O Jardim do Éden




Por que o homem tem que crescer? Por que tem que ser expulso do Jardim? Por que tem que desenvolver o seu Ego (no sentido junguiano)? Por que tem que criar consciência? Eis o mistério da vida.

Por que o filhote da águia tem que voar? Por que o peixinho tem que nadar? Por que a semente de carvalho tem que se transformar numa árvore imensa? O homem nasce como se dentro dele houvesse um corneteiro tocando o 'avançar!'... Como num campo de batalha, ele tem que seguir em frente, acompanhar a tropa. Se você está na porta de um estádio de futebol esperando sua abertura, com uma multidão atrás de você, quando os portões se abrem você não consegue ficar parado. Assim é também na tomada de consciência do bebê. Assim é a vida. O mistério da vida.

Uma noção geralmente aceita pelos psicólogos, principalmente os junguianos, é que na primeira metade da vida o ser humano deve fortalecer o seu Ego. Na segunda metade, a tarefa seria a Individuação, a aceleração da expansão da Consciência pela absorção de partes do Inconsciente. Porém esse processo não pode ser visto como se essas duas fases fossem completamente separadas. Uma imagem mais válida seria ver a tomada de consciência como uma jornada por uma escada espiral, que leva o ser humano para mais próximo do seu principal objetivo — maior consciência. Ao lado da espiral se encontra um eixo, que representa o Self, — o arquétipo central da psique, — que coordena o inconsciente do ser humano. Ao subir os degraus, a escada se aproxima e se afasta desse eixo. Quem sobe é o Ego; o eixo é o Self. O Self é o centro da psique, englobando o Ego, — o consciente, — e o inconsciente. O Self ordena toda a psique humana, enquanto o Ego é o centro da Consciência, a parte menor da psique. A imagem da Terra girando em torno do Sol também é uma boa metáfora para o processo de desenvolvimento dos seres humanos. A Terra, — o Ego, — se aproxima do Sol, — o Self, — no verão, e recebe mais energia solar, se afastando no inverno. As plantas que, recebendo a energia do Sol, crescem e se desenvolvem, hibernam no inverno.

O processo de conscientização do Ego é semelhante. Ao se aproximar do Self, o Ego absorve parte do conteúdo do Inconsciente, se conscientiza de um pequeno pedaço do Inconsciente. Ao seguir o seu caminho, se afastar, ele processa e entende o que absorveu.

O processo poderia ser visto também como o encontro do professor — o Self — com o aluno — o Ego. O aluno se aproxima do professor, recebe a lição e se afasta para estudá-la em casa. Esse processo, enquanto o Ego ainda não está fortalecido — nos primeiros anos da vida —, funciona automaticamente. Ao bebê não é dada a escolha entre criar ou não seu Ego; à criança não é dada a escolha de fortalecer seu Ego. As coisas acontecem naturalmente.




Entretanto, depois que o Ego já adquiriu certa estrutura, o processo perde parte de seu automatismo. O Ego adquire força para se opor ao processo. Mesmo na entrada do estádio de futebol, com a pressão da multidão por trás, você pode se desviar, esconder-se em um canto, evitar ser empurrado para dentro do estádio. Por que fazer isso? Porque o processo de crescimento pode ser doloroso, e alguns tentam evitá-lo. Essa fuga ao crescimento acontece com mais frequência na segunda metade da vida, quando o Ego está mais fortalecido, mais acostumado e afeito a escolhas. Para evitar o crescimento, o ser humano pode, às vezes inadvertidamente, se esconder atrás de um obstáculo.

Evitar pensar na vida é uma doença que ataca muitos seres humanos, especialmente os materialistas ocidentais. O workaholic, que só pensa no trabalho e não tem tempo para pensar na vida, está com seu processo de crescimento — de individuação — interrompido. Também o ativista político, que acha que vai salvar o seu país, ou salvar o mundo, e não tem tempo de pensar na sua própria vida, não tem tempo para cuidar do seu lado espiritual.

O mito da criação do homem e sua expulsão do Jardim do Paraíso resistiu aos séculos, apesar de cientificamente inverossímil, exatamente porque nos traz uma verdade fundamental. Se fosse somente uma história boba, não teria sobrevivido por tantos milênios. Quem não quiser ouvir seus ensinamentos se arrisca a perder o trem da vida. A jornada da vida é longa e difícil. Por que perder o trem e ter que seguir a pé? Por que ficar parado, esperando a morte?


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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