Joseph Campbell, o sacrifício e a unidade

O multifacetado Joseph Campbell


Joseph Campbell nasceu e cresceu em White Plains, Nova York, numa família católica de classe média-alta. Quando criança, ficou fascinado pela cultura ameríndia, depois que seu pai o levou para conhecer as coleções do Museu de História Natural de NY, onde ele viu um quadro com as coleções de artefatos de nativos americanos. Acabou por dedicar sua vida ao estudo dos mitos e ao mapeamento das semelhanças que aparentemente existiam entre as mitologias das mais diversas culturas humanas. Chegou a estudar biologia e matemática, mas acabou se decidindo definitivamente pelos estudos nas áreas humanas. Transferiu-se para a Universidade de Columbia, onde completou sua graduação em literatura inglesa em 1925 e o mestrado em Literatura medieval em 1927.

Uma de suas grandes contribuições foi associar a recorrência de mitos semelhantes nas mais diversas tradições, traçando assim o que chamou 'Caminho do Herói': descobriu que muito antes dos cavaleiros medievais se encarregarem de matar dragões no imaginário popular, os contos de aventuras heróicas já faziam parte de todas as culturas mundiais. Campbell lançou então um desafio: vermos a jornada heróica em nossas próprias vidas, cada um de nós.

Joseph Campbell compara a história da criação do Gênesis com as diversas histórias de criação das múltiplas culturas ao redor do mundo. Percebeu que, por causa das constantes mudanças que acontecem na história do mundo, a religião vai sendo transformada, e novas mitologias são criadas. Chegou à conclusão de que, hoje em dia, as pessoas continuam se apegando aos mitos, mesmo que não estes não lhes tenham mais serventia.

Campbell trouxe também à discussão o papel do sacrifício no mito, que representa a necessidade do renascimento simbólico e da renovação. Ele enfatizou a necessidade de cada um encontrar o seu 'lugar sagrado' neste mundo tecnológico e acelerado. - Esse grande pensador proporcionou ao mundo novas e interessantes visões sobre conceitos como Deus, religião e eternidade, e como foram revelados nos ensinamentos das religiões e nas crenças, além de se aprofundar no estudo de Schopenhauer e Jung, entre outros.

Seu exaustivo trabalho de quatro volumes, intitulado As Máscaras de Deus, trata da mitologia através do mundo, desde a antiguidade até os tempos atuais, focando as variações históricas e culturais do monomito, com bases antropológicas e históricas. Já a obra O Herói de Mil Faces foca as idéias elementares da mitologia, baseando-se principalmente na psicologia.

Em outras postagens, eu andei citando Joseph Campbell por aqui, e nem teria como ser diferente. Agora estou postando um trecho de uma famosa entrevista que ele concedeu ao jornalista Bill Moyers. Enjoy now!




Campbell: Há um magnífico ensaio de Schopenhauer em que ele pergunta como um ser humano pode participar tão intensamente do perigo ou da dor que aflige o outro a ponto de, sem pensar, espontaneamente, chegar a sacrificar a própria vida por esse outro. Como pode acontecer a brusca anulação daquilo que normalmente concebemos como a primeira lei da natureza, a autopreservação?

No Havaí, há cerca de quatro ou cinco anos, deu-se um evento extraordinário que ilustra bem a questão. Há um lugar lá chamado Pali, onde os ventos do norte passam rápidos através de uma grande cadeia de montanhas. As pessoas gostam de ir lá em cima, para ver seus cabelos agitados ou, às vezes, para cometer suicídio -– você sabe, algo como saltar da Golden Gate Bridge.

Um dia, dois policiais dirigiam pela estrada de Pali quando viram, encostado à amurada que protege os carros do perigo do despenhadeiro, um jovem que se preparava para saltar. O carro de polícia parou e o policial à direita pulou para agarrar o jovem; mas o fez no instante em que este saltava, e acabou sendo carregado pelo outro; o segundo policial chegou a tempo de puxar os dois.

Você se dá conta do que subitamente aconteceu àquele policial que quase morreu junto com o jovem desconhecido? Tudo o mais em sua vida foi esquecido -– seus deveres para com a família, seus deveres para com o trabalho, seus deveres para com sua própria vida –- todos os seus desejos e esperanças em relação à vida simplesmente tinham desaparecido. Ele estava a ponto de morrer.

Mais tarde, um repórter lhe perguntou: “Por que você não o deixou cair? Você teria morrido com ele”. Sua resposta foi: “Não podia. Se tivesse deixado aquele jovem cair, não poderia viver nem mais um dia da minha vida”. Como é possível?

A resposta de Schopenhauer é que tal crise psicológica representa a abertura para a consciência metafísica de que você e o outro são um, de que você é um dos aspectos de uma só vida, e que a sua aparente separação é apenas resultado do modo como vivenciamos as formas, sob as limitações de tempo e espaço. Nossa verdadeira realidade reside em nossa identidade e unidade com a vida total. Esta é uma verdade metafísica, que pode surgir espontaneamente em circunstâncias de crise. Pois esta é, de acordo com Schopenhauer, a verdade da sua vida.

O herói é aquele que deu sua vida física em troca de alguma espécie de realização dessa verdade. A idéia de amar seu próximo é pôr você em sintonia com esse fato. Mas, quer ame ou não o seu próximo, quando a realização o pega, você pode arriscar a própria vida. Aquele policial havaiano não sabia quem era o jovem a quem ele tinha oferecido a própria vida. Schopenhauer declara que, em proporções reduzidas, você vê isso acontecer todos os dias, o tempo todo, movendo a vida na terra -– pessoas tendo gestos desprendidos em relação a outras pessoas.


Moyers: Então, quando Jesus diz “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, ele na verdade está dizendo: “Ama o teu próximo porque ele é tu mesmo”.


Campbell: Há uma bela figura na tradição oriental, o bodhisattva, cuja natureza é a compaixão ilimitada e de cujos dedos diz se que escorre ambrosia até as profundezas do inferno.


Moyers: Qual é o significado disso?


Campbell: No final da Divina Comédia, Dante se dá conta de que o amor de Deus impregna todo o universo, até as mais fundas cavernas do inferno. É aproximadamente a mesma imagem. O bodhisattva representa o princípio da compaixão, o princípio curativo que torna a vida possível. A vida é dor, mas a compaixão é que lhe dá a possibilidade de continuar. O bodhisattva é aquele que atingiu a consciência da imortalidade, por meio da sua participação voluntária no sofrimento do mundo. Participação voluntária no mundo é muito diferente de apenas ter nascido nele. Este é exatamente o tema da declaração de Paulo sobre Cristo em sua Epístola aos Filipenses, segundo a qual Jesus “não pensou na condição divina como algo a ser conservado, mas tomou a forma de um servo aqui na terra, para morrer na cruz”. É uma participação voluntária na fragmentação da vida.


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Este pequeno 'aperitivo' dá uma idéia do muito que há para ser dito a respeito do trabalho de Joseph Campbell. É mais uma promessa de postagem que fica...



Fonte:
As informações a respeito da biografia de Joseph Campbell são do portal oficial da
Fundação Joseph Campbell.



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Dr. Atheist

Amigos, durante esta semana não poderei escrever grandes postagens para o Arte. Mas como não quero deixar meus fiéis companheiros na mão, vou atualizar o espaço diariamente com algumas 'coisinhas' breves e simples que já tenho e acho interessantes. E também vou copiar e colar alguns textos que tenho prontos, ok? O primeiro é esse vídeo incrível, onde um verdadeiro gênio cientificista fala sobre espiritualidade e ciência, um tema que tem a ver com a postagem anterior.




E aí, gostaram? Não exagerei quando chamei de gênio, não é? Que aula, que cara incrível...


Fiquem em paz.



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Em busca da Libertação Final - 2

Constestações religiosas e racionais


O que é religião? Certo, todo mundo já sabe que a etimologia mais aceita é a do latim religare (religar), mas outras versões indicam que poderia derivar do latim relegere (ler de novo / colher de novo) ou ainda do verbo grego alegeyn ('eligião': venerar). Mas descobrir a origem real da palavra não faria diferença, já que todas as alternativas apresentam a ideia de dois termos que se religam, ou uma realidade final que volta a se unir a uma realidade inicial. - O significado da palavra religião só me parece interessante porque faz perceber que há uma realidade transcendente sendo exposta aí, já no significado da palavra em si: a tradução do termo já ensina muita coisa.

É que todas as grandes religiões desde planeta, desde as ancestrais, como o judaísmo e o hinduísmo, até as mais (relativamente) 'recentes' como o zoroastrismo, o jainismo, o budismo e o cristianismo, entre muitas outras, são unânimes em afirmar que o homem se encontra separado da Fonte, que se afastou de sua origem divina e que precisa urgente retornar a ela. Algumas tradições, como o hinduísmo, dizem que tudo que experienciamos nesta realidade é ilusão, e que a Arte das artes seria o aprendizado da visão que vai além dos véus ilusórios que nos cercam. - Não por acaso, no cabeçalho deste blog você vê alguém tateando por trás de um véu, buscando alcançar o que está além. - Este seria o caminho para o Yoga, isto é, a Re-União com Deus, uma outra maneira de dizer 'religião'. Outras tradições, como o judaísmo, dizem que o homem primordial, em algum momento, falhou na sua missão cósmica, quebrando a harmonia perfeita que um dia existiu entre ele e a Deidade, e é por isso que nos encontramos atualmente neste estado inferior, submetidos a toda sorte de limitações.

Na verdade, essas são as duas visões clássicas da Metafísica, e todas as linhas de pensamento espiritualistas, em maior ou menor grau, com enfeites e diferenças formais superficiais, concordam com uma dessas propostas. Mas o fato realmente interessante, que não pode deixar de ser percebido, é que essas duas visões não são assim tão diferentes: em essência, não chegam a se contradizer. Os mestres hindus (hinduísmo: raiz de todas as tradições orientais, inclusive o budismo) ensinam que "pecado" é se distanciar da Verdade e acreditar no que é falso; já os rabinos (judaísmo: raiz de todas as religiões ditas ocidentais, inclusive o cristianismo) ensinam que o pecado entrou no mundo através de uma mentira/ilusão. Estamos diante de definições que, se por um lado não são idênticas, por outro não podem ser consideradas antagônicas. Por que razão e de que maneira não sabemos, - se por acreditar na ilusão ou em consequência do pecado, sendo que o pecado é crer na ilusão, e a ilusão é a raiz de todos os pecados, - mas o fato é que todas as tradições concordam que o homem se distanciou e se encontra separado da sua Fonte Divina Primordial, que chamamos Deus, e as formas religiosas servem para nos auxiliar a retornar a ela.

