Deixando o Jardim do Éden


Entre o primeiro e o segundo século após o surgimento da era cristã, existiu um grupo gnóstico denomindo naaseno. E recentemente resgatado evangelho de apócrifo de Judas demonstra claras influências deste grupo independente dos apóstolos e primeiros seguidores de Jesus Cristo. Eles pregavam ser Javé uma expécie de semideus mau, que pretendia manter o homem na ignorância: o Deus Maior, o Deus da Luz, se encarnou na serpente para salvar o homem da ignorância(!!)e de uma vida inconsciente. Esse grupo deriva seu nome da raiz naas, - palavra latina que significa serpente, animal adorado por eles.

Conta um antigo mito grego, que pode ter influenciado os naasenos, que os deuses criaram os animais, dando a cada um dom. Ao cavalo, a velocidade; ao leão, a força; aos pássaros, o poder de voar, e assim por diante. Chegando a vez do homem, o último a ser criado, nada mais havia para lhe ser dado. O homem era fraco e lento, por isso seria uma presa fácil dos animais predadores, mas os deuses pouco se importaram com isso. O titã Prometeu, no entanto, ficou com pena do homem e roubou o fogo, - prerrogativa exclusiva dos deuses, - para dá-lo ao homem, e foi por esse ato cruelmente punido. De posse do fogo, o homem pôde sobreviver e dominar sobre os animais. O fogo, a luz, poderia ser entendido como uma metáfora para a Consciência, exatamente a qualidade que Adão e Eva ganharam ao comer a maçã.

Seria Javé, assim como os deuses do panteão grego, indiferente ao homem? Os mitos gregos nos mostram deuses muito pouco preocupados com a humanidade, e somente quando um ser humano entra em seu caminho é que eles voltam suas atenções para ele. - Geralmente para puni-lo.

Ou será que Javé queria que o homem desenvolvesse sua consciência, e a expulsão do jardim foi o meio por ele usado para acelerar esse processo? Minha resposta é sim. A pergunta seguinte é como. De que maneira, tendo deixado o Jardim do Éden, o ser humano deve prosseguir em sua busca pela Consciência? Ele não pode voltar ao estado anterior de beatífica inconsciência, porque Deus colocou querubins com espadas chamejantes às entradas do jardim, para garantir a impossibilidade desse retorno.

Poderiam os seres humanos serem eternamente felizes vivendo no Jardim do Éden? Um pescador vivia miseravelmente em uma cabana no meio do mato. Sua vida era dura e nem sempre ele conseguia pescar para alimentar a mulher e os três filhos, e eles frequentemente passavam fome e necessidades. O pescador não sabia que, enterrado debaixo de sua casa, existia um imenso tesouro em ouro e pedras preciosas. Esse tesouro pertencia a ele, um legado deixado por um longínquo ancestral. Pergunta: era o pescador rico ou pobre?

Era o homem, vivendo no Jardim do Éden, feliz ou infeliz? Sem consciência, não podia ser nem uma coisa nem outra. Como poderia saber se era feliz? Como o pescador poderia saber que possuía um tesouro, que era rico? O máximo que poderíamos dizer seria que, mesmo com o seu tesouro enterrado, o pescador era pobre, ainda que potencialmente rico. O homem também poderia ser potencialmente feliz. Mas o ser humano tem que buscar a Consciência, tem que comer a Fruta do Conhecimento do Bem e do Mal, sair do Jardim do Éden da letargia: buscar a Consciência seguindo sua jornada de individuação. Por esse motivo, Javé colocou a cobra no jardim.




Existem vários relatos de indivíduos que trabalham com doentes terminais, atestando haverem estes atingido, nos dias que antecederam suas mortes, estados de iluminação que os tornavam pessoas melhores, mais completas. E isso ocorre independentemente da idade, tendo sido observado mesmo em jovens. Porém não podemos afirmar que isso ocorra com todas as pessoas. Nosso lado racional sugere que uma pessoa, com uma vida de grandes crimes e maldades, não deveria atingir o mesmo estágio de individuação que outra, com um desenvolvimento espiritual elevado Mas, em assuntos que envolvem o lado espiritual, o racional pouco conta. Como explicar o ladrão crucificado ao lado de Jesus, que apenas por reconhecer a inocência do Mestre foi instataneamene perdoado e subiu aos Céus?

Jung conceitua a individuação como um processo de conscientização. Assim sendo, não acabaria nunca. O homem pode progredir na jornada de individuação, como também pode regredir, mas nunca chegaria a um estado final, pronto e acabado — um ser completamente individuado, completamente consciente, um ser, na terminologia oriental, iluminado. Os hinduistas acreditam que o indivíduo precisa de milhares de existências para se iluminar, e que seu objetivo de vida — de muitas vidas — deve ser se aperfeiçoar para atingir a iluminação, o que evitaria futuras encarnações. Já no conceito junguiano de individuação isso nunca ocorre, pois se define individuação como um processo, uma jornada que, a despeito de ter uma meta, permite que nos aproximemos cada vez mais dela, sem nunca atingi-la. Dentro da perspectiva junguiana, o homem nunca poderia se conscientizar de todo o material arquivado em seu lado inconsciente. O conceito junguiano se afina melhor com os ensinamentos da Bíblia.

Que verdade maior nos propicia o mito do Éden, inverossímil sob a ótica da ciência? O que podemos apreender com ele? Esse mito vem nos dizer que o homem tem que buscar a Consciência, conhecer o Bem e o Mal. Adão e Eva, no início da história, nem mesmo sabiam que estavam nus. Foi preciso que comessem o fruto para perceberem isso. Nosso casal ancestral estava no estágio do bebê, que nasce sem noção do eu e do meu. Mas o fluir da vida força o bebê a se desenvolver, e em poucos meses ele desenvolve a noção eu/meu. Nasce seu Ego. Ele, que vivia inconsciente, sentindo-se como parte inseparável da mãe (e/ou do Universo), percebe agora, ainda que de maneira tênue, que é um indivíduo separado. Começa a ser expulso do jardim.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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