O que é 'Ego'?

O nosso estudo em andamento, intitulado ‘Os Segredos da Bíblia’, a partir deste ponto passará a aludir, com frequência, a uma expressão bastante específica, cuja correta compreensão será fundamental para a assimilação de seu conteúdo: trata-se do termo ‘Ego’. Os leitores antigos de a Arte das artes estão possivelmente acostumados a entender o termo segundo a visão religiosa budista/hinduísta, - a saber, como um sinônimo de nossa identificação com nossos corpos físicos e com o mundo ilusório que nos cerca. - A série de postagens ‘Os Segredos da Bíblia’, no entanto, faz uso da expressão sob a ótica da psicologia de linha junguiana. Entender o significado desta palavra para o autor do livro que serve de inspiração ao nosso estudo será de capital importância para a compreensão desta série. Por essa razão, antes de dar continuidade às publicações, passaremos a uma explicação detalhada a respeito deste assunto particular.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender a visão orientalista a respeito do problema, e só então poderemos confrontá-la com a interpretação da psicologia junguiana. Eis um assunto que este blog já deveria ter abordado há um bom tempo. Antes tarde do que nunca, já dizia o poeta... O que significa Ego, afinal?


O Ego segundo o budismo – por Lama Gangchen Rinpoche




"Em nosso estado mental normal, viver segundo nosso ego parece normal e concreto; o ego parece ser justamente nosso melhor amigo, protetor e benfeitor. Mas na verdade, ele é o nosso pior inimigo, uma fraude que nos engana, fazendo-nos sentir que não podemos existir ou viver sem ele. Como um monstro morando em nosso coração, ele está sempre pronto para fazer coisas ruins e causar problemas a nós e aos outros. Nosso ego tem muitos truques para se manter na ativa. Por isso, devemos prestar atenção quando começarmos a nos dizer: 'Se eu não cuidar do número um (nós mesmos), não vou trabalhar e vou acabar passando fome'; 'Se eu ficar me distraindo com esses assuntos espirituais, vou acabar virando um tolo!' - O ego tem mais defesas que a OTAN. Cuidado!

Não há dúvidas de que é do nosso próprio interesse nos livrarmos desse demônio interior o mais rápido possível (a menos que sejamos masoquistas e gostemos da eterna dor física e mental). Ao recolher e responsabilizar nosso ego de apego a si mesmo por todos os nossos problemas, com certeza geraremos o desejo de cuidar de nosso mundo interno e de nos livrar desse ego o mais rápido possível. Para isso, precisamos enxergá-lo como um mentiroso, examinando se de fato existe como parece ou não.

Isso significa dizer a nós mesmos: 'Pela lógica, se eu existo tal como parece, devo ser ou um com todo meu corpo e mente, ou separado e diferente deles'. Se, quando busco o meu ego, não consigo encontrá-lo nem em minha mente nem em meu corpo, e nem tampouco como algo separado deles, não tenho outra opção senão aceitar que o que estou percebendo é o meu falso senso de individualidade. Precisamos expulsar esse fantasma da máquina.

Pensando dessa forma, começamos a caçar nosso ego aparentemente vivo, nosso verdadeiro inimigo, e isso nos força a confrontar nossas suposições nunca examinadas sobre como existimos de fato. Eis um desafio bastante significativo do ponto de vista emocional: descobrir que nossa percepção básica da realidade é uma grande bobagem. Essa é a autocura absoluta, e por isso devemos prosseguir, cheios de alegria, nesse nível grosseiro do treinamento espacial.

Se sentirmos que o nosso eu é, na verdade, nosso corpo, então algumas questões inevitavelmente se colocam:

1. Qual parte do corpo somos? A cabeça, o coração, os membros?

2. Como tenho muitas partes, devo ter muitos 'eus' e muitos 'egos'.

3. Se sou o meu corpo, então, mesmo que minha mente não esteja nele, eu continuarei existindo. Quando meu corpo morrer, deixarei de existir.

4. Se alguém corta fora nossa perna com um machado, gritamos, 'Ele cortou minha perna', mostrando assim que bem no fundo sentimos que somos proprietários de nosso corpo, mas não o corpo em si.

5. Mas se sentimos que nosso ego é a nossa mente, precisamos examinar o que nossa mente é. Segundo o budismo, temos muitos fatores ou aspectos maiores ou menores da mente: seis sentidos e consciências mentais e cinquenta e um(!) fatores composicionais (todos os aspectos misturados de clareza e escuridão em nossa mente). Ora, se tenho tantas mentes diferentes, devo ter muitos 'eus' diferentes (uma personalidade múltipla esquizofrênica com cinquenta e sete identidades!).

6. Quando alguém nos insulta, pensamos, 'Ele machucou meus sentimentos', mostrando assim que nos sentimos os proprietários de nossa mente, e não a mente em si.

7. 'Penso, logo existo'. — Então, se sou minha mente, posso viver sem meu corpo?

8. Se sentimos que somos a combinação de nosso corpo e mente, devemos tentar seguir o seguinte raciocínio:

Não sou meu corpo.

