Em busca da Libertação Final - 9 (introdução)




Dos 5 modelos clássicos de tentativas de explicação para a existência do mal e do sofrimento no mundo, vimos até agora três, a saber:

1) O mal e o sofrimento seriam reflexos da nossa maldade, o resultado de nossas más ações. Todas as aparentes injustiças com que nos deparamos no mundo seriam consequências da desobediência à Vontade perfeita de Deus. Essa é uma das principais explicações contidas nos livros do Antigo Testamento da Bíblia. - Adão e Eva foram expulsos do Paraíso de Delícias como castigo pela sua infidelidade; mais tarde, o povo de Israel sofre nas mãos de seus inimigos pelo mesmo motivo. Já estudamos essa teoria aqui. - Pecado (infidelidade a Deus) = mal no mundo = sofrimento.

Essa parecia uma explicação bastante sensata e justa, mas não atendia à questão da grande incidência de justos sendo expostos à humilhação, à dor e ao sofrimento, e nem traduzia o sucesso e a prosperidade dos maus.

2) E foi aí que surgiu uma nova tentativa de resposta: o mal e o sofrimento no mundo poderiam ser explicados como testes de fé, provas de fidelidade impostas aos seres humanos por Deus. - Teoria, esta, brilhantemente ilustrada através da história bíblica do Livro de Jó, mas que também foi contada e recontada de maneiras diferentes por outros povos do mundo, inclusive na Tradição Oriental, como vimos aqui. E os registros históricos parecem demonstrar que essa explicação convenceu, por algum tempo. As pessoas se contentaram e passaram a se esforçar ainda mais em provar sua fidelidade e sua paciência. Muitos dentre os mais religiosos começaram a se sentir especialmente gratos quando submetidos a perseguições, humilhação e todo tipo de dor moral e física, acreditando firmemente estarem sendo submetidos à provas de fidelidade por Deus.

Mas (como vimos aqui) ainda havia um problema: se Deus nos põe à prova, - e é por isso que existe tanta dor e sofrimento no mundo, - isso não explica porque crianças inocentes também são expostas a toda espécie de agressão. Estariam seres tão puros, inocentes e, além de tudo, desprovidos de caráter e/ou de consciência moral sendo testados, também? Crianças que não adquiriram ainda o discernimento do certo e do errado poderiam ser testadas dessa maneira? Bebês que não fazem a menor ideia do significado da palavra "Deus" poderiam ter sua fidelidade a Deus posta à prova? Indo mais além, até mesmo entre os animaizinhos, percebia-se que alguns nasciam defeituosos. Estariam as ovelhas, jumentos e cabritos nascidos aleijados sendo submetidos a teste? Estariam os bichos sendo postos à prova? Não... a explicação do sofrimento como prova de fé também não poderia ser considerada definitiva.

3) Foi assim que chegamos a noção do Sofrimento Redentor, a mais cristã de todas. Através da dor e do sofrimento, nos aproximaríamos mais de Deus. As dificuldades num mundo de maldades e dores representariam uma espécie de processo depurativo, através do qual somos dilapidados. O Cristo sofreu por todos, e através do seu sofrimento redimiu o mundo. A humanidade também precisa sofrer para alçar condições espirituais mais elevadas e mais perfeitas. Nas palavras do Padre Faus (que lemos aqui): "Deus sempre nos faz bem por meio da Cruz, seja qual for, quando nós o 'deixamos' fazer. Assim como nos salvou pela Cruz, assim também nos aperfeiçoa e nos santifica por meio da Cruz. Não exclusivamente mediante a Cruz – também nos santificam as muitas alegrias, os trabalhos que amamos, os carinhos que nos enriquecem… – Mas certamente não sem ela, a Cruz. A Cruz, o sofrimento, purifica-nos. O sofrimento abre-nos os olhos para panoramas de vida maiores, mais verdadeiros e mais belos. O sofrimento ajuda-nos a escalar os cumes do Amor a Deus e do Amor ao próximo. (...) Homens e mulheres sacudidos pelo sofrimento acordaram: adquiriram uma nova visão – que antes era impedida pela vaidade, a cobiça e as futilidades - e perceberam, com olhos mais puros, que o que vale a pena de verdade na vida é Deus, que nunca morre, nem trai, nem quebra; descobriram que nEle se acha o verdadeiro Amor pelo qual todos ansiamos e que nenhuma outra coisa consegue satisfazer; entenderam que o que importa são os tesouros no Céu, que nem a traça rói nem os ladrões levam."

