Em busca da Libertação Final - 11




A última solução clássica para o problema da existência do mal e do sofrimento no mundo - parte 2


Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém


IV


Pus-me a considerar todas as opressões que se exercem debaixo do sol. Eis aqui as lágrimas dos oprimidos, e não há ninguém para consolá-los. Seus opressores lhes impoem a violência, e não há ninguém para consolá-los.

E julguei os mortos, os que estão mortos, mais felizes que os vivos, que ainda estão em vida; e reputei mais feliz que uns e outros aquele que não nasceu, que não chegou à existência: o que não viu o mal que se comete debaixo do sol.

Vi que todo o trabalho, toda a habilidade e destreza humana em suas obras, provém da inveja que o homem tem diante do seu próximo. Isto é também vaidade e vento que passa.

O insensato cruza as mãos e devora sua própria carne.

Mais vale uma mão cheia de tranquilidade, que as duas mãos cheias de trabalho e de vento que passa.

Vi ainda outra vaidade debaixo do sol: eis um homem sozinho, sem alguém junto de si: nem filho, nem irmão (parentes); trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um trabalho ingrato.

Dois homens juntos são mais felizes que um isolado, porque obterão um bom salário do seu trabalho.

Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para o levantar.

Da mesma forma, se dormem dois juntos, aquecem-se; mas um homem só, como se há de aquecer?

Se é possível dominar o homem que está sozinho, dois podem resistir ao agressor, e um cordel quando triplicado não se rompe facilmente.

Mais vale um adolescente pobre e sábio, que um rei velho e insensato, que já não aceita conselhos; porque ele sai da prisão para reinar, se bem que pobre de nascimento no seu reino.

Vi todos os viventes, que se acham debaixo do sol, apressarem-se junto do adolescente que sucederia ao rei; era interminável o cortejo dessa multidão, à testa da qual ele caminhava. Contudo, a geração seguinte não se rejubilará por sua causa. Tudo isso é ainda vaidade e vento que passa.

Vê onde pões teu pé, quando entras no Templo do Senhor. Mais vale a obediência que os sacrifícios dos insensatos; estes não sabem que fazem o mal.



V


Não te apresses em abrir a boca; que teu coração não se apresse em proferir palavras diante de Deus, porque Deus está no Céu e tu na Terra; que sejam, portanto, poucas as tuas palavras.

Porque muitas ocupações geram sonhos, e a torrente de palavras faz nascer resoluções insensatas.

Quando fizeres um voto a Deus, realiza-o rápido, porque aos insensatos Deus não é favorável. Cumpre, portanto, teu voto.

Mais vale não fazer um voto, que prometer e não ser fiel à promessa.

Não permitas à tua boca fazer pecar a tua carne, nem digas na presença dos anjos que isso foi apenas uma inadvertência; por que razão Deus se iraria contra a tua voz, e destruiria a obra das tuas mãos?

Porque muitos cuidados geram sonhos, e a torrente de palavras, despropósitos. Assim, pois, teme a Deus.

Se vires próximo a ti a opressão do pobre, ou a violação do direito e da justiça, não te admires, porque o grande é observado por outro maior, e ambos por outros ainda maiores.

O proveito da Terra é para todos; até o rei se serve do campo.

Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza não tira dela proveito. Também isso é vaidade.

Quando abundam os bens, numerosos são os que comem, e que vantagem há para os seus possuidores, senão ver como se comportam?

Doce é o sono dos trabalhador, tenha ele pouco ou muito para comer; mas a abundância do rico o impede de dormir.

Vi uma dolorosa miséria debaixo do sol: as riquezas que um possuidor guarda para sua desgraça.

Caso essas riquezas venham a se perder em consequência de algum desagradável acontecimento, se ele tiver um filho, nada lhe restará na mão.

Nu saiu ele do ventre de sua mãe, e tão nu como veio sairá desta vida, e, pelo seu trabalho, nada receberá que possa levar em suas mãos.

Sim, é uma dolorosa miséria que ele se vá assim como veio; e que vantagem terá ele por ter trabalhado para o vento?

Todos os seus dias foram consumidos numa sombria dor, em extrema amargura, no sofrimento e na irritação.

Eis o que eu reconheci ser bom: que é conveniente ao homem comer, beber, gozar de bem-estar em todo o trabalho ao qual ele se dedica debaixo do sol, durante todos os dias de vida que Deus lhe der. Esta é a sua parte.

Se Deus dá ao homem bens e riquezas, e lhe concede delas comer e delas tomar sua parte, e se alegrar no seu trabalho, isso é um dom de Deus.

Ele não pensa no número dos dias de sua vida, quando Deus derrama em seu coração a alegria.





VI


Vi um mal debaixo do sol, que calca pesadamente o homem.

Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras; nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o prazer, reservando-o a um estranho. Isso é vaidade e dor.

Um homem, embora crie cem filhos, viva numerosos anos e numerosos dias, se não pôde fartar-se de felicidade e se não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele.

Porque o abortado veio, mas em trevas se foi, e de trevas se cobre o seu nome. Seu nome permanecerá na obscuridade, e não terá visto nem conhecido o sol. Ainda assim, melhor é a sua sorte que a deste homem.

E, mesmo que alguém vivesse duas vezes mil anos, sem provar a felicidade, - não vão todos para o mesmo lugar?

Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e, entretanto, seus desejos não são satisfeitos.

Que superioridade tem o sábio sobre o louco? Que vantagem há para o pobre saber se comportar na vida?

Melhor é o que vêem os olhos do que a agitação dos desejos. Isso é ainda vaidade e vento que passa.

A tudo que existe, desde há muito foi dado um nome: sabe-se o que é um homem, e ele não pode disputar com um mais forte do que ele.

Muitas palavras, muita vaidade. De tudo isso, qual é o proveito para o homem?

Pois, quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra? Que poderá dizer ao homem o que acontecerá depois dele, debaixo do sol?






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