Não sou minha mente.

Mesmo assim, quando eles estão juntos, chamo-os de 'eu'. Mas como é possível que dois 'não sou' tornem-se um 'eu sou'? Pense nisso! Esse é um enigma profundo e cheio de sentido.

9. Se sentimos que nosso eu é diferente de nosso corpo e mente, deveríamos tentar imaginar então que nosso corpo foi totalmente destruído (por uma explosão atômica, por exemplo), e que nossa mente foi, de alguma forma, desligada, totalmente aniquilada. Onde estaríamos então?

10. Portanto: Certamente não sou meu corpo, não sou minha mente, nem a combinação de meu corpo e mente; Então, onde estou? A resposta é: em 'lugar nenhum'. O que percebemos nesse momento, se tivermos feito o exercício da forma adequada, é a perfeita liberdade e o espaço absoluto.

Esse nada NÃO é o frio vácuo morto do espaço exterior ou a completa negação da vida que nos ensinaram certos 'mestres' e filósofos. A experiência da vacuidade, ou do espaço absoluto, é preenchida por uma sensação de extrema bem-aventurança e uma profunda paz. Segundo os nossos sentidos, não há 'nada' lá, mas de alguma forma encontramos a sensação de arrebatadora alegria de tocar a essência da Vida e o tecido fundamental da Realidade.

Ainda assim, não há 'nada' lá. - Mas 'Tudo' não está no 'Nada'? E não foi do 'Nada' que 'Tudo' surgiu? Bem, isso é o que dizem as religiões.

É uma concepção fascinante e maravilhosa. Então, compreendemos de verdade o mal que é capaz de causar o nosso ego, pois nos impede de ter essa arrebatadora experiência. O aspecto do eu que o budismo chama 'ego', nesse sentido, é realmente a fonte de todo egoísmo, vaidade, inveja, sentimento de separação...

Todas as vezes que tentamos neutralizar o ego, devemos tentar manter a mente ingênua como a mente de uma criança. Não é bom começar o exercício pensando, 'já sei a resposta' ou 'que tédio!', pois assim não poderemos ter o impacto emocional do inacreditável fato de que de repente nosso ego desapareceu, fugiu envergonhado.

Anular o ego é um processo difícil e demorado. Mas é absolutamente necessário e benéfico. Por isso, devemos persistir com alegria. Nossa porcentagem de vitória crescerá passo a passo."



Finda a exposição do Lama Ganchen, completo esta explanação com a esposição do problema segundo o Revmo. Imai, meu antigo mestre budista do Templo Higashi Honganji:


Templo Higashi Honganji


"Tendo exposto nosso ego usando a luz da sabedoria, tudo que nos resta é um vasto espaço ou vacuidade que nos torna livres para retornar à 'Casa do Pai':

'Se alguém quiser me seguir, NEGUE-SE A SI MESMO, tome sua cruz e me siga.'

Esse negar-se a si mesmo não significa negar ao seu eu real, isto é óbvio, pois isso só poderia ser feito através do suicídio! Como eu poderia recusar ou renegar a mim mesmo, se eu só posso ser eu mesmo? Claro que a afirmativa se refere à negação do eu lusório, o eu EGO-ÍSTA, que só pensa em si mesmo, em satisfazer seus desejos, realizar seus sonhos, atingir sucesso em tudo que faz... Aquele que vive construindo e reconstruindo castelinhos de areia, sempre renovados, - ele não para nunca.

As pessoas comuns, em geral, necessitam de muito espaço individual e sempre se sentem desconfortáveis tanto em espaços pequenos quanto em multidões. O antídoto para essa sensação é familiarizar a mente com o vasto espaço interior do não-ego, não-eu, não-meu... A autocura não é desenvolver o ego, mas dissolvê-lo! Assim, sempre nos sentiremos muito confortáveis e relaxados, mesmo se estivermos rodeados por trinta pessoas gritando todas ao mesmo tempo. Claro que falar é muito mais fácil do que fazer...

O fato é que algumas pessoas sentem medo quando entram em contato com esse imenso espaço interior, sentindo que fizeram desaparecer a si mesmas. Mas não há motivo para se preocupar: apenas fizemos desaparecer temporariamente nossa alucinação ou fantasia do ego. Quando chegar o momento de você entrar em contato com o espaço interior, não se preocupe, seu corpo e mente, seu verdadeiro eu, surgidos interdependentemente, ainda estarão aqui."



Espero que a visão budista (que representa magistralmente a visão da tradição oriental como um todo) a respeito do termo ego tenha ficado clara. Se não ficou, clicando aqui com certeza você será capaz de dirimir todas as suas dúvidas a respeito do assunto. Me comprometo a responder a todas as dúvidas de leitores que surgirem, nos comentários deste post. Próxima postagem: ‘O Ego segundo Jung’.


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Fontes:
Portal 'IGPT' / Lama Gangchen Rimpoche Peace Voices, seção 'Peace Times', 2008: em http://www.lgpt.net/bios/rinpoche.htm, acesso em 17/02/2009.




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