A importância do Mito



A
importância do mito não se mede pelo fato de retratar ou não uma história real, mesmo que romanceada, ou uma história criada na mente de quem primeiro a relatou. O mito tem que ser avaliado por sua capacidade de conexão com a psique humana.

Os deuses gregos, por exemplo, poderiam ser considerados arquétipos que moram no nosso inconsciente. E o que seriam tais arquétipos? Este é um conceito complexo, mas que pode ser explicado por uma metáfora simples (Jung mesmo dizia que o arquétipo se expressa principalmente através de metáforas): o leito de um rio seco não é o rio, mas está preparado para, na estação das chuvas, organizar as águas, permitir a existência de um rio. Quando elas vierem, aquele leito gera a condição para que o rio exista naquele lugar. Assim também são os arquétipos dentro psique humana, preparados para canalizar os estímulos que chovem em sua "bacia".

O arquétipo é como a fundação de uma casa. Ela não define a casa, que pode ser construída em diferentes estilos, mas define o número máximo de andares que a casa pode ter, por sua capacidade de suportar peso; define também o limite das paredes externas da casa, e, portanto a sua área de projeção. A fundação da casa, portanto, seria o arquétipo, e a casa, a sua imagem arquetípica. Sobre essa mesmo fundação podem ser construídas casas diferentes, com diferentes estilos.

Também um arquétipo suporta milhares de imagens arquetípicas diferentes. Cada sonho, cada mito, cada lenda, mesmo que baseado em um mesmo arquétipo, apresenta imagens arquetípicas diferentes. O arquétipo do herói, por exemplo: as histórias de heróis abundam na literatura universal, na Bíblia, nos mitos, nas lendas e nos contos de fada. Porém, como mostrou Joseph Campbell em sua obra magistral, "O Herói de Mil Faces", existem inúmeras características comuns na estrutura de todas as histórias de heróis. Cada história, - cada imagem arquetípica, - é bem diferente, mas várias características lhe são comuns, pois essa imagem tem como fundação o arquétipo do herói, e este é único.

Jung chegou ao conceito de arquétipo com base na observação reiterada de que os mitos, as lendas, os contos de fadas e as histórias da literatura universal de várias culturas e regiões geográficas diferentes carregam temas semelhantes, que reaparecem com roupagens diversas sempre e por toda parte. Encontramos esses mesmos temas mitológicos nas fantasias, nos sonhos, nas idéias delirantes e ilusões de indivíduos que vivem no mundo atual. Tais imagens – arquetípicas – são representações dos arquétipos que aparecem na psique do homem moderno.

Os mitos estão espalhados por toda a Terra, existem em todas as culturas humanas. É impressionante constatar que povos afastados um do outro, sem qualquer contato entre si, mostram motivos idênticos em sues mitos. Não seria isso suficiente para demonstrar que os mitos são verdades universais, expressam características universais da psique humana? Entretanto, essas verdades, que atuam com força em nosso inconsciente, não são óbvias para nossa mente racional, até mesmo por não corresponderem a fatos possíveis no mundo material. Foi preciso que Jung descobrisse a chave para sua interpretação, e que mitólogos como Joseph Campbell, trabalhando com as idéias do próprio Jung, nos ajudassem a descortinar um novo horizonte, permitindo-nos entender os mitos psicologicamente.

Jung entendeu que certas afirmações religiosas são confissões da psique baseadas no inconsciente do ser humano. Somente aquelas ideias que encontram eco num grande número de mentes conseguem sobreviver à passagem do tempo e se transformar em ideias religiosas, que são, em última análise, verdades psíquicas. Essas ideias se entrincheiram nas profundezas da psique humana, no que Jung chamou de inconsciente coletivo.

Existem três proposições verdadeiras em relação aos livros sagrados de todos os povos:

1. As afirmações religiosas têm suas raízes na psique; são fatos psíquicos.

2. As afirmações religiosas ajudam no processo de estruturação da psique de indivíduos, culturas e épocas.

3. As afirmações religiosas têm suas raízes em experiências transcendentais.

Estas proposições nos apontam a grande importância do entendimento psicológico da Bíblia. E esse entendimento é especialmente importante para aqueles que não acreditam nas afirmações religiosas, para aqueles que não tem fé. Mesmo os ateus vão se surpreender com as lições que podem tirar da Bíblia.

Jung disse que as neuroses devem ser entendidas, em última análise, como um sofrimento da alma que não encontrou seu significado, e que o problema do homem moderno é o da falta de sentido da vida. Dizia também que “felizes aqueles que têm fé, pois não precisam de psicoterapia”(!). Entretanto, como fé não se compra em supermercado, aqueles que não foram premiados com ela têm que trabalhar duro, correr atrás, buscar descobrir o sentido da vida. Pois bem, os mitos da Bíblia (já explicado que mito, aqui, não tem sentido pejorativo) nos ajudam a descobrir o sentido de nossa existência.




Dos mitos que mais influenciaram nossa civilização ocidental, três tiveram maior importância: os mitos da Bíblia, os mitos gregos e, bem mais recentes, os mitos arturianos. E destes três, sem dúvida, os mais relevantes para a civilização ocidental são os da Bíblia, esta série de postagens pretende discutir, usando de paralelos com os mitos gregos e arturianos, e também os de outros povos ao redor do mundo.


“Os mitos bíblicos, ao contrário do que se pensa, no que se refere ao estudo da mente humana, podem nos revelar verdades maiores que as da própria ciência.”
Roberto Lima Netto


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller,2008.




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