Em busca da Libertação Final - 10

A última solução clássica para o problema da existência do mal e do sofrimento no mundo




I

Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém


Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes. Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?

Uma geração passa, outra vem, mas a Terra subsiste.

O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta novamente.

O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos.

Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr.

Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir.

O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.

Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: "Veja: isto é novo!", a verdade é que ela já existia nos tempos passados.

Não há verdadeira memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.

Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata.

Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis o que vi: tudo vaidade, e vento que passa.

O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular.

Eu disse a mim mesmo, em meu coração: 'eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos os que me precederam em Jerusalém'. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência, e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa.

Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quanto aumenta a ciência, aumenta a dor.




II


Eu disse a mim mesmo, em meu coração: Vamos, tentemos a alegria e gozemos o prazer. Mas isso é também vaidade.

Do riso eu disse: loucura! E da alegria: para que serve?

Resolvi entregar minha carne ao vinho, enquanto meu espírito se aplicaria ainda à sabedoria; procurar a loucura até que eu visse o que é bom para os filhos dos homens fazerem durante toda a sua vida debaixo dos céus.

Empreendi grandes trabalhos, construí para mim casas e plantei vinhas; fiz jardins e pomares, onde plantei árvores frutíferas de toda espécie; cavei reservatórios de água para regar o bosque. Comprei escravos e escravas; e possuí outros nascidos em casa.

Possuí muito gado, bois e ovelhas, mais que todos os que me precederam em Jerusalém.

Amontoei prata e ouro, riquezas de reis e de províncias. Procurei cantores e cantoras, e o que faz as delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.

Fui maior que todos os que me precederam em Jerusalém; e, ainda assim, minha sabedoria permaneceu comigo.

Tudo que meus olhos desejaram, não lhes recusei; não privei meu coração de nenhuma alegria. Meu coração encontrava sua alegria no meu trabalho; este é o fruto que dele tirei.

Mas, quando me pus a considerar todas as obras de minhas mãos e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis o que encontrei: tudo é vaidade e vento que passa; não há nada de proveitoso debaixo do sol.

Passei então à meditação da sabedoria, da loucura e da tolice. (Qual é o homem, designado desde muito tempo, que virá depois do rei?)

Cheguei à conclusão de que a sabedoria leva vantagem sobre a loucura, como a luz leva vantagem sobre as trevas.

Os olhos do sábio estão na cabeça, mas o insensato anda nas trevas. Mas eu notei que um mesmo destino espera a ambos, e disse comigo mesmo: A minha sorte será a mesma que a do insensato.

Então para que me serve toda a minha sabedoria? Por isso disse eu comigo mesmo: tudo isso é ainda vaidade.

Porque a memória do sábio não é mais eterna que a do insensato, pois que, passados alguns dias, ambos serão esquecidos. Mas então? Tanto morre o sábio como morre o louco!

E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa.

Também se tornou odioso para mim todo o trabalho que produzi debaixo do sol, porque devo deixá-lo àquele que virá depois de mim.

E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo o fruto dos meus trabalhos que debaixo do sol em custaram trabalho e sabedoria. Também isso é vaidade.

E eu senti meu coração cheio de desgosto por todo o labor que suportei debaixo do sol.

Que um homem trabalhe com sabedoria, ciência e bom êxito para deixar o fruto de seu labor a outro que em nada colaborou, note-se bem, é uma vaidade e uma grande desgraça.

Com efeito, que resta ao homem de todo o seu labor, de todas as suas azáfamas a que se entregou debaixo do sol?

Todos os seus dias são apenas dores, seu trabalhos apenas tristezas; mesmo durante a noite ele não goza de descanso. Isto é ainda vaidade.

Não há nada melhor para o homem que comer, beber e gozar o bem-estar no seu trabalho. Mas eu notei que também isso vem da mão de Deus; pois, quem come e bebe, senão graças a ele? Àquele que lhe é agradável Deus dá sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador ele dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem lhe agradar. Isto é ainda vaidade e vento que passa.





III


Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir;

Tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para abraçar, e tempo para se afastar.

Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Que proveito tira o trabalhador de sua obra?

Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens: todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.

Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.

Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir. Deus procede desta maneira para ser temido.

Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou.

Debaixo do sol, observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça.

Então eu disse a mim mesmo, em meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda a obra.

Eu disse comigo mesmo a respeito dos homens: Deus quer prová-los e mostrar-lhes que, quanto a eles, são semelhantes aos brutos.

Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim os espera. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade.

Todos caminham para um mesmo lugar, todos saem do pó e para o pó voltam.

Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens se eleva para o alto, e o sopro de vida dos brutos desce para a terra?

E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o passar dos anos?




( Comentar este post __ Ver os últimos comentários