Essa explicação primordial do cristianismo, presente desde as suas origens (Paulo já dizia e repetia exatamente a mesma coisa em suas cartas) calou fundo na alma dos povos. Toda a História foi e continua sendo profundamente influenciada por essa doutrina. Nenhum homem ou mulher de bom senso contestaria que as experiências mais difíceis que enfrentamos nesta vida são justamente aquelas que mais nos fazem crescer. Os melhores guerreiros sempre foram aqueles submetidos ao mais duro treinamento. Os líderes de origem humilde, os que precisaram enfrentar maiores provações e dificuldades em suas vidas, para vencer, sempre foram os mais populares. Ninguém contesta que sem dor não há ganho.

Mas... nem todos estavam satisfeitos, ainda. Mesmo com toda a lógica, todo o envolvimento emocional e amoroso e toda a coerência envolvidas nessa terceira tentativa de explicação, ela ainda não respondia aquela perguntinha básica, feita lá no começo da história: Se Deus é bom e perfeito, por que existem o mal e as imperfeições? Se Deus é Amor, por que permite que soframos? Como podemos ser maus, se Deus, sendo infinitamente bom, nos criou à sua imagem e semelhança? Se Deus é de uma vez bom, onipotente e onipresente, como podem existir o mal e o sofrimento? - Isto é, ainda que o sofrimento tivesse uma função depurativa, restaria entender por que Deus já não nos criou perfeitos e fiéis, não sujeitos a tantas fraquezas e tentações, não tão inclinados aos sentimentos baixos e aos vícios, para que pudéssemos ser fiéis como Ele quer. Se Deus não quer que pequemos, mas que sejamos perfeitos, por que nos fez de carne? Por que precisamos conhecer o mal, passar pela dor e pelo sofrimento para nos depurarmos, se Deus poderia ter nos criado já perfeitos, bem acabados? - E, no rastro de Epicuro, não faltaram pensadores a reformular as questões de sua Teodicéia. Para estes, o simples fato de existir o mal no mundo, por si só, já seria prova suficiente de que não existe o Deus Bom e Onipotente das religiões. O raciocínio é simples e direto: "O mal existe. Portanto, ou Deus não é bom, ou não é onipotente. Se fosse bom e onipotente, não haveria o mal. Se Deus tudo pode, e nada faz para acabar com o mal, então não é bom. Mas se é Todo-Bom, e nada faz para acabar com o mal, então é porque não pode. Se não pode, não é onipotente".

E assim caminhava a humanidade, entre santos apaixonados, que de um lado abraçavam toda a dor do mundo sem hesitar e sem demonstrar vestígio de medo, encarando e aceitando tudo como presente inestimável de Deus (e, diga-se de passagem, deixando um belíssimo rastro de luz por onde passavam - assunto vasto, que veremos em momento oportuno), e os eternos questionadores, racionais e inconformados. Assim caminhou a humanidade, - confusa, - até a chegada de um pensador muito especial... Tão especial que conseguiu unir e harmonizar, em si mesmo, essas duas polaridades opostas e essenciais: foi, a um só tempo, santo e filósofo, questionador e adorador, pensador e místico. Se entregou de corpo e alma e lutou a batalha interna com todas as suas forças, em todas as suas frentes: vivendo os extremos, descobriu, por si mesmo, o Caminho do Meio, que reinventou... Em 354 dC nasceu aquele que viria a reconciliar, pela primeira vez, os aparentemente irreconciliáveis opostos: Fé e Razão. Aurélio Agostinho era o seu nome, mas ele entrou para a história como simplesmente Santo Agostinho.

Não é exagero dizer que esse filho de pagão, ex-burguês, ex-imoral, ex-maniqueísta, filósofo até o último fio de cabelo, gênio metafísico, estudante de Aristóteles e do neoplatonismo, renunciante, professor e teólogo brilhante (etc, etc, etc...) mudou o maneira de pensar da humanidade. A maravilhosa jornada e o processo de renascimento de Agostinho, ao mesmo tempo pela profundidade do sentir e pela genialidade do intelecto, fundiu em si o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. Os problemas que fundamentalmente o preocuparam foram sempre os problemas práticos e morais: o Mal, a Liberdade, a Graça, a Predestinação... Agostinho foi 'a cara' de todos os buscadores, uma alma predestinada que foi fundo nas questões que nos reunimos para debater neste ou em outros espaços parecidos. No próximo post, Agostinho fala. E diz.



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