mente, ou numa outra realidade fora desta que consideramos normal...

Ter me conscientizado disso fez com que a minha atenção fosse redobrada para o que poderia acontecer a seguir. Sonhos às vezes são sinais. E eu me senti tranquilo.

Comecei a apreciar a vista, vi que o céu estava limpo, mas era meio amarelado, como num pôr de sol de um dia de verão. Estava frio, porém, e além disso, eu tenho certeza, era de manhã. Olhei para as maçãs, e ainda pareciam deliciosas... Mais uma vez senti vontade de comê-las. Então aconteceu um salto, eu me vi numa casa muito simples, e estava diante do meu velhinho, meu pai querido. Era meu pai, só que ele estava mais jovem, forte e bonito, como nas memórias da minha infância e nas poucas fotos antigas que restam dele. Estávamos sentados ao redor de uma mesa redonda, de madeira muito grossa, de aparência pesada e antiga, e sobre ela havia uma pequena toalha verde, bordada. Ele estava vestindo uma camisa de mangas longas, desbotada. Xadrez, como convém a um bom parente de ameríndios. Seus olhos pretos estavam bem fixos nos meus, e ele me dizia com a sua voz mansa: “Filho, você precisa vender todas estas maçãs. É a nossa última esperança, e eu só confio em você”. Lá estavam aquelas lindas maçãs empilhadas sobre a mesa, todas arrumadas sobre uma travessa de metal fosco, formando uma pirâmide.

Me emocionei ao ver meu pai, novamente jovem, depois de tantos anos. Ele estava forte, bonito e cheio de classe, como sempre. E tinha aquele olhar triste, típico dele... Num lampejo me lembrei de quando eu era um bebê e ele cantava para mim, e das vezes em que brincávamos no chão, sobre o tapete, eu pulando sobre a sua barriga, como se fosse um trampolim... Me lembrei também de quando ele se sentava para contar os seus ‘causos’ de assombração, para mim e para o meu irmão, sempre à noite, antes de dormir, o que nos fazia passar divertidas noites em claro, um dando susto no outro... Mas isso tudo foi antes da separação traumática dos meus pais, que nos afastaria por décadas. Uma outra história, que não será contada. Importa é dizer que, naquele instante, ficou claro que o compromisso de vender as maçãs era mesmo muito sério.

E lá estava eu de volta à esquina movimentada, diante do carrinho com as maçãs, esperando que alguém se interessasse pela mercadoria...

Surgiu então uma linda moça, de cabelos louros e longos, com tranças bem arrumadas e olhos castanhos claros, grandes e expressivos. A energia sexual que emanava dela era tão intensa que parecia quase palpável, como se pudesse ser cortada com uma faca. Era tão bonita que só estar perto dela era quase como uma agressão. Aproximou-se sorrindo, com um andar que era uma dança, me olhou com uma expressão enigmática e depois olhou as maçãs. Alegrei-me com a chegada de uma compradora em potencial, porque eu estava realmente ansioso para vendê-las. Ela se curvou devagar e começou a apalpar os frutos, sensualmente, e eu tentava manter, seguindo o conselho de Buda, os meus pensamentos firmemente controlados. Por maluco que pareça, no entanto, naquele momento eu comecei a sentir o meu desejo de devorar uma maçã ser fortemente intensificado. Mas ainda me mantinha firme no propósito de cumprir a minha missão de vendê-las, agora que sabia o quanto era importante.

Então a moça se ergueu e abriu sua pequena bolsa. Pude ver, contendo um sorriso, que ela manuseava um grosso maço de notas, e então ela me olhou e fez uma estranha proposta:

“Eu compro todas as maçãs, mas só se você comer todas elas”.


Havia algo de malícia na proposta, mas eu não pude ver nada de errado em unir o meu desejo de devorar aquelas belezas à minha responsabilidade de vendê-las. Para ser direto, era simplesmente perfeito! Olhei para a quantidade de maçãs, que não era tão grande, e elas me pareciam cada vez mais deliciosas. Concordei. Ela sorriu e eu comecei a comer. Quando mordi a primeira maçã, a casca vermelha escura se rompeu e se liquefez, escorrendo pelos meus lábios, pingando pelo meu queixo, e o sabor era doce, delicioso. Estranho, como todo o resto. Comi mais uma e mais outra e outra, e não me sentia empanturrado. Afinal peguei a última maçã, a casca estava grudenta, grudava nas minhas mãos... O sabor ainda era muito bom, extremamente doce, mas essa última grudava nos meus dentes, no céu da boca e na garganta, quando eu tentava engolir. Cansei de mastigar, os músculos do meu maxilar se entorpeceram, mas com muita dificuldade engoli a maçã, em pedaços inteiros, quase sufocando, engasgando, com grande agonia... Mas afinal consegui comer todas.

Olhei para a moça, orgulhoso. Estava me sentindo mal por ter comido tanto, mas feliz por ter conseguido vender todas as maçãs. Eu tinha vendido todas, não tinha? A moça estava sorrindo, e o sorriso suave virou uma risada meio divertida, meio debochada, quando ela... Simplesmente foi embora. Sem pagar, sem explicações, sem mais nada. Eu tentei correr atrás dela, mas estava com o estômago tão pesado que mal podia me mexer. Tentava me mover e parecia pregado; meus membros, meus braços, meus joelhos... mal se moviam. Vi um policial logo adiante, pensei em pedir ajuda, mas... O que eu diria? Eu mesmo tinha comido a minha própria mercadoria.

Fui tomado por um desespero profundo, cortante, uma angústia pesada, sombria. Só então percebi que a venda daquelas maçãs era mais do que apenas importante, era mesmo "a última esperança". E eu acabara de ser enganado, estupidamente... A essa altura eu tinha me esquecido completamente que aquilo era um sonho; minha garganta fechou, meus olhos pesaram, senti um grande soluço chegando, e, mesmo não querendo, comecei a chorar. Assim acordei, chorando, no meio de uma noite fria, em minha cama quente, mas não fiquei aliviado, mesmo depois de constatar que tudo tinha sido só um sonho. Ainda era madrugada, mas aquela sensação amarga de ter falhado numa missão essencial permaneceu por angustiantes minutos, até eu pegar novamente no sono.

Pela manhã, contei tudo para Hana, e ela me perguntou: "Você não sabe porque sonhou isso?" Eu disse que não, e ela me lembrou do trecho de um livro do Nilton Bonder que ela tinha lido pra mim, há alguns dias, numa livraria, e que na hora não me fez pensar em nada. O trecho era sobre um antigo provérbio rabínico envolvendo um vendedor de pães. Agora eu quero comprar aquele livro...



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Algumas respostas - parte 2

Por que, mesmo se declarando cristão, você assume posturas não compatíveis com as de um cristão?


Para responder, seria preciso, antes de tudo, determinar o que seria exatamente uma “postura cristã”. Para mim, a essência do Cristianismo poderia ser resumida em 3 pontos principais:

# A íntima Comunhão com a Força Absoluta, Criadora, Todo-poderosa e Todo-amorosa que é a Fonte do Universo e da Vida, a que chamamos simplesmente Deus;

# A prática diária das virtudes morais e espirituais (não ficar só no estudo, na meditação e na palavra);

# Ver Deus em mim mesmo e no meu próximo, o que se reflete numa vivência em comunidade ampla, rica e amorosa. Não há prática espiritual mais perfeita ou mais valiosa.