A grande questão que surge, e é aqui que começam as contestações, é que eu tenho descoberto, na minha experiência de vida, que na verdade não existe religião formal. Penso que nunca existiu e nunca existirá de fato uma escola formal que possa ensinar, profunda e definitivamente, a Arte das artes.




As muitas e diferentes mentes, mesmo dentro de um mesmo templo, precisam de coisas diferentes, anseiam por coisas diferentes e pensam de maneiras diferentes. Além disso, inevitavelmente entendem o que está sendo dito de modos diferentes, às vezes até mesmo a respeito das questões mais básicas. E isto implica dizer que, assim como existem maneiras diferentes de se entender Deus, devem existir também diferentes posturas ideológicas/espiritualistas autênticas. O que descubro é que cada ser humano sobre a Terra tem a sua própria religião particular. - Cada um de nós. - Dentro de cada indivíduo existe um universo de crenças, identificações, rejeições e condicionamentos que constroem a sua religião única e particular.

Resumindo: mesmo dentro de uma mesma comunidade, cada mente é uma mente, cada indivíduo tem a sua própria religião, que é única e diferente de todas as demais. E as diferenças podem se referir até mesmo às questões mais básicas dessa fé comum. Os membros de uma mesma comunidade, que aceitam comunalmente os mesmos preceitos e bases de fé, via de regra carregam, em seu íntimo, inúmeras divergências, algumas essenciais. Isso é algo para se pensar.

Mas o que realmente me chateia dentro da esfera religiosa é a falta de questionamento (outras vezes de inteligência, mesmo) da grande maioria dos assim chamados "religiosos". O movimento ateísta cresce, e eu digo que esse movimento é importante e precisa acontecer neste momento. Por quê? Porque nós estamos vivendo atualmente na era da razão, uma era de grandes descobertas da ciência, de conquistas jamais sonhadas. A humanidade evoluiu mais nos últimos 30 anos mais do que nos 30.000 anos anteriores juntos! Hoje se fala em inteligência artificial, na descoberta da Teoria do Tudo, nas novas drogas que já estão sendo produzidas e que vão turbinar o cérebro humano... E nada disso é ficção científica! Estamos nos tornando mais espertos, estamos vivendo mais, e cada nova descoberta da ciência parece derrubar uma antiga crença da religião. Parece brincadeira, mas não é: há menos de um século, uma grande parte da população ainda acreditava que Deus vivia no céu, literalmente, logo acima de nós, entre nuvens e anjos voadores.

Minha avó contava para minha mãe a história bíblica da Torre de Babel, quando os seres humanos tentaram construir uma torre para chegar até o céu, a morada do Todo Poderoso, e já estavam quase conseguindo! Deus então resolveu confundir as línguas dos homens, e a partir daí eles já não se entendiam mais. Sem conseguir se entender, a construção da gigantesca torre não pôde ser concluída... Entendam bem que, segundo o relato do Gênesis, se nada fosse feito, a torre teria sido construída e os homens teriam conseguido chegar ao céu, morada dos anjos! Deus precisou usar desse artifício para que os homens não pudessem alcançá-lo... Me impressiona saber que até há pouco tempo muita gente ainda acreditava nisso, literalmente! Agora, você quer saber de uma coisa ainda mais incrível? Ainda tem gente que hoje, neste exato momento, em pleno século 21, ainda insiste em aceitar essas histórias literalmente, parágrafo por parágrafo!

Acontece que os povos antigos, incluindo os hebreus, acreditavam que o "céu" era formado por uma imensa abóbada azul que cobria a crosta terrestre, que por sua vez era limitada por abismos e mares. Hoje, porém, o homem não precisa mais construir torres para saber o que há além do azul visível: hoje temos foguetes que superam os limites do "céu" com a maior facilidade, e vão muito além disso! E é claro que, bem antes disso já existia o telescópio (inventado em 1608), que nos permitiu descobrir, entre outras coisas, que a Terra não era o centro do Universo e que o azul do céu era apenas uma ilusão. Aquilo que os antigos entendiam por "céu", na verdade não existe, e o que está acima das nossas cabeças é coisa muito diferente do que descreve o livro do Gênesis.


A concepção hebraica do Universo na época do Gênesis
(clique sobre a imagem para ampliar)


É por isso que o movimento ateísta cresce tanto no mundo. As pessoas mais inteligentes estão preocupadas com a onda de fundamentalismo que toma conta do planeta. E eles estão certos! A verdade é que a espiritualidade anda muito mal representada. Pergunta que não quer calar: se todas as grandes religiões do mundo pregam a paz, o Amor e a fraternidade entre os homens, porque a religião (todas elas, até as mais pacifistas, como o budismo) gera tantos grupos de fanáticos fundamentalistas?

Isso leva muita gente à percepção falsa de que a religião é um fenômeno nocivo e que a salvação só pode estar na ciência... O que também é um engano terrível e um tipo de fundamentalismo tão ridículo quanto o religioso. A ciência, assim como a religião, pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Afinal de contas, foi a ciência, e não a religião, que legou à humanidade a bomba atômica, as armas químicas, os agrotóxicos e a poluição ambiental que ameaça destruir o planeta. - Se por um lado a religião, quando incompreendida, pode trazer problemas, é claro que o materialismo também não é a resposta final. "Religião é veneno!" - Gritam os ateus idiotas... "O nosso livro sagrado é a única fonte da verdadeira ciência!" - respondem os zumbis fundamentalistas da religião...

Onde vamos parar? Quem disse que para ser espiritualizado é preciso ser irracional? Quem foi que disse que para ser racional é preciso recusar a religião? Por que precisamos viver eternamente vagando entre os extremos opostos? A harmonia entre esses aparentes opostos é não só possível, como, mais do que isso, representa a solução para uma vida mais bela, mais rica, com sentido e com propósito! A coisa mais bela acontece quando alguém descobre essa chave da vida, como aconteceu com Antony Flew, o ateu ativista mais importante do século 20, uma figura antirreligiosa legendária que recentemente descobriu que "sim, sim... Deus existe!" Ele finalmente entendeu a razão inescapável do argumento da Causa Primeira ou Causa Não Causada. Se para tudo que existe é preciso que exista uma causa, necessário se faz que exista uma Causa Primeira, uma Causa Não Causada, que foi a origem de todas as outras coisas. Em caso contrário, seríamos levados a uma regressão infinita de causas causadas e à inevitável pergunta: "Quem criou Deus?" - É por isso que Causa Não Causada é a melhor definição (científica) possível para Deus. Deixo uma breve explicação:

Sabe-se que toda causa é anterior ao seu efeito. Assim sendo, por exemplo, uma planta nasce (efeito) porque uma semente foi plantada (causa). Para uma coisa ser causa de si mesma teria de ser anterior a si mesma, por isso não há coisa alguma que seja causa de si mesma. Desse modo, se for supressa uma causa, fica supresso o seu efeito. Supressa a causa não haverá o efeito. Se a série de causas concatenadas fosse indefinida, não existiria causa eficiente primeira, nem causas intermediárias nem efeitos desta, e nada existiria. Ora, se coisas existem, a série de causas eficientes tem que ser definida. Existe então uma Causa Primeira que tudo causou e que não foi causada. Em algum momento, alguma coisa tem que ter surgido de uma Causa não causada.




Stephen Hawking, em "Uma Breve História do Tempo" reconheceu que a teoria do Big-Bang exige um Criador. Diz a tradição que Sócrates morreu dizendo: "Causa das causas, tem pena de mim". A negação da Causa Primeira leva a ciência materialista a se contradizer a si mesma, pois ela concede que tudo tem que ter uma causa, mas ao mesmo tempo nega que haja uma Causa do próprio Universo! Isso para mim não é ciência, mas uma nova espécie de religião irracional.

A Causa Primeira é a única resposta possível para aquelas perguntas que surgem, inevitavelmente, quando se fala das origens de tudo: Se o Universo surgiu do Big Bang, o que provocou o Big Bang? O que havia antes do Big Bang? "Um ponto ínfimo de energia absurdamente compactada, sem volume, mas com densidade e temperatura monstruosos, quase incalculáveis", é a resposta-padrão. Ok, mas o que gerou o ponto de energia? Como surgiu?? Qual a causa de tamanha compactação de densidade??? Qual a origem do ponto????

Por mais que se tente, não há para onde fugir, a tese da Causa Primeira é de uma lógica inescapável, da qual nem aquele que é considerado o homem mais inteligente do mundo (Stepehn Hawking, e não o Ozymandias de 'Watchmen') consegue fugir: "Em algum momento, alguma coisa tem que ter surgido do Nada". E não há como não reconhecer que o 'Nada' em questão, no mínimo, se parece muito com o que o conceito religioso convencionou chamar 'Deus'.

Sou um apaixonado pela ciência, e não poderia ser diferente, porque sou absolutamente, desvairadamente, perdidamente apaixonado por Deus. Eu amo minha esposa, o que me faz amar mais a Deus. Amo meus filhos, o que me faz amar a Deus mais e mais, pois considero que tudo me foi dado por Ele, inclusive a capacidade de amá-los. - Regredindo no raciocínio, por amar minha esposa, acabo amando tudo o que vem dela e as coisas que ela faz. Hoje mesmo fui agraciado com um café na cama, e eu amei aquele café. A ciência estuda a Natureza e o mundo natural, que na minha concepção vem de uma Causa Maior e não causada que chamo Deus. Por extensão, amo a ciência! Preciso amá-la. Acho mesmo que tanto as formas religiosas tradicionais quanto a ciência são, ambas, formas de religião no seu sentido original. Para mim, não há nenhuma contradição entre a boa e verdadeira ciência e o caminho religioso.

