Em busca da Libertação Final - 9 (epílogo)

Santo Agostinho e a Filosofia


Estudamos um conceito essencial presente em praticamente todas as religiões monoteístas e universais. Trata-se de um verdadeiro esteio das doutrinas chamadas semítico-proféticas, - judaísmo, cristianismo e islamismo, - e é fundamento de uma infinidade de seitas menores: afirma que Deus é Uno, Bom, Transcendente e Criador Onipotente de tudo o que existe. É por isso que o mal, ao contrário do que ocorria no politeísmo pagão, configura-se um obstáculo que a razão não é capaz de transpor. O grande problema, que consiste na contradição da coexistência de Deus e do mal, se apresenta exclusivamente no âmbito do monoteísmo, em face dos dogmas mais básicos da sua metafísica. Conforme veremos, o sofrimento, a finitude e a crueldade, - paradigmas respectivamente físico, metafísico e moral de qualquer possível manifestação do mal, - não são passíveis de se integrar na lógica do sistema monoteísta, senão por intermédio de algum artifício moral.

O conceito de revelação divina pretendido pelas religiões monoteístas implica na afirmação de que o próprio Deus, apesar de sua transcendência, se dá a conhecer aos homens, no tempo e no espaço, manifestando-lhes verdades que de outro modo não lhes seriam acessíveis.

Agostinho examinou a hipótese da revelação monoteísta, - isto é, a de que o próprio Deus teria revelado algumas de suas verdades essenciais à humanidade, por intermédio de seus profetas, - juntamente com a grande questão do “escândalo do mal”, e o fez de uma perspectiva estritamente filosófica, reputada como teodicéica, ou seja, uma tentativa de justificação racional da bondade e onipotência divina em face da evidência do mal. Por 'perspectiva estritamente filosófica', me refiro a uma compreensão fundada exclusivamente na racionalidade ocidental, sistemática, ávida por distinguir as normas gerais do mundo e da vida, fiel à coerência lógica, zelosa por nunca violar o princípio da não-contradição.

Nesse sentido não seria possível conciliar fé e razão, pois, para tanto, seria necessário que se respondesse de maneira satisfatória ao problema do mal e assim se aderisse por meio da razão ao conteúdo da fé. O elemento do sistema teológico que pretende elucidar o problema do mal e do sofrimento é a chamada Doutrina da Retribuição, que vimos aqui. Segundo esta, o infortúnio é castigo infligido por Deus a quem viola seus mandamentos. Embora essa visão seja especialmente veterotestamentária (do Antigo Testamento), o cristianismo nunca se desvencilhou dela por completo, como veremos. A harmonia da criação implica a lógica da causalidade: nenhum ato é sem efeito. Todos os eventos decorrem de alguma causa, ainda que conhecida apenas de Deus. Não há, pois, no sistema metafísico monoteísta, absolutamente nenhum espaço para o absurdo. Há o incompreensível, sim, o secreto, o misterioso e o sagrado, mas nunca o absurdo. O que ainda não foi manifestado, o que ainda não foi compreendido, certamente o será no futuro, pois a Revelação é um processo lento e contínuo, que aguarda a consumação dos tempos e o fim da História para ser concluída.

Santo Agostinho diz que, porque Deus é bom e providente, tudo o que criou é perfeito e todo seu agir é justo. Ele deu aos homens a liberdade, sua mais alta Graça, que os faz semelhantes ao Criador. Em contrapartida, a sua justiça não pode deixar sem punição as transgressões da justiça, princípio fundamental da harmonia, e o pecado introduz o caos na Criação. A pena, portanto, tem em vista a restituição da ordem. Ela se configura numa espécie de satisfação por um delito que se volta não simplesmente contra seu autor, mas contra toda a Criação, um insulto ao próprio Criador. Todo pecado seria ofensivo ao próprio Deus.


O enigma do sofrimento injustificado

Ora, no contexto que acabamos de descrever, o absurdo por excelência seria a existência de um inocente sofredor. Mas é evidente que ele existe! Como explicar a dor que atinge o justo? Ela infringe o princípio de causalidade, pois não decorre de algum motivo. Ela fere de morte a lógica da retribuição.

Desde os tempos da religião hebraica mais primitiva se tentou elucidar essa questão pelo viés da doutrina da retribuição coletiva: o inocente paga solidariamente pela culpa dos pecadores de sua família ou tribo. Esse fato pode ser ilustrado por diversos episódios do AT, tais como a intercessão de Abraão pelos justos de Sodoma e Gomorra ou a morte do filho ilegítimo de Davi.

Porém, com o suposto progresso da Revelação, Israel se teria dado conta de que Deus não pune nos filhos os pecados dos pais nem nos indivíduos os pecados da nação. A retribuição, portanto, não é coletiva, mas individual. Mas se a retribuição é individual, simplesmente não há explicação plausível para o problema do sofrimento inocente. Além de não ser resolvida, a questão recrudesce.

O livro de Jó (como vimos aqui) e o de Eclesiastes (ou Qohelet) são os que melhor ilustram esse impasse. É surpreendente que esses livros tenham sido integrados ao cânone da Bíblia: eles denunciam que, se Deus existe, é absolutamente impossível dizer alguma coisa acerca de sua Natureza. A sua Essência e os seus desígnios são completamente inacessíveis aos homens. E o destino que dispõe para cada pessoa, além de se enquadrar no que chamamos de arbitrário, é inexorável.