Como se vê, tudo isso poderia ser dito de modo ainda mais resumido, no princípio mais primordial do Cristianismo: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. – O tipo de coisa que se ouve de muitas bocas, mas que (infelizmente) pouco ressoa na prática. A grande chave está em usar o tempo que você perderia para julgar os outros, se irritar com os erros dos outros e criticar os outros, fazendo a sua parte, o melhor possível. Agora.

Então, respondendo objetivamente à pergunta: entre erros e acertos eu procuro, com toda a sinceridade da alma, incorporar e praticar na minha vida, o tempo todo e a cada minuto, as bases essenciais que citei acima. - Por isso não vejo incompatibilidade entre as minhas ações neste blog e esse protótipo, esse rótulo que existe nas cabeças dos que me fazem perguntas como essa. Não me importo nem um pouco com os rótulos. Se por pensar assim não sou um cristão, então ok: não sou, e com orgulho. Não tenho nenhum problema com isso.




Se você encontrou a sua religião, porque continua falando em 'busca'? Você já não achou o que procurava?

Essa é uma boa pergunta, eu diria. Eu encontrei uma religião que satisfez os meus anseios e me trouxe respostas e confirmações mais que importantes, como já andei contando por aqui. E também já falei, muitas e muitas (e muitas) vezes, mas nunca é demais repetir que eu não acho que nenhuma religião seja a única válida ou a única que ‘salva’. Eu pratico uma religião dentro da qual pude realizar e exercer, como nunca antes, tudo que existia de melhor em mim. Dessa forma pude vivenciar uma Comunhão com Deus de maneiras que seriam inimagináveis quando eu vivia como um 'errante', entre as muitas tradições. Eu pude sentir que a minha humanidade foi 'divinizada' em algum sentido, e esta é a maior, mais transformadora e mais tremenda experiência que um ser humano pode viver, - variando de um indivíduo para outro, segundo me diz a experiência, apenas em nível de intensidade, conforme seu grau da entrega.

Em minha existência, hoje, tudo está diferente, melhor, tudo foi transformado, uma etapa inicial da busca foi ultrapassada e tudo ficou mais fácil na minha vida. Minhas orações são atendidas, alcancei uma paz serena (com a qual antes não poderia sequer sonhar) que permanece comigo todos os dias. Um ponto importante é que essa paz e essa centralidade me fazem respeitar e conviver muito bem e tranquilamente com os que pensam diferente, os que tiveram outras histórias de vida e exercem a sua espiritualidade de outras formas.

Ainda falo em 'busca' porque, no meu entender, a vida do(a) homem/mulher é uma busca eterna. Quando você para, vem a estagnação. Eu encontrei o Caminho, mas estar a caminho não é o mesmo que 'sentar em cima' das minhas próprias certezas e achar que não há mais nada para aperfeiçoar em mim... O espírito humano precisa ser constantemente dilapidado, daí a importância da auto-vigilância. - Vigiar e orar, sempre. - Vejo pessoas tentando enfiar suas próprias verdades nas cabeças alheias, na marra, porque acham que já encontraram todas as respostas, já alcançaram tudo que havia para ser alcançado e agora são pequenos 'salvadores' para os pobres pecadores, são como mestres de perfeição. Quanto a mim, quanto mais aprendo, mais percebo que ainda há mais a aprender. Isso mantém o meu ego no lugar, mas também é muito estimulante! Como é bom descobrir coisas novas! Esta é a grande aventura do Conhecimento.


Como alguém que escreve um blog sobre busca espiritual e fala de todas as religiões pode ter uma só religião? Isso não é incoerente?

A melhor pergunta para o final. E eu preciso me controlar para não dar apenas a resposta mais sucinta e clara possível: Não.

Concordo que fazer parte de uma comunidade religiosa pode provocar a limitação da visão geral das coisas. - Em algumas mentes. - Mas é um erro generalizar, porque ocorrer ou não esse efeito depende muito mais do indivíduo do que da religião que ele pratica. A História nos trouxe padres cientistas, santos filósofos, líderes religiosos importantes (de tradições absolutistas) que trouxeram grandes avanços para o ecumenismo e a tolerância religiosa no mundo... Então, no fim, tudo depende do indivíduo, da consciência individual de cada um, da abertura da sua consciência. Tudo depende do quanto você é capaz de manter a atenção no que está fora tanto quanto no que está dentro, e do quanto é realmente capaz de compreender que as diferenças podem ser apenas aparentes. Aprimorar a visão para a percepção dessas realidades é como ajustar a sintonia fina de um aparelho de TV, só que infinitamente mais complexo e mais delicado. Leva tempo, é trabalhoso e exige dedicação e profunda atenção. É uma grande arte.

Pergunta: Como eu posso praticar uma religião? Resposta: Existe mesmo alguém que não tenha religião? Tem certeza?

Hoje sabemos que, no sentido mais puro da palavra, isso é impossível, e os místicos já o haviam entendido bem antes de a antropologia descobrir que, além de racional, psíquico, social, político e inacabado, o homem é um ser religioso. Se formos fundo na questão, perceberemos que negar as formas religiosas é apenas mais uma forma religiosa. - Da mesma forma que dizer que "tudo é Deus e Deus é tudo" é adotar o princípio essencial de uma religião específica bem definida, denominada panteísmo (do grego pân, pantóspan = tudo + teísmo = Deus); uma doutrina segundo a qual só Deus é real e o mundo é um conjunto de manifestações ou emanações suas. Atenção: não estou colocando em discussão a validade ou não dessa forma religiosa, estou apenas demonstrando o óbvio: que crer nisso também é adotar um forma religiosa específica.

Muitos são os que buscam assumir uma postura definitivamente arreligiosa, isto é, uma espiritualidade própria, sem seguir religião alguma, porque crêem que a religião limita. Mas se você parar e refletir vai perceber que essa atitude é tão limitante quanto qualquer outra, em tudo que se refere à religião. Sim, pode ser que para você seja melhor, mesmo acreditando em Deus, não frequentar nenhum templo, não fazer parte de nenhuma comunidade religiosa, procurando integrar elementos de diversas tradições na sua vida. Ok, uma opção particular que deve ser respeitada. Mas entenda que isso é só mais uma forma de religião, se compreendemos que religião é religação, reconexão. E uma religião é tão limitante quanto qualquer outra, - e tão limitante quanto negar a religião. - Dizer que Deus está em tudo é tão limitante quanto dizer que Ele vive num templo, que é propriedade exclusiva de uma comunidade 'escolhida' ou que pode ser encontrado somente numa única tradição. E tão inútil quanto.


Abraço você, querido irmão na busca, que me acompanhou até este ponto. Por favor me perdoe por ser limitado e não saber me expressar como gostaria. Amo todos vocês tão profundamente que não posso definir em palavras. Vocês, meus semelhantes, meus irmãos, são a razão final da existência deste espaço. Esse Deus de que tanto falo, eu o vejo e encontro em vocês. Tudo o que espero é que sejam felizes, e que um dia possamos nos reencontrar e voltarmos a ser, efetivamente, UM.