E se a ciência comprovou que acima de nós não há uma abóbada por cima da qual flutuam os anjos, isso só pode ser bom! Estamos nos aperfeiçoando em nossa maneira de nos relacionarmos com Deus. A cada antigo mito que a ciência derruba, isso nos coloca mais perto de Deus! O que pode haver de negativo nisso? A Natureza é criação de Deus. Se eu sei disso, tenho que aceitar que conhecer e interpretar a Natureza é como ler o mais sagrado de todos os livros, pois "é obra de Suas Mãos"... Os que temem o avanço da ciência demonstram não estar verdadeiramente seguros na sua fé. Se o Deus em que eu creio é real, não tenho nada a temer. Quanto mais eu souber a respeito do Universo natural, mais perto de Deus estarei.



Aspectos da 'religião': a primeira imagem não precisa de legenda. Logo abaixo dela, doações
enviadas por entidades religiosas aos desabrigados de Santa Catarina. - Foram tantas que a
Defesa Civil precisou pedir que parassem, pois não havia espaço para guardar tanta coisa...


A possibilidade (e até a necessidade) da existência de um Criador, como você deve saber, é uma visão que está sendo compartilhada por cada vez mais grandes homens de ciência do nosso tempo. Por isso, religiosos, não tenham medo! Sejam verdadeiros! Vocês podem confiar tanto (ou até mais) na ciência quanto em seus livros sagrados e em suas experiências místicas. O que deve ser combatido é o cientificismo, aquela falsa ciência panfletária que um dia foi a bandeira de Francis S. Collins e do próprio Antony Flew, entre tantos ex-ateus convictos. Talvez um dia Dawkins consiga chegar lá.

Ateísmo é sinônimo de inteligência? Óbvio que não, e essa discussão seria uma tolice, mas, por Amor ao que é sagrado, a fé também não deve ser sinônimo de ignorância! Até que ponto nós, homens e mulheres de fé, estamos contribuindo para que o mito do 'religioso ignorante' se propague?



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Em busca da Libertação Final

Se o título deste post lhe pareceu utópico, querido leitor, é sinal de que você ainda não me conhece bem o bastante. Não tenho falado tanto sobre a minha busca pessoal, ultimamente, porque estou vivendo mais uma fase de grandes transformações da minha vida interior. - É engraçado como eu nunca paro de me transformar, e sempre que penso que essas transformações não serão mais tão radicais, acabo me surpreendendo. Acho que já deu para perceber que a minha vida acontece sempre numa sequência mais ou menos assim: A) Fase de calmaria (que costumam ser curtas), quando encontro minhas respostas e me permito curtir a vida e o momento; B) Fases de luta interior, que são períodos de contestação e profundos questionamentos, quando sou assaltado por perguntas e questões que me roubam a paz e me sequestram da pacata inércia (da qual gosto tanto...), me levando a entrar em terríveis batalhas... contra mim mesmo. Nessas fases eu sofro, durmo mal, não consigo produzir direito, passo horas e horas meditando, orando, procurando respostass nos livros, nos conselheiros e, principalmente, dentro de mim mesmo... C) Fases de descoberta, quando encontro as respostas para essas novas questões, das quais sempre preciso, e então e me sinto recarregado, iluminado e reenergizado: segue-se então uma nova fase de calmaria. - Para depois começar tudo de novo. Não sei por quanto tempo será assim, mas é assim que tem sido desde que me conheço por gente.

É isso. Bem vindo à nova fase de H. K. Merton, esse maluco que caminha ao seu lado na estrada da Grande Busca. Entrei numa daquelas fases de luta, quando questiono tudo e nada me parece certo; estou em guerra comigo mesmo e o meu espírito está agitado...


Lá vamos nós. A estrada nos espera...


O que venho contestando ultimamente são algumas daquelas verdades pessoais dadas como certas, sobre as quais já tinha me estabelecido, tranquilamente. Meus tradicionais questionamentos se aprofundam... Eles nunca param de se aprofundar. Minha velha alma de buscador nunca me deixa em paz, e, dia desses, me fez lembrar mais uma vez do filme "The Matrix", que magistralmente condensou e exibiu a eterna saga espiritual dos seres humanos nas salas de cinema, com todas as etapas básicas da vida de qualquer buscador: a vida tanquila, porém monótona e insatisfatória no mundo das ilusões da Matrix; os Sinais que os mensageiros da Verdade enviam aos que a buscam; a coragem necessária para entrar na "toca do coelho"; o primeiro e assustador encontro com a Verdade; o pavor inicial causado pelo confronto radical entre o mundo das ilusões e a Verdade desnuda - tão diferente do que se esperava, tão chocante que, como diz Morpheus, "A descoberta pode ser traumatizante demais para alguns, depois de uma certa idade". - Cada sequência desse filme cult é uma metáfora, um koan, um vislumbre...

Afinal, quem sou eu? Por que estou aqui? Qual a verdadeira razão da minha existência? Minha vida e a existência têm um propósito? O que representa este Universo? Como surgiu e por quê? Será que estamos sozinhos no Espaço infinito? - Se você se faz alguma(s) dessas perguntas, vez em quando, em maior ou menos escala você também tem a mesma inquietude, essa chama interior que anseia pela Verdade, - e, assim, consequentemente, clama pela Liberdade! - Essas são as eternas questões humanas, cujas respostas não são encontradas em livros ou em cursos acadêmicos, e em última análise nem mesmo nos mestres, por melhores que sejam, mas sim somente dentro de nós mesmos. Porque se não estivermos abertos e prédispostos, ainda que alguém lhe entregue as chaves do Reino dos Céus, você não o perceberá.

E essas respostas tampouco são encontradas com alguma habilidade específica de nossas mentes, somente. A mente humana é a coisa mais complexa que conhecemos em todo o Universo, e não pode ser definida como uma só coisa: o que existe não é uma mente, mas várias mentes dentro de uma. E essa mente multifuncional frequentemente nos engana. - Quantas razões possui, quantos 'achismos', opiniões flutuantes diversas surgem a todo momento, dentro de nós, nas diversas situações da vida... A mente é tagarela! E nós não possuímos apenas um ponto de apoio, sobre o qual sustentamos as nossas 'certezas', mas sim milhares! E assim se manifestam patologias psicológicas, através dos pensamentos, sentimentos e emoções mal resolvidos... São como movimentos equivocados da mente.

Todos os questionamentos só encontrarão suas respostas quando silenciarmos a mente e entrarmos no Grande Silêncio, longe do emaranhado dos nossos pensamentos. O fato é que cada pensamento vem como que de uma 'criatura' diferente, que habita em nosso interior, e são essas criaturas que constituem o ego, que é como uma segunda natureza nossa, que é grotesca, incompleta, errática. Vencer e anular o próprio ego é encontrar a Luz. A má notícia, porém, é que somos majoritariamente ego.

Quando falo em ego, possivelmente surjam confusões ou equívocos. A quê, exatamente, estou me referindo quando digo 'ego'? O ego é a nossa falsa personalidade, é tudo que nos torna orgulhosos, nos faz acreditar em mentiras e falsas aparências e concepções do mundo, dos nossos próximos e de nós mesmos. O ego é o grande responsável pela desgraça da Humanidade e pela situação lamentável em que se encontra o nosso planeta, pois destrói tudo o que há de mais belo em nós, aprisiona nossas virtudes, nos tornando seres (ego)ístas, mesquinhos, medrosos, orgulhosos, invejosos. Somos verdadeiros escravos das múltiplas vontades de nossos egos.

Já a verdadeira essência humana é como um "Deus em miniatura", pois é Deus em nós: Imortal, Imutável, Senhor de todos os desejos, reinando eternamente sobre a Paz e a Harmonia perfeitas. Acredito que nascemos para ser assim, para manifestar tal essência em tempo integral em nossas vidas. Mas essa nossa essência divina, atualmente, se apresenta apenas numa ínfima parte de nossas vidas e de nosso ser. Mas eu acredito que isso já pode ser suficiente para nos transformar completamente: basta focarmos totalmente a nossa atenção nesssa essência primordial. É nisso que eu acredito. E tenho me exercitado duramente nesse sentido. Pode não parecer, para quem 'me observa' através das minhas postagens e comentários aqui neste espaço, assim como para os que convivem comigo pessoalmente. Eu aprendi a manter uma certa serenidade enquanto grandes batalhas acontecem no meu íntimo.

Quando falo que vivo agora uma fase de luta, não estou me referindo necessariamente a batalhas massacrantes e nem a momentos difíceis ou sofridos, ao contrário. Meu momento atual é de uma serenidade que poucas vezes experimentei. Mas a batalha está acontecendo, e eu pretendo dividir os resultados e os saldos desses dias de luta interior com você. Sim, estamos no meio de uma discussão sob o Dhammapada, e também no meio das postagens sobre os Evangelhos e no meio da continuação da nossa enciclopédia das religiões, que entrou no riquìssimo terreno da história do Cristianismo. - Três séries de postagens intercaladas estão em andamento por aqui. Mas acho que, como é bem a cara deste blog, e para honrar a tradição de manter os meus leitores atualizados com os rumos que toma a minha busca, é mais urgente falar sobre isso agora. Se deixar para depois, a claridade da visão das coisas que percebo nesse momento pode se perder. Então lá vamos nós para um novo mergulho no insconsciente deste pobre autor que vos fala...

Tudo que falei até aqui é para servir como 'pano de fundo' para os temas que pretendo apresentar daqui para a frente. Tomem seus lugares ao meu lado, firmem bem as suas mochilas, ajustem os cadarços dos tênis, e se certifiquem de estar carregando água fresca: a nossa Jornada vai nos levar para lugares muito distantes.



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'Arsenal da Esperança'

Olá, leitores do a Arte das artes! Eu tinha uma outra postagem para hoje, mas não vai ter como não falar, antes, de uma experiência que eu vivi na tarde da última sexta-feira, dia 20. E eu comecei a escrever este texto nesse mesmo dia, logo após viver essa experiência tão forte e tão marcante, mas infelizmente tive que interromper o trabalho, que só pude retomar agora...

