O Ego segundo Jung

Como visto, o conceito psicanalítico de Ego difere radicalmente da noção de ego trazida pelas religiões, em especial as orientais. Segundo o Zen-budismo, por exemplo, ‘ego’ é apenas a noção intelectual, limitada e ilusória que o ser humano tem de si mesmo e do mundo que o cerca: apenas um aspecto temporário do nosso verdadeiro Eu, que poderíamos chamar de ‘ser integral’. Segundo essa visão, o ego se confunde com o aspecto egoísta de nossa personalidade, que é insaciável e vive eternamente na busca pela realização de desejos e vaidades inúteis. A Psicanálise, porém, (um ramo especial da Psicologia/Psiquiatria desenvolvido por Sigmund Freud), trata o termo de maneira completamente diferente.

A confusão pode surgir, principalmente, porque tanto Freud quanto Jung, - dois dos maiores expoentes no estudo da mente humana em todos os tempos, - Ego significa, simplesmente, EU, (significado etimológico da palavra, do latim). Para a Psicanálise, Ego é um nível natural intermediário da Consciência.

Para o nosso estudo ‘Segredos da Bíblia’, em particular, interessa conhecer o conceito de Ego segundo Jung. Vamos agora estudá-lo, da maneira mais simplificada possível.


A definição de Ego por C. G. Jung (nas palavras do próprio):




"Entendo o ‘Eu’ (Ego) como um complexo de representações que constitui para mim (indivíduo), o centro do meu campo de Consciência e que me parece ter grande continuidade e identidade comigo mesmo. Por isso, falo também do complexo do Eu ou complexo do Ego. O complexo do Eu é tanto conteúdo quanto condição da Consciência, pois um elemento psíquico me é consciente enquanto estiver relacionado com o complexo do Eu. Enquanto o ‘Eu’ for apenas o centro do meu campo consciente, não é idêntico ao todo de minha psique, mas apenas um complexo entre outros complexos.

Por isso distingo entre Eu (Ego) e Si-mesmo (Self). O Eu é o sujeito apenas da minha Consciência, mas o Si-mesmo é o sujeito do meu todo, também da psique inconsciente. Dentro dele está o Eu.

O Si-mesmo ‘gosta’ de aparecer na fantasia inconsciente de 'personalidade superior' ou 'ideal', assim como, por exemplo, o Fausto de Goethe e o Zaratustra de Nietzsche. Neste sentido, o Si-mesmo seria a grandeza ideal que encerraria personalidade superior ou ideal (...) Por amor à idealidade, os traços arcaicos do Si-mesmo foram apresentados como distintos do Si-mesmo ‘superior’: em Goethe,na forma de Mefisto; em Spitteler na forma de Epimeteu; na psicologia, como o demônio ou o anticristo; em Nietzsche, Zaratustra descobre sua Sombra no ‘mais feio dos homens’."

Tipos Psicológicos, C.G. Jung, p. 406


Ego ou Eu é o centro da Consciência, é a soma total dos pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais. É a parte mais superficial do indivíduo, a qual, modificada e tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do indivíduo. É importante salientar que a função do Ego é ignorada e, portanto, o termo muitas vezes é utilizado de forma exacerbada, errônea e inconsequente. O Ego, para Jung, é antes de tudo uma função na composição mental do indivíduo.

Resumindo: o Ego (ou Eu) representa o sujeito da Consciência. – ‘Ele’ é apenas uma parte da psique total. Jung percebeu o Ego como o centro da Consciência, porém sublinhou também as suas limitações, e o definiu como menor do que a personalidade inteira. Embora o Ego tenha a ver com assuntos tais como identidade pessoal, manutenção da personalidade, continuidade além do tempo, mediação entre os campos conscientes e a Inconsciência, conhecimento e testes da realidade e etc, também deve ser considerado como uma instância que responde às necessidades de uma outra, que lhe é superior. Esta é o Self, o princípio ordenador da personalidade inteira. A relação do Self com o Ego é comparada àquela d”o que move com o que é movido”.

Inicialmente o Ego está fundido com o Self, mas deve se diferenciar dele. Jung descreve uma interdependência dos dois: o Self, que possui uma visão mais holista, é supremo. A função do Ego, porém, é confrontar ou satisfazer, conforme o caso, às exigências dessa supremacia. O confronto entre o Ego e o Self foi identificado por Jung como característico da segunda metade da vida.

O Ego também é visto por Jung como resultante do choque entre as limitações físicas e corporais da criança e a realidade ambiente. A frustração ajuda a formar ‘ilhotas’ de consciência que se juntam ao Ego. O Ego, assevera Jung, adquire sua plena existência durante o terceiro ou quarto ano. Psicanalistas e psicólogos analíticos hoje concordam em que ao menos um elemento de organização perceptiva está presente desde o nascimento, e em que, antes do final do primeiro ano de vida, uma estrutura de Ego relativamente sofisticada já se encontra atuando.

"Ego é ‘alguém’ que começa a dar início a sua jornada heróica em busca da totalidade do Self, em busca da meta do Processo de Individuação. Isto é tornar-se Indivíduo."