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Algumas respostas

Desde que este blog existe, eu nunca deixei de receber emails perguntando coisas ao meu respeito e a respeito da ideologia e/ou dos objetivos do a Arte das artes (por mais que eu insista que a ideia do blog é compartilhar, dividir, trocar experiências, e que seria melhor escrever no espaço para comentários, dividindo as questões com todos, muitos preferem mandar emails...).

Muita gente que descobre e se interessa pelo a Arte das artes logo quer saber o que ele ‘defende’; isto é, qual a sua doutrina, se é que tem alguma, em quê o seu autor acredita, quais os seus valores e princípios... Muita gente (muita mesmo...) não se conforma por eu me declarar cristão, quando o conteúdo do blog é tão diversificado, tão universalista. Alguns cristãos já me questionaram por eu falar em hinduísmo, em Buda (inclusive por me referir a Buda ‘com admiração’, se só Jesus é digno de ser admirado), em tradições orientais e mestres diversos. E eu também fui e sou muito questionado por místicos e esotéricos de todo tipo, por falar demais em Jesus e no Cristianismo. Não deixa de ser engraçado, por um lado.

Tinha um rapaz espírita que vinha sempre aqui, diariamente, religiosamente, e deixou muitos bons comentários. Muita gente, lendo isso, talvez lembre dele, mas não vou citar o nome. Ele indicou o blog para amigos dele, que me escreviam também. Começamos até o que parecia que se tornaria uma boa amizade. Até que, um belo dia, ele se ofendeu comigo por eu ter declarado não acreditar em reencarnação(!). Uma das últimas coisas que ele me disse foi que se eu publicasse postagens falando sobre reencarnação, vidas passadas, mediunidade e assuntos afins, este blog teria o dobro de visitas... Mas eu não concordo com isso. Acho que se eu publicasse regularmente postagens falando sobre esses assuntos, incluindo aí o tema desdobramento ou projeção astral, esse blog teria cem vezes mais visitas.

Bom, eu não vou negar que me interesso muito mais pela qualidade das visitas (e consequentemente dos comentários) do que pela quantidade. Prefiro mil vezes os cerca de 700 cliques diários que tenho recebido, - ao que tudo indica, vindos de uma maioria que capta bem a minha proposta por aqui, - do que ser visitado diariamente por 10 ou 20 mil que só vem para destilar 'abobrinhas' e cultivar seus egos inflamados. Vejo muito isso por aí. Por isso estou muitíssimo satisfeito com os frutos que o a Arte das artes gerou no decorrer desses 3 anos. – Falar nisso, o blog completou três anos antes de ontem (09/05), então este pode ser considerado um post comemorativo ou coisa que o valha.

E eu ainda pretendo falar muito desses assuntos todos (reencarnação, vidas passadas, projeção astral), sim, com absoluta certeza. Sei que muita gente espera ansiosa por isso. Acontece que estou abordando as religiões do mundo numa espécie de enciclopédia do a Arte das artes, e comecei a fazer isso do começo, isto é, tenho tentado seguir a cronologia histórica. Então, quando chegar o momento, nada ficará de fora.

Bem, mas toda essa introdução foi somente para falar do interesse das pessoas que chegam até aqui em entender muitos porquês. E na realidade, eu sempre achei esses questionamentos muito válidos. Como alguém poderia chegar a um lugar como este, começar a ler coisas sobre questões fundamentais da vida e não questionar essas afirmações, quem as está fazendo, com que base?

Quem sou eu? Em que acredito? Por que escrevo este blog? Qual a minha religião? O blog segue alguma religião? Deveria? Por que? Por que? Por que? Cansei de responder a essas perguntas (sempre as mesmas, ou muito parecidas) individualmente. A partir de hoje vou iniciar uma nova série de posts para esclarecer exatamente essas questões recorrentes, essenciais pra tanta gente.

Fiz uma breve avaliação e percebi que um dos maiores interesses dos meus visitantes poderia ser resumido nessa sequência de perguntas, todas interligadas, como se percebe, e que tratam do mesmo assunto. Vamos ao post...




Qual é a religião do a Arte das artes? Em quê, exatamente, você crê? Em que Deus você crê? Por que é que mesmo se declarando cristão você tem posturas que não são compatíveis com a de um cristão? Se você encontrou sua religião, porque continua falando em 'busca'? Você já não achou o que procurava? Como alguém que escreve um blog sobre busca espiritual e fala de todas as religiões pode ter uma só religião? Isso não é incoerente?


Principalmente depois da conclusão da primeira fase deste blog eu tive que responder perguntas desse tipo várias e várias vezes.

Pra começar, eu gostaria de tentar desmistificar, de uma vez por todas, essa ideia que muita gente tem, - equivocada, - de que por estar exercendo a sua espiritualidade dentro de uma determinada tradição, como membro de uma comunidade religiosa, você perde a noção do Todo, do global. Nada mais distante da verdade. Na minha vida não foi assim, não é assim e, pra ser honesto, acho que isso só vai acontecer se você escolher uma religião que ensine falsos princípios. No meu caso, a religião serviu para abrir meus olhos, ampliar horizontes e derrubar de vez todos os limites que antes eu mesmo me impunha! Por isso, para mim, não existe prova maior de que eu escolhi o caminho certo. Aliás, antes de qualquer outra coisa, importa dizer que, - como tentei explicar antes, - eu não escolhi nenhuma religião, absolutamente. Eu é que fui escolhido.

Comecei falando essas coisas porque acho que aí já se encerra uma parte das respostas. Mas vamos com calma. Vou deixar as respostas a todas as perguntas aí acima, registradas em forma de post. Então, se alguém perguntar essas coisas de novo, vou poder dizer: "vai lá e lê"...


'Qual é a religião do a Arte das artes?'

Nenhuma. O a Arte das artes é um blog que nasceu para ser uma ferramenta útil na busca pela Verdade, para todas as pessoas realmente dispostas a encontrar as respostas dentro de si mesmas. Eu acredito (sei) que nenhuma religião é proprietária exclusiva da Verdade. A Verdade está em todo lugar, disponível a todos, o tempo todo.

Vivemos num país de esmagadora maioria cristã (89% segundo o IBGE). Muita gente por aqui está habituada a pensar e agir como se simplesmente não existissem outras formas legítimas de culto religioso. Pior: de algumas décadas pra cá, vem crescendo um conflito insano entre igrejas cristãs, principalmente católica e as novas denominações evangélicas. Baseado nessa triste realidade, em nome deste blog, eu formulei um pequeno e muito simples exercício de reflexão:

Algum fundamentalista convicto, por favor, me explique: se o Cristianismo (qualquer versão) fosse a única expressão da Verdade, a única religião verdadeira, e se Jesus Cristo fosse o único e exclusivo Salvador, o único Caminho para o Pai... Por favor me diga o que foi feito, por exemplo, de todos os milhões e milhões de membros das tantas nações indígenas, indivíduos que nasceram, viveram e morreram sem nunca ter ouvido falar na Bíblia cristã? Foram todos mandados para o inferno, sem escalas? E os bilhões de chineses de até poucas décadas atrás, que nasceram e foram criados numa sociedade não cristã e morreram sem jamais conhecer os Evangelhos? Condenados sem piedade? E quanto às crianças de certos povos árabes, vindas ao mundo no seio de famílias profundamente anti-cristãs, criadas numa sociedade que lhes ensina, durante toda a sua existência, que o Cristianismo é uma religião blasfema e condenável? Elas, que não tiveram uma chance de conhecer o outro lado da história, educadas segundo um prisma diferente, serão condenadas por um Deus vingativo a arder eternamente em chamas que nunca se extinguem? Isso seria justo? Você, cristão fundamentalista, pode realmente crer nisso? Você acha que a mensagem do nosso Cristo combina com esse tipo de crença?