Estou falando da oportunidade que eu tive de conhecer um lugar que só poderia descrever como, no mínimo, absolutamente incrível (na falta de um termo melhor). Eu precisei ir até lá, conhecer esse lugar pessoalmente, por conta do livro que estou escrevendo, - e dessa visita está agora nascendo um novo capítulo para o livro. - Estou falando da instituição chamada Arsenal da Esperança, do bairro da Mooca (numa área que antigamente pertencia ao Brás), que funciona numa construção que faz parte da história de São Paulo. Fica pertinho de onde moro, mas até esse dia eu ainda não tinha sentido curiosidade suficiente para ir lá conhecer. Um absurdo!


Vista parcial da área externa, logo à entrada da instituição.
No monumento estilizado em forma de muro, ao fundo,
a frase-lema já diz tudo: "A bondade desarma"...


Queridos, vocês não têm noção do trabalho que é feito ali! Nenhuma noção, tenho certeza, como eu também não tinha... Fui fazer a tal visita acompanhado do meu irmão, que não tem religião definida; mas ele mesmo concluiria, ao final do dia, que nós dois estivéramos sendo rcepcionados, durante toda a tarde, por um santo vivo. - E eu concordei. - Marco Vitalli é um missionário de 35 anos (aparenta uns 25) que veio da Itália para realizar, no Brasil, um projeto internacional de acolhida a moradores de rua, que surgiu primeiro em Turim, sua cidade-natal. Só conhecendo esse moço pessoalmente e sentindo a maravilhosa energia que dele emana para entender o porquê de o chamar 'santo'.

O Arsenal da Esperança se parece mais com uma cidade, de tão grande, e funciona no mesmo espaço onde existe hoje o Memorial do Imigrante do Governo do Estado. O complexo todo funciona onde antigamente existia a Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, construída pelo governo paulista em 1886 (começou a funcionar em 1887), para abrigar os imigrantes que vinham trabalhar na lavoura do café. - Esses imigrantes eram alemães, espanhóis, japoneses, russos e outros, mas principalmente italianos, que chegavam aos milhares e milhares, ao longo de décadas, e aos poucos foram transformando a cidade, especialmente os bairros do Brás e da Mooca, em recantos da sua própria cultura e costumes. - Foi daí que nasceu esse jeitinho tipicamente paulistano de falar ('ôrra meu!') e a tradicional 'macarronada da mama' aos domingos, entre outras coisas... Todo paulistano é meio italiano, mas isso é um outro papo.

A verdade, porém, é que nem pudemos conhecer o museu do Memorial da Imigração em nossa visita. Sequer entramos nele, porque levamos toda a tarde para conhecer o Arsenal da Esperança (na verdade, partes dele), que funciona na maior parte do que era a Hospedaria dos Imigrantes. Bem, não tenho palavras para falar desse lugar, que eu classificaria como um pedacinho do Céu aqui na Terra: ali acontece um trabalho simplesmente maravilhoso, divino, que por momentos me fez duvidar que tudo aquilo existisse mesmo, de verdade. - Hoje, são exatamente 1.150 ex-moradores de rua acolhidos nessa instituição católica; homens que foram recolhidos debaixo de pontes e viadutos pela cidade afora, e que estão agora confortavelmente instalados (diria luxuosamente instalados) nesse lugar. A instalação conta com dormitórios amplos e arejados, organizadíssimos, com roupas de cama novas e lavadas diariamente, além de ventiladores e instalações sanitárias de primeira linha... Tudo limpíssimo e muito, muito bem organizado.


Vista de um dos muitos corredores dos dormitórios comunitários:
higiene e organização impecáveis...


Já na área externa tem quadra de esportes, - com vestiários amplos e também extremamente organizados, armários numerados, bancos e cabideiros novos - e há jardins, diversas (e amplas) áreas de convivência, arborizadas e agradabilíssimas... No centro de tudo está instalado um pequeno circo (isso mesmo), onde acontecem apresentações, espetáculos, aulas, oficinas e encontros.

O complexo conta também com (talvez o mais importante) dezenas de salas de aula, muito limpas e bem cuidadas, onde os internos (os que quiserem) têm acesso às aulas de ensino fundamental e médio, dadas por professores voluntários. Essas aulas são para aqueles que desejam completar os seus estudos, e garantem diploma reconhecido pelo MEC e válidos para a universidade. Uma valiosa chance para mudar definitivamente de vida. Ou melhor, uma oportunidade de ouro para esses antes 'pobres coitados' voltarem a viver como seres humanos dignos e plenamente reinseridos na sociedade.

O Arsenal mantém, ainda, diversas oficinas que ministram cursos em parceria com o SENAI, como o de panificação, com aulas 100% práticas que acontecem na (enorme) padaria da própria fundação, um dos mais concorridos. Aliás, quando cheguamos lá, estava acabando de sair uma fornada de pão quentinha... Delícia! - Fomos servidos por um ex-morador de rua e ex-alcoólatra, que até há poucos meses dormia nas calçadas da cidade. Ele nos trouxe uma bandeja com pães quentinhos e um sorriso de orelha a orelha, e fez questão de explicar, orgulhoso, todo o seu conhecimento recém-adquirido em técnicas de panificação. Infelizmente, a minha cabecinha de artista não me permite lembrar o nome dele agora, mas pelo menos vou deixar aqui sua foto, que tirei na ocasião:


Ao lado do meu novo amigo padeiro, o nosso anfitrião Marco Vitalli.


Pela fotografia dá pra perceber a limpeza e a organização da padaria do Arsenal da Esperança (clique na imagem para ampliar). Mas, além do curso de técnicas de panificação, com diploma certificado pelo SENAI, que já permitiu a centenas de ex-'indigentes' conquistar um cargo profissional bem remunerado e, em alguns casos, retornar ao convívio das suas famílias, essa incrível instituição oferece ainda diversos outros cursos profissionalizantes, como o de técnicas de construção civil e muitos outros, todos com encaminhamento profissional... E também tem oficina de circo, teatro, um cinema (sim!) construído para o lazer dos internos, refeitório (maravilhoso) e lavanderia próprios...

O meu irmão, que como falei no começo não é um cara religioso no sentido 'formal' da palavra, ficou estupefato com a grandiosidade da obra, o tamanho dos investimentos e o carinho com que os trabalhos são feitos nesse lindo lugar... Assim como eu! Num dado ponto da visita, fiquei curioso e perguntei ao nosso anfitrião sobre a sua história de vida e como tinha ido parar ali. Ele então nos contou que reside há apenas dois anos no Brasil (mas já domina o português perfeitamente), que era formado em Engenharia na Itália e namorava uma moça de lá, mas que desde a infância sentia um chamado irresistível para a total entrega religiosa. - Até que, finalmente, aos 25 anos de idade, abraçou de vez a vida missionária, e de corpo e alma se consagrou como religioso, fazendo os votos de pobreza, obediência e castidade. Se emocionou quando contou que, na sua vida 'normal', se sentia inútil e egoísta cada vez que via uma criança ou um idoso abandonado na rua, ou algum desamparado pedindo esmolas. "Do que me adiantava ter uma vida boa e confortável, com tanta gente à minha volta sem ter onde morar e nem o que comer?"... - Isso ele falou nos encarando com a doçura de seus olhos azuis muito profundos, puros como os de uma criança.

De todas essas coisas ele falava com um Amor e uma transparência de alma tão grandes e sagradas, que extravasavam o plano físico e transbordavam abundantemente: uma energia absurdamente poderosa, que quase me levou às lágrimas por diversas vezes (mas não deixei ninguém perceber), e pude notar que o meu irmão, que é policial e bem mais 'durão' do que eu, também se emocionava. O mais legal é que chegamos para essa visita de surpresa, e mesmo assim o nosso 'santinho' Marco Vitalli, que por telefone tinha me pedido para marcar um horário (falha minha - culpa da correria) deixou uma série de outras obrigações para nos receber e passou toda a tarde nos recepcionando e apresentando o local (ou pelo menos uma grande parte dele, porque como disse o lugar é enorme, seria preciso um dia inteiro para conhecer tudo...).

Em cada corredor, em cada canto, cada sala de aula, e principalmente nos olhos dos internos e dos voluntários que ali trabalham, havia Amor. Amor transbordante, farto, gratuito, real, do tipo mais puro. Uma força arrebatadora circulava por toda parte, envolvendo tudo e todos... Amor que parecia emanar das paredes! Todos trabalhavam entre sorrisos, desapegadamente, com alegria e espontaniedade verdadeiras.




Acima, detalhes das salas de aula do Arsenal da Esperança e dois
dos rapazes que cuidam da lavanderia (todos ex-moradores de rua).


Bem, o fato é que passamos a tarde inteira conhecendo o local, e não haveria espaço aqui para contar a metade de tudo que vimos, testemunhamos e sentimos: as estruturas de primeiro mundo, o carinho com que tudo era feito. E foi carinhosamente que Marco nos explicou o porquê do nome 'Arsenal da Esperança', com todos os detalhes: acontece que essa iniciativa toda partiu do missionário chamado Ernesto Olivero, e começou numa antiga fábrica de armas de guerra semidestruída e abandonada desde o tempo da 2ª Guerra Mundial, lá em Turim, na Itália. O que um dia foi um arsenal de verdade, isto é, um local onde se fabricavam armas (chamado 'Porta Palazzo') foi fundada e funciona até hoje esse trabalho maravilhoso, iluminado, divino. Essa fábrica foi convertida numa mega casa de acolhida e cuidados para homens em situação de rua, e de lá se expandiu para o mundo inteiro: hoje está presente em 88 países dos 5 continentes(!), inclusive em nações muçulmanas do Oriente médio, nos países mais pobres da África e até na Faixa de Gaza! Não há nenhuma espécie de discriminação, e apesar de se tratar de uma instituição católica, nenhuma pregação ou direcionamento religioso é imposto aos internos do Arsenal. É um trabalho voltado tanto a cristãos quanto a não-cristãos.

Inclusive soubemos que, no caso dos acolhidos muçulmanos, está havendo alguma dificuldade, pois alguns deles não aceitam ajuda de missionários cristãos. - Mesmo assim, no Arsenal da Esperança da Mooca, São Paulo, há internos muçulmanos sendo acolhidos, inclusive com cuidados e carinhos especiais, pois se faz de tudo para que os costumes deles sejam respeitados, como orar voltado para Meca em horários determinados e nunca se despir na frente de outros homens. Por isso, na hora do banho, os banheiros são completamente esvaziados, para que cada um deles possa se banhar sozinho. Esse é o tamanho do carinho com que o trabalho é feito...

