Já lhe perguntaram se você acredita em Deus?




E você já parou pra pensar que, nesse momento, antes de responder, a primeira, lógica e óbvia reação seria perguntar a qual Deus a pergunta se refere? Ao Deus maior, incognoscível, essa Força Misteriosa que muitos crêem que criou o Universo, ou à imagem de Deus que existe no mais profundo de nossa psique, que poderíamos chamar de ‘Deus psicológico’?

A pergunta se refere ao Deus Supremo, o Deus Maior, a Força grandiosa que gerou o Big Bang, que criou o Universo com todos as galáxias, que controlou as infinitas variáveis para que pudesse existir um (ou mais) planeta(s) miraculosamente perfeito(s) para gerar e abrigar vida, indo contra todas as probabilidades estatísticas e científicas, que conduziu um maravilhoso processo evolutivo que partiu de organismos unicelulares até chegar ao maior milagre conhecido em todo o Universo, chamado homo sapiens? - Ou a pergunta se refere ao ser que criou o mundo em seis dias e colocou nossos primeiros ancestrais, como bonecos de barro, num jardim paradisíaco chamado Éden? Em qualquer dos casos, uma coisa não muda: Deus é incognoscível, isto é, não pode ser conhecido pela razão. A Bíblia poderia ser descrita, num certo sentido, como um (incrível) produto da psique humana.

É claro que as poderosas imagens da Bíblia não poderiam ser inventadas pela mente de modo consciente. Inspiradas por Deus ou não (isso é questão de fé), elas brotaram da parte mais profunda da psique humana, do chamado inconsciente. Para serem transformadas em histórias contadas ou escritas, tiveram que ser conscientizadas pelos autores bíblicos: as imagens vieram do inconsciente e chegaram à psique consciente dos autores. Consequentemente, as imagens da Bíblia podem ser entendidas como representações do Deus psicológico, isto é, da imagem de Deus que guardamos dentro de nossa psique.

A psicologia, sendo uma ciência racional, não pode fazer qualquer afirmação sobre o Deus Maior. Ele está muito acima da capacidade racional da mente humana. Por outro lado, pode observar e descrever os resultados da ação de Deus na mente humana, quando Ele se manifesta como imagem visível e passível de ser entendida pela mente humana, o que chamamos de Deus psicológico. – Na linguagem junguiana, poderíamos chamar de Self ou Si-mesmo.

Nada impede que se façam da Bíblia, que é uma coleção multifacetada de livros, leituras diferentes, e isso acaba ocorrendo sempre, até dentro de uma mesma tradição religiosa. Sendo o objetivo desta série de postagens desvendar as verdades psicológicas que ela encerra, vamos interpretar o Deus da Bíblia como sendo a imagem de Deus que trazemos em nossa psique, o chamado Deus psicológico.




Todos os seres humanos trazem dentro de sua psique uma imagem pessoal de Deus. É essa imagem, desse Deus psicológico, que vamos discutir nestas postagens. – Reafirmando o conceito essencial: o Deus transcendente e incognoscível, exatamente por ser transcendente e incognoscível, não pode ser acessado pelo lado racional da mente humana. Pode ser reverenciado, pode ser o foco de nossas orações, pode ser entendido, sentido e intuído pelo nosso lado emocional, e pode ser amado profundamente, de fato. Mas não pode ser entendido racionalmente por nós, seres humanos. Esta série de postagens não pretende uma abordagem teológica da Bíblia, mas uma visão psicológica. O objetivo é buscar as fundamentais verdades psicológicas contidas na Bíblia; portanto, sempre que se falar em Deus, Javé, Eloim, El Shaddai, Senhor, etc, estarei me referindo ao Deus psicológico, isto é, a imagem de Deus dentro de nossa psique, ao Self, conforme referido por Jung. Mas interessa observar que isso não conflita com o fato de a maioria dos teólogos verem na Bíblia o Deus maior, o Deus Supremo e incognoscível.

O nosso objetivo é aproveitar as histórias da Bíblia como fontes de lições de vida de inestimável valor. – Lições que não podem ser contestadas por crentes e nem por agnósticos ou ateus.

Por que a Bíblia, cheia de histórias antigas que não têm qualquer relação com a vida moderna, continua sendo o livro mais popular do mundo? Para essa pergunta existe uma resposta bastante viável: a Bíblia fala diretamente à nossa psique, e à sua parte mais profunda, fazendo vibrar muitas 'cordas' enterradas em nosso inconsciente. Psique é o termo grego para alma. Alguns psicólogos relutam em falar de alma, por acharem que o termo carrega conotações religiosas. Para Jung, e para os objetivos destas postagens, os dois termos – alma e psique – tem significados equivalentes.

A Bíblia, para quem sabe ler, traz preciosas lições de vida. Porém, temos que entendê-la corretamente, e para isso cumpre nos aprofundarmos na natureza dos mitos e em sua função psicológica. - É fundamental entender que o termo “mito”, na linguagem popular, adquiriu a conotação de inverdade, de mentira. o Dicionário Aurélio, entre diversos outros significados, define mito como “ideia falsa, sem correspondente na realidade”. É possível acreditar, séculos depois de Darwin, que o homem foi criado do barro? Que a arca de Noé singrou os mares, com um casal de cada um dos milhões de espécimes de animais da Terra a bordo? A palavra mito pode, equivocadamente, ser interpretada de maneira negativa. Até mesmo falar de mitos na Bíblia pode causar reações calorosas entre os religiosos mais radicais. Mas reconhecer e assumir a existência evidente dos muitos mitos contidos na Bíblia não significa desvalorizá-la, muito pelo contrário. As valiosas lições psicológicas ali contidas, registradas milhares de anos antes do surgimento das ciências da mente, só podem nos levar à reflexão mais profunda a respeito das alegações de sua origem divina.

Muitos pesquisadores entendem os mitos como uma pré-ciência, uma forma de o homem primitivo explicar os fenômenos da natureza. Como tal, depois do desenvolvimento da ciência, passariam a ser apenas histórias bonitas, fábulas para crianças. Outros vêem a mitologia como narrativas de fatos reais apenas transfiguradas pelas fantasias da época e a imaginação de quem as transmitiu. Após as descobertas da psicologia analítica de Jung, porém, esses pontos de vista precisaram ser revistos.

É claro que, para muitos, é difícil acreditar que a serpente falou com Eva, que o Criador de todo o Universo andava despreocupadamente por um jardim que havia criado para os primeiros seres humanos. Mas esses fatos, se não são verdadeiros no mundo físico, podem representar verdades psicológicas interessantíssimas, como veremos. Da mesma forma como os sonhos mostram ao indivíduo verdades psicológicas sobre si mesmo, os mitos sempre apontaram verdades psicológicas aplicáveis a toda a comunidade que os produziu, e, em alguns casos, sobre toda a humanidade.


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Fonte bibliográfica:
NETTO, Roberto Lima. Os Segredos da Bíblia, Rio de Janeiro: Ed. Best Seller, 2008.




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