A Verdade não pode ser limitada nem está sujeita às determinações dos homens. Deus se manifesta sob muitas formas, e existem lugares onde a Bíblia é proibida... Deus nos fala através do Universo, da percepção, da consciência, da vida, da Natureza, dos sonhos, dos sinais e milagres, etc... Não existe limitação para a Verdade. Por isso, este blog não prega nenhuma religião e nenhuma forma de culto específica. Óbvio que isso vale para toda e qualquer religião. No máximo, pelo fato de eu, o autor, ser um cristão, e por vivermos num país de grande maioria cristã, às vezes acabo usando, inadvertidamente, uma linguagem supostamente 'cristã'.


'Em quê, exatamente, você crê? Em que Deus você crê?'

Honestamente, acho que 'eu' não sou a coisa mais importante por aqui. Tudo que já falei ao meu respeito, neste espaço, foi no sentido de, no começo, mostrar quem sou e porque mantenho este blog, e, depois, na esperança de que as minhas experiências pessoais pudessem ser úteis a mais alguém. Mesmo assim compreendo o interesse. Quando leio um livro, quero saber quem é o autor, até para saber se é ou não confiável. Afinal, eu posso ser mais um hábil manipulador de mentes usando a web para tentar convencer o maior número possível de leitores a aceitarem as minhas próprias verdades...

Bem, eu estou certo de que o Deus que eu vejo não é o mesmo Deus que qualquer outra pessoa vê. Deus é Um, mas eu tenho aprendido que ele se revela a cada um daqueles que o buscam segundo as suas capacidades. - Isso não quer dizer que Deus se manifeste sob formas que levem alguém ao engano ou que fortaleçam crenças errôneas. - Cada mente é uma percepção diferente da realidade, e o aprendizado não pode acontecer igualmente para todos. Mas em casos especiais, quando a consciência é subitamente expandida, a noite vira dia de um momento para o outro, e alguém se torna capaz de entender algo de que antes nem desconfiava, coisas de que apenas ouvia falar, sem compreender. Esse é o momento do renascimento espiritual, quando os paradoxos pessoais são superados, transcendidos e, afinal, descartados.



Mas eu não estou dizendo que o homem possa, de repente, se tornar um super-ser, um Deus caminhando sobre a Terra. Ter uma iluminação e transcender a ilusão das crenças limitadoras é como um salto na escalada da Grande Montanha. Você vinha escalando aquela Montanha passo a passo, metro a metro, e de súbito sente que avançou muitos quilômetros para cima, de uma só vez, sem esforço.

Você estava subindo devagar, olhava para o alto e só via rocha e nuvens brancas acima. De repente, sem esforço, você se vê escalando acima das nuvens! Então olha em volta e vê que tudo está diferente, mais claro, mais bonito. Sua visão agora é melhor, tudo é mais agradável, mais fácil. Você se sente revigorado, cheio de uma nova energia, enquanto uma paz infinita toma conta de tudo. É uma experiência maravilhosa, e você percebe que foi realmente agraciado. Mas então você olha pra cima e vê que ainda tem muita montanha pra subir! Assim é a vida do buscador, ao menos assim foi a Verdade que eu conheci até aqui. A experiência humana é justamente a busca pelo crescimento, pela evolução, o esforço na escalada e o aprendizado que alcançamos ao longo desse processo.

Acredito numa outra fase da existência humana, que virá num outro tempo, numa outra dimensão, uma realidade muito mais elevada do que esta, que nos está destinada. Não digo que não possamos caminhar na Luz hoje, agora, . Não digo que devemos esperar a chegada de um tempo futuro, quando todos os problemas se resolverão por si mesmos, e que em nossa condição atual tudo que nos resta é a resignação com a dor e o sofrimento. Não! Eu digo que aquele que vive e se move em Deus já vive no Paraíso aqui, agora. Se não fosse assim nada faria sentido. Mas percebo que a Consumação final, a Sublimação definitiva da experiência humana não se dará neste lugar e nem neste corpo físico limitado.

Falo essas coisas porque conheci inúmeros mestres, sábios e gurus ao longo da minha vida; e nenhum deles, jamais, demonstrou possuir sabedoria maior, ter ascendido a uma condição espiritual mais elevada, nem achei que se tratasse de um ser humano espiritualmente superior a mim mesmo, em nada. - E eu sou um buscador bem limitado. - O que estou tentanto dizer (que fique bem claro, antes que me chamem de soberbo) não é que sou tão bom que nunca encontrei ninguém melhor do que eu mesmo. O que estou dizendo é o exato oposto disso: eu, que não sou melhor nem mais iluminado do que ninguém, jamais conheci alguém que sinceramente pudesse considerar mais iluminado do que eu próprio, ou do que qualquer buscador da Verdade dedicado. Em outras palavras, todos temos virtudes e vícios, acertamos e erramos, temos nossos pontos fortes e fracos. A verdade é que todos os supostos mestres que eu conheci, e não foram poucos, quando confrontados, perdiam muito rápido a sua aparente serenidade 'iluminada'. Não sei se estou sendo claro, mas acho muito contraditório um ser divino, liberto das ilusões deste mundo, se irritar por ser contrariado. Se ele se alterou, se irritou, se moveu ou perdeu a calma por ter o seu status de 'iluminado' ameaçado, é óbvio que não se encontra realmente nessa alegada condição espiritual superior.

Um 'iluminado' muito especial que conheci, cujo nome prefiro não citar porque ainda o considero um amigo, afirmava ter alcançado o Nirbikalpa Samadhi, a mais elevada forma de despertar da consciência, o fim de todos os desejos e apegos limitantes, a vitória completa sobre as ilusões do mundo dos fenômenos. Nirbikalpa Samadhi é o alcance do discernimento final e definitivo. Esse homem tinha até um número relativamente grande de seguidores (que entre outras coisas bancavam suas viagens internacionais). Ele dizia que vivia em íntima e permanente conexão com Deus e o Universo, e que por isso não podia mais ser afetado por absolutamente nada de negativo deste mundo. - Mas ele era um diabético crônico e precisava tomar insulina regularmente! - Não sei, mas se você flutua acima do bem e do mal, intocado pelos males deste mundo, seria de se esperar que não sofresse com uma doença desse tipo, muito menos que precisasse de drogas químicas para viver bem. Como ele explicava isso? Simples. Dizia que não se curava de propósito, pois se encontrava num estado de tamanho desapego que a doença era a sua única linha de conexão com o mundo físico... Curioso, mas Buda não precisou viver doente para se manter conectado ao mundo, Jesus também não precisou disso... Então ele devia ser maior do que Buda e Jesus, pois era tão santo e puro, tão desapegado, que, se não fosse pela doença, subiria direto para uma esfera de existência mais elevada! Era isso mesmo que ele queria dizer? Isso eu nunca soube, porque ele ficou muito irritado quando eu perguntei e mudou de assunto tão rápido que me deixou tonto... Alguém que atingiu a iluminação definitiva se irrita com um questionamento sincero?