No final de tudo, Marco disse que nos levaria ao lugar mais especial de todo o Arsenal. - E nos conduziu a uma pequena estrutura toda construída em pedras de granito bruto, situada nos limites do grande terreno. Estava nos levando à uma pequena Capela. - Lá dentro, um antigo forno de fundição de metal, que era usado para a fabricação de armas naquela velha fábrica da Itália, se encontrava afixado na parede de pedras: e ali, diante daquele antigo forno, na porta do qual havia sido entalhado um crucifixo, Marco se ajoelhou e reclinou a fronte, fazendo o sinal da cruz. O antigo forno havia sido convertido num belíssimo Sacrário! Tentem imaginar a minha emoção (logo eu!) nesse momento...


A singela Capela do Santíssimo Sacramento do Arsenal da Esperança:
Sacrário era forno de fundição usado para produção de armas na 2ª Guerra.



Ao voltar da visita ao Arsenal da Esperança

Eu vi isso tudo de perto HOJE (escrito em 20/03/2009), agora há pouco, por isso estou em estado de graça até agora. É uma experiência arrebatadora andar e conversar com santos vivos... O Amor transborda, invade, toma conta... É revigorante. E como é difícil escrever sobre essas coisas, tentar traduzir uma realidade tão superior em palavras... Eu e meu irmão não queríamos mais voltar pra casa! E já nos comprometemos a retornar na próxima terça-feira, às 20 horas, para um encontro de oração...

Bem, mas afinal, porque estou contando tudo isso? Porque, quando estávamos vindo embora, completamente arrebatados pela maravilha de ter conhecido um trabalho tão divino, no carro meu irmão me disse: "Engraçado, um trabalho tão incrível, tão gigantesco e tão maravilhoso da igreja católica, e eu nunca vi isso passando na TV... Mas o caso daquele Bispo, da excomunhão, foi tão divulgado...".

Eu só sorri e nada disse. Pois é. E naquele momento eu só pude me lembrar do que disse o próprio Marco num certo momento da nossa visita: "Quando se trata da Igreja, o trabalho mais lindo que existe cresce e frutifica em silêncio, e é assim que tem que ser. Mas qualquer erro, mesmo que pequeno, faz um estrondo imenso e se torna público com uma velocidade inacreditável".

É isso. Chego aqui e percebo que essa mesma questão foi levantada, novamente, neste blog. "O que acha daquele caso do bispo..."... Coincidência? Acho que não. Talvez certas coisas precisem ser ditas, ao menos de vez em quando. É preciso paciência, sempre, e eu comecei a escrever a resposta nos comentários. Só que essa resposta foi ficando maior, maior, até que percebi que seria melhor publicá-lo na forma de um post. Virou este post que você lê agora. Respondendo então, afinal e diretamente, à pergunta: não, um médico que faz aborto não é excomungado formalmente pela Igreja. Se ele pratica o aborto profissionalmente, rotineiramente, já está excomungado, isto é, ele não pode ser considerado um cristão católico; é considerado como alguém que não faz parte (ou seja, está 'ex') dessa comunidade ('comunhão').

Injusto? Sinceramente, não acho. Nem um pouco. Se um monge budista Theravada comer carne, ele é expulso do mosteiro. Se um candidato a swami (mestre hindu) adotar uma conduta considerada inadequada pelo guru, ele será afastado do Ashram e dos estudos. Se um batista (eu fui batista, lembram?) for pego bebendo álcool por um outro membro daquela igreja, ele será formalmente convidado a se retirar da comunidade. Os exemplos desse tipo que eu poderia citar seriam infinitos. - É assim que as comunidades religiosas funcionam. E é preciso que seja assim. Como poderiam aceitar tudo, se por princípio adotaram certas normas de conduta? Mas é sempre bom, nesses casos, manter em mente que ninguém é obrigado a fazer parte de nenhuma comunidade religiosa. Para os católicos, o aborto é o pior tipo de assassinato que existe, primeiro porque é cometido contra um ser que não tem a menor chance de defesa, e segundo porque esse assassinato é cometido, direta ou indiretamente, pela própria mãe. Então, como um médico que faz abortos e acha isso normal poderia se considerar católico?

Mas, mesmo assim, ele pode continuar frequentando a Igreja, indo às Missas... Ele pode até comungar, se quiser. - Ninguém vai impedi-lo. - Mas, perante os estatutos formais da Igreja, ele não é mais considerado um membro da comunidade, pois fez uma opção de vida que contraria os seus mais básicos princípios. O que eu acho? Justíssimo. Mas isso é só a minha opinião, e este aqui não é um blog católico e nem um espaço para a defesa da fé católica, como já devem ter percebido. É um lugar para que os buscadores da Verdade possam se reunir, trocar ideias, aprender uns com os outros... que "por acaso" é administrado por um católico. Mas a Verdade, como eu já disse muitas e muitas vezes (e acho que nunca vou poder parar de repetir isso), não está limitada aos estatutos de nenhuma religião (aliás, os próprios estatutos da igreja católica dizem isso...).

Então, por favor, quando algum assunto polêmico que tenha a ver com a igreja católica surgir na mídia, procurem descobrir a verdade por si mesmos, fazendo uso do vosso discernimento e das vossas consciências. Só peço que não façam julgamentos precipitados, mas que procurem mesmo conhecer os fatos. Eu sei que parece mania de perseguição, mas a nossa imprensa e mídia estão completamente dominadas por profissionais que cultivam uma grande antipatia pelo catolicismo, para dizer o mínimo. Alguns dos jornalistas mais antigos até têm uma dívida de gratidão para com a Igreja, por ela ter protegido e até escondido profisionais de Imprensa perseguidos na época da ditadura, e otras cocitas mas, mas a nova geração simplesmente odeia qualquer coisa que lembre frades, padres ou madres. E eu entendo que em parte a culpa é da própria Igreja, eu sempre digo isso também.

A Igreja é muito ruim, mas muito ruim mesmo, no quesito comunicação. - E quem não se comunica... - Faltam grandes comunicadores, e o pior é que, quando finalmente surge um fenômeno das massas, como o Pe. Marcelo Rossi, a própria Igreja 'poda' o seu trabalho. "Ah, mas ele estava sendo chamado de 'padre artista', 'padre de mídia'", dizem eles... Pergunto eu: e daí?? Antes ter um bom representante da Igreja na mídia, um cara que sabe se comunicar e que tem empatia com o povão, do que não ter ninguém. Outras comunidades cristãs têm representantes que são muito, muito bons em se comunicar, com espaços enormes na TV, que é o principal e mais influente meio de comunicação em nosso país. E esse é um dos principais motivos porque a igreja católica perdeu tantos fiéis nos últimos anos. - Noite dessas eu estava com insônia e liguei a TV na madrugada. TODOS os canais abertos, com exceção da Globo e do SBT, estavam passando programas evangélicos! Pregações, testemunhos, curas, orações, chamamentos... Quanto à igreja católica, esta só é divulgada na TV aberta quando acontece algum escândalo. Aí, sim, a divulgação é ampla, completíssima, maciça... Estou mentindo?

Eu gostaria muito de não ter mais que ficar explicando coisas do catolicisimo por aqui; não porque me chateie ou porque eu não goste, mas porque gostaria mesmo é de ver as notícias sendo dadas de uma forma justa, imparcial, sem aquele peso pendendo sempre para um lado só. Como sei que isso é utopia, porém, nunca vou me negar a tirar dúvidas (se eu puder) de quem vier me pedir informações. O problema é que nessas horas o papo fica segmentado, sectário... E eu prefiro trabalhar de um jeito universalista, abrangente e independente. - A ideia por aqui sempre foi essa.

Encerro com uma sugestão a todos que leram este post: se você mora em São Paulo não deixe de conhecer o Arsenal da Esperança! Aqui, o link para o site deles: Arsenaldaesperanca.Org.Br. Uma semana de Luz para todos!



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Implorando pela vida...

Aviso: O vídeo abaixo contém cenas fortes e reais de fetos abortados; por método cirúrgico e salino, - no qual uma solução química é injetada na placenta para QUEIMAR O BEBÊ VIVO, e em casos de gravidez mais avançada ele é depois retirado completamente enegrecido. Através dos modernos equipamentos de ultrassom é possível ver o BEBÊ se contorcendo de dor até a morte. - Sim, aquele "produto de gravidez indesejada", a que as feministas se referem como se fosse uma coisa ou uma doença, é um BEBÊ em desenvolvimento, um ser humano que a partir do 5° mês de gestação, se fosse retirado e cuidado numa incubadora, teria todas as chances de sobreviver e ter uma vida normal e, quem sabe, feliz.


Fernanda Brum



Fernanda Brum é uma cantora evangélica estilosa. O texto deste outro vídeo é bem conhecido de muita gente, mas mesmo assim eu ainda acho que vale a pena, porque a mensagem é muito forte...


Carta de um bebê inconveniente:



O melhor para o final: "Mama", a obra-prima do Gênesis, e logo abaixo a letra original (cortesia da amiga FIAT LUX) e depois a tradução (NÃO DEIXE DE LER, VALE A PENA!).


Mama




'Mama': letra

I can't see you mama
But I can hardly wait
Oh to touch and to feel you mama
Oh I just can't keep away
In the heat and the steam of the city
Oh its got me running and I just can't brake
So say you'll help me mama
'Cause its getting so hard - oh

Now I can't keep you mama
But I know you're always there
You listen, you teach me mama
And I know inside you care
So get down, down here beside me
Oh you ain't going nowhere
No I won't hurt you mama
But its getting so hard - oh

Ha ha, ha ha ha ha, ha ha, argh
Ha ha, ha ha ha ha, ha ha, argh

Can't you see me here mama
Mama mama mama please
Can't you feel my heart
Can't you feel my heart
Can't you feel my heart oh
Now listen to me mama
Mama mama
You're taking away my last chance
Don't take it away
Can't you feel my heart?

