O poder do Mito




A verdade do mito é, em muitos aspectos, maior que a verdade do fato. O mito fala uma linguagem simbólica, metafórica e analógica; Assim, se aceito, é fundamental para o desenvolvimento espiritual (o que quer que isso signifique para quem lê) do homem, para dar sentido às nossas vidas. As imagens mitológicas da Bíblia simbolizam poderes espirituais que todos os seres humanos carregam dentro da psique, mesmo aqueles que se dizem ateus. Por isso mesmo os mitos não se referem a fatos, mas jogam sua luz para além deles. São verdades maiores, que vão além, que transcendem aos fatos. Sobre eles, Salústio, o historiador romano, proferiu uma frase admirável:

“Mitos são coisas que nunca aconteceram, mas que sempre existiram.”



Uma verdade maior

A Bíblia, essa obra fantástica que sobrevive aos passar dos milênios, fala aos seus leitores de diferentes maneiras. Antropólogos a lêem buscando conhecer como viviam os povos do Oriente Médio nas épocas em que ela foi escrita; teólogos a lêem em busca de verdades religiosas, e se baseiam nela para definir dogmas; o homem comum busca nela uma via para entender o seu mundo e os mistérios da vida e da morte.

No mundo moderno, duas correntes principais se digladiam na interpretação da Bíblia. Um grupo vê nela verdades factuais incontestáveis: acredita que o Universo foi realmente criado em seis dias; que Adão e Eva são factualmente nossos primeiros ancestrais, que habitavam num jardim chamado Éden e foram seduzidos pela serpente, que era o mais astuto dos animais (Gênesis 1). Acreditam que, em tempos antigos, os filhos de Deus, de lá do alto do céu, observaram as filhas dos homens e as acharam formosas, desceram à Terra e casaram-se com elas, gerando uma raça de gigantes (Gênesis 6). Acreditam que os homens tentaram construir uma torre tão alta que quase chegou a tocar o céu (que os autores da época achavam que era uma abóbada que recobria toda a Terra e a separava do Céu, morada dos deuses), mas antes que isso acontecesse, Deus fez com que suas línguas se confundissem, e assim a construção não pode ir em frente, e que essa foi a origem da multiplicidade de idiomas no mundo (Gênesis 11). Acreditam que um homem foi engolido por um peixe gigante e sobreviveu no seu ventre durante três dias, mas tendo suplicado a Deus de dentro do peixe, foi regurgitado pelo peixe, são e salvo (Jonas cap. 1 e 2)... - Pode parecer mentira, mas muitas denominações cristãs protestantes acreditam em todas essas histórias não num sentido metafórico, mas literal. - Acreditam ao pé da letra nessas e em várias outras afirmações absurdas da Bíblia, chegando a defender que o Universo tem apenas 6.000 anos de existência (!!), mesmo que a ciência e o mais simples e elementar uso do bom senso as considerem absurdas.

Do outro lado estão aqueles que vêem na Bíblia nada mais uma coleção de lendas e fantasias, refletindo crenças de povos primitivos que tinham necessidade de explicar o mundo em que viviam e não dispunham dos conhecimentos da ciência dos tempos atuais. Essas duas maneiras de interpretar a Bíblia, ambas radicais, foram as que prevaleceram nos últimos séculos, e são opostas e irreconciliáveis.

Porém, a obra admirável que é a Bíblia não precisa se limitar a essas duas interpretações radicais e reducionistas. A Igreja Católica, já há algum tempo, vem priorizando e buscando uma compreensão mais aprofundada e mística do conjunto de textos bíblicos que denomina como “Palavra de Deus”. A compreensão de que o livro sagrado ensina muito mais através das entrelinhas e de revelações pessoais que se manifestam a quem a lê com olhos meditativos e desapegados da literalidade e das explicações prontas, - como ocorre nos círculos católicos de Lectio Divina (Leitura Orante ou Centrante da Bíblia), Oração Centrante Meditação Cristã, - trouxe muito progresso espiritual a esta egrégora, além de uma aproximação nunca antes vista entre a tradição cristã e as religiões orientais. Importa mais o sentido profundamente espiritual e místico, - por vezes até didático - dos textos bíblicos que a sua literalidade. O que não implica dizer que tudo que a Bíblia conta é mito, muito pelo contrário. São incontáveis as descobertas arqueológicas que comprovam muitíssimas passagens descritas no livro sagrado, e hoje é uma certeza acadêmica que a maior parte das histórias bíblicas representam fatos reais, acontecimentos históricos. O que não pode (e não deve) ser esquecido, é que toda as narrativas (em especial aquelas do AT) estão repletas de conceitos mitológicos, analogias e significados místicos muito mais profundos do que o que pode ser encontrado na superfície literal, e é exatamente essa parte recheada de tesouros inestimáveis, que deveria ser priorizada.

Fato incontestável é que o livro sagrado também nos dá fantásticas lições de psicologia e humanidades, ajudando-nos a entender a mente humana. Esta nova maneira de ler a Bíblia, que é o tema desta nova série de postagens, não conflita com nenhuma das anteriores. Não nega que boa parte dos textos contenha realidades literais, Mas se atém às preciosidades morais que eles encerram. É um caminho relativamente novo, aberto com as descobertas de Carl G. Jung - sábio, médico e psicólogo suíço do século XX (1875-1961). Um caminho ainda pouco trilhado, que proporciona ensinamentos valiosos e proporciona um novo entendimento do livro sagrado, que atende aos que querem ver a Bíblia com os olhos da razão, e ao mesmo tempo não conflita com os que a vêem com os olhos da fé.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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