Só entrei nesse papo e me lembrei desse caso porque vi a chance de explicar porque, como já sabem, eu sempre desconfio, e muito, dos que dizem já ter alcançado a iluminação final, que vivem numa realidade onde nada de ruim pode molestá-los e etc. Aprendi que a experiência humana passa, necessariamente, por dificuldades. Elas são essenciais no processo da nossa existência nesta realidade. Isso quer dizer que não existam iluminados autênticos? Não sei. Eu li uma vez uma declaração de Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama (na obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990), afirmando que, apesar de muitos o considerarem uma encarnação de plena sabedoria, ele mesmo não acreditava nisso, e que não se sentia sábio o tempo todo. E não foi uma demonstração de humildade, ele realmente aprofundou o tema e falou que tinha dúvidas e limitações como qualquer pessoa comum... Isso faz pensar, porque ele é uma unanimidade entre os que crêem que é possível atingir uma condição espiritual perfeita e acabada já nesta experiência terrena. Ele é frequentemente citado como exemplo, mas ele mesmo não crê nisso!

Para ser bem honesto, as pessoas mais sábias e iluminadas que eu conheci, em toda a minha vida, foram aquelas que abriram mão das posses materiais para se dedicar, amorosamente, ao serviço de assistência ao próximo. Eu conheci algumas pessoas assim, como sabem. Oh, sim, esses são verdadeiros sábios, iluminados, santos. São gurus pelo próprio exemplo, pela postura, pela maneira como falam, como agem, como se movem. De vez em quando soltam uma palavra despretenciosa, sem nenhum alarde, quando menos se espera, e essa palavra é sempre tão poderosa, tão marcante, tão repleta de pura e singela sabedoria, que é capaz de mudar uma vida inteira de uma hora para outra. Já vi acontecer, e posso dizer que estes, estes sim, são seres de luz caminhando sobre a Terra. Eles quase não falam, não fazem discursos, não escrevem livros nem têm seguidores. Mas as suas palavras são incrivelmente impregnadas de sabedoria, e estar ao seu lado é sentir a presença de Deus.

Voltando à pergunta, objetivamente: como eu contei na primeira fase deste blog, a minha busca pessoal me levou ao Cristianismo, e dentro do Cristianismo encontrei o meu caminho dentro do catolicismo. Voltei à religião dos meus pais, ao 'lugar' onde toda a minha história começou, na minha mais tenra idade, numa procissão de Sexta-feira Santa. Exercer a minha espiritualidade e vivenciar a minha experiência de Deus dentro de uma comunidade muito antiga, praticar a minha religiosidade em acordo com uma forma religiosa milenar, me fez muitíssimo bem. Eu vivi experiências inefáveis antes, mas depois desse encontro o meu 'grau de intimidade' com Deus foi colossalmente expandido. As minhas antigas intuições se tornaram certezas. Foi e tem sido bom para mim, me ajudou e tem ajudado aos que convivem comigo. Se eu recomendo a minha religião? Somente aos que querem conhecer. Aí eu digo, apenas, que experimentem. Conheci e conheço muita gente que não tem preconceito com absolutamente nada, acha tudo bom, válido, se entrega sem medo às mais variadas experiências místicas, esotéricas, vai conhecer todo tipo de nova seita que surge, mas rapidamente torce o nariz quando falo da minha religião. Nesse ponto exato acaba a grande tolerância, e a mente aberta se fecha.

Algo que me chamou a atenção foi que, justamente aqueles que sempre defenderam a ideia de que religião não importa, que todas são válidas, todas dizem a mesma coisa e levam ao mesmo lugar, etc, etc... Foram exatamente esses os que mais me contestaram e alguns até se mostraram indignados quando eu revelei que estava praticando uma religião. Ficou muito claro para mim que, para essas pessoas, todas as religiões são válidas, menos uma. Contraditoriamente, essa reação soou como um claro sinal de que eu estava no verdadeiro caminho de Cristo: "O Caminho é estreito, e são poucos os que o encontram" (Mateus 7,14). Se eu pretendia seguir Jesus, era óbvio que precisava firmar posição. E foi o que fiz. O detalhe que faz toda a diferença (e que é difícil de entender pra muita gente) é que, como disse no começo, praticar uma religião não me limita, absolutamente. A verdade, ao menos no meu caso, foi o extremo oposto disso: libertação. Mas esse tipo de reação comum me diz muita coisa. Especialmente porque, antes, era exatamente assim que eu também pensava.

Para finalizar, preciso dizer que as respostas para essas perguntas não são definitivas. Não foram definitivas antes, não são agora e não creio que um dia venham a ser. A Verdade é a mesma ontem, hoje e sempre, mas a nossa capacidade de entendê-la se aprimora com o passar do tempo.



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Ama também a ti mesmo


Aprendemos desde cedo que amar a si mesmo é uma forma de egoísmo ou egocentrismo. A grande maioria de nós não conhece o Amor verdadeiro, que é o Amor que recebemos por sermos exatamente o que somos; o Amor que tem o poder de aquecer nossos corações e nos colocar em contato com o mais profundo de nossas almas.

Nascemos e aprendemos uma série de coisas a respeito da vida e muitas vezes deixamos que outros nos ensinem coisas a respeito de nós, - o que nem sempre é necessariamente ruim, mas às vezes as opiniões alheias ao nosso respeito passam longe do alvo, e mais atrapalham do que nos ajudam. - E o perigo maior é quando aceitamos e nos identificamos com alguma dessas opiniões equivocadas... Somente quando adultos (se de fato amadurecermos) percebemos que grande parte daquilo que aprendemos dos nossos pais, de familiares e de 'melhores amigos' era apenas o reflexo das suas próprias fantasias e frustrações.

Crescemos pressionados pela necessidade de atender a anseios que não são nossos, de cumprir funções, assumir responsabilidades e obrigações que não representam sequer uma fração daquilo que de fato somos ou do que queremos para nós. E como fazer para sobreviver a tantos padrões impostos, e a tantos recalques frustrações e angústias que assim vão surgindo? Aprendendo a sufocar nossos desejos mais caros, nossos mais belos sonhos, nossas mais acalentadas fantasias, e tudo em nome da aceitação, da sobrevivência em sociedade, da necessidade de sermos acolhidos e amados. É assim que aprendemos a respirar pouco, a não exteriorizar os nossos reais desejos, a não nos amarmos de fato.

Todos possuem marcas profundas produzidas pelo desamor. Até o dia que tudo em nós começa a adoecer. Nossos olhos perdem o brilho e nossa vontade se enfraquece. É preciso voltar a amar a si mesmo! Essa é a única cura. Mas Como fazer isso?

Amar a Deus e ao próximo são os maiores de todos os mandamentos. Nesse preceito máximo se encerra o segredo de toda a perfeição espiritual. Mas como alguém poderia ser capaz de amar qualquer coisa se não souber amar a si mesmo? Amor ao próximo e amor a si mesmo são duas faces de uma mesma moeda, são duas forças complementares que precisam estar equilibradas. Qualquer desnível, qualquer desequilíbrio nessa delicada balança, para qualquer um dos lados, provocará o caos. E sem equilíbrio ocorre a desarmonia, a doença, o sofrimento, os desencontros...