Ha ha, ha ha ha, ha, argh

It's hot, too hot for me mama
But I can hardly wait
My eyes they're burning mama
And I can feel my body shake
Don't stop, don't stop me mama
Oh make the pain, make it go away - hey
No I won't hurt you mama
But its getting so hard - oh

Now I can't see you mama
But I know you're always there
You taunt, you tease me mama
But I never never can keep away
It's the heat and the steam of the city
Oh got me running and I just can't brake
So stay don't leave me mama
'Cause its getting so hard - oh

Don't go no no, don't go
No no no, don't go...


Tradução: 'Mamãe'

Eu não posso ver você mamãe...
Mas eu posso esperar arduamente,
Para tocar e sentir você, mamãe!
Eu não consigo me manter longe,
No calor e no vapor da cidade...
Isso me pegou correndo e eu não consigo frear.
Então diga que você me ajudará, mamãe!
Porque isso está ficando tão difícil...

Agora eu não posso manter você, mamãe...
Mas eu sei que você sempre está lá...
Você escuta, você me ensina, mamãe...
E eu sei que, por dentro,você se importa!
Então deite, deite aqui do meu lado...
Você não vai a lugar algum,
Eu não irei machucar você, mamãe!
Mas isso está ficando tão difícil...

Você não pode me ver, mamãe?
Mamãe, mamãe, mamãe... Por favor!
Você não sente meu coração?
Você não sente meu coração?
Você não sente meu coração?
Me escute mamãe!
Mamãe, mamãe...
Você está levando embora a minha última chance!
Não a largue!
Você não sente meu coração?

Está quente, muito quente para mim mamãe!
Eu só posso esperar arduamente...
Meus olhos, eles estão queimando, mamãe!
E eu sinto meu corpo se mexendo...
Não me pare, não me pare, mamãe!
Faça a dor ir embora...

Não, eu não irei te machucar mamãe!
Isso está ficando muito difícil...

Agora eu não posso mais ver você, mamãe.
Mas eu sei que você sempre está lá,
Você escarnece, você ri, mamãe...
Mas eu nunca, nunca poderei ir embora.
É o calor e o vapor da cidade,
Isso me pegou correndo e eu não consigo parar...
Então fique, não me deixe mamãe!
Porque isso está ficando tão difícil...

Não vá, não vá!..



Começaram a falar nesse assunto nos comentários e eu me empolguei. Abraços a todos os que não foram abortados por suas mães e estão aqui, cheios de vida para poder apreciar mais este post.



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O peso e a fúria do Frade do Metal!!!

Tem um monte de coisas muito mais sérias esperando para serem postadas, mas essa eu não poderia deixar de registrar. E, pensando bem, não deixa de haver uma certa seriedade bem humorada nessa postagem. Ao menos para os que, como eu, amam o bom e velho rock'n roll... De preferência com muito peso e fúria!






Alguém aí conhece o Frei Cesare Binozzi? Ele é, possivelmente, o primeiro e único frade franciscano capuchinho do mundo a formar e integrar uma banda de heavy metal. É isso mesmo! E o mais legal de tudo é que o som dele não se parece em nada com o white metal, aquele subgênero do metal representado por grupos evangélicos ou católicos, que produz letras cristãs (sim, isso existe) que eu até acho legais, mas que não costumam agradar aos metaleiros de verdade, porque são sempre assim meio... 'mornas', sabe como é?..

A banda do frade mutcho loco se chama Fratello Metallo, isto é, 'Irmão Metal' (Yeah, babe!) e manda muito bem, tanto que até foi convidada para tocar no megaevento 'Gods of Metal' da Itália, ao lado de bandas 'respeitadinhas' como Iron Maiden, Metallica, Judas Priest, Iced Earth, Slayer(!)... Nem precisa falar que a banda chamou a atenção, com o frei de batina e tudo mandando bronca nos solos guturais à frente das guitarras distorcidas e da bateria pesada... E foi aprovada por toda a nação roqueira! Vejam o que o baterista Andrea Zingro falou sobre a Fratello Metallo, à reportagem da BBC Brasil: "As letras são boas porque falam de coisas da vida, como o álcool, sexo, a vida em geral... Temas normais. E se você ouve o disco sem entender as palavras, parece uma música heavy metal como as outras".

Sim, estamos falando de metal de alta qualidade, acompanhado de atitude 100% rock'n roll (um jeito meio radical de ser, mas, nesse caso, sem as drogas e orgias, por favor...). A Fratelo Metallo tem 15 álbuns gravados, e o frade, que tem 62 anos de idade(!) e sempre foi um religioso do tipo muito agitado, só tem elogios para o metal:

"O heavy metal é energia pura e intensa, e tem a sua beleza própria, além de conteúdo, porque faço música com letras que ajudam a entender coisas importantes da fé e da vida. (...) O heavy metal é o oposto do satanismo. Há dois ou três grupos que se dizem satânicos, mas são poucos no meio de milhares que nada têm a ver com o demônio."

Frei Cesare Binozzi - o 'Frade do Metal'




Bom, nós sabemos que são um pouco mais de dois ou três grupos que se afirmam satânicos, mas eu concordo com ele que a música (de qualquer estilo) pertence a Deus, antes de qualquer coisa. E antes que perguntem, ele já explica que esse sinal com a mão, feito com os dedos indicador e mínimo levantados (\m/), tão típico dos metaleiros, no caso dele não tem nada a ver com chifres. - Se feito com o polegar esticado, esse sinal quer dizer "Eu te amo" na linguagem 'libra' (surdo-mudo)...

Inusitado? Sem dúvida! Legal? MUITO! Pecado? Ao contrário... Os CD’s e as letras das músicas são, claro, atrelados ao Cristianismo, e sempre que pode, entre uma porradaria e outra, o frade manda uma pregação rápida para a galera, como no vídeo abaixo. Quando a gente pensa que já viu de tudo...




Nem preciso dizer que adorei! Já dá pra louvar Jesus com metal de primeira linha! Pelo menos pra quem gosta do estilo.


Título do CD: 'Misteri' - Tudo a ver!..


A sua benção, Frei... e ARREBENTAAAAAAA!..


Se quiser saber mais...



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A Índia e o hinduísmo

O ser humano é complicado. E acho que faz parte da maravilha que é ser humano essa complicação toda. Falando no post anterior sobre a Índia e o hinduísmo, vi surgir exatamente uma ameaça daquilo que eu mais queria combater: a intolerância religiosa. Por incrível que pareça, acho que não deu para perceber que a minha ideia com as postagens sobre os comentários do Dhammapada era (e é) exatamente o oposto disso. Eu buscava a harmonia e a plena integração entre as diferenças.

E mais uma vez, escrevo para esclarecer alguns pontos importantes que vão sendo levantados com o aprofundamento da discussão, porque vejo ótimas oportunidades de esclarecer dúvidas que são as mesmas de muita gente: são questões recorrentes que eu já respondi muitas e muitas vezes: por email, pessoalmente... E já vi também essas mesmas questões serem colocadas em aula, em sites, em publicações, etc... Por isso é que eu insisto tanto nesse conceito de 'Busca', que a gente precisa BUSCAR conhecer as coisas, para não cair na cilada de aceitar certos (pré)conceitos estabelecidos que andam por aí, e que, de tanto serem repetidos, acabam se parecendo com verdades. Mas não são. Então vamos lá:


Paganismo

Foi colocada uma questão bem interessante e pertinente nos comentários: “Os cristãos chamam os hindus de pagãos”. Para esclarecer esse ponto, é importante a gente entender que o termo "pagão" não tem nada de pejorativo. Uma civilização que crê em muitos deuses é corretamente classificada como “pagã”, e isso não é nenhum xingamento. ‘Paganismo’ é o termo culto para designar as religiões pré-cristãs e politeístas. - Está nos livros. - O paganismo é a religião mais antiga conhecida pela humanidade, e segundo muitos autores é a raiz da qual se ramificaram as diversas religiões da Antiguidade, que por sua vez deram origem as religiões que conhecemos hoje.




Já os pagãos modernos geralmente são chamados de ‘neopagãos’, porque as religiões originais das civilizações antigas não são mais praticadas. Além disso, algumas novas religiões vêm sendo fundadas, nos tempos modernos, como uma tentativa de recriar as primitivas religiões pagãs, revivê-las ou continuar a sua tradição. Estas adotam o nome de 'mesopagãs', e repito, não há nada de ofensivo nesses termos todos.

Quanto ao hinduísmo, trata-se de uma tradição religiosa muito complexa, mas que é oficialmente classificado como religião pagã, tanto pela sua antiguidade quanto pela adoção de um imenso panteão de deuses - O que é uma questão delicada e bem complexa, porque muitos dos próprios mestres hindus negam adorar muitos deuses. - Seja como for, ainda neste post vou falar sobre isso e tentar esclarecer essa complicada situação de uma vez por todas.

É também muito importante entendermos que os termos 'pagão' e 'paganismo' não são usados exclusivamente pelos cristãos: não são somente os cristãos que fazem uso dessas expressões, mas também o próprio estudo científico da religião. Em qualquer curso universitário de Ciência da Religião, por exemplo, vamos aprender que o hinduísmo é considerado 'uma das últimas tradições do paganismo que permanece viva até os nossos dias'. Esse não é um conceito exclusivamente cristão.

Acreditando ter esclarecido o ponto em questão, deixo este link para maiores informações sobre o paganismo. Continuemos o raciocínio...


A Índia real

Eu fiz questão de falar sobre a Índia no post, justamente para tentar desmistificar essa aura mítica (ou seja, isso é mito) de que a Índia é um país espiritualizado, de homens santos e sábios que passam os dias meditando à sombra das árvores. A realidade NÃO é essa. Eu fui membro de um templo hindu, me considerei ‘hindu’ por um bom tempo e convivi com hindus indianos. Além disso, tenho amigos que viveram na Índia. Posso garantir que a Índia não tem nada a ver com essa ilusão persistente, - que por incrível que pareça está sendo ‘desconstruída’ no inconsciente do brasileiro por uma novela de TV.

Para que se tenha uma ideia, cristãos estão sendo perseguidos e mortos por hindus na Índia, agora mesmo (como se pode ver aqui, aqui e aqui, por exemplo) . A maioria dos hindus não quer saber de influências religiosas estrangeiras no seu país. Repito: para quem pretende mesmo entender a Índia, é preciso se livrar de uma vez por todas dessa falsa imagem de uma nação de homens pacíficos, sábios e tolerantes para com todas as religiões.

