Mito bíblico da Criação




A Bíblia oferece duas histórias diferentes da criação do mundo. A chamada Versão P, que no livro sagrado é apresentada no primeiro capítulo, teria sido escrita no século VI aC. Nessa versão, homem e mulher são criados simultaneamente, à imagem de seu Criador, e o Senhor é denominado Eloin. - A Versão J, que o livro sagrado apresenta depois da versão P, no segundo capítulo, é chamada assim porque nela o Senhor é chamado de Javé ou Jeová. Estima-se que essa versão tenha sido escrita no século X aC, muito antes do aparecimento da versão P. Ambientada no Jardim do Éden, ela descreve um homem, Adão, feito a partir do barro, recebendo sua alma de um sopro de Deus, sendo a mulher, Eva, criada posteriormente a partir de uma costela de Adão. Essa versão pode nos induzir a ver o masculino como superior ao feminino. Uma visão que, embora coerente com o patriarcado que prevalecia no Oriente Médio ao tempo em que esse episódio foi escrito, mostra-se incoerente com dados antropológicos que colocam o matriarcado, não o patriarcado, como organização característica dos primórdios do desenvolvimento humano.

A ivergência entre os dois mitos, que versões mais modernas da Bíblia tentam minimizar com pequenas mudanças de alguns termos, não chega a prejudicar o nosso entendimento. Como já mencionado em postagem anterior, o mito não precisa da realidade física, não precisa espelhar um fato do mundo real para ser fundalmentalmente verdadeiro, instrutivo e útil. Podemos tirar lições importantes das duas versões, a despeito das contradições que apresentam entre si.

Usando a ordem cronológica de sua produção e desobedecendo a ordem convencional de organização da Bíblia, vamos começar a nossa apreciação pela Versão J, do Jardim do Éden, que se inicia no capítulo 2, versículo 4, do Gênesis. Depois de relatar a criação do Éden, do homem e da mulher, e colocar naquele jardim a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a Árvore da Vida, Javé proibiu o homem de comer os frutos da primeira. Logo em seguida, no capítulo 3, defrontamo-nos com o episódio da tentação da serpente.


Gênesis — capítulo 3

1 A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que Javé Deus havia feito. Ela disse para a mulher: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?” 2 A mulher respondeu para a serpente: “Nós podemos comer dos frutos das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Vocês não comerão dele, nem o tocarão, do contrário vocês vão morrer.’” 4 Então a serpente disse para a mulher: “De modo nenhum vocês morrerão. 5 Mas Deus sabe que, no dia em que vocês comerem o fruto, os olhos de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal.” 6 Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas. 8 Em seguida, eles ouviram Javé Deus passeando no jardim à brisa do dia. Então o homem e a mulher se esconderam da presença de Javé Deus, entre as árvores do jardim. 9 Javé Deus chamou o homem: “Onde está você?” 10 O homem respondeu: “Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi.” 11 Javé Deus continuou: “E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?” 12 O homem respondeu: “A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto, e eu comi.” 13 Javé Deus disse para a mulher: “O que foi que você fez?” A mulher respondeu: “A serpente me enganou, e eu comi.” 14 Então Javé Deus disse para a serpente: “Por ter feito isso, você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todas as feras. Você se arrastará sobre o ventre e comerá pó todos os dias de sua vida. 15 Eu porei inimizade entre você e a mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela. Estes vão lhe esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles.” 16 Javé Deus disse então para a mulher: “Vou fazê-la sofrer muito em sua gravidez: entre dores, você dará à luz seus filhos; a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará.” 17 Javé Deus disse para o homem: “Já que você deu ouvidos à sua mulher e comeu da árvore cujo fruto eu lhe tinha proibido comer, maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, você dela se alimentará com fadiga. 18 A terra produzirá para você espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva dos campos. 19 Você comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó, e ao pó voltará.” 20 O homem deu à sua mulher o nome de Eva, por ser ela a mãe de todos os que vivem. 21 Javé Deus fez túnicas de pele para o homem e sua mulher, e os vestiu. 22 Depois Javé Deus disse: “O homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Que ele, agora, não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma, e viva para sempre.” 23 Então Javé Deus expulsou o homem do Jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. 24 Ele expulsou o homem e colocou diante do Jardim do Éden os querubins e a espada chamejante, para guardar o caminho da árvore da vida.


Os mitos podem ser lidos como mapas para a jornada da vida. O mito do Jardim do Éden é um com o qual me digladio desde meus 7 anos. Quantas vezes falei mal dos nossos dois ancestrais, culpando-os pela besteira que fizeram ao comerem a fruta proibida, perdendo assim o Paraíso? Nosso Paraíso. Isso acontecia sempre que tinha que tomar uma injeção, coisa comum quando uma gripe me pegava. O pavor da picada — mais do que a dor, a expectativa da dor — me levava a vituperar contra esses avós dos avós dos avós, que me haviam tirado do Paraíso onde, sem dúvida, as injeções não existiriam, não doeriam ou não seriam necessárias. Naquela época, não me ocorria — ou me faltava coragem para — reclamar contra Javé. Preferia direcionar minha revolta para Adão e Eva. Anos depois, pensando bem, cheguei ao grande questionamento: Por que Deus deveria proibir Adão e Eva de comer o fruto da Árvore do Conhecimento, afinal?

Isso não fazia sentido para o menino de 7 anos que eu era. Encontrei uma explicação fácil em um livro infantil sobre a Bíblia. Dizia que os frutos da árvore representam o conhecimento da felicidade e do infortúnio, e que Deus proibiu que fossem comidos porque não queria que o homem se tornasse infeliz. Simplista... Esta explicação não satisfez nem mesmo à criança de 7 anos. O tempo passou, eu cresci, tomei conhecimento dos ensinamentos de Jung, e hoje o Jardim do Éden é o meu mito favorito. Minha escolha para darmos partida em nossa jornada pelos segredos da Bíblia, pelas sendas do nosso mundo interior. Esse mito é um dos mais conhecidos e menos compreendidos.

Por que Deus não haveria de querer que o homem comesse do fruto da Árvore do Conhecimento? Por que Deus não haveria de querer que o ser humano fosse capaz de distinguir entre o bem e o mal? Sem esse conhecimento, o homem seria mais um animal sobre a Terra. No máximo, o rei dos animais. E, inconsciente, nem mesmo saberia que era rei.

Seria este o objetivo de Deus para o homem? Duvido. Um Deus onisciente, que não quisesse que o homem comesse o fruto proibido, não criaria ou não poria no jardim, nem a macieira nem a cobra. Se Deus é onisciente, somos levados a crer que colocou a cobra no jardim para levar a maçã ao homem. O homem tinha que comer a maçã, o fruto do conhecimento. Deus queria que isso acontecesse. Mas por que, então, o homem foi expulso do jardim? Como entender os atos do Senhor Javé?


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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