Amar a si mesmo é como uma viagem de aventuras, de descobertas gratificantes, ou pelo menos deveria ser. É uma tarefa que também se revela, muitas vezes, dolorosa, pois nesse percurso quase sempre nos deparamos com todos os limites que nós mesmos nos impusemos; - por não acreditarmos em nossas capacidades, em nosso verdadeiro potencial, por estarmos paralisados de medo de viver e de morrer.

Amar a si mesmo é muito, muito difícil, porque quase sempre esbarramos em estereótipos criados por antigas vozes dentro de nossas mentes. Nessa tentativa, às vezes desesperada, de entender e quem sabe descobrir alguma qualidade nossa que mereça admiração, olhamos no espelho. E muitas vezes encontramos somente desespero e tristeza, resultado do vazio que inventaram para nós e que chamaram de vida. - E que docilmente aceitamos.

A maioria das mulheres aprendeu durante sua história a amar seus filhos, seus maridos, seus pais, a Deus, mas nunca a si mesmas. Muitas mulheres ainda hoje buscam em si a imagem da esposa e mãe ideais, para que lhes seja permitido o Amor. Quanto aos homens, assim que nascem, aprendem que para serem honrados devem amar e sustentar suas famílias com o seu trabalho. E eles têm que ser sempre muito machos, não demonstrar emoções. O pior é que, se o fizerem, as próprias mulheres, que tanto reclamam do machismo no mundo, serão as primeiras a zombar e levantar dúvidas quanto à sua masculinidade... Muitas pessoas procuram uma solução clara e efetiva para os problemas do amor nos relacionamentos. Cada vez mais me convenço que a resposta depende do quanto cada um está disposto a amar a si mesmo.




Para embarcar na aventura de aprender a amar a si mesmo é preciso estar disposto a encarar toda sorte de batalhas interiores e, conforme nos ensina a lei da sincronicidade, os acontecimentos exteriores também. Aprenda a amar a si mesmo. Não um amor narcisista, mas o amor e o respeito profundo e suave àquilo que você é e ao Deus que vive aí dentro. Aprenda a ser amoroso consigo, a se fazer mais carinho, a se permitir fazer o que gosta de vez em quando, a se olhar como o ser sagrado que é. Você é uma fonte criadora em conexão direta com a Fonte Maior. Quando não ama a si mesmo, torna-se um mentiroso com relação ao Amor maior.

Não permita que outros façam com que você se sinta menos do que realmente é: um ser sagrado. Aprenda a se amar, sinta a energia que pulsa ao seu redor, procure observar suas reações, sentimentos e pensamentos e transforme-os, caso estejam impregnados de desamor. Esqueça tudo o que ouviu ao seu respeito e construa sua opinião própria, baseada na consciência, no auto-conhecimento e na auto percepção. Comece o dia agradecendo quem é, o que conseguiu com seus esforços. E se ainda não se sente como gostaria, pare neste exato momento de focar sua energia naquilo que não conseguiu na falta, nos buracos que a vida deixou pela ausência absoluta de amor e consciência.

Olhe sem medo para o que deseja ser e fazer, e planeje a forma com que deseja construir de fato a sua felicidade. Você já se condenou demais, pare agora de se machucar, de se auto punir, culpar. Quando você se olha e enxerga além do seu corpo físico, consegue entender que todo o Universo é feito de uma só e mesma energia, e que fazemos parte desse Todo. Nesse momento, o auto respeito e o amor próprio começam a brotar em nossas almas como uma plantinha pequena e delicada. Se regarmos todos os dias, ela crescerá, e isso será bom para todos.

Compre uma imensa tela e comece a pintar a sua nova história, hoje. Essa nova obra começará a ser criada quando você decidir arregaçar as mangas e começar a trabalhar na construção de uma nova realidade. Você só precisa acreditar que tem esse poder e se permitir, por amar a si mesmo, uma vida repleta de Paz, Amor, Saúde e Prosperidade. Por que não?

Ame-se e seja quem realmente é!


Adapatação de um texto da Dra. Helena Martins Daniel, do blog Dejo Vu.



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História do Cristianismo - 6

Reconstituição histórica




Retomando a sequência de postagens da enciclopédia das religiões do a Arte das artes, do ponto em que havia parado, - História do Cristianismo, - veremos agora um breve resumo sobre algumas particularidades a respeito do contexto histórico das narrativas dos Evangelhos...

Nunca a ciência se empenhou tanto na busca por reconstituir a trajetória do chamado 'Jesus histórico'. Especialmente nos últimos anos a arqueologia tem trazido importantes contribuições à pesquisa historiográfica da vida de Jesus, em alguns casos retificando e em outros ratificando os relatos evangélicos.

Mas foi somente a partir do século XVIII, com o advento do Iluminismo, que se iniciaram os estudos mais sérios e embasados na busca da realidade histórica por trás dos Evangelhos. Pesquisadores altamente gabaritados passaram a manifestar um desejo intenso de desvendar a verdadeira história de Jesus, um certo 'rabi' revolucionário que viveu na Palestina nas primeiras décadas do século I de nossa era, - de maneira desatrelada do Cristo da fé. - Foi só a partir daí que o personagem histórico começou a ser estudado, principalmente, a partir de uma análise crítica do texto bíblico e das descobertas da arqueologia.

O pesquisador francês Ernest Renan (1823-1892) foi um dos primeiros grandes popularizadores dessa empreitada, com seu best seller Jesus (1863), no qual tentava explicar toda a história do Cristo 'racionalmente', até mesmo seus milagres. - Uma tendência retomada por certos estudiosos atuais, e que ocasionalmente acabou por trazer à tona verdadeiras 'pérolas' do cientificismo, com as mais esdrúxulas e por vezes até infantis tentativas de explicação dos milagres relatados nos Evangelhos. Um bom exemplo é o pseudo-estudo de um professor de oceanografia que há alguns anos sugeriu que Jesus não caminhou sobre as águas, mas sim andou se equilibrando sobre um pedaço de gelo que poderia, supostamente, ter se formado na superfície do Mar da Galiléia. - Desnecessário dizer que tais tentativas de racionalização se revelaram sempre inconclusivas e incompletas, para dizer o mínimo. - Tomando o exemplo em questão: imaginando que realmente ocorreu formação de gelo naquele mar (o que por si só já é uma teoria bastante controversa), e indo mais além, admitindo a hipótese ainda mais improvável de que esse gelo pudesse formar calotas tão espessas a ponto de suportar o peso de um homem adulto sobre elas, ainda assim restaria explicar, por exemplo, porque somente Jesus foi capaz de fazer isso. E por quê, na narrativa bíblica, Pedro, ao tentar segui-lo, afundou na água assim que "perdeu a sua fé"? O importante é manter em mente que, se nos dispomos a explicar cientificamente uma narrativa textual, não podemos tomar uma pequena parte ou um aspecto isolado do texto e sugerir alguma teoria baseada em suposições, ignorando todo o restante dessa mesma narrativa. Além disso, os mesmos Evangelhos nos falam de Jesus acalmando as tempestades, curando deformidades físicas apenas pelo poder da sua palavra, ressuscitando os mortos e se transfigurando, isto é, mostrando sua verdadeira forma que "brilhava mais que o sol". Como explicar coisas como essas 'cientificamente'? O que sempre se refutou não foi o questionamento dos racionalistas por si, mas sim esse tipo de atitude insensata e a incongruência desses questionamentos.