Jó instaura a perplexidade com a qual pouquíssimos são capazes de viver. E conhecemos a solução que foi proposta para resolver o impasse: a assustadora culpa universal, perpetrada pela doutrina do pecado original, já latente na doutrina paulina, sistematizada por Agostinho e radicalizada por Lutero.

E se o problema do justo sofredor se configura num aparente absurdo que a racionalidade do monoteísmo não é capaz de dissolver, o Cristianismo é, por excelência, a religião do absurdo, porquanto a sua doutrina se baseia no sacrifício de um inocente (o único inocente) pela salvação dos pecadores; no suplício do Santo pela libertação dos perversos. A razão é incapaz de reconhecer tal justiça. Tampouco pode a razão sequer auxiliar a fé na compreensão de um Mistério que a ultrapassa de maneira tão radical. A razão precisa de lógica e de ordem. O Cristianismo de Agostinho, juntamente com o sacrifício do seu Cristo, contituem um absurdo, um completo escândalo para a razão.


A fé monoteísta é absolutamente irracional

Se o pensamento tivesse encontrado a Verdade, cessaria de se questionar. Porém, não é o que constatamos ao nos debruçarmos sobre o monoteísmo; nem sobre os seus fundamentos, quanto menos sobre as variações doutrinais.

O difícil é que, quem quer crer, levar uma vida de fé e seguimento do Caminho, - não pode questionar: quem quer que creia na Verdade revelada pelo próprio Deus, por difícil que seja, não pode de modo algum questioná-la. Ou bem se crê ou bem se questiona. Não se pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas ambas podem perfeitamente se alternar numa mesma pessoa (olha o H K Merton levantando o braço). Nesse sentido se poderia dizer que 'um crente que pensa', isto é, uma pessoa de fé que é ao mesmo tempo questionadora, é um tanto quanto esquizofrênica... No melhor dos sentidos.

Suponha-se alguém que tenha fé absoluta na bondade do Criador. Se de fato acredita que Deus é Justo e Providente, necessariamente acredita que Ele tem um motivo excelente para permitir que gente inocente sofra. Alguém que realmente creia na bondade divina, enquanto crer, não se perguntará "por que motivo um Deus Bom agiria dessa forma". E se por acaso questionar, é porque naquele instante não acredita totalmente, sua fé está balançando. Isso porque a fé se opõe à razão. Ambas parecem se odiar mortalmente. A razão não pode conduzir à fé, e nem a fé conduzir à razão. Ambas se repelem como polos idênticos de dois ímãs.

Um fiel monoteísta se perguntará porque Deus permite que crianças sejam, todos os dias, no mundo inteiro e em especial nos países mais pobres, torturadas, escravizadas, estupradas, prostituídas e mortas das maneiras mais tenebrosas? É muito provável que não, mas se algo, alguém ou alguma situação lhe suscitar esse questionamento, talvez dissesse que a culpa é do pecado da humanidade. Por tal argumento, esse monoteísta clássico pretenderá ter conseguido isentar (sua ideia de) Deus da responsabilidade pelo sofrimento de quem aparentemente é inocente. Mas essa resposta satisfaria à razão? Não. A razão se perguntaria por que Deus nos teria criado capazes de impor tanto sofrimento uns aos outros, antes de qualquer coisa. Seria um crente que se colocasse essa questão, capaz de suspender a fé no dogma de que Deus é bondoso, e assim deixar de crer? Se o fizesse, permaneceria agnóstico até encontrar na Revelação alguma resposta que o convencesse, como a de que Deus quis, exatamente por ser Bom, que o homem fosse livre.

Foi essa a explicação encontrada por Santo Agostinho. Ele diz que Deus não quis um exército de robôs pré-programados a cumprir a sua vontade automaticamente, sem escolha, para sempre. Preferiu contar com seres semelhantes a Ele, livres e capazes de tomar suas próprias decisões. Deus espera que você se aproxime dele, o ame e cumpra a sua vontade, - que é sempre o melhor para você mesmo, - por iniciativa própria. Deus nos deu a vida e, junto com ela, o maior de todos os dons: o livre-arbítrio, a liberdade de sermos o que quisermos. Isso, na prática, implicou na diversidade de escolhas que vemos: muitos optaram pelo caminho que vai na direção oposta à da Vontade Divina, que é sempre justa. É daí que provém o mal. Por isso é que a 4ª tentativa clássica de explicação para a existência do mal e do sofrimento no mundo preconiza que toda desarmonia no mundo existe como consequência inevitável do livre arbítrio, - nosso maior bem.



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Fontes e bibliografia:

BORN, E. Le Probleme du Mal. Paris: Presses Universitaires de France, 1922;
BOSC, P. J. La Foi Reformé et le Probleme du Mal, in CLAUDEL, P. Le Mal est Parmi Nous. Paris: Librairie Plon, 1948;
CADORIN, S. O Mal, Intepretação de Paul Ricoeur, Rio de Janeiro: Sotese, 2001;
MATTHEWS, Gareth B, Santo Agostinho - A Vida e as Ideias de Um Filosofo Adiante de seu Tempo. São Paulo: Jorge Zahar Editor Ltda, 1998



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