A guerra entre os hindus e os muçulmanos, por exemplo, persiste na Índia desde a época da independência da Inglaterra, com atentados, mortes, estupros de mulheres alheias (o estupro na Índia é facilmente justificado), assassinatos de crianças, tortura e tudo de mais feio que possa existir em qualquer outro lugar. Tudo isso sem contar o horrendo sistema de castas que subsiste desde a antiguidade e é muito, mas muito mais feio do que mostra a novela da TV, assunto sobre o qual eu já falei com detalhes por aqui, citando dados oficiais. - Será que um povo verdadeiramente espiritualizado apoiaria um sistema social assim? E por tanto tempo? Sem nenhum tipo de provocação, dou graças a Deus por ter nascido num país cristão e laico, que pode ter muitos problemas e injustiças, mas onde todos têm direitos iguais, garantidos pela constituição, e onde a discriminação é crime.


Uma trabalhadora dalit limpa fezes humanas para sobreviver:
Mesmo nas maiores cidades da Índia ainda não existe serviço de
esgoto disponível para todos, e os dejetos são lançados em fossas
a céu aberto. Imagine o cheiro sob o calor de 46° do verão indiano!


Índia: monoteísta ou politeísta?

Mas a principal questão levantada nos comentários que eu gostaria de (ao menos tentar) esclarecer é esta: afinal, os hindus adoram ou não a muitos deuses?

Oficialmente os hindus são considerados politeístas, isto é, se você consultar os tomos, vai encontrar a afirmativa unânime de que se trata de uma nação teocrática e politeísta. Mas existem controvérsias nesse sentido, já que muitos dos próprios hindus contestam essa informação. Qual a solução para esse antigo dilema? A verdade a esse respeito é complexa, tem muitos lados, por isso devemos analisar os muitas faces da questão separadamente:

É um fato inegável, público e notório, que a grande maioria da população da Índia realmente acredita em milhares de deuses, adora a milhares de deuses e pede graças a milhares de deuses. E adianto que isso não é feito simbolicamente e nem metaforicamente, mas literalmente. - Segundo estimativas do próprio governo da Índia, são adorados mais de 330 milhões[1] de deuses naquele país. - Eu não falei 330 e nem 330 mil, mas 330 milhões!


Criança bebe leite junto com ratos no Karni Mata


Existem na Índia, por exemplo, os templos em honra aos ratos, como o Karni Mata, onde eles são adorados, literalmente como deuses, e isso não é simbolismo. A maioria dos hindus realmente acredita que os ratos são deuses, e a prova disso é que, além de servi-los com leite, mel e cereais nobres, bebem do leite e comem da ração que lhes é servida nos mesmos pratos, juntamente com os roedores, pois acreditam que assim receberão graças especiais.

Observação: enquanto os ratos se deleitam, a maior parte da população não tem o que comer. A Índia é um dos países que tem a maior taxa de mortalidade infantil por desnutrição do mundo (Fontes: Ansa / WHO - Organização Mundial de Saúde).

Observação 2: os ratos do templo não são ratinhos limpinhos, criados em laboratório ou num lugar específico para o culto. O Templo é aberto e os ratos e ratazanas da rua entram e saem à vontade. Mesmo assim é comum ver mães levando suas criancinhas para beber o leite junto com os ratos (e ratazanas). Acreditam que assim serão abençoadas.

Mas os ratos não são os únicos animais adorados como divindades, literalmente, na Índia. Também as vacas, os elefantes, as serpentes, os perus e os macacos, e isso sem falar de uma infinidade de outras formas que são vistas como deuses vivos: árvores, pedras, montanhas, cristais, rios e etc, etc...

Na comunidade hindu em que eu tive a oportunidade de conviver com hindus indianos, aprendi que muitos deles acreditam realmente que Ganesha, por exemplo, é um menino com cabeça de elefante que vive mesmo, naquela forma exata, em algum plano espiritual superior, e que Krishna foi mesmo um jovem de pele azul que corria pelos campos tocando sua flauta e aprontando traquinagens acompanhado de suas gopis.

Recentemente houve uma comoção nacional na Índia, quando uma estátua de Ganesha aparentemente começou a beber o leite que lhe era oferecido a colheradas[2]. Um filme-documentário do Discovery Channel demonstrou que o leite estava era escorrendo pela boca da estátua e vazando até a sua parte traseira, por trás das vestes e ornamentos que a envolviam, formando uma grande poça branca atrás dela, - que era claramente visível no filme, - mas os devotos rejeitaram a explicação e mais que depressa trataram de esconder a estátua. Para eles, era de fato Ganesha aceitando a oferta dos fiéis e bebendo o leite.

Essas são algumas das razões porque os hindus têm muita dificuldade em entender a concepção de um Deus único e UNO, um só Criador e Fonte da Vida, concebido e entendido exclusivamente na Pessoa do Pai (Criador), Filho (Canal com a humanidade) e Espírito Santo (Sopro da Vida e Inspiração Divina). É difícil conceber a fé cristã num único Deus, pois para eles 'tudo é Deus e Deus é tudo', seja de que forma for, mesmo acreditando que a divindade está presente de modo especial em estátuas e em certos animais.





O outro lado

Nesse ponto faço questão de deixar bem claro que todas as informações passadas até aqui não representam opiniões pessoais, mas fatos que podem ser facilmente comprovados, e é preciso que sejam de uma vez por todas entendidos, se pretendemos nos considerar buscadores da Verdade. Este não é um post crítico ou opinativo, mas puramente informativo. Estando bem esclarecidos estes pontos, vamos agora apreciar o outro lado dessa grande questão.

Como buscador da verdade eu não poderia fechar os olhos para as realidades que demonstrei até aqui, mas igualmente não poderia classificar os hindus em uma categoria qualquer, nem chegar a quaisquer conclusões ao seu respeito, sem expor o que eles mesmos têm a dizer sobre a sua própria religião. Dentro de todo esse cenário tão complexo, há uma outra realidade que vale a pena ser examinada, como sempre, sob o crivo de nossas consciências e do nosso discernimento.

São quatro os principais ramos dentro do hinduísmo, classificados pelos próprios hindus como seitas derivadas do conhecimento original: o Sivaísmo (ou Shivaísmo), o Shaktismo, o Vaishnavismo, e o Smartismo. E existem, dentro desses ramos, fortes correntes de pensamento (muito bem representadas) que buscam preservar o ensinamento de que todas as formas, imagens, estátuas e cerimônias cultuais, em última análise, reverenciam ao único Deus, o Eterno e Indizível, que permite essas várias formas de culto por ser dotado de diversos Olhares, Competências e Atributos.

Segundo a linha mais pura ou mais avançada do hinduísmo, - o conjunto dos conhecimentos cultivado e estudado pelos brâmanes, - todas as muitíssimas formas de adoração dos hindus representariam, na realidade, um só Deus, que chamam Brahman, Parabrahman, Paramatma ou Satchidananda.




Os verdadeiros princípios da fé hindu explicados e comentados

A partir deste ponto trago algumas explicações clássicas e bem didáticas de autênticos mestres hindus, começando por uma declaração do Prof° C.V. Rajan[3]:

"Assim como uma mulher casta e pura que, como convém, se casou virgem, considera o seu marido como o único belo e maravilhoso homem do mundo, de igual modo, nas camadas ou castas mais baixas da nossa religião, cada crente tem a sua convicção pessoal de que só o seu deus é o mais poderoso e verdadeiro. Mas esse comportamento é igualmente incentivado por nós, porque entendemos que ele adora ao mesmo único Deus que existe, à sua maneira.

Como uma pessoa que amadurece em seu progresso religioso, ele aos poucos pode ultrapassar o seu estreito modo de pensar e deixar de fazer condenações. Ele aos poucos passa a conhecer, através da experiência, que existe um Senhor Supremo, que por Sua Graça se adapta e se manifesta sob a forma do deus pessoal deste ignorante, assim como se apresenta em outras formas para satisfazer outras seitas de crentes. No último nível da experiência religiosa, o solicitador percebe que todo o Universo é simplesmente nada além de Deus e isso inclui a sua própria alma, também."


Ainda na tentativa de esclarecer melhor a concepção hindu acerca desses pontos tão complicados, segue a explanação mais completa de um outro mestre hindu contemporâneo, o conceituado Prof° Naren Nagin[3]:

"Nas Escrituras cristãs, com relação à Criação, se diz que 'primeiro era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus'. O conceito hinduísta é semelhante, embora não reconheça um começo para a Criação e nem um ponto final. O hinduísmo acha a palavra 'emanação' mais apropriada do que 'criação'. Chame-se a isso natureza ou chame-se a isso Deus. Dessa Verdade sempre-existente o Universo parece projetado, parece existir, e parece dissolver-se. Tal como as ondas do oceano, ondas que aparecem e desaparecem todo o tempo. - A continuidade entre essas oscilações é a Eternidade. O aparecimento e o desaparecimento das ondas não afeta de maneira alguma o oceano, e essa emanação e sua retirada ou absorção não atinge a Suprema Verdade, a qual é sempre infinita, sempre contínua.

Muitas vezes as pessoas dizem que adorar imagens ou ídolos está errado. Vejamos então os fatos. Todas as religiões concordam que Deus é Infinito e Onipresente. Quem de nós pode imaginar o Infinito? Esqueça a referência da Infinitude. Quem de nós pode imaginar nossa própria cidade na sua totalidade? Nós não podemos, e, assim, consultamos mapas. Quem de nós pode sequer imaginar o planeta Terra na sua totalidade? Não podemos. O que fazemos é usar o mapa do globo terrestre a fim de podermos concentrar nossa mente e falar em termos aceitáveis a respeito de nosso planeta. Todos nós sabemos que o mapa não é o planeta, mas apenas o representa. Adorar a Deus por meio de imagens é semelhante. Um hindu sabe que a imagem não é Deus, que só representa Deus. Um hindu se dá conta de que, para o homem comum, é virtualmente impossível visualizar e imaginar o infinito. Por isso ele usa imagens. Para adorar a Deus, é melhor usar imagens do que deixar de fazê-lo, dizendo que "o infinito e a onipresença são muito difíceis para nós". Por estranho que pareça, a atitude do hindu e a do cristão na adoração de imagens é a mesma.


