Em busca da Libertação Final - conclusão




Antes da conclusão desta longa série de postagens, eu fiz questão de publicar o livro do Eclesiastes na íntegra, aqui no a Arte das artes. Fiz isso porque este livro bíblico reflete, à perfeição, a quinta e última (tentativa de) explicação clássica para a existência do mal e do sofrimento no mundo. Recapitulando, as cinco teorias são as seguintes:

1) Castigo pelos pecados ou consequência de más ações;

2) Prova de fé e fidelidade;

3) Redenção, purificação ou depuração;

4) Consequência inevitável do livre arbítrio;

5) Mistério absoluto.


O Livro do Eclesiastes obviamente foi escrito bem antes do surgimento da teologia do Caminho da Cruz (redenção, purificação ou depuração) e das reflexões de Santo Agostinho (consequência inevitável do livre arbítrio), que viriam a ser aceitas quase com unanimidade pelos grandes pensadores cristãos, mas certas bases que este místico e enigmático sábio (rei Salomão?) defendeu em sua obra só vieram a se cristalizar no inconsciente coletivo do homem ocidental muito tempo depois. Portanto, tendo sido ou não escrito por Salomão (há controvérsias quanto a isso, sendo que Eclesiastes significa ‘aquele que fala diante da assembléia’) o Eclesiastes foi sem dúvida um grande sábio, alguém que enxergava muito adiante do seu tempo e falou de conceitos e princípios que só puderam ser digeridos muitos séculos depois. De qualquer modo, a exposição das doutrinas que aqui foram apresentadas não segue, necessariamente uma ordem cronológica rígida.

Quanto à quinta tentativa de explicação em si, esta, na verdade, não é uma tentativa. - Exatamente por isso é a que mais me completa: é com esta que me identifico acima de todas as outras, ou ao menos antes de todas elas. - É quase uma desistência, uma entrega, uma rendição. Soa como uma constatação de que a questão ancestral da existência da dor e do sofrimento neste mundo representam, simplesmente, um mistério absoluto, assim como tudo que diz respeito a Deus. Conclui que a resposta para essa questão está além das capacidades humanas, ao menos no estágio atual (neste corpo, nesta terra, com estas capacidades) de nossa existência. Logo de cara, ele descarta a primeira possibilidade, a do castigo pelos nossos pecados ou consequência de nossas más ações Vejamos:

“Um mesmo destino para todos: há uma sorte idêntica para o justo e para o ímpio, para aquele que é bom como para aquele que é impuro, para o que oferece sacrifícios como para o que deles se abstém. O homem bom é tratado como o pecador e o falso como o que respeita seus juramentos.

Eis o que eu vi, aplicando meu espírito a tudo que se faz debaixo do sol (...): vi ímpios gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do lugar santo e eram esquecidos na cidade. (...) Há justos aos quais acontece o que conviria ao proceder de imprudentes; e há ímpios aos quais acontece o que conviria ao proceder de justos.

No decurso de minha vã existência vi tudo isso: há o justo que perece, permanecendo justo, - e o ímpio que perdura, apesar da sua malícia. (...) Os tolos ocupam os mais altos cargos, enquanto os homens de valor estão colocados em empregos inferiores. Vi servos a cavalo, e príncipes andando sobre a terra como escravos.

Apliquei então meu espírito ao esclarecimento de tudo isso: os justos, os sábios e seus atos estão na mão de Deus, e o homem ignora se isso será amor ou ódio. Tudo é possível.”



Sim, diz o Eclesiastes, o mal e o sofrimento tomam de assalto tanto ao justo quanto ao injusto, igualmente. Esqueçam a teoria de que essas coisas representam o castigo pelos nossos pecados, que são o resultado de nossa má conduta, porque ele viu e nos deixou o seu fiel testemunho, - assim como todos nós podemos ver também (basta olhar), - que as coisas não acontecem assim. Mas, então, por quê acontecem? Ele simplesmente não sabe! O grande mestre, considerado o mais sábio de todos os homens, lendário por sua sapiência, reconhece sua insignificância diante da questão. Ele diz que não sabemos e não temos como conhecer a resposta, ao menos por enquanto. E conclui:

“Nas minhas investigações debaixo do sol, vi que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte (que Deus concede a cada um).

