Os segredos da Bíblia




A abordagem simbólica da Bíblia evita o entendimento (equivocado) das grandes e maravilhosas verdades que ela traz de forma puramente literal, como fazem certas religiões institucionalizadas. Terá Deus realmente criado o Universo em 7 dias? Qual o sentido do relato sobre a história do paraíso terrestre e de Adão, criado do húmus da terra, e Eva, a partir da sua costela? Estes e diversos outros pontos são magistralmente discutidos por Roberto Lima Netto (vale o clique) em sua obra ‘Os Segredos da Bíblia’, que eu recomendo fortemente a todos os leitores deste blog.

Interpretar o livro sagrado mediante os conhecimentos científicos atuais e principalmente segundo uma profunda análise psicológica (junguiana) é a proposta do autor, que é doutor pela Universidade de Stanford e escreveu também ‘O Pequeno Príncipe para Gente Grande’, publicado pela editora Best Seller. A partir de hoje, você vai acompanhar uma resenha de ‘Os Segredos da Bíblia’ aqui no a Arte das artes. Aproveite!




Carl Gustav Jung, em seu livro autobiográfico ‘Memórias, Sonhos e Reflexões’, escreve sobre a importância do mitologizar, isto é, não tomar os conteúdos significativos literalmente, mas sim como símbolos, metáforas, sobre cujo significado deveríamos meditar profundamente, de forma a irmos penetrando em seu sentido central e mais importante. Para apreendermos estes significados, devemos realizar o que Jung denominou um circumanbulatio, uma respeitosa caminhada em torno do símbolo, para irmos nos familiarizando, aos poucos, com a multiplicidade inesgotável de seus significados. A palavra ‘Mito’, aqui, adquire um sentido oposto ao corriqueiro, de algo falso ou equivocado. Pelo contrário, mito está sendo entendido como plenamente verdadeiro, algo que não pode ser expresso pela linguagem comum.

Quando Roberto Lima Netto conversa sobre os mitos da Bíblia, ele está precisamente executando essa função de mitologizar, isto é, tomar o principal acervo de ensinamentos sobre a alma humana do mundo ocidental, um legado de sabedoria extraordinário, a experiência de nossos ancestrais, adquirida em sua adaptação às diversas situações típicas da vida e o forte papel da religião para a sobrevivência. A Bíblia é frequentemente entendida, sobretudo por parte das religiões cristãs protestantes ou reformadas, sem o critério de sua forma mitológica e simbólica, exatamente seu conteúdo mais precioso para a espiritualidade humana. O instrumento conhecido mais perfeito de que dispomos para promover a aproximação desses símbolos é a psicologia analítica de C. J. Jung.

Há diversas vantagens na abordagem simbólica dos textos da Bíblia.; em primeiro lugar, evita-se a aproximação dessas grandes e maravilhosas verdades de uma forma puramente literal. Analisaremos as duas versões bíblicas sobre a origem da humanidade: A versão P, segundo a qual a mulher foi tirada da costela do homem, e a versão J, que diz que Deus “macho e fêmea os criou”. – Ou seja, criou a ambos, Adão e Eva, da lama da terra. Entre muitos outros tópicos, estudaremos como a existência de duas versões para a criação dos seres humanos aponta para a realidade simbólica mais profunda desses relatos. É curioso que a suposta inferioridade da mulher perante o homem não está presente na versão J, pois revela a mulher como criação direta a partir de YHWH, sem a necessidade da intermediação de Adão. Essa diferença, que aos nossos ouvidos pode soar irrelevante, tinha uma grande importância no mundo antigo. Todas as culturas antigas da região do AT ensinavam que os deuses iam perdendo poderes e importância a medida em que as gerações se distanciavam do Criador primordial: havia sempre um deus criador que gerava um outro deus, menos poderoso que ele próprio, que por sua vez gerava outro deus um pouco menos poderoso, e assim por diante. Essa relação estava profundamente marcada na vida dos povos ancestrais, fossem babilônicos, cananeus, hititas, mesopotâmicos, etc. – O fato de Adão ter sido criado primeiro, segundo um dos relatos do Gênesis (versão P), significava que o homem era superior a mulher, estando mais próximo do Criador. Mas essa não era a visão unânime da época, conforme comprovamos pelo relato de J. Através deste pequeno exemplo, percebemos a fundamental importância de se saber interpretar a Bíblia com base em sua profunda simbologia.




Os mitos da Bíblia dão a sensação de pertencer a um cosmo ordenado e próprio. Procuram oferecer sempre uma explicação que conforte e situe o homem perante os grandes problemas do sentido da vida e do Universo. Também os mitos bíblicos dizem respeito a todos os problemas cotidianos da vida, os relacionamentos entre irmãos, pais e filhos e, acima de tudo, à suprema lei, a relação com o Senhor Deus, uma ética transcendente que deve regular todas as ações dos homens. As histórias míticas que envolvem todos esses personagens servem como um modelo para as ações dos homens.

A leitura que Roberto Lima Netto propõe é a leitura mítica, que evita qualquer forma de fundamentalismo religioso. Pelo fundamentalismo, o crente se apega à letra do Livro Sagrado, seja ele a Bíblia, o Alcorão ou qualquer outro. O fundamentalista torna-se possuidor de uma verdade absoluta, e todos os demais, para ele, estão mergulhados na escravidão, pois nada sabem. O debate e o diálogo criativo são evitados a todo custo. A visão fundamentalista traz uma falsa segurança, fanatismo e proselitismo. A visão mitológica amplia, enriquece e traz nova percepção das coisas do cotidiano e do Universo. É o que este livro procura oferecer, uma nova dimensão psicológica e um enriquecimento simbólico para a personalidade.



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