Ponte Shivanand Jhula, que atravessa o Ganges na cidade de Rishikesh


Os hinduístas são frequentemente acusados de politeístas. Eles parecem adorar muitos deuses. Mas não é assim. Não são muitos deuses. Eles adoram as muitas imagens dos muitos particulares aspectos de Deus. Ganapati ou Ganesh, por exemplo, é adorado no começo de toda oração e das cerimônias, a fim de remover obstáculos da mente. Os hinduístas, nesse momento, concentram seus corações e mentes no aspecto de Deus que remove obstáculos, e chamam a esse aspecto de Ganapati. É mais fácil acercar-nos de nossa mãe e fazer-lhe pedidos do que acercar-nos do nosso pai. Por isso os hinduístas adoram Deus mais em seu aspecto de mãe, e chamam a esse aspecto de Lakshmi, - para pedir bem estar e riqueza. Os hinduístas se dão conta de que o mesmo Senhor é o Criador, o Preservador e o Destruidor, e dá a cada aspecto do mesmo Senhor diferentes títulos e imagens, como Brahma, Vishnu e Shiva.

O objetivo da adoração do hinduísta, isto é, sua finalidade última, é a realização de Deus. Ele usa a imagem em um estágio inicial. Assim é como deve ser. Quando nós somos bebês, seguramos no dedo de nosso pai para aprender a caminhar. Mesmo tendo obtido a realização, o hinduísta não esquece que a imagem de Deus o representa e, por isso, nunca deixa de reverenciar com devoção, humildade e amor quando está na frente de uma dessas imagens, tendo em conta sempre que sua homenagem é para o Todo-poderoso Deus que a imagem representa. Tudo isso representa a onipotência de Deus para ele. Toda a criação é manifestação Sua.


Finalmente, ainda que os hinduístas não sejam politeístas, seu monoteísmo deve ser apropriadamente compreendido. Os hinduístas não dizem que existe um só Deus. Todas as religiões declaram que Deus é Infinito. Os hinduístas dizem que só existe Deus. E se nós nos sentimos separados desse Infinito, se o Universo for separado do Infinito, então isso significa pôr uma limitação ao Infinito. Um infinito no qual não se inclua tudo não é infinito. Nós estamos todos neste infinito, e este infinito é Deus. Existe Deus e Deus. Só. Nada fora de Deus existe."

- Prof° Naren Nagin



Minhas conclusões

Agora sim, esclarecimentos feitos, me permito acrescentar a minha visão pessoal acerca de tudo que foi dito, na forma de observações e perguntas:

1) Se o Deus Uno se manifesta sob inúmeras formas para os crentes, de acordo com aquilo em que eles acreditam, então como poderíamos aprender, crescer, evoluir? Se eu acredito num deus rato ou num deus com cabeça de elefante, e aí o Deus Uno, que está além de todas as formas, se manifesta a mim como rato ou como um deus com cabeça de elefante, como eu poderia chegar a conhecer a Verdade além das formas? Como aprender, como chegar mais próximo desse único Deus, se ele próprio alimenta a ilusão dos ignorantes??

2) "O aparecimento e o desaparecimento das ondas não afeta de maneira alguma o oceano, e essa emanação e sua retirada ou absorção não atinge a Suprema Verdade, a qual é sempre infinita, sempre contínua." - Uma maravilhosa analogia para a realidade divina e suas relações com o humano, que eu fiz questão de repetir. Observe-se que essa afirmação parece destoar de outras partes do que foi dito pelo mesmo autor: ainda que as ondas estejam no mar, pertençam ao mar, façam parte do mar e sejam manifestações do mar, não seria possível afirmar que "as ondas 'são' o mar", completamente. No máximo, as ondas são parte do mar.

3) “Chame-se a isso natureza ou chame-se a isso Deus”, diz o Prof° Nagin. - Eu digo que, se existe algo que aprendi do grande Mistério, é que Deus transcende a natureza. Deus está na natureza, sim, mas vai além da natureza. Deus está em mim, está no meu próximo, nos oceanos e nos planetas, mas vai além disso. E é exatamente esse o significado da palavra ‘transcendência’. Transcender significa extravasar, ir além, superar limitações. Dizer que Deus é apenas a natureza e nada mais é limitá-lo, e Deus não pode ser limitado. Contraditoriamente, a mesma doutrina hindu também diz que Deus é Ilimitado e Incompreensível. - Ora, sendo Ilimitado e Incompreensível, não se pode dizer que Deus e a natureza são uma só coisa, pois a natureza é limitada, investigável, passível de ser conhecida pela mente humana.

4) “Um hindu sabe que a imagem não é Deus”. Aqui fica clara a diferença que existe entre o que ensina uma doutrina e o que acontece na prática, fenômeno que por sinal não é exclusividade do hinduísmo. Também entre cristãos (católicos e ortodoxos, no caso) existem os que confundem a imagem com a realidade que ela representa. Não é difícil ver um devoto entrando num templo cristão e deixando um 'bilhetinho' para uma imagem, beijando os pés de uma imagem e fazendo pedidos para a imagem. Será que todos eles estão mesmo conscientes, o tempo todo, de que aquela imagem é apenas uma representação? Será que estão mesmo voltando sua atenção a Deus, enquanto o fazem, e não à imagem em si? Será que doutrina e prática são uma só coisa? Mas quem poderia responder a essas perguntas, afinal de contas? Não, não é possível afirmar que os hinduístas se dão conta de que as muitas representações de deuses são direcionadas a um só Senhor. O próprio Ramakrishna, um dos maiores gurus e mestres hindus de todos os tempos, na obra magna de Swami Abhedananda, ‘O Evangelho de Ramakrishna’, reconheceu isso.

5) Curiosamente, minha mãe foi extremamente enérgica comigo durante a minha infância, e foi até mesmo rude na minha educação. Já meu pai era doce e suave, era ele quem me consolava das broncas e nas minhas dificuldades. - E o meu caso não é único nem raro. Quem de nós nunca conheceu uma história semelhante? - Portanto, esse conceito de que é necessário recorrer a uma deusa-mãe em razão da inacessibilidade de um deus-pai, é, no mínimo, altamente questionável. A visão do Deus Eterno e inacessível como nosso 'Pai', trazida por Jesus, ao contrário, representou uma aproximação importantíssima e sem precedentes entre homem e Divindade.




Por fim, concluo dizendo aquilo que o meu entendimento e a minha consciência gritam: que Deus é Infinito e não pode ser classificado por nós. Se, como disse o próprio guru Nagin, nós não somos capazes de entender o sentido de infinitude, e não somos capazes nem mesmo de compreender a grandeza da cidade em que vivemos, por sermos limitados, como se poderia supor que sejamos capazes de, assim, contemplar Deus, explicar Deus, definir Deus, dizer o que Ele é e o que não é? A minha religião pessoal, - que é só minha, - é a religião que reverencia o Mistério, que busca apenas e tão somente comungar com esse Mistério, - este sim, Infinito, - que não pode ser explicado e nem limitado de nenhuma maneira... E assim ganhar as alturas. Contraditoriamente ou não, o próprio Mahabharata, o maior livro sagrado hindu, parece concordar comigo:

"Disse Arjuna (homem): 'Tu és o Brahman Supremo, o Último, a Suprema Morada e o Supremo Purificador; a Verdade Absoluta e a Pessoa Divina Eterna. Tu és o Deus Primordial, Transcendental e Original, e Tu és a Beleza não-nascida e todo-penetrante. Todos os grandes sábios proclamam isso de ti. (...) Na verdade, só Tu te conheces através da tua Potência interna, ó Pessoa Suprema, Origem de tudo, Senhor de todos os seres, Deus dos deuses, Senhor do Universo! Por favor, fala-me detalhadamente dos teus poderes divinos, pelos quais penetras todos estes mundos e moras neles. Como devo meditar em Ti? Em que forma deves ser contemplado, ó Bem-Aventurado Senhor?'

Respondeu Krishna(Deus): 'Sim, Eu lhe falarei de Minhas manifestações esplendorosas, mas somente das que são proeminentes, ó Arjuna, pois a Minha opulência é ilimitada. Eu sou o Eu, ó Gudãkesa, situado nos corações de todas as criaturas. Eu sou o começo, o meio e o fim de todos os seres. (...) Mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim. Eu sou tudo, mas sou independente. Eu não estou sob a influência dos modos da natureza material. Eles, ao contrário, estão em mim...


Trechos do 10° capítulo e outros


"Eu sou tudo, mas sou independente". Simplesmente perfeito. E um modo perfeito de encerrar essa postagem. Agradeço a todos os que me deram a oportunidade de escrever essa reflexão meditativa sobre questões tão essenciais, em especial ao Gustavo, Felipe e comentaristas anônimos. Muito obrigado!



1. RICUPERO, Rubens. O Ponto Ótimo da Crise, Rio de Janeiro: Editora Revan, 1998, p. 76.

2. A informação consta também no 22° Boletim Informativo da Organização Sri Sathya Sai. Rio de Janeiro: Conselho Central do Brasil/Coordenação de Difusão, Edição fevereiro/2006, p. 8.

3. Escritor especializado em Hinduísmo, PhD em Estatística e membro do Indian Statistical Institute Kolkatta.

4. Naren Nagin, além de escritor e conferencista de temas ligados à espiritualidade é também advogado. Vive atualmente em Vancouver, Canadá.



Fontes e bibliografia:

Portal do Ashram Jnana Mandiram, seção Introdução ao Hinduísmo, em http://www.jnanamandiram.org.br, acesso em 17/03/2009;
Blog Indiagestão, - uma brasileira vivendo na Índia, 2005/2008, em http://indiagestao.blogspot.com/2005/08/templo-karni-mata.html e http://indiagestao.blogspot.com/2008/07/vale-pena-ver-de-novo_14.html, acessos em 17/03/2009;
PEIRANO, Mariza G. S. Dados - Dados e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/ Sociedade Brasiliera de Instrução, 1987, p. 359;
Portal National Geographic: em http://www.nationalgeographic.pt/articulo_texto_iframe.jsp?id=1212728, acesso em 03/01/2008.




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