No dia da felicidade, sê alegre; no dia da desgraça, lamenta; porque Deus fez uma e outra, de tal modo que o homem não conheça o futuro.

Tudo isso aprendi com sabedoria. Mas disse comigo mesmo, em meu coração: eu quero ser sábio. A sabedoria, porém, ficou longe de mim.

Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra (...) verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. - Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter conseguido, assim não seria.



Apesar do tom extremamente ‘azedo’ e até chocante presente em todo o corpo de seu texto, o Eclesiastes não duvida em momento algum da existência de Deus, nem tampouco da ação divina sobre as vidas dos homens que caminham “sobre a terra e debaixo do sol”. Obviamente, quando fala em estarmos “à mercê das circunstâncias da ‘sorte’”, não está se referindo ao tipo de sorte que se atrai com o uso de amuletos ou talismãs. A palavra sorte, nesta tradução, se refere ao destino que foi reservado a cada um de nós antes mesmo do nosso nascimento. Uma vida de alegrias ou de sofrimentos não depende, - ao menos não necessariamente, - de sermos ‘bonzinhos’ ou ‘mauzinhos’. Não depende da nossa honestidade, dos nossos esforços, de nossa sabedoria, de cumprirmos nossas obrigações espirituais ou qualquer coisa desse tipo. O que tivermos que enfrentar, neste estágio de nossas existências, enfrentaremos. E não nos cabe questionar. Vivamos, portanto, e aproveitemos as coisas boas desta vida, tanto quanto possível. Mas com bom senso, moderação e, acima de tudo, respeito a Deus, afinal a insensatez é condenada em todo o discurso, assim como o valor da sabedoria é enaltecido:

“Alegra-te, jovem, na tua adolescência; e, enquanto ainda és jovem, entrega teu coração à alegria. Anda pelos caminhos do teu coração e segundo os olhares de teus olhos. - Mas fica sabendo que de tudo isso Deus te fará prestar conta. Por todas as coisas te trará Deus a juízo.

Afasta, pois, a ira do teu coração, e remove da tua carne o mal, porque a adolescência e a juventude são vaidade.

As palavras dos sábios são como aguilhões, como pregos, bem fixados pelos mestres das assembléias: reunidas em coleção, são parecidas a estacas plantadas, que nos foram dadas pelo Único Pastor.

De tudo o que se tem ouvido, o fim é: teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; este é o dever de todo o homem. - Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto e encoberto, todo ato, seja bom ou mau.



Sofrer ou exultar não depende de nossos atos, mas não é por isso que devemos abrir mão de buscar o caminho do bem, fazer o que é certo, viver a Vontade de Deus em nossas vidas. Por tudo que fizermos seremos levados a juízo diante do Criador. - E esta é uma linha de pensamento que contrasta radicalmente com as doutrinas defendidas pelos mestres e doutores da Lei contemporâneos do Eclesiastes; - ele exige que se ame e busque a Deus porque é Bom, e não visando recompensas imediatas. Faça o que é certo por Amor ao que é certo, e não para se beneficiar disso. Ninguém pode barganhar com Deus.

Concordando ou não com o que foi exposto, mantendo reservas ou não a respeito de tudo isso, não há como se negar que essa desistência assumida de encontrar uma solução perfeita e definitiva para um problema assim tão imenso é a atitude mais honesta que podemos ter. Qualquer um pode se esforçar, procurar e procurar, e encontrar sim a sua solução particular para essas questões fundamentais. Podemos escolher uma entre as muitas alternativas disponíveis no “mercado religioso”: seja entre as 5 principais, abordadas neste nosso estudo, ou não. E fora delas também há versões interessantes, sem dúvida. – Isto é, eu poderia, apelando para lógica e a objetividade, conseguir convencer um bom número de pessoas que uma determinada explicação é a melhor, que é a verdadeira. Também poderia fazer a mesma coisa apelando para a mística e para a pura subjetividade das minhas sensações, intuições e vivências interiores e pessoais. E também poderia fazê-lo apelando para a autoridade religiosa.

