Em busca da Libertação Final - 9

Santo Agostinho e a Filosofia




Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta, uma cidade da Numídia (norte da África, região conhecida como África Branca), de uma família burguesa, a 13 de novembro do ano 354. Seu pai, chamado Patrício, era pagão, mas recebeu o batismo pouco antes de morrer. Sua mãe, Mônica, pelo contrário, era uma cristã fervorosa. Mas Agostinho cresceu sob fortes influências romanas, tanto na língua quanto no aspecto cultural e também no religioso. Aos 17 anos de idade foi para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos em Direito, - se encantou, entretanto, com a Literatura, e acabou se formando na arte da palavra.

Cartago era originariamente uma colônia fenícia situada na Tunísia. Foi uma potência na Antiguidade, disputando com Roma o controle do Mar Mediterrâneo. Foi destruída depois das três Guerras Púnicas (149 aC – 146 aC), mas em aproximadamente um século antes de Cristo, Caio Júlio César e Otávio Augusto a reconstruíram como colônia de Roma. Cartago alcançou novamente uma grande prosperidade, e sua população cresceu a ponto de se tornar a quarta maior cidade do Império Romano. Foi nessa grande e pulsante metrópole multicultural que Agostinho viveu, estudou e lecionou até seus 29 anos de idade, - um longo período em que conheceu e desfrutou, sem medidas, dos prazeres da carne; - desviando-se moralmente, segundo suas próprias palavras, e caindo numa profunda sensualidade, - esta que é “uma das maiores consequências do pecado original”. - Tal sensualidade dominou-o quase por completo, fazendo-o mergulhar num turbilhão de prazeres que o entorpeceram moral e intelectualmente, e fazendo com que aderisse ao maniqueísmo.

O maniqueísmo representa uma linha de pensamento estruturalmente dualista: atribui realidade substancial tanto ao Bem quanto ao Mal. Agostinho buscava encontrar, no dualismo maniqueu, a solução do ancestral problema do mal e do sofrimento no mundo. Por consequência, buscava uma justificação para sua própria vida.

Quando terminou seus estudos, Agostinho abriu uma escola em Cartago, de onde partiu para Roma e, em seguida, para Milão. Afastou-se definitivamente do ensino aos 32 anos de idade, por razões de saúde, - mas, principalmente, por razões de ordem espiritual.

Depois de um bom espaço de tempo, – de muito estudo, questionamento, reflexão crítica e meditação, – Agostinho abandonou o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica, onde aprendeu os conceitos da espiritualidade de Deus e da negatividade do Mal. Assim ele chegou, por suas próprias forças, a uma concepção cristã da vida, isso no começo do ano 386. Entretanto sua compreensão ainda era apenas filosófica. – Fica a impressão de que a mente estivesse convencida, mas não o coração. Declara ele que, então, ainda se encontrava dominado pela luxúria.

Finalmente, como por uma fulguração dos Céus, sobreveio a conversão de Agostinho, moral, irrestrita e absoluta, em setembro do ano 386. Ele renuncia inteiramente ao mundo, à carreira e ao matrimônio; retira-se durante meses para a solidão e o recolhimento do mundo, em companhia apenas de sua mãe, do filho e de alguns pupilos. Em meditação, agastado de tudo (numa região próxima à Milão), escreveu seus magistrais Diálogos Filosóficos, e, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio, recebeu o batismo cristão, das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloquência parecem ter representado parte importante no seu processo de conversão. Tinha Agostinho, então, trinta e três anos de idade...

Depois de sua impressionante conversão, Agostinho abandonou Milão, e, falecida sua mãe, voltou para Tagasta. Ali vendeu todos os seus haveres e distribuiu o dinheiro entre os pobres; a seguir fundou um mosteiro, em uma das suas propriedades alienadas. Foi ordenado padre em 391, e consagrado bispo em 395.

Após a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo das Sagradas Escrituras, da Teologia Revelada, e da redação de suas grandes obras, entre as quais se destacam as filosóficas. As obras de Agostinho de maior interesse filosófico são, sobretudo, os Diálogos Filosóficos: ‘Contra os Acadêmicos’, ‘Da Vida Beata’, ‘Os Solilóquios’, ‘Sobre a Imortalidade da Alma’, ‘Sobre a Quantidade da Alma’, ‘Sobre o Mestre’, ‘Sobre a Música’. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: ‘Sobre os Costumes’, ‘Do Livre Arbítrio’, ‘Sobre as Duas Almas’, ‘Da Natureza do Bem’.

Dada, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreende-se que interessam à filosofia também suas obras teológicas e religiosas, especialmente ‘Da Verdadeira Religião’, ‘As Confissões’, ‘A Cidade de Deus’, ‘Da Trindade’, ‘Da Mentira’, ‘O Pensamento’, ‘A Gnosiologia’.

Agostinho governou a igreja de Hipona até sua morte, que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto de 430. Tinha setenta e cinco anos de idade.

Este brevíssimo (insípido mas necessário) resumo da vida de Santo Agostinho tem a finalidade de servir como pano de fundo para que possamos entrar com maior propriedade na matéria que mais nos interessa neste momento.


Santo Agostinho e Santa Mônica, sua mãe


Santo Agostinho afirma que há apenas uma Justiça, - aquela vinda de Deus. Um das questões mais interessantes colocadas por Agostinho, no entanto, é o porquê da injustiça. Se Deus é o Criador de todas as coisas, e se sua bondade é infinita, porque há maldade e injustiça no mundo?

Veja-se que para Agostinho existe apenas um Deus, o Sumo Bem, Criador de todas as coisas. Se tudo que existe foi criado por Deus, não há possibilidade de atribuir a origem do mal ao diabo, por exemplo.

Então, de onde vem o mal que praticamos? Esta questão é respondida por Agostinho no seu livro De Libero Arbitrio, onde ele defende a tese de que a origem do mal está no livre arbítrio da humanidade, ou seja, para Agostinho o Mal é resultado do mal uso de nossas vontades.

Deus fez o homem uma criatura superior, à qual concedeu o dom da razão. Esse privilégio permitiu ao homem conhecer a maravilhosa Ordem que o Criador instituiu no Universo. Porém, por ser racional, o homem pode escolher livremente entre aceitar a ordem divina, contribuindo para a Harmonia do Universo, ou transgredir essa ordem, cultivando a maldade e a injustiça. Para Agostinho, portanto, ser justo é agir de forma a manter a Harmonia designada por Deus.



Continua (notas e bibliografia na conclusão)...



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