A tendência de Jung de equiparar o Ego à Consciência torna difícil conceituar os aspectos inconscientes da estrutura do Ego. A Consciência é a característica distintiva do Ego, porém isso é proporcional à inconsciência. Quanto maior for o grau de consciência do Ego, maior a possibilidade de se sentir o que não é conhecido. A tarefa do Ego com relação à Sombra é reconhecê-la e integrá-la, mais que dividi-la, subjugá-la ou negá-la, como propõem as religiões orientais.


A busca pela Individuação

Para que ocorra o processo de Individuação, é necessário que o Ego se confronte com os aspectos contidos na Sombra. O confronto de Ego x Sombra se faz importante pelo fato de que diante desta confrontação é que o Ego tomará consciência de seus medos, fraquezas e negligências em relação a forma como se relaciona com o Inconsciente e em relação a como se relaciona com o mundo externo. A partir deste momento se torna fundamental, tanto quanto conhecer o sentido do termo Ego, saber o que significa esta Individuação, base da psicanálise junguiana

"A Individuação, em geral, é o processo de formação do Ser Individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do Conjunto Humano, da Psicologia Coletiva. É portanto um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural, e uma coibição dela traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo. A individualidade já é dada física e fisiologicamente, e daí recorre sua manifestação psicológica correspondente. Colocar-lhe sérios obstáculos significa uma deformação artificial.

É óbvio que um grupo social constituído de indivíduos deformados não pode ser uma instituição saudável e capaz de sobreviver por muito tempo, pois só a sociedade que consegue preservar sua coesão interna e seus valores coletivos, num máximo de liberdade do indivíduo, tem direito à vitalidade duradoura. Uma vez que o indivíduo não é um ser único mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de Individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente.

O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado à assim chamada Função Transcendente, porque ela traça as linhas de desenvolvimento individual que não poderiam ser adquiridas pelos caminhos prescritos pelas normas coletivas.

Em hipótese alguma pode a Individuação ser o único objetivo da educação psicológica. Antes de tomá-la como objetivo, é preciso que tenha sido alcançada a finalidade educativa de adaptação ao mínimo necessário de normas coletivas: a planta que deve atingir o máximo desenvolvimento de sua natureza específica deve, em primeiro lugar, poder crescer no chão em que foi plantada.

A Individuação está sempre em maior ou menor oposição à norma coletiva, pois é separação e diferenciação do geral e formação do peculiar, não uma peculiaridade procurada, mas que já se encontra fundamentada a priori na disposição natural do sujeito. Esta oposição, no entanto, é aparente; exame mais acurado mostra que o ponto de vista individual não está orientado contra a norma coletiva, mas apenas de outro modo. Também o caminho individual não pode ser propriamente uma oposição à norma coletiva pois, em última análise, a oposição só poderia ser uma norma antagônica. E o caminho individual jamais é uma norma.

A norma surge da totalidade de caminhos individuais, só tendo direito a existir e atuar em prol da vida se houver caminhos individuais que, de tempos em tempos, queiram orientar-se por ela. A norma nada serve se tiver valor absoluto. Só acontece um verdadeiroSó acontece um verdadeiro conflito com a norma coletiva quando um caminho individual é elevado à norma, o que é a intenção última do individualismo extremo. Consequentemente, nada tem a ver com individuação que, sem dúvida, toma seu próprio caminho lateral, mas que, por isso mesmo, precisa da norma para sua orientação perante a sociedade e para estabelecer o necessário relacionamento dos indivíduos na sociedade.

A individuação leva, pois, a uma valorização natural das normas coletivas; mas se a orientação vital for exclusivamente coletiva, a norma é supérflua, acabando-se a própria moralidade. Quanto maior a regulamentação coletiva do homem, maior sua imoralidade individual. A individuação coincide com o desenvolvimento da consciência que sai de um estado primitivo de identidade(v). Significa um alargamento da esfera da consciência e da vida psicológica consciente."

Tipos Psicológicos, C.G.Jung, pp. 426 a 428


__________________________
Fonte bibliográfica:
Dicionário Crítico de Análise Junguiana, em http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/..%5C..%5Cdicjung%5Cverbetes%5CEgo.htm ;
CHEVALIER, J & GHEERBRANT, Dicionário de Símbolos . 14ª ed. Rio de Janeiro . José Olympio . 1999;
JUNG, C.G., Memórias, Sonhos e Reflexões . 22ª ed. Rio de Janeiro . Nova Fronteira . 2002;
JUNG, C.G., O Eu e o Inconsciente . 13ª ed. Petrópolis . Vozes . 2000;
JUNG, C.G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo . 3ª ed. Petrópolis . Vozes . 2003;
JUNG, C.G., Psicologia do Inconsciente . 15ª ed. Petrópolis . Vozes . 2004;
JUNG, C.G., Tipos Psicológicos . Petrópolis . Vozes . 1991.




( Comentar este post __ Ver os últimos comentários