Então eu posso dizer “Sei porque estudei, pesquisei, comprovei e aprendi”, ou “Sei porque ‘entendi’ além do compreensível, porque ‘vi’ além do visível, porque tive uma revelação transcendental”, ou ainda “Sei porque a tradição que eu sigo, que é a única verdadeira, me diz que é assim”. Escolha a sua. Mas o Eclesiastes é, absurdamente, explicitamente, quase desrespeitosamente... honesto. E diz simplesmente: “Não sei a resposta. Sei que o problema existe, não posso negá-lo, mas não sei explicar por quê. Só digo que Deus, sendo justo e perfeito, tem um motivo justo e perfeito para fazer as coisas como são”.

Quanto a este autor que vos fala, depois de muito estudo, muita alegria e muito enfado, depois de muito trabalho e muito ‘me deixar levar’... Depois de receber grandes presentes da vida e de muito apanhar dela também, acabei por adotar uma postura muito parecida com a do Eclesiastes. Hoje, não consigo deixar de me divertir quando vejo surgir uma nova doutrina, um novo “mestre”, com uma “grande novidade” que vai fazer com que todos despertem das trevas para a Luz, definitivamente. Me divirto particularmente quando ouço explicações detalhadas sobre os porquês de tudo, elucidações minuciosas sobre a origem das coisas, sobre como alcançar o conhecimento divino e perfeito sobre todas as coisas, descrições de como será a vida depois desta, etc, etc... Será que não entendem que certas coisas devem permanecer como mistério, e que isso faz parte da Grande Jornada, ao menos por enquanto? Prefiro a sabedoria inapelável do Eclesiastes:

“Quando meu espírito se entregou ao estudo da sabedoria e à observação das coisas que se passam sobre a terra (...), verifiquei, em toda a obra de Deus, que o homem nada pode descobrir do que se faz debaixo do sol. - Ele se fatiga a investigar, mas não encontra, e se mesmo um sábio pensasse ter conseguido, assim não seria.”




Tudo o que foi dito até aqui é uma coisa. Mas gostaria muito de esclarecer que isso não implica dizer que o conhecimento das verdades inefáveis, ou ao menos o seu entendimento, não seja possível. A Verdade está nos paradoxos, e a coisa se torna interessante justamente quando entendemos que o que ocorre, de fato, é justamente o contrário. O conhecimento da Verdade se torna possível somente quando eu desisto, olho para dentro de mim mesmo e reconheço “Não sei, e sou humanamente incapaz de entender”.

Por estranho e incompreensível que pareça, para entender é preciso abrir mão do próprio entendimento que se acreditava possuir. Somente quando eu desisto de tentar explicar as coisas por minhas próprias forças, ou só quando eu deixo para trás as explicações prontas dos muitos “mestres” e “gurus” à minha disposição, é que o entendimento possível se manifesta. “A verdade está lá fora”, rezava o bordão daquela antiga e popular série de TV. – Mas o que acontece realmente é o exato oposto: a Verdade está aqui dentro. Dentro de mim, dentro de você.

E, ainda que o desperto possa ajudar aos seus próximos, adormecidos em seus sonhos de brumas, - através do seu testemunho, do seu falar, de indicações e, principalmente, através do seu exemplo de vida, - em última análise cada um deve encontrar o Caminho do despertar por si próprio. E isso só é possível quando você reconhece que é incapaz, que todas as tentativas humanas são insuficientes e imperfeitas, que tudo que já se ouviu sobre a terra e debaixo do sol não foi capaz de esclarecer as questões fundamentais, que gritam dentro de cada um de nós desde que o mundo é mundo.

Quanto às outras tentativas de explicação clássicas, sem dúvida que cada uma delas contêm, sim, grandes verdades próprias: ninguém pode negar que as nossas ações, boas ou más, geram consequências boas ou más; - que as dificuldades e sofrimentos que enfrentamos muitas vez funcionam como provas de nossa fé e fidelidade; - que podem ser (maravilhosos) instrumentos de redenção, purificação ou depuração; - e que muitas vezes são consequência inevitável do maior presente que recebemos: nosso livre arbítrio. Então, talvez a resposta definitiva passe por todas elas, afinal de contas. Ou talvez cada momento difícil, em particular, possa ser entendido sob o prisma de cada uma dessas visões, em particular.

Eu quis chocar, fiz questão de ir fundo desde a primeira destas postagens, para que o entendimento mais profundo pudese ser apreendido. Espero ter obtido bom êxito. Boa sorte. Deus lhe sorria, e boa jornada de volta pra casa!






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