De modo geral, porém, a partir do século XX os estudos centrados no texto bíblico adotaram tons menos apaixonados, deixando um pouco de lado a batalha inicial dos racionalistas contra a fé, e passaram a uma busca legítima por elementos que permitissem reconstruir a vida e as palavras do que chamaram "Jesus histórico". As frases consideradas mais prováveis de terem sido realmente proferidas por Jesus foram reunidas e publicadas; e cada episódio de sua pregação foi estudado afim de se verificar a sua plausibilidade. Nos últimos anos, a arqueologia tem fornecido importantes aportes a esse conhecimento, e, para surpresa de muita gente, vem corroborando e/ou complementando aquilo que está nos Evangelhos. Não são poucas as novidades.


O Ossuário de Caifás




Em novembro de 1990 alguns operários que trabalhavam em uma parte da cidade antiga de Jerusalém encontraram uma caverna usada para sepultamento, que se encontrava fechada desde o ano de 70 dC., época da destruição da cidade pelos dominadores romanos. No ossuário achou-se o nome em aramaico Caiaphas, isto é, Caifás, juntamente com os ossos dos membros da sua família, ali colocados após a decomposição da carne. Ossuários eram usados por famílias judaicas de elite, e, talvez, reflitam a crença na ressurreição futura. A pesquisa aprofundada desse artefato confirmou as sensacionais expectativas que se faziam ao seu redor: foi comprovado que se tratava, verdadeiramente, da autêntica urna mortuária do sumo sacerdote Caifás, mencionado nos Evangelhos como aquele que presidiu a dois dos julgamentos de Jesus.

O ossuário é decorado com dois círculos, formados por seis rosetas cada. Mencionam-se ali diversos membros de sua família, como Miriam (Maria), Shalom (Salomé), Shimom (Simão) e Iehosef (José). Encontram-se nele os ossos de duas crianças, um menino adolescente, uma mulher adulta e um homem de cerca de 60 anos, - o próprio sumo sacerdote Caifás, referido nos Evangelhos de Mateus e João. - A tumba, relativamente simples, indica sua origem modesta, o que coincide também com a narrativa evangélica, porque Caifás teria chegado ao sumo sacerdócio graças a seu casamento com a filha de Annás, sumo sacerdote entre 6 e 15 dC.

Considerando-se as outras sepulturas de elite do mesmo local e época, chama atenção a alta mortalidade infantil: das pessoas enterradas, 40% não chegaram ao quinto ano de vida e 63% não alcançaram a adolescência(!). Outra constatação interessante, relativa à tumba de Caifás, é que, nela, uma mulher da família tinha uma moeda de Agripa (42/43 dC) na boca, refletindo o antigo costume grego ligado ao pagamento do personagem mitológico Caronte, o barqueiro encarregado de levar a alma do defunto para o mundo dos mortos. Isso demonstra o ecletismo cultural da época, que prevalecia até mesmo na família do sumo sacerdote.


A Inscrição de Pilatos

Em 1962, arqueólogos italianos encontraram, nas ruínas do teatro de Cesaréia Marítima, sede do poder romano, uma inscrição com o nome de Pôncio Pilatos. No Mediterrâneo oriental, os romanos usavam em geral a língua grega, mas a inscrição está em latim:




"Pôncio Pilatos, prefeito da Judéia, construiu este edifício em honra ao imperador Tibério."


O uso de uma língua oficial, pouco difundida na região, demonstra o caráter imperial da mensagem e também, provavelmente, a presença de uma pequena mas poderosa comunidade itálica, compondo um quadro multicultural na costa mediterrânea.

Em contraste, na aldeia de Cafarnaum, um terreno sob a custódia dos franciscanos, foram encontradas ruínas e inscrições datadas do século II dC. Os pesquisadores aventaram a séria e muito provável hipótese de que se trataria de nada menos que a casa de Pedro, na qual o próprio Jesus teria muitas vezes estado e provavelmente morado!


A Casa de Pedro


Um sítio arqueológico privilegiado, pois a Casa de Pedro era locacalizada entre o Mar da Galiléia e a Sinagoga de Cafarnaum, esta edificada pelo centurião da Cidade onde Jesus ensinou.


O nome Cafarnaum pode significar tanto 'Vila da Consolação' como 'Vila de Naum', um antigo profeta hebreu cujo livro faz parte do Antigo Testamento. Essa última opção é apoiada por uma tradição judaica que afirma que o túmulo do profeta está enterrado ali. A cidade foi descoberta por um arqueólogo norte-americano chamado Edward Robinson em 1852, mas somente foi escavada por uma equipe, liderada por Charles Wilson, em 1865 e 1866. Foi ali que Jesus dedicou a maior parte do seu ministério, realizando milagres (Mt 9:18-26; Mc 5:21-43; Lc 8:40-56), e ensinando na sinagoga local (Mc 1:21; 3:1-5; Lc 4:31; Jo 6:59).

Mas um dos achados arqueológicos mais fascinantes de Cafarnaum é a da possível casa do Apóstolo Pedro. Foi por volta de 1968 que dois outros arqueólogos, G. Orfali e A. Gassi, encontraram a estrutura de uma igreja que datava do 5º século de nossa era. Uma importante descoberta, mas que não poderia nem de longe se comparar à grande surpresa que teriam logo a seguir: logo abaixo dessa construção milenar eles encontraram os alicerces de uma casa repleta de objetos de pesca, datada da época de Jesus e seus discípulos(!). O mais emblemático dessa inestimável descoberta é que um documento chamado Itinerarium, escrito por Egéria, no 4º século, afirma que a “casa do príncipe dos apóstolos foi transformada em igreja; contudo, as paredes da casa ainda estão de pé, como eram originalmente”. Sim. Havia uma concreta e real possibilidade de que estivessem na casa de Pedro, aquele a quem foram dadas as chaves do Reino do Céu, para que tudo que ligasse na Terra fosse ligado também no Céu, conforme os versículos 17 a 19 do capítulo 16 de Mateus.


Foi construído um memorial sobre os restos da 'Casa de Pedro', como forma de proteger a estrutura do primeiro século do processo depredatório da visitação turística.


Interior do Memorial, um recinto de orações e reflexão, em cujo centro foi assentado um piso de vidro transparente que permite aos visitantes contemplar as ruínas sem contato físico.


Outra descoberta marcante em Cafarnaum foram os restos da sinagoga do 1º século. De 1905 até 1926 o sítio foi preservado e restaurado por especialistas alemães e franciscanos. Mas até então, todas as especulações apontavam para uma construção do 3º ou 4º século. Em 1968, porém, os estudos mais avançados revelaram restos de uma outra estrutura. E em 1981 um largo piso de basalto foi encontrado repleto de cerâmicas (potes, vasos, copos, etc.) do 1º século, época de Cristo. Ficou demonstrado que, sem dúvida, esses eram os escombros daquela sinagoga frequentada por Jesus, como mencionado nos Evangelhos. Foi nessa mesma sinagoga que Jesus declarou: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (João 6,51).

Mesmo que não possamos ter absoluta certeza quanto a chamada 'Casa de Pedro', já chamada por entusiastas de 'Endereço do Mestre', há uma grande probabilidade dessa confirmação. E podemos afirmar com certeza, isso sim, que aquela era uma casa modesta da época de Cristo, pertencente a um pescador, em uma área muito visitada por Jesus, e que desde a Antiguidade já se acreditava que era a residência do Apóstolo Pedro, o 'Pai da Igreja'. E o fato de ter sido construído um templo sobre essa antiga estrutura é uma fortíssima indicação da autenticidade do precioso achado.


O Barco de Jesus


O 'Barco de Jesus', atualmente no Museu do Pescador em Israel


A mesma aura de 'arqueologia espetacular' aparece em outros achados recentes. Em meados da década de 1980, uma longa estiagem levou ao rebaixamento do nível do Mar da Galiléia. E quando o nível da água estava mais baixo, em janeiro de 1986, dois membros do kibutz (fazenda coletiva) Ginnosar notaram que havia uma estrutura de madeira muito antiga no meio da lama. A água e a lama haviam preservado a madeira por séculos. Escavando com as mãos, perceberam se tratar de um barco de pescador(!)...

O barco, de cerca de 3 X 8 metros, abrigava em seu interior cerâmicas e lamparinas do primeiro século, datação confirmada pelo exame de carbono-14 da madeira. O uso de materiais baratos mostra a humildade dos pescadores da Galiléia que conviviam com Jesus. Seria o barco utilizado por Jesus, de dentro do qual o texto bíblico afirma que ele, entre outras tantas coisas, acalmou as tempestades? Esta é uma possibilidade real.


Restos de um judeu crucificado




Apenas os que não eram cidadãos romanos, majoritariamente os escravos ou os pobres, eram crucificados. Os romanos podiam ser condenados à morte, mas não à crucificação, uma punição considerada humilhante demais para a dignidade romana, mesmo aos criminosos. Em 1968 foi encontrada, perto de Jerusalém, em Givat Hamitvar, uma necrópole com uma tumba familiar datada do I século dC. Uma das ossadas era de um homem com cerca de 1,65m a 1,73m de altura e idade entre 24/28 anos, chamado Yohanan Ben Ha'galgol. Seu calcanhar direito havia sido perfurado por um prego de uns 10 cm. Esse prego entortou ao ser martelado na madeira dura de oliveira que servia como suporte na cruz, e ao que tudo indica seus familiares não puderam retirá-lo do osso após a morte do condenado. Desse modo, prego e madeira ainda estavam ligados ao pé do cadáver quando foi retirado.

Os restos mortais demonstram que os seus braços haviam sido amarrados à cruz, e não pregados, e que suas pernas não foram quebradas, diferente do costume. De maneira incomum, assim como no caso de Jesus, as autoridades permitiram que o corpo desse condenado fosse sepultado. Graças a esse achado muito raro, podemos confirmar que se podia pregar os crucificados à cruz com muita eficiência, e também que, ainda que excepcionalmente, era permitido sepultá-los. Acontece que nenhuma dessas duas afirmações dos Evangelhos, - o uso de pregos e o sepultamento de um condenado à crucificação, - parecia verossímil até essa descoberta arqueológica: ambas eram muito contestadas por pesquisadores céticos.


***


As pesquisas recentes trouxeram também muitas informações inéditas sobre os diversos ambientes urbanos da Palestina da época de Jesus. Cesaréia e seu porto, Sebastos, eram os mais ambiciosos e ousados projetos urbanísticos do Mediterrâneo Oriental. Graças às escavações, sabemos que a cidade portuária era um importante entreposto comercial. Por ela fluíam grãos, vinho e azeite, resultando disso um sofisticado aparelhamento urbano. Arqueólogos israelenses e americanos revelaram o traçado ortogonal das ruas e edificações, com ricas fachadas e telhados, ornamentadas por colunas, revestimentos de mármore, mosaicos e paredes decoradas com pinturas. Cosmopolita, mediterrânea, Cesaréia englobava tradições judaicas, gregas, romanas e outras, num amálgama sofisticado que reforçava as relações hierárquicas, unindo antes de tudo as elites locais e as imperiais.

Em Jerusalém, Herodes ampliou e embelezou o Templo, transformando o monte Moriá na maior plataforma monumental de todo o Império Romano. Desde o final da década de 60 a Universidade Hebraica de Jerusalém tem levado adiante escavações na colina ocidental da Cidade Velha, que dá para o monte do Templo e era habitada pela elite judaica. Uma série de mansões, anteriores à destruição da cidade pelos romanos em 70 dC, data, grosso modo, da época de Jesus. Uma das mansões, comparável às maiores do mundo romano, apresenta afrescos nas paredes semelhantes aos do segundo estilo de Pompéia. A residência ostentava ainda mosaicos no solo, cerâmica local e importada, vidros(!), lamparinas e instalações destinadas aos banhos rituais judaicos (miqvot). A descoberta revela que as casas senhoriais judaicas, preocupadas com a pureza ritual, estavam bem integradas nas modas e estilos de vida das elites romanas.

Tiberíades e Séforis eram outros núcleos urbanos importantes, habitados em sua maioria por judeus, mas mostravam também uma mescla de tradições judaicas com o helenismo romano, sempre no que se refere às elites.


Massada e Qumram

Mas nem toda a elite judaica estava compactuada com os dominantes romanos. A resistência ou recusa ao acordo pode ser avaliada por dois grandes monumentos arqueológicos; Massada e Qumram (assunto para um próximo post). A ocupação da colina de Massada por rebeldes judeus, algumas décadas depois da morte de Jesus, mostra a vitalidade da revolta nacionalista judaica. Mas a descoberta que mais causou sensação foi a do complexo de Qumram, às margens do mar Morto. Ali vivia uma comunidade de essênios que cultivava um estilo de vida austero, bem distante do cosmopolitismo das elites judaicas de Cesaréia, Jerusalém ou mesmo de Séforis.

Os essênios praticavam banhos rituais, copiavam as escrituras, com destaque para a literatura profética (neviim), e também criticavam as elites judaicas urbanas. Mas do que tudo, opunham-se à cúpula sacerdotal de Jerusalém. Embora nada indique concretamente que Jesus tenha conhecido a comunidade, a sua oposição à elite sacerdotal constitui um ponto em comum entre Qumram e o movimento sem precedentes iniciado pelo Homem de Nazaré.



Este post foi baseado num artigo do Prof° Pedro Paulo A. Furnari, Professor titular da Universidade Estadual de Campinas, pesquisador associado da Ilinois State University e da Universidad de Barcelona, e coordenador associado do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp.


Informações adicionais:

http://www.cristohistorico.hpg.ig.com.br/arq1.htm

http://www.arqueologiadabiblia.com/2009/01/o-endereo-do-mestre.html


Fontes e bibliografia:
THOMPSON, John A. A Bíblia e a Arqueologia, São Paulo: Arte Editorial, 2000;
COUTO, Sérgio Pereira. A Incrível História da Bíblia, São Paulo: Universo dos Livros, 2004;
LIBÂNIO, J. B. Igreja Contemporânea: Encontro com a Modernidade, São Paulo: Edicoes